capítulo 2 • joke

Cooper

Sam costumava dizer que eu me iludia muito rápido e, no fim das contas, talvez aquele pentelho estivesse certo. Por um momento, cheguei a pensar que Grothe deixaria todo o escarcéu que fizemos durante a aula de lado, porque éramos adolescentes irresponsáveis e é isso que adolescentes fazem: merda. Mas, ao final da aula, quando soltou as palavras "Cooper e Carter, permaneçam na sala", percebi que, na verdade, sua tortura estava apenas começando.

Carter e eu permanecemos sentados até que todos os alunos desaparecessem pela porta da sala. O olhar com que Grothe nos encarava era cruel, mas sentir o olhar de Carter em minhas costas era mil vezes pior. Era como levar uma facada a cada piscar de olhos. Sua presença era eletrizante e, na verdade, nunca tínhamos ficado juntos no mesmo lugar com tão pouca gente ao redor.

— Venham aqui — o professor disse, friamente.

Levantamos juntos, em sincronia, como se tivéssemos começado a contagem regressiva de nossas existências ao mesmo tempo e, completamente em silêncio — o que era estranho, já que Carter nunca perderia a oportunidade de falar algo desagradável —, caminhamos em direção à mesa do professor.

Carter mantinha as mãos nos bolsos do casaco do time. Seus olhos permaneciam baixos. Não era como se ele estivesse com medo ou forçasse uma cara de coitado para que o professor sentisse pena, ele só não dava a mínima para o que aconteceria a seguir. Em compensação, o tanto que ele esbanjava de desinteresse, eu esbanjava de desespero.

Meus olhos vagavam entre Carter e o professor, era uma súplica por piedade de ambas as partes, mas nenhum dos dois daria o braço a torcer. Carter nunca me deixaria em paz, e o professor certamente iria nos pisotear assim que abrisse a boca.

— Vocês serão uma dupla. — disse, sem mais nem menos, com um ar de quem estava planejando como soltar essa bomba durante a aula inteira.

A reação parecia ter sido retardada pelo baque. Ficamos tão estáticos encarando o professor, que o velho estava se segurando para não rir. O maldito só podia estar brincando. Não poderia ter outra explicação.

Eu fiquei boquiaberta e meus olhos se arregalaram, eu sentia todo meu corpo queimar por dentro. Eu não o ajudaria, de jeito nenhum, de forma alguma! Minha vida seria um inferno se eu tivesse que encarar o próprio Lúcifer todo dia depois da aula.

— Como é? — dissemos em uníssono, fazendo com que o professor soltasse um riso abafado.

— Esse é o castigo de vocês, se aguentarem sem matar um ao outro até a data da prova — deu de ombros, tossindo para disfarçar e dissipar a risada.

— Tá brincando com a gente, ou é impressão minha? — Carter apoiou as mãos sobre a mesa — Só pode ser brincadeira.

— Eu não vou fazer o trabalho com ele — protestei — Sem chances. Não tem como. Ele é muito burro, o cérebro dele deve ter se desfeito por inteiro jogando Futebol Americano, não restou nada — eu batia o pé rapidamente sobre o chão — Não dá nem pra usar como adubo!

— É! — Carter concordou, hesitando logo em seguida. Ele nunca prestava muita atenção no que falavam — Escuta aqui, sua retardada — virou-se para mim, irritado — Menos, bem menos!

— Viu? Já estão se dando bem! — cruzou os braços.

— Nem pensar — cruzei os braços também.

— Certo... — Respirou fundo — Se não fizerem o trabalho juntos, ambos ficam com F, mesmo se fizerem sozinhos.

— Isso não é justo! — protestei novamente.

— Criança, não ligo se não é justo, essas são as condições. Vocês as aceitam ou ficam com zero, o problema é de vocês! — levantou-se pegando sua pasta — Espero que sobrevivam um ao outro.

— Ótimo! — resmunguei.

O professor saiu da sala, nos deixando ali, olhando um para a cara do outro. Eu precisava encontrar a melhor forma de evitar sair no soco com Carter naquele momento. Ódio. Era o puro e genuíno ódio que pairava no ar daquela sala. Nos encarávamos com tamanha intensidade que eu podia ler toda a sua alma, sedenta por me destruir.

— Droga, Carter. Viu só, seu idiota? — comecei — Tudo isso é culpa sua!

— Minha culpa? — indagou, indignado — Quem fez um puta escândalo foi você!

— Foi você quem me derrubou da cadeira! — enfatizei.

— E você me espremeu com a cadeira — ele rebateu, dando o mesmo ênfase.

— Ah, porque você não fez o mesmo comigo, né? — ele odiava quando eu usava aquele tom sarcástico.

— Tanto faz, Allison — ele desviou o olhar — Você vai fazer essa merda comigo.

Eu permaneci estática por um instante. Aquele não poderia ser Daniel Carter. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele não era do tipo que dava o braço a torcer para qualquer professor. Muito menos para o Grothe.

— Quem disse? — levei as mãos à cintura e levantei uma sobrancelha.

— O Grothe disse. Você ouviu bem, não é surda, só é idiota — revirou os olhos, sentando-se sobre a mesa do professor.

Você é um idiota.

— Pensa em um lugar pra fazermos essa merda.

— Pensa você, para de ser folgado! — apoiei o peso de meu corpo sobre uma das pernas, franzindo o cenho.

— Você não é o gênio incompreendido? Meu cérebro não ficou danificado com o Futebol Americano? — ele sorriu de canto, com o tom irônico carregando toda a sua raiva — Então... Usa esse teu cérebro dessa vez, sua cabeça não deve ser tão grande à toa.

Carter saiu da sala antes mesmo de me dar a chance de rebater. Ele provavelmente sabia o que eu falaria, e eu sabia que ele sairia de qualquer jeito. Éramos clichês com pernas e isso fazia com que tivéssemos uma conexão inexplicável. Nós sempre antecipávamos os movimentos um do outro e, para a nossa infelicidade, nãos sabíamos parar de fazer aquilo.

Era uma dependência estranha, mas, apesar dos pesares, era um tanto reconfortante saber que eu tinha uma conexão com alguém que fosse mas ampla que a amizade. Porque nem amigos éramos, talvez arqui-inimigos ou coisa do tipo, talvez nós só tivéssemos levado o ditado de conhecer bem o inimigo muito ao pé da letra.

Mas a Allison — adolescente de dezesseis anos descontente com a vida — Cooper faria questão de foder a vida de Daniel — pau no cu do caralho — Carter. Eu só não sabia como, ainda.

Sentada encarando a comida, sem a mínima vontade de comer. A única coisa que pairava em minha mente era o quanto eu não queria fazer aquele trabalho com Carter. À minha volta, meus amigos me encaravam confusos. Tentavam puxar assunto, apesar das respostas curtas que eu continuava dando aqui e ali quando conseguia captar algo da conversa.

— Ok, eu estou cansada dessa sua cara de bunda — Angeline exclamou, cruzando os braços.

— Qual o problema agora? — preguntei, frustrada.

— Acho que a gente quem tinha que fazer essa pergunta... — Adalia ergueu as sobrancelhas, sarcástica.

— A porra do Carter de novo! — franzi o cenho, pensativa.

— Daqui uns quarenta anos, esses dois vão acabar se casando — Michael bufou, brincando com a comida da bandeja — Vai que todo esse ódio é amor reprimido?

— Credo — enojada, voltei a encarar a comida estranha que serviram no refeitório — Vou ter que fazer um trabalho com ele.

— Grothe? — Nathan perguntou, deixando a comida de lado e se concentrando na conversa.

— O próprio — confirmei.

— É a cara dele fazer esse tipo de coisa. — Adalia suspirou, o mesmo tinha acontecido com ela no ano anterior — Ele quer que vocês se torturem assim como Jason e eu.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— Talvez ele queira que vocês percebam que precisam um do outro — Nathan comentou —, não me olha com essa cara, Allison! — ele riu abafado — O que quero dizer, é que talvez ele esteja fazendo isso pra mostrar que, sem ele por perto, sua vida não seria a mesma coisa, então vai ter que aguentá-lo o mais perto possível.

— Bom, se vocês dois não se conhecessem, ele não teria quem provocar e você não teria com quem brigar toda aula! — Angeline concordou com o namorado.

— Minha vida sem o Carter seria pura paz! — me levantei, irritada.

Me afastei da mesa e fui para a sala da próxima aula. Ao menos daquela vez ele não estava atrasado. Sentado na última carteira, encarando a lousa com seus olhos verdes, ele parecia tão afogado nos próprios pensamentos que quase não percebeu minha presença. A irritação de seus olhos quando tocaram meu rosto foi o suficiente para eu me lembrar do porquê de adorar provocá-lo: sua angustia e raiva me deixavam confiante de alguma forma.

Éramos quase masoquistas, gostávamos daquela tortura infinita. Era esse o nosso maior problema, nunca seríamos passivos um com o outro.

Sentei-me na fileira mais longe possível, apesar de ainda sentir seu olhar pairarem sobre minhas costas. Queimava-me como ácido, voraz e curioso. Eu odiava quando ele me encarava daquela forma, era capaz de sentir de longe, e doía mais do que deveria.

Mas por quê?

— Vamos fazer o trabalho onde? — perguntou, por fim.

Sua voz rouca invadiu meu corpo inteiro sem pedir licença, como se ele estivesse mais próximo do que realmente estava. Respirei fundo, analisando mentalmente todos os detalhes da minha semana. Precisava ser em um lugar reservado, sem distrações.

— Sexta, na minha casa. Não leve drogas e não chegue bêbado — disse firmemente, encarando a mesa abaixo de minhas mãos.

— Por que não fazemos na biblioteca da escola? — perguntou, coçando a nuca — E eu não uso drogas.

— A biblioteca é um lugar muito quieto pra alguém como você. — Respondi, apertando meus próprios dedos.

Ouvi ele rir abafado. Aquela risada sádica só mostrava que ele estava tramando alguma pra me constranger de alguma forma e, pior, dentro da minha casa. Apesar de tudo, eu ainda preferia ser constrangida na minha casa que na biblioteca da escola.

— Nem pensar — resmunguei, virando-me levemente para trás, encarando seus olhos como se lesse seus pensamentos.

— Como pode achar que sabe o que estou pensando? — cruzou os braços, aumentando a intensidade de seu sorriso sarcástico.

— Eu te conheço bem o suficiente para saber o que acontece dentro dessa bola vazia que você chama de cabeça — virei-me completamente para trás, cruzando os braços, imitando-o.

— Muito previsível — ele desdenhou.

— Como pode achar que sabe o que eu vou fazer? — estreitei o olhar, esperando uma resposta que eu já sabia qual seria. Com certeza, ele responderia com a mesma linha de pensamento que eu utilizara.

— Porque eu te conheço bem o suficiente pra saber o que acontece dentro dessa bola de basquete que você chama de cabeça — fechou os olhos e se inclinou na cadeira, como se quisesse deitar sobre ela.

— Você é um babaca — grunhi.

— Sabia que falaria isso — ele sorriu largo.

Maldito momento em que os Carters fizeram um filho tão bonito.

— Ah, agora vai tentar narrar o que eu vou fazer!? — revirei os olhos.

— É! — riu, ajeitando-se na cadeira — Você vai bufar, como você sempre faz depois de revirar os olhos. Vai franzir a testa e torcer o nariz. Vai virar pra frente e me xingar de alguma forma! — ele disse, enquanto eu fazia, instintivamente, exatamente o que ele falava, instantes antes dele falar.

— Vai se foder.

— Voialà! — estendeu os braços, como se apresentasse algo.

Virei-me para frente, irritada. A sala já começava a encher de alunos e eu não estava com nenhuma vontade de ser o entretenimento particular deles. As circunstâncias eram mais que suficientes para eu não abrir minha boca.

Respirei fundo várias vezes, na tentativa de manter minha cabeça no lugar. Aquele maldito moleque tinha o dom de me tirar do sério sem muito esforço.

Me abaixei para alcançar a mochila ao lado da cadeira, tirando dali de dentro meu caderno e minha caneta. Eu não esperava cruzar meus olhos com os mesmos olhos azuis de mais cedo.

O cabelo loiro escuro caía enquanto ele tirava o caderno de dentro da mochila, eu estava em pânico, sem reação alguma. Meu coração batia tão forte que eu achei que morreria ali mesmo. Os olhos azuis se ergueram para mim, ele soltou um sorriso gentil e, em seguida, colocou o caderno sobre a mesa. Franzi o cenho, confusa. Não era todo dia que alguém sorria gentilmente para mim na escola.

Não era ruim, mas não queria dizer que eu estivesse aberta para gentilezas dos garotos de Brookline. Aquele era o mundo real, não um refúgio de sonhos. As pessoas não eram como nos filmes, elas podiam ser cruéis e maldosas quando quisessem.

Eu não queria pagar para ver o quão ruim aquele tal Young era.

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