Capítulo 2 - Vem Dançar

Naquela noite, elas se deitaram mais cedo. Estavam muito cansadas e ainda por cima tomaram muito vinho pra comemorar a nova fase.

O quarto de Cecília estava cheio de coisas espalhadas. Ela jogou tudo da cama no chão e deitou-se com a mesma roupa que estava e ficou lá, olhando para o céu estrelado do lado de fora. A pouca iluminação da rua tornava as estrelas mais visíveis.

A cabeça estava acelerada e ela não conseguia pegar no sono. O passado que, no começo do dia, a vinha assaltando em pequenas doses, agora traçava uma linha do tempo em sua mente.

Lembrou-se dos seus 18 anos.

Pediu de presente a matrícula nas aulas de tango na recém-inaugurada escola de dança de Afonso Magario. Ela nem acreditou quando aquela escola abriu.

Cecília amava o filme com Antônio Bandeiras – "Vem Dançar" – já havia visto inúmeras vezes. Não podia perder aquela oportunidade caída do céu e logo em Rio das Almas.

Os pais acharam graça no pedido. Bom, ela era filha única, mimada, paparicada. A verdade é que acharam que não ia muito longe aquela história.

Claro que ia!

No entanto, em três meses de aula, já era a melhor da turma. Levava a sério. Foi aí que Afonso pediu-lhe algo inusitado.

- Cecília, a escola tem um aluno novo. Ele quer muito aprender a dançar tango, no entanto só pode fazer as aulas depois que a escola fecha. Eu preciso de uma parceira pra ele e gostaria de saber se você pode.

- Depois que a escola fecha? Às nove?

- É.

- Quem é?

- Você vai saber se aceitar.

- O senhor o conhece? É confiável?

- Lógico. Eu e Ana vamos estar aqui com vocês.

- Eu preciso falar com meus pais.

- Você pode me dar uma resposta manhã?

- Claro.


Ceci

Meus pais concordaram desde que um deles me buscasse na saída.

Por mim, foi ótimo já que eu não teria que andar tanto até em casa.

E lá fui eu para o meu primeiro dia de aula com o aluno misterioso.

Ele não podia ser tão misterioso. Eu conhecia a maioria das pessoas que moravam em Rio das Almas. Minha família era dona da maior padaria da região. Todo mundo alguma vez já tinha experimentado os deliciosos bolinhos da Pedacinho do Céu. E o pão? Divino!

Eu, com aquela curiosidade que estava me matando, entrei no estúdio de dança já procurando o rapaz.

Só tinha Afonso e Ana conversando num canto.

- Cadê o dançarino misterioso?

- Ele ainda não chegou. – disse Ana, enquanto escolhia CDs.

Afonso puxou Ana pelo braço e foi saindo do salão.

- Ana, eu preciso de você no escritório, tem uma conta que não está batendo.

- Cecília, vai se trocando. Daqui a pouco ele está aí.

"Só me faltava essa! Será que o cara não respeitava horários?!"

Entrei no vestiário, me troquei e voltei pro salão.

E lá estava ele!

Nada me preparou pro que eu vi.

Estênio Cavalero, filho do fazendeiro mais rico da região. Sério, cheio de tatuagens e músculos.

Eu já o tinha visto várias vezes pela cidade, nas festas comemorativas de Rio das Almas e até na Pedacinho do Céu, entretanto seu circuito era bem diferente do meu. Ele estudou na escola mais cara da cidade vizinha e eu ainda frequentava o colégio público de Rio das Almas. Seus amigos eram diferentes dos meus: todos, filhos de fazendeiros como ele, com carros modernos, muito dinheiro pra gastar, meninas mal faladas que gostavam de farra e álcool. Porém, tinha que confessar, ele era muito gato. Chamava a atenção de todas as garotas. Era o maior partido das redondezas. As meninas se jogavam em cima dele como manteigas derretidas. E olha que ele era novo, devia ser bem uns dois anos mais velho que eu. Acho que tinha uns 20 anos. Davam conta que ele estava se preparando para estudar no exterior.

Aproximei-me sem tirar os olhos dele. Sem demonstrar quão nervosa eu estava com a sua presença.

Estendi a mão e me apresentei.

- Oi, eu sou Ceci, sua parceira de dança.

Ele demorou pra responder, mas, enfim, estendeu a mão e disse:

- Eu sei.

Fiquei surpresa de ele me conhecer. Não sabia que Estênio tinha em qualquer momento sequer olhado pra mim que dirá saber quem eu era. Ele também não disse o nome dele. Acho que deduziu que eu sabia. Afinal, a cidade inteira sabia quem ele era.

Metido!!!

Tive a impressão que ele me olhava diferente. Sei lá. Eu já estava ficando meio sem jeito.

- Enquanto Afonso não vem, vou botar um tango. Tudo bem?

Ele balançou a cabeça afirmativamente.


Estênio

Ela é linda e eu fiquei que nem um idiota olhando-a. E ela lá com a mão estendida. Ainda bem que eu me toquei e a cumprimentei.

Eu tenho que confessar que sou louco por ela há muito tempo, que eu penso naqueles lábios sorrindo pra mim, aquelas mãos nos meus cabelos enquanto minha boca procura a dela. Eu devo estar ficando maluco, mas eu preciso estar aqui. Meu velho já disse que não me quer perto do pessoal da Pedacinho. Parece que ele teve um namoro com a mãe dela quando jovem, mas a dona largou dele e, depois, quis casar com outro, o pai da Cecília. Será que ela sabe disso? Às vezes, acho que meu pai ainda gosta da mãe dela. Tenho que dizer que a sorte foi minha. Já pensou se ele casa com a mãe dela, talvez ela fosse minha irmã agora.

- Eca! – me arrepiei todo.

- Está tudo bem?

- Sim.

A música invadiu o ambiente.

- Afonso me ligou pra dizer que você já sabia alguns passos de tango.

- É.

- Você é monossilábico, não?

- Sou.

Melhor o silêncio do que palavras mal escolhidas.

Ela ficou sem jeito. Acho que ela queria saber como eu sei dançar tango. Eu sei muito bem até. Passei alguns meses na Argentina, enquanto meu pai fazia um grande acordo com os argentinos e a China. Ele alugou uma casa. Morei lá com minha mãe e meus irmãos durante quatro meses, estudando espanhol, dançando tango e ficando com as hermanas. Meu pai nem sabia o que eu fazia por lá, ele só ficava indo e vindo de um país para o outro.

Época boa!

Na realidade, melhor agora.

Posicionamo-nos, minhas mãos nela, o cheiro dela em mim.

Eu confesso que estava no paraíso. Cecília Santoro, a Ceci da Pedacinho do Céu, era a minha perdição. Agora que eu sabia que ia estudar no exterior, que no ano seguinte eu ia embora e ia ficar muito tempo fora, eu precisava chegar perto dela, precisava que ela soubesse o que eu sentia e torcia pra que ela aceitasse passar aquele pouco tempo comigo. Eu não tinha tido coragem antes, muito por conta do meu pai. Neste momento, era tudo ou nada. Que se dane meu pai e o rancor dele, que se dane qualquer um que quisesse interferir. A única pessoa que podia me impedir de botar as mãos em Ceci era ela mesma.

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Será que Estênio vai conseguir o que quer?


Oi, meus lindos.

Espero que tenham gostado deste capítulo.

Votem e comentem.

Bjs

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