Neve
Haytham entrou no quarto de Agatha, olhando ao redor. Katie estava sentada, alimentando o lobo, enquanto olhava distraída para o fogo. Ele balançou a cabeça ao perceber que a capa de Agatha não estava no quarto, ela havia saído.
– Para o bem dele, espero que não esteja a usando de alguma forma. – Haytham saiu pisando duro, enquanto seguia para seu escritório. Agatha já havia passado por problemas demais desde que chegara, a última coisa de que precisava era de alguém a usando.
Connor olhou mais uma vez para a figura encapuzada sentada no pequeno tronco do lado de fora de sua cabana, distraída com um livro e batendo os pés, fosse por causa do frio ou por impaciência. De alguma forma, Agatha havia memorizado o caminho para a cabana... E agora ela estava ali, sentada, lendo um livro tranquilamente.
– Eu já vi você... – ela disse sem levantar os olhos, enquanto ele instintivamente dava um passo para trás. – A última rajada de vento balançou seu manto... e eu vi.
Ele saiu das sombras, caminhando até ela, com um semblante sério. Por mais que ela não soubesse, ou se desse conta, aquilo era perigoso.
– Alguém te seguiu? – ele se sentou ao lado dela, olhando atentamente ao redor.
– Não, ninguém lá é idiota a ponto de cometer o mesmo erro duas vezes. – ela sorriu para ele, enquanto se levantava. – Pronto para me dar mais algumas aulas?
– Talvez. – ele a encarou, afastando o capuz do rosto e passando a mão pelos cabelos antes de entrarem. Agatha arrumou os papéis em uma única pilha sobre a mesa, abrindo espaço para a pequena cesta que carregava.
– Espero que não tenha esfriado muito... – ela tirou um delicado bule de porcelana, envolvido em camadas e mais camadas de tecido, e um par de xícaras de dentro da cesta, os colocando sobre a mesa e servindo para eles.
– Não vou tomar isso. – ele olhou com certo desdém para a xícara de chá que ela tinha em mãos.
– Hummm... – ela continuou de pé de frente para ele, o encarando. Ele podia jurar que uma pequena tempestade se formava nos oceanos que ela tinha nos olhos. – Você estava naquela confusão do chá...
Ele concordou com a cabeça, se afastando e se sentando na beirada da cama. Agatha deu um passo à frente, o olhando de cima para baixo.
– Tudo bem... – ela deu ombros, enquanto pegava uma das mãos dele, envolvendo a pequena xícara com ela. O frio congelante que ele sentia até poucos instantes deu lugar a um calor acolhedor, fosse pela bebida quente ou pela mão dela na sua. – Mas está terrivelmente frio... e essa bebida é bem quente... e doce...
– Está bem... – ele cedeu, enquanto um sorriso triunfante surgia nos lábios dela. Agatha voltou saltitante para a cesta, tirando de dentro dela um pequeno embrulho com delicados biscoitos doces. – Mas isso já é exagero. Não vou ter uma 'hora do chá' com você.
– Não é uma hora do chá... – ela riu, enquanto se sentava ao lado dele, segurando a xícara com ambas as mãos. – É apenas uma aluna, tomando chá com seu professor... e alguns mimos como agradecimento...
– Você é sempre tão convincente assim? – ele olhou para ela, rindo quando ela deu ombros. Connor tinha que admitir, apesar de não gostar de chá, tomar algo quente era ótimo. Na verdade, até tocar aquela xícara, ele não havia se dado conta do quanto sentia falta de comer algo quente.
– Mais...? – ela o encarou, segurando o bule e com um enorme sorriso. Relutantemente, ele acenou com a cabeça, encarando o chão. Agatha sorriu, o servindo e guardando o bule em sua cesta.
– Pronta? – ele se levantou, colocando a xícara sobre a mesa e puxando o capuz sobre a cabeça. Ela acenou afirmativamente com a cabeça, antes que ele puxasse o capuz dela, lhe escondendo o rosto. – Está frio demais lá fora. Fique com isso hoje.
– Sim... – ela o seguiu até a pequena clareira onde haviam treinado no dia anterior, voltando a repetir os mesmos movimentos até que ela acertasse o alvo.
– Muito bem. – Connor arrancou a flecha da árvore, verificando a ponta antes de a entregar novamente a Agatha. Ele segurou a mão dela por um instante a mais do que o necessário, o que foi suficiente para a fazer corar.
– E-Eu preciso ir... – ela lhe entregou o arco, nervosa, enquanto puxava a capa e as saias, se virando para voltar para a cabana. – O sr. Kenway deve estar preocupado... E está ficando tarde.
Ela sentiu os pés prenderem as pesadas, molhadas e inúmeras saias de seu vestido, a fazendo tropeçar. Connor a segurou antes que ela caísse, a puxando para si e a levantando do chão, o suficiente para que ela livrasse seus pés.
– Obrigado... – ela o encarou, com os doces olhos brilhando. Antes que percebesse ele a puxou para um beijo, sentindo o corpo dela relaxar em seus braços, enquanto ele a colocava no chão. Ela se afastou, sumindo por entre as árvores. Ele pensou se deveria ir atrás dela, mas Agatha conhecia aquela floresta quase tão bem quanto ele.
Agatha entrou na cozinha, olhando ao redor a procura de Katie. Com o passar dos dias, havia se tornado rotina levar chá e alguns mimos para Connor. Assim como os beijos e as fugas quando a razão lhe voltava. Aquilo não terminaria nada bem.
– Desculpe, srta. Wolfgang. Eu não tive tempo para preparar seu chá. – Katie cortava algumas cenouras, as jogando no grande caldeirão ao seu lado. – Alguns novos recrutas chegaram hoje... Junto com um grupo de homens do sr. Kenway. Todas estamos ocupadas demais preparando acomodações e comidas.
– Não tem problema, Katie. – Agatha sorriu para ela, enquanto olhava ao redor. Katie devia estar mesmo muito atarefada, afinal nem mesmo tirou o bule de dentro da pequena caixa. – Você está ocupada, além disso, eu mesma posso fazer isso...
Katie sorriu, antes de começar a cortar outros vegetais. Agatha olhou com interesse para a mistura que borbulhava no fogo, preenchendo toda a cozinha com aquele delicioso aroma.
– O que é isso? – ela mexeu a mistura, pingando um pouco do caldo em sua mão e provando. – É muito bom...
– O sr. Kenway pediu que eu preparasse um prato especial para seus homens. Como está muito frio, pensei que um guisado seria uma boa ideia. – Katie sorriu orgulhosa, enquanto pegava a pesada panela a colocando no fogo ao lado do caldeirão com o guisado.
– Katie, poderia separar um pouco para mim? – Agatha a encarou a espera da resposta, enquanto ela balançava a cabeça afirmativamente e pegava um pequeno caldeirão de dentro dos armários.
– Não é querendo me gabar, srta. Wolfgang, mas acho que tanto a senhorita quanto seu amigo irão gostar muito. – ela sorria orgulhosa, enquanto enchia o pequeno caldeirão e o enrolava em algumas camadas de tecido para o manter quente. – Precisa de mais alguma coisa?
– Não. – Agatha sorriu para ela, enquanto colocava um par de tigelas dentro de sua cesta. – Obrigado Katie...
Agatha saiu da cozinha, olhando ao redor a procura de Haytham. Ele queria a apresentar a alguns dos novos guardas e ver se ela estava bem, antes que ela sumisse novamente naquela floresta.
– Sr. Kenway... – ele conversava com um grupo de homens de aparência perigosa, que rapidamente assumiram uma postura mais respeitosa na presença dela.
– Senhores, essa é a srta. Agatha Wolfgang. – Haytham fez um gesto na direção dela, enquanto os homens a cumprimentavam com um aceno de cabeça. – É dela de quem irão cuidar.
– Será fácil a encontrar em uma multidão... – um dos homens deu um passo à frente, sorrindo quando Agatha não recuou. – Com uma cor de cabelo tão incomum deve ser difícil se misturar.
– Um pouco...– ela olhou através do homem para Haytham, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. – O sr. disse que precisava falar comigo...
– Sim... – ele olhou ao redor, vendo Marshal passar de cabeça baixa alguns metros a frente. – Precisei soltar o Marshal essa manhã, precisávamos de alguém que pudesse ajudar Charles com os novatos.
Agatha instintivamente levou a mão a testa, tocando o lugar onde estivera o corte. Haytham colocou a mão em seu ombro, a fazendo levantar o olhar e sorrir.
– Tudo bem, senhor. – ela o encarou, enquanto Haytham respondia ao aceno de Lee de modo educado, fazendo com que Marshal olhasse na direção deles e sorrisse de modo cruel. – Mais alguma coisa que eu precise saber?
– Não... Por hora é apenas isso. – Haytham sorriu para sua assistente, enquanto ela fazia uma mesura educada, se retirando em direção a floresta. Haytham se virou para os homens, com os punhos cerrados. – Se ele ousar se aproximar dela, o mate. Se ele se aproximar da porta do quarto dela, o mate. Se ele falar o nome dela, o mate...
– Não precisa se preocupar com a segurança dela, Kenway. – John, o grande loiro líder dos mercenários, olhou para seus homens, enquanto eles sorriam de modo cruel. Ele apertou a mão envolta do punho da espada.– Esse homem pensará duas vezes de agora em diante antes de cogitar fazer mal a ela.
– Espero que sim. – Haytham não pode evitar um olhar preocupado na direção do portão. Ele voltou seu olhar para John e seus homens, sinalizando com a mão a cozinha. – Agora, vamos voltar a nosso acordo.
Connor estava começando a se acostumar a chegar de suas patrulhas e encontrar Agatha sentada dentro da cabana, lendo um livro ou simplesmente cantarolando algo. Geralmente ele ficava alguns minutos do lado de fora, a escutando, antes de fazer algum ruído e entrar.
Mas, ele também estava começando a se cansar daquele joguinho dela. Apesar de com o passar dos dias ela parecer demorar mais para acabar fugindo, e parecer se entregar sempre mais... Ainda assim, ela sempre acabava fugindo, sem nenhuma explicação, como se aquilo fosse errado.
– Estranho... – Connor olhou ao redor, nenhum sinal de Agatha. No instante em que ele pensou em sair para a procurar, ouviu a respiração acelerada dela, saindo rapidamente.
– Desculpe... – ela respirou fundo algumas vezes, se apoiando em uma das árvores. O pequeno sorriso no rosto dela o mostrou que ela estava bem. – Eu me atrasei... Precisei conversar com o sr. Kenway... Um assunto importante e de última hora...
– Venha, está frio...– ele abriu a porta ainda mais, deixando que ela passasse. Agatha colocou a cesta sobre a mesa, abrindo um grande sorriso enquanto retirava o pequeno caldeirão e as tigelas. – O que você tem aí?
– Guisado da Katie. – ela ajeitou mais uma vez os papéis, antes de lhe entregar a tigela cheia. Logo o cheiro de carne ensopada se espalhou pelo pequeno cômodo, enquanto Agatha parava, em pé ao lado dele.
– Não vai comer também? – ele a olhou de canto de olho, enquanto ela balançava a cabeça.
– Hoje não. Não estou com fome. – ela foi para perto da cama, esticando as mantas e ajeitando as coisas, às organizando do melhor modo que podia. – E então, como está?
– Muito bom. – ele levantou os olhos, enquanto ela torcia nervosamente as mãos. – É bom ter algo quente para comer às vezes.
Agatha sorriu, enquanto ia para o lado de fora, levando consigo o arco e a aljava. Connor deixou a tigela já vazia sobre a mesa, saindo e a seguindo para a clareira.
– O sr. Kenway contratou alguns mercenários. – ela puxou a corda do arco, mirando em uma árvore alguns metros a frente. Ele parou atrás dela, acertando a postura dos braços.
– Desse jeito... – ele disse baixo, enquanto segurava as mãos dela. – Isso pode ser um problema?
– Hummm... – ela mirou, soltando a flecha e se preparando para ir buscá-la. – Não. Acho que são apenas para manter as coisas em ordem depois do incidente com o Marshal. E o quadro de guardas precisava ser atualizado, já que alguns homens do outro lado dessa guerra estão por aqui.
– Espero que não haja conflito entre vocês. – pela primeira vez ele se perguntou se era seguro ela estar ao lado de Haytham naquele forte.
– Eu também... Já tive minha cota de conflitos para uma vida inteira. – ela deixou o arco cair, enquanto fechava os olhos e massageava as têmporas, tentando afastar a lembrança ruim. Connor se aproximou dela, puxando melhor a capa ao redor do corpo dela.
– Vamos voltar... Por hoje já está bom.– ele sorriu para ela, se surpreendendo quando ela o abraçou, enterrando o rosto em seu peito e respirando fundo. Ele suspirou pesadamente, passando a mão pelo cabelo dela. – Vamos, está ficando mais frio...
Connor caminhou ao lado dela até estarem próximos o suficiente do forte para que ela pudesse seguir sozinha. Haytham estava do lado de fora do portão, olhando ao redor e sorriu ao reconhecer Agatha. Ela caminhou até ele, que a olhou preocupado, mas pareceu relaxar quando ela disse algo. Ele seguiu com ela para dentro do forte, enquanto Connor se afastava, seguindo para procurar o tal acampamento americano.
Agatha se deixou ficar dentro da água quente, afundando e molhando o cabelo. Ela suspirou pesadamente, enquanto Fenrir rosnava para as porta e para as janelas. Uma batida na porta a assustou, a fazendo se sobressaltar.
– Agatha... – a voz de Haytham a fez se levantar, passando o robe ao redor do corpo e abrindo uma pequena fresta na porta.– Está tudo bem?
– Sim... – ela piscou preguiçosamente, olhando interessada para os homens de John, que estavam armados. – O que está acontecendo?
– Nada, uma pequena confusão com soldados inimigos. – ele olhou de soslaio para os homens atrás de si, que seguiram pelo corredor. – Só... tome cuidado.
Ela acenou com a cabeça, voltando a fechar a porta. Um vento frio a fez apertar o robe ao redor do corpo, enquanto Fenrir corria ao redor dela, saltitante. Uma grande mão cobriu sua boca, enquanto o braço forte passava ao redor de sua cintura, a segurando.
– Por favor, não grite.– a voz de Connor a fez relaxar, enquanto ela concordava com a cabeça. Ele a soltou, se deixando cair sentado no chão. – Obrigado...
– O que aconteceu com você?– ela se ajoelhou de frente para ele, passando a mão pelo rosto dele, sujo de terra e sangue. Connor gemeu de dor, quando tentou se levantar, enquanto Agatha puxava uma cadeira para ele.– Eu...
– Eu estou bem...– ele soltou o ferimento no braço, que ainda sangrava um pouco, fazendo uma careta. – Droga.
Agatha lhe empurrou o casaco do ombros dele, enquanto ele balançava os braços, o deixando cair sobre a cadeira, e ela pegava algumas tiras limpas de pano, limpando com cuidado o machucado. Ela lhe puxou o camisa pela cabeça, procurando por mais feridas.
– Eu estou bem... Pare com isso. – ele segurou a mão dela, puxando as cordinhas do robe. – Você vai me deixar doido se continuar andando com essa coisa assim.
– E-Eu... – ela puxou a mão de volta, ajeitando o robe e se afastando um pouco. Ela olhou para a banheira, a água ainda estava quente. – Eu vou descer e pegar algumas coisas... É... Tome um banho. Eu trago algumas roupas limpas.
– Agatha...– ele tentou a segurar, antes que ela saísse, mas ela já fechava a porta. Connor olhou para a banheira, suspirando e dando ombros, enquanto tirava o que sobrara de sua roupa.
Ela desceu as escadas, descalça, seguindo para a cozinha, pegando algumas coisas. Uma garrafa de vinho, alguns pães de ervas e uma tigela com a sopa do jantar. Ela seguiu correndo em direção a escada, torcendo as mãos nervosamente.
– Voltei...– ela entrou rapidamente no quarto, fechando a porta atrás de si e colocando as coisas sobre o baú. Ela o encarou, corando, enquanto ele torcia os cabelos, deixando a água escorrer pelas costas nuas. Connor se virou para ela, a encarando e se aproximando dela, com a respiração quase tão pesada quanto a dela.
Ela se deixou envolver pelo calor que tomava conta de seu corpo, aquele desejo começando a inflamar e se alastrar como um incêndio. Connor a encarava, a olhando de cima, com os olhos semicerrados, quando ela se levantou na ponta dos pés, lhe plantando um delicado beijo. Ele envolveu a cintura dela, a puxando para si e aprofundando o beijo, antes que ela voltasse a se afastar, enquanto sua mente voltava a pensar claramente.
– Por que você faz isso? – ele a prendeu contra a parede, a encarando com aquele brilho selvagem nos olhos. – Estou começando a cansar desse jogo, Agatha...
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