Selvagem

Connor estava parado há algum tempo, escondido entre as sombras das árvores,olhando para o movimento de casacas vermelhas. Uma figura de capa saiu do forte, arrastando as pesadas saias do vestido. Um dos casacas esbarrou nela, rindo enquanto falava algo a seus companheiros e ela ajeitava o capuz sobre a cabeça, voltando a cobrir as mechas vermelhas.

– Agatha... – ele sussurrou, enquanto a seguia por entre as árvores, mantendo certa distância. Ele estava surpreso de Haytham a deixar sair novamente do forte, principalmente sozinha.

Ele a seguiu por algum tempo, enquanto ela caminhava parecendo sem rumo, até que finalmente se sentar sobre um tronco caído, torcendo nervosamente as mãos. Connor se aproximou dela, se abaixando de frente para ela.

– Oi... – ele deu um pequeno sorriso para ela, pegando uma de suas mãos e a apertando carinhosamente. Ela parecia chateada com alguma coisa. – O que aconteceu?

– O sr. Kenway não quer me deixar cuidar do lobo. – ela puxou a mãos de volta, mexendo nervosamente nas mangas do vestido. Connor afastou o capuz do rosto dela, ficando sério ao ver que ela mantinha parte do rosto escondida pelo cabelo.– Ele diz que é muito perigoso manter um animal assim no forte.

– Não se preocupe, ele vai acabar cedendo. – ele afastou as mechas cor de fogo do rosto dela, revelando os pontos negros que contrastavam com a pele branca. Ele instintivamente levou a mão ao braço, o último lugar onde havia precisado levar alguns pontos, lembrando da dor. – O que aconteceu com aquele homem?

– Marshal? – ela levantou os olhos, o encarando pela primeira vez. Connor tinha uma expressão assassina e perigosa no rosto.– O sr. Kenway mandou prendê-lo por algumas semanas, depois de dar uma surra nele.

– Devia tê-lo matado quando tive chance... – ele se levantou, oferecendo a mão a Agatha e a ajudando a se levantar. – Por que ele não o matou?

– Charles Lee. Ele o usava para ficar de olho em mim e acabou intercedendo. – ela apertou mais a capa ao redor do corpo, enquanto ele a guiava para a cabana. – O sr. Kenway acabou cedendo... Afinal ele deixou você sair ileso.

– A situação era diferente. Mas não importa, ele não terá uma próxima oportunidade para isso. – ele a ajudou a passar por um pequeno riacho congelado, a segurando pela cintura para que não escorregasse e caísse. Ele não sabia por que estava a levando para seu esconderijo, apenas queria ficar perto dela, ele queria continuar sentindo aquela sensação que ela provocava.

Agatha entrou na pequena cabana para onde Connor havia a levado. Ela esfregou os braços, tentando espantar o frio, enquanto ele sorria e a envolvia com uma pesada manta. Ele estava realmente se esforçando para a fazer se sentir melhor.

– O que é essa arma que você usa? – ela apontou para o incomum machado que ele havia colocado sobre a mesa.

– É um tomahawk. – ele colocou o machado nas mãos dela, sorrindo enquanto ela olhava, curiosa, a arma a girando em suas mãos.

– É bonito... – ela passou os dedos delicadamente nas penas presas ao cabo, as fazendo balançar. Connor se sentou ao lado dela, enquanto ela lhe devolvia a arma. – Desde quando sabe atirar com arco e flecha?

– Hummm... – ele pensou um pouco, encarando o arco e a aljava no canto do pequeno cômodo. – Desde sempre, mas melhorei muito depois do meu treinamento. Por que?

– É interessante como uma arma tão... rústica, pode ser tão fatal. – ela apoiou a cabeça no ombro dele, olhando pensativa para a parede a sua frente, os papéis que ele se esforçara tanto para esconder da última vez, estavam agora sobre a mesa, espalhados.

– Você parece muito interessada... Teria algum motivo especial? – ele a encarou, curioso e com um pequeno sorriso. Ele sabia que Agatha era uma mulher peculiar.

– Talvez... – ela se virou para ele, sorrindo. – Você poderia me ensinar. Parece ser o tipo de arma que eu poderia usar.

Agatha o encarou, os olhos cor de oceano brilhando, enquanto um sorriso surgia nos lábios rosados. Connor sorriu, balançando a cabeça afirmativamente, enquanto ela se levantava e pegava o arco e a aljava.

– Agora? – ele a encarou, surpreso, enquanto ela abria a porta e apontava para fora.

– Por que não? – ela sorriu, enquanto ia para o lado de fora. Uma nova atividade era justamente o que ela precisava para se esquecer da pequena confusão no forte.

– Tudo bem, então. – Connor caminhou até ela, pegando a aljava das mãos dela e a guiando para uma área mais aberta, onde poderiam treinar com mais facilidade. – Lição um, como segurar o arco... Do jeito certo.

Ele parou atrás dela, a ajudando a posicionar melhor as mãos e o corpo, dando a ela uma explicação detalhada do por que.

– Você é uma boa aluna... Vamos ver como se sai na prática. – ele pegou uma flecha na aljava em suas costas, a entregando a Agatha e observando cuidadosamente enquanto ela a posicionava de modo quase perfeito no arco. – Quase...

Ele sorriu, voltando a se aproximar dela, enquanto passava os braços ao redor dela, lhe mostrando a posição correta. A respiração quente dele em sua nuca fez com que um arrepio percorresse seu corpo, queimando a pele, enquanto ela respirava fundo.

– Pronta? – a voz rouca a fez prender a respiração mais uma vez, antes que ele voltasse a falar. – Mire naquela árvore...

Ele apontou para a árvore alguns metros à frente deles. Agatha soltou um pesado suspiro, antes de soltar a flecha, que passou raspando pela árvore.

– Quase. – Connor sorriu, enquanto ia buscar a flecha. Ela se viu o observando, enquanto ele seguia por entre as árvores. Havia algo naquele homem que mexia com ela, a fazia ser menos como a dama britânica e mais como a garota que fugira para Londres.

Connor parou, apoiando o corpo em uma árvore, quando teve certeza de que Agatha não podia mais o ver. Aquela mulher ia acabar o colocando em problemas, se as coisas continuassem assim. Estar perto dela, daquela forma, tão próximos, o fazia perder a concentração.

– Logo vai começar a nevar, melhor voltar... – ele olhou ao redor, procurando pela flecha. Ela havia errado por muito pouco o alvo, o que o surpreendeu. Uma rajada de vento frio o fez esfregar os braços, tentando se aquecer, enquanto ele voltava para onde ela estava.

– Está ficando mais frio? – ela o encarou quando ele saiu das sombras, apertando mais a capa ao redor do corpo.

– Sim. – Connor se abaixou, pegando a aljava e guardando a flecha. – Precisamos voltar antes que comece a nevar ou coisa pior.

A última coisa da qual ele precisava era de uma nevasca que acabasse o deixando preso com Agatha, não que fosse algo ruim de acontecer. Ele se aproximou dela, puxando o próprio capuz sobre o rosto, enquanto ela fazia o mesmo, voltando a vestir as delicadas luvas aveludadas e o seguindo por entre as árvores.

Uma rajada de vento mais forte, balançou algumas árvores, fazendo com que a neve acumulada caísse. Connor puxou Agatha para si, a tirando do caminho de um monte de neve, enquanto a ventania recomeçava. A respiração pesada dela criava pequenas nuvens, se misturando a dele, enquanto seus rostos se aproximavam ainda mais.

Quase sem perceber o que fazia, ele a envolveu pela cintura, a puxando mais contra si, enquanto ela lhe agarrava a gola da camisa o puxando para baixo e colando sua boca a dele. Ele sentiu aquele calor o envolver, enquanto ele a beijava, se sentindo relaxar cada vez mais. Agatha se afastou, abrindo os olhos vagarosamente, com um doce sorriso, que logo esmaeceu, enquanto ela corava.

– Se quiser não precisamos falar sobre isso. – ele pegou a mão dela, a passando ao redor de seu braço, se esforçando para não rir da reação dela. Ele não queria a deixar ainda mais sem graça.

– Quieto. – ela lhe deu um cutucão com o cotovelo, enquanto baixava o olhar, sorrindo. – Não consigo pensar com você falando.

Connor não conseguiu evitar uma risada, o que fez Agatha o encarar, ainda sorrindo, o que o tranquilizou. Ele a acompanhou até próximo ao forte, se mantendo escondido entre as árvores, enquanto se despedia dela.

– Ainda vai me ensinar a usar o arco? – ela o encarou, enquanto ele balançava a cabeça afirmativamente. Agatha o abraçou, lhe dando um rápido beijo, antes de sair correndo em direção ao forte.

Ela com certeza o meteria em problemas, mas ele não estava dando muita importância a isso no momento. Apesar de não saber exatamente o que sentia por ela, ele tinha certeza de uma coisa: ela lhe fazia bem.

Agatha entrou em seu quarto, fechando a porta atrás de si, antes de se jogar sobre a cama. Ela havia se deixado levar pelo momento, por seus instintos e seu desejo... E acabara beijando Connor... duas vezes.

– Foi só dessa vez... – ela manteve a voz abafada pelo travesseiro, enquanto olhava para a madeira que crepitava na pequena lareira. – Eu não posso deixar que isso aconteça novamente.

Ela se levantou ao ouvir a batida na porta, ajeitando da melhor forma que podia suas roupas e seu cabelo. Ela se surpreendeu ao ver Haytham a encarando com um olhar irritado.

– Eu sei que está chateada por causa do filhote... Mas não pode simplesmente sumir assim, principalmente com um tempo desses. – ele entrou, jogando a lenha que carregava na lareira e a atiçando, até que o fogo estivesse alto o suficiente.

– Eu estou bem, sr. Kenway.– ela sorriu para ele, enquanto puxava uma cadeira para ele e se sentava sobre o baú. Haytham a encarou por alguns segundos, surpreso por ela estar sorrindo novamente.

– O que você andou aprontando? – ele se sentou na cadeira, pegando uma das mãos dela e a encarando a espera de uma resposta. Ele conhecia Agatha o suficiente para saber que ela estava envolvida em algo que ele não aprovaria, pelo menos não totalmente.

– Nada... – ela manteve o sorriso, sabendo que Haytham não desistiria tão facilmente e que ele acabaria encontrando outros métodos para descobrir o que ela fazia.

– Você o encontrou novamente... – ele manteve o olhar firme e calmo, mesmo que internamente quisesse brigar com ela, argumentando de todas as formas para ela que parasse. – Vai ser inútil eu tentar te convencer a não o encontrar mais?

– Provavelmente. – Agatha se levantou, beijando a bochecha de seu patrão e o deixando sem graça, antes de se virar e pegar o pequeno bule de porcelana e um par de xícaras de dentro de uma delicada caixa de madeira debaixo da cama.

Haytham se levantou, suspirando pesadamente, enquanto saía para buscar água. Ele se deparou com Katie, a simpática nativa que havia cuidado de Agatha, sentada próxima ao fogão, cuidando do pequeno filhote de lobo, enquanto ele pegava a água.

– Como ele está? – ele parou ao lado dela, encarando o animal por alguns instantes.

– Faminto. – Katie sorriu para ele, antes de colocar o animal confortavelmente em sua pequena cama e se levantar.– Precisa de algo, senhor?

– Sim...– Haytham suspirou, encarando Katie. – Quero que você cuide dele, no quarto da Agatha, até que ele possa ficar sozinho ou ela possa cuidar dele.

– Sim senhor. – Katie sorriu, pegando o pequeno filhote do chão e o seguindo para o quarto de Agatha. – Olha só quem eu trouxe...

– Fenrir! – Agatha correu até o pequeno animal, sorrindo enquanto lhe acariciava as orelhas. Katie colocou a pequena cama próxima a lareira.

– Fenrir? – Haytham a encarou enquanto ela colocava água no bule, preparando um chá. Katie fez uma mesura educada, se retirando e os deixando a sós. – É um nome... incomum.

– Vi no livro de contos nórdicos. – ela sorriu, enquanto se sentava sobre o baú e pegava o filhote em seu colo. – É chamado de o lobo do Ragnarok... E eu achei bonitinho.

Haytham riu, se sentando ao lado de sua assistente, enquanto ela lhe servia um pouco de chá. Por mais que não se importasse muito com os diversos costumes britânicos, desde a chegada de Agatha, ele passara a apreciar momentos como aquele.

– Bem... – ele encarou a xícara em suas mãos, enquanto ela sorria, abrindo o delicado pote de vidro com guloseimas. – Não vou proibir você de dar suas... escapadas. Mas, você sabe que, tecnicamente, somos inimigos... e você sabe informações valiosas...

– Eu não vou falar nada... Prometo. – ela sorriu para Haytham, voltando a bebericar seu chá antes de falar. – Mas também não vou passar informações sobre ele para o senhor.

– Hummm... Acho justo. – ele sorriu, bebericando seu chá. Não era exatamente o favorito dele, mas era o melhor que ela tinha. – Agora vamos esquecer isso.

Agatha concordou com a cabeça, enquanto aquele silêncio confortável voltava a se instalar entre eles.

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