Capítulo X - Jefferson Gusev

A estrutura política britânica pode confundir um turista desavisado.

Não é raro que as pessoas tomem Inglaterra, Grã-Bretanha e Reino Unido como nomes diferentes para o mesmo país — inclusive o autor que vos escreve passou alguns anos acreditando nisso. No entanto, tratam-se de territórios diferentes — ou, como descreveria o primeiro-ministro britânico, são "países dentro de países" —, ainda que muitas vezes essa diferença não seja tão relevante. O Reino Unido é, na verdade, a união política da Irlanda do Norte e a Grã-Bretanha, sendo esta última a combinação de Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Não é algo tão difícil de se compreender, mas muitas pessoas ainda fazem confusão ao tentar diferenciar os territórios. E Jefferson Gusev, por muito tempo, fez parte dessa parcela da população.

O russo só entendeu como as coisas funcionavam naquela ilha quando se mudou para o País de Gales, fazendo assim com que fosse obrigado a entender as diferenças entre os territórios, ou, pelo menos, o suficiente para saber em que país ele se encontrava. Foi uma tarefa difícil, mas ele conseguiu.

Mas não era a estrutura política britânica que ocupava sua mente naquele momento. Seus esforços se concentravam em, justamente, desocupar sua mente de todo e qualquer pensamento. Basicamente, ele tentava pegar no sono.

Não era exatamente isso o que ele fazia, pois sabia que não conseguiria. Não importava o quão cansado estivesse, sempre levava mais de hora para acalmar sua mente e enfim dormir. Outros descreveriam isso como insônia, mas ele não gostava dessa forma de rotular seu problema, preferindo chamá-lo de "síndrome do raciocínio em excesso". Por isso, ficava apenas deitado, olhando para o teto, pensando na vida e na morte. E era exatamente isso o que estava fazendo.

O sujeito pálido de cabelos castanhos se encontrava acompanhado por uma bandeja de prata com uma xícara de chá chinês de lichia. Era viciado nessa bebida, chegava a tomar quatro xícaras todos os dias, mas, quando precisava se concentrar em um caso difícil, esse número aumentava. Sorte sua que não estava investigando nada no momento: seu estoque estava acabando.

Jefferson tomou um gole e olhou para seu relógio. Fazia aproximadamente quarenta minutos que estava deitado. Calculou que levaria cerca de uma hora até dormir — o que não era seu objetivo, mesmo que já estivesse escuro do lado de fora. Eram apenas nove da noite e sabia que se dormisse naquele momento passaria a madrugada inteira acordado. O russo queria apenas descansar um pouco antes de continuar a viver sua vida sedentária no País de Gales com seus nove gatos, cinco cachorros e uma lagartixa de estimação. Não era uma vida fácil, mas era uma vida e ele pretendia continuar vivendo ela.

O universo não contribuiu com seus planos.

Seu celular emitiu um som ao seu lado, fazendo-o soltar um grunhido de irritação. Quem ousava incomodá-lo em seu momento de descanso? A preguiça falou mais alto que a curiosidade, como quase sempre acontecia, e ele ignorou. Mas, poucos segundos depois, Jefferson recebeu uma enxurrada de notificações.

"Lawrence", adivinhou ele. "Vai ter que esperar um pouco". Gusev pegou o aparelho e o colocou em modo silencioso. "Estou ocupado".

No entanto, os planos do russo de ignorar seu colega foram por água abaixo quando um homem entrou no quarto segurando uma vassoura.

Jefferson era alguém preguiçoso, logo era de se esperar que contratasse alguém para fazer suas tarefas domésticas. Mário era um brasileiro perdido que era um amor de pessoa. Tinha sido contratado havia vários anos e sempre mostrou competência no trabalho — e muita paciência para lidar com seu patrão, o que era um dos pré-requisitos para o emprego. A relação dos dois era bastante amigável, mesmo tendo personalidades completamente diferentes, e Mário logo entrou para sua seleta lista de pessoas que amava. A lista possuía, atualmente, dois integrantes.

— Você não vai responder? — perguntou ele, com forte presença de seu sotaque que deixava clara sua nacionalidade.

Jefferson praguejou em russo algo que Mário não compreendeu. Ele não fazia questão que o brasileiro entendesse, assim como este não fazia questão de entender. Às vezes, Gusev gostava de falar em sua língua natal, em parte para extravasar sem ser julgado por isso e em parte porque achava a confusão alheia muito engraçada. Russo não era uma língua das mais fáceis de ser compreendida.

Esta não era exatamente sua língua natal, visto que sua família fora para os Estados Unidos quando tinha apenas dois anos, fazendo do inglês mais "natal" que o próprio russo. No entanto, aprendera a língua com sua mãe, o que foi bastante útil em situações em que precisava urgentemente xingar uma pessoa sem que isso gerasse uma briga — situações estas mais frequentes do que se pode imaginar. Seu nome verdadeiro era Pavlov Gusev, mas seus pais o mudaram para Jefferson Jittad McAllister ao chegar na América. Quando descobriu sobre sua real nacionalidade, passou a apresentar-se como Jefferson Gusev, unindo seu nome novo ao seu real sobrenome — ainda que Lawrence se recusasse a chamá-lo dessa forma, alegando ser "um nome muito estranho" e que nada na Rússia fazia sentido.

Gusev cedeu à pressão de Mário. Sob o olhar questionador de Elvira, sua lagartixa que, no momento, o encarava do teto, pegou o celular e abriu o aplicativo.


Caro Jefferson,

Venho aqui propor algo que deve beneficiar a nós dois

Creio que seja hora de darmos uma trégua em nome de um bem maior

A disputa de café versus chá já causou muitas tragédias

Faço, então, uma oferta de paz

Vamos aceitar nossas diferenças e conviver em harmonia


Jefferson franziu a testa. Não entendeu o motivo daquele súbito desejo de harmonia por parte de Lawrence. Sabia que havia algum interesse por trás daquilo, o ruivo não seria tão amigável assim se não quisesse algo.


O que você quer?


Breve e sucinto, como tinha de ser.


Tudo bem, você venceu

Eu preciso de ajuda

Me envolvi em algumas complicações aqui

Fui perseguido por um fantasma, quase morri e estou agora na cama de um hospital

Foi divertido, mas foi o suficiente para uma vida


Gusev leu a mensagem de cima a baixo cinco vezes, tentando entender do que o ruivo estava falando. Fantasma? Do que se tratava? Ele olhou para o empregado, que balançava a vassoura de um lado para o outro como se estivesse cansado, e de fato estava. Seu patrão tinha uma casa bem grande. Não que pudesse reclamar, pois ele próprio também morava lá, e em um quarto de bom tamanho, até. Os quartinhos minúsculos em que morou no Brasil eram uma afronta aos direitos humanos.

O russo leu as mensagens mais uma vez.


Como assim "fantasma"?

O que aconteceu?

É uma história um tanto longa

Um caso envolvendo uma floresta amaldiçoada

Mas preciso de sua ajuda

Minhas pantufas foram destruídas, estou em crise existencial


Jefferson arregalou os olhos. Se até mesmo as pantufas do colega tinham sido afetadas, então o assunto era sério mesmo.


Do que se trata?

Não tenho condições de resolver o caso sozinho

Por isso, chamei o pessoal para me ajudar

Você sabe de quem estou falando


Jefferson sabia. Elsie e Dawil, obviamente, ainda que estivesse surpreso com isso. Os quatro sempre haviam combinado de se encontrar algum dia, mas ele não estava preparado para esse dia chegar de fato.

Precisaria comprar mais chá.

Disse a Lawrence que podia contar com ele. O ruivo mandou o endereço do local e os dois se despediram. Gusev, então, desligou o celular e se pôs a pensar. Elvira havia desaparecido.

Elsie estaria lá. Ele não a via há algum tempo e, por mais que não fosse de seu feitio demonstrar emoções humanas, sentia sua falta. Para Jefferson, Elsie Harper era um tipo de irmã caçula irritante — muito, muito irritante, e seria muito bom vê-la novamente.

Ele chamou Mário, que voltou bruscamente à realidade, e disse que ia viajar, explicando o motivo de maneira bem superficial.

O brasileiro sorriu.

— Você vai para França? — perguntou. — Que legal! Posso ir junto?

— Você é detetive?

— Não...

— Então não.

O homem mostrou a língua para o patrão. Sabia que responderia aquilo e, de qualquer forma, não queria ir mesmo. Sempre teve medo de andar de avião. A única vez que viajou pelo céu foi quando se mudou do Brasil, viagem que, até hoje, não sabia por que motivo havia feito. Além disso, havia outras formas de vida naquela casa e Jefferson seria apenas um animal a menos para cuidar.

— Quando você vai?

— Vou pegar um avião amanhã. — O russo se levantou da cama com sua cara de sono habitual. Ser chamado para uma investigação não estava na lista de coisas para fazer naquele dia, mas ele não recusaria um pedido como aquele. — Lawrence disse que é urgente.

Mário levantou a sobrancelha, como se dissesse "de novo esse Lawrence?". Ele de fato queria dizer isso e pensou ter sido perfeitamente claro. Ele foi.

— Melhor tomar um banho e pentear o cabelo antes de sair, senão você vai acabar preso por danos morais à sociedade.

Foi a vez de Jefferson mostrar a língua para o homem, mas fez isso com um sorriso no rosto. Ele amava brasileiros, eram uns amores. Não que conhecesse muitos: na verdade, Mário era o único, mas, ainda assim, não estaria mentindo se dissesse que tinha afeição por cem por cento de todos os brasileiros que já havia conhecido.

Estatísticas não eram seu forte.

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