Viagens
Haytham olhou mais uma vez para Charles, tentando a todo custo não sorrir, quando o ouviu resmungar mais uma vez.
– Parece que algo lhe incomoda, meu amigo. – ele virou o torso, olhando para Lee, enquanto seu companheiro bufava irritado.
– Você sabia que ele estava lá... E mesmo assim não fez nada. Muito pelo contrário, assim que descobriu, pediu que um dos novatos ficasse de guarda na porta. – Haytham precisou segurar uma risada devido ao tom magoado de seu companheiro. – Está a acobertando, mesmo sabendo dos riscos que isso traz a nossa causa.
– Não precisa se preocupar com isso. Eu e Agatha temos um acordo... – ele evitou olhar para seu companheiro, assumindo um tom mais sério. – Assim como ela não passa informações sobre ele para nós, ela mantém os assuntos da nossa causa em segredo para ele.
– Ainda assim, Haytham... Ele é nosso inimigo. Deveríamos estar o caçando por aquelas florestas, não o ignorando enquanto ele come sua assistente. – Charles disparou as últimas palavras, logo se arrependendo ao receber o olhar enfurecido de Haytham. – Isso não pode ficar assim.
– Dê um pouco de tempo. Você conhece o temperamento de Agatha, logo isso acabará. – Haytham voltou a encarar o caminho a sua frente. – Eu o conheço, e isso não terminará de modo... pacífico.
– Não sei como isso deveria me tranquilizar. – ele se virou para Haytham, percebendo o sorriso no rosto dele.
– Se não soubesse, diria que não conviveu com ela nos últimos meses. – Haytham puxou o chapéu, cobrindo mais os olhos. Ele não queria que Charles visse o orgulho que sentia por sua assistente, afinal, o que sentia por Agatha era o mais perto da paternidade que chegara. – Você sabe tão bem quanto eu que aqueles olhos de oceano calmo, escondem uma tempestade, assim como as mechas vermelhas um incêndio.
Haytham olhou de soslaio para Charles, que pensava em suas palavras, dando ombros. Ele realmente esperava que as coisas dessem certo para sua querida assistente, mesmo que fosse com o filho Assassino.
– Isso não é justo! – Agatha bateu a porta da cabana ao sair, ignorando qualquer pedido de Connor atrás dela.
– Agatha... – ele saiu atrás da ruiva, olhando ao redor como sempre fazia. Ele sabia que ela era teimosa e de temperamento forte, mas aquilo já era exagero. – Me escute...
– Eu não quero... escutar nada. – ela se virou para ele, pegando um punhado de neve, o amassando em uma bolinha e jogando em sua direção. – O Haytham está fora... Aquele grupo estranho finalmente foi embora e agora que as coisas ficariam mais fáceis você tem que ir embora.
Ela saiu andando, batendo os pés nervosamente contra a neve. Connor bufou, se perguntando se devia ir atrás dela. Ele tinha muito o que fazer antes de partir, mesmo assim não queria ter que ir embora brigado com ela.
– Droga... – ele bateu com as mãos espalmadas contra a mesa, afundando a cabeça entre as mãos enquanto se jogava pesadamente sobre a cadeira. Ele olhou para fora uma última vez, antes de voltar sua atenção novamente para sua missão.
Agatha passou pelos casacas vermelhas, empurrando um para longe quando ele se colocou no caminho dela, como sempre faziam para irritá-la. John e seus homens riram, antes que ele se despedisse deles, indo atrás dela.
– Problemas com seu amante? – ele abriu a porta do quarto para ela, se apoiando no batente da porta, enquanto ela andava de uma lado para outro, pronta para explodir.
– Calado. – ela o fuzilou com o olhar, pegando um travesseiro e abafando um grito irritado, enquanto John se esforçava para não rir. – Ele é um idiota.
– Eu tenho minhas dúvidas... Marshal é um idiota. Agora seu amante parece ser um homem sábio, afinal vocês estavam se dando bem até alguns minutos atrás. – ele sorriu de lado, enquanto a encarava, a espera de uma explicação melhor. – O que houve?
– Ele vai viajar. – Agatha bufou, se jogando sobre a cama, enquanto Fenrir pulava sobre ela, lhe lambendo o rosto de modo animado. – Logo agora que as coisas estavam começando a... simplificar.
– Agatha... – pela primeira vez ela viu John sério, pelo menos ao conversar com ela. Ele se sentou ao lado dela, a encarando. – Isso é normal e acontece com todos. Se vocês estivessem do mesmo lado, ainda assim teria algo tentando... impedir vocês. Você é uma mulher excepcional e eu acho que não deveria se chatear por isso. Não ponha tudo a perder por causa de algo simples como uma viagem.
– Mas ele pode ficar fora por meses... – ela disse com a voz chorosa, enquanto apertava Fenrir em seu colo.
– E aposto que ele também não está feliz com isso. Eu particularmente odiaria passar meses longe da mulher que amo, ele deve sentir a mesma coisa... Se ele está partindo deve ser por algo muito importante. – John pegou uma das mãos dela, a apertando carinhosamente.
– Obrigado... – ela sorriu para ele, antes de se levantar.
– Não por isso. Além do mais, tecnicamente eu estou aqui cuidando de você, substituindo o Kenway. Então, te dar bons conselhos faz parte do pacote. – ele sorriu, enquanto coçava a cabeça. – Embora eu ache que ele preferiria que eu te aconselhasse a terminar esse relacionamento... Mas cá entre nós, eu até que gosto do Assassino. Compartilhamos o mesmo ódio pelo Marshal, os casacas e eu também não gosto muito do Lee.
Agatha riu, enquanto John acenava para ela, saindo do quarto e a deixando sozinha, apesar do homem de vigia em sua porta. Ela olhou para sua mesa, recheada de cartas e uma em particular a fez sorrir. Apesar do atraso, Haytham estaria de volta em dois dias.
Connor passou pelos guardas, sem precisar nocautear nenhum deles, seguindo para a janela do quarto de Agatha. Ele subiu até ela, a abrindo e entrando no quarto.
– Shiiii... – ele olhou para Fenrir, o pegando no colo, antes que ele fizesse algum barulho. Agatha estava adormecida, o semblante, normalmente tranquilo, parecia triste, angustiado. Ele lhe tocou o ombro, beijando-lhe a testa. Ela piscou de modo preguiçoso, abrindo os olhos e sorrindo ao o reconhecer.
– Pensei que você já tinha partido. – ela disse, enquanto se sentava. Connor se sentou ao lado dela, lhe segurando o rosto com ambas as mãos a beijando. Ele sentiu aquele nervosismo ir embora quando ela retribuiu.
– Pensei que ainda estivesse com raiva. – ele sorriu, apoiando sua testa na dela. – Mas eu não podia ir embora sabendo que a última coisa que fizemos foi brigar.
Agatha sorriu, se aninhando contra ele, enquanto ele passava o braço ao redor dela, a apertando contra si.
– Me desculpe por mais cedo. – ela disse, a voz abafada, enquanto ele lhe acariciava as mechas vermelhas. – Eu fiquei chateada e acabei exagerando.
– Eu sei. – ele realmente não queria ter que a deixar sozinha, mas infelizmente não tinha outra escolha. – Para ser sincero, também não quero partir, mas não tem outro jeito. Eu preciso mesmo fazer isso...
– Hummm... – ele não pôde evitar rir ao ver a cara emburrada dela. – Quando você volta?
– Possivelmente no princípio da primavera. – ele se sentiu melhor ao ver Agatha sorrir. – Até lá você tem o Fenrir cuidando de você e te fazendo companhia.
Eles olharam para trás, rindo ao ver o pequeno filhote enroscado nas cobertas, as mordendo enquanto tentava se soltar.
– E então, quando ele volta? – Connor se afastou um pouco, a encarando.
– Em dois dias... se nada der errado. – ela disse, enquanto ele se levantava, começando a andar de um lado para outro e passando as mãos nervosamente pelos cabelos.
– Maldição. Não queria deixar você aqui sozinha. – ele se virou para ela, ao ouvi-la abafar uma risada. Agatha se levantou, caminhando até ele. – O que foi?
– Não precisa se preocupar, eu vou ficar bem. Haytham volta em dois dias e enquanto isso, eu tenho um grupo de mercenários cuidando de mim. – ela sorriu para ele, lhe segurando a gola da camisa, e brincando com o colar dele. – Agora... o que acha de um pequeno presente de despedida?
Connor baixou os olhos, encontrando um sorriso malicioso nos rosados lábios dela. Ele sorriu, a puxando para um beijo, a levantando do chão e a levando para a cama.
– Desculpe, amiguinho... – ele pegou Fenrir, o colocando no chão, enquanto Agatha o ajudava a tirar a camisa. – Precisamos de espaço...
Agatha riu, enquanto Connor se virava para ela com um sorriso malicioso nos lábios, os olhos brilhando de desejo. Ele sorriu, cobrindo o corpo dela com o seu e lhe beijando.
Fenrir mordiscava a faixa de couro de seu casaco, enquanto Connor colocava as botas. Ele sorriu, se levantando e parando por algum tempo, observando Agatha dormir. Aos poucos seu sorriso foi se esmaecendo... Ele sentiria a falta dela, mais do que gostaria de admitir.
– Também vou sentir sua falta... – ele olhou para Fenrir, o afastando de seu casaco, antes de vestir a camisa. Ele olhou na direção de Agatha, que se sentava, bocejando e esfregando os olhos, ela segurava uma das cobertas, cobrindo os seios.
– Que horas são? – ela piscou um pouco, enquanto ele terminava de ajeitar a camisa.
– Ainda faltam algumas horas para o amanhecer. – ele sorriu, se sentando de frente para ela. – Eu não queria te acordar... ainda.
Ela sorriu, os olhos ainda enevoados de sono, enquanto Fenrir se aninhava no colo dela. Connor afundou os dedos nas mechas ruivas dela, sorrindo um pouco, mesmo sentindo seu peito apertar.
– Vou sentir sua falta. – ele se aproximou mais dela, lhe dando um beijo, antes de se levantar, jogando o casaco sobre os ombros. – Eu realmente preciso ir... Não faça essa carinha.
– Não pode mesmo ficar um pouco mais? – ela o encarou, enquanto ele fazia que não com a cabeça e voltava a se sentar ao lado dela. – Tudo bem, mas me prometa que será cuidadoso...
– Prometo que voltarei para você. – ele sorriu, antes de a beijar, se levantando e saindo pela janela. Ele olhou para trás uma última vez antes de sair, sentindo o peito apertar.
Agatha estava parada no portão, com um enorme sorriso no rosto, enquanto Haytham surgia na estrada.
– Também senti sua falta... – Haytham lhe deu alguns tapinhas nas costas dela, sem jeito. – E então... como estão as coisas por aqui?
– Tudo indo muito bem. – ela sorriu, enquanto o acompanhava para o escritório. Fenrir passou correndo por eles, saudando Haytham com alguns pulinhos, antes de Katie o pegar, fazendo uma mesura educada para ele.
Ele olhou ao redor, seu escritório impecavelmente arrumado, exceto pelos poucos livros fora do lugar e as cartas recém colocadas sobre sua mesa.
– Precisa de mim para mais alguma coisa, senhor? – ela sorriu de uma orelha a outra, encarando Haytham a espera de uma resposta.
– Que tal uma bandeja de chá e alguns biscoitos? – Charles Lee se jogou sobre uma das confortáveis poltronas, olhando para Agatha. – Poderia agir como uma mulher pelo menos uma vez.
Agatha o ignorou, apesar do sorriso que desaparecia, ainda olhando para Haytham. Ele podia ver a tempestade se formando nos olhos dela e podia jurar que seu cabelo havia ficado ainda mais brilhante.
– Não dê importância ao Charles, Agatha. – Haytham se sentou em sua cadeira, encarando Lee com um olhar irritado. – Foi um caminho difícil, e ele está um pouco cansado...
– Sem ressentimentos, senhor. – ela fez uma mesura educada, abrindo um de seus doces sorrisos, antes que Haytham a dispensasse.
– Isso foi desnecessário. – ele começou a abrir as cartas, às lendo calmamente. Já estava entardecendo quando ele pegou a pena, escrevendo uma resposta e a deixando sobre sua mesa.
Ele passou por John, que vigiava a porta do quarto de Agatha, sempre com aquela postura intimidadora, embora o cumprimentasse com um cordial sorriso no rosto. Ele olhou para a porta de sua assistente por alguns instantes, antes de decidir entrar.
– Como você está? – ele se sentou sobre o baú, enquanto Agatha suspirava, olhando pela janela.
– Bem... – ela disse sem se virar, encarando a neve, enquanto Fenrir lhe puxava a saia do vestido.
– Agatha... – Haytham se aproximou dela, tocando– lhe o ombro. – O que houve?
– Ele foi embora... – Haytham não pode evitar sentir um pequeno alívio, ao mesmo tempo em que seu coração se apertava pela tristeza de sua assistente. – Parece que recebeu alguma missão ou terminou uma... Algo assim.
– Não entrou em detalhes... Justo. – ele sorriu, se apoiando a janela, imitando a pose dela. – E ele pretende voltar em algum momento?
– Sim... – ela torceu uma mecha do cabelo, enquanto um pequeno sorriso surgia em seus lábios.
– E você pode me contar quando? – ele não pode evitar sorrir, enquanto ela fazia que não com a cabeça. – Tudo bem... Precisa de algo?
– Hummm... – ela olhou para Fenrir, abrindo mais o sorriso. – Não, estamos bem.
Haytham a encarou por alguns instantes, antes de sair do quarto. Ele não queria admitir, mas começava a achar cada vez mais que Agatha estava apaixonada pelo Assassino.
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