Eu amo você
A rua estava começando a ficar molhada, a chuva caia fina, porém, constantemente. Com o barulho dos estabelecimentos e dos carros que passavam de um lado para o outro, ambos caminhavam com tranquilidade sobre as gotículas gélidas daquele tardar de domingo.
ㅡ Sakura. ㅡ A voz rouca falhou ao chamar seu nome, talvez pela ansiedade, nervosismo.
ㅡ Vamos achar um lugar tranquilo, não se sinta pressionado. ㅡ Disse calma, olhando-o com um sorriso.
Apesar de manter-se calma, sua mente estava tentando processar os muitos pensamentos. Controlar os pensamentos tinha tornado-se difícil, e não era para menos, com razão. Estava lado a lado com seu passado, caminhando sem rumo pelas ruas movimentadas, andando sobre uma chuva de fim de tarde.
Não sabia exatamente o que iria dizer para ele, entretanto, diria a verdade, mesmo que àquilo destruísse completamente suas barreiras e proteções e que lhe matasse aos pouquinhos. Tinha a oportunidade de jogar toda culpa, desgasto, cansaço, rancor e tristeza que assolava seu coração para fora, mas para isso, precisava ser forte.
O Inuzuka's Coffe fora o ambiente mais plausível para uma conversa descente, a chuva piorava cada minuto, as ruas tornavam-se vazias e os comércios lotavam cada vez mais.
Em uma corrida curta, chegaram ao café com os casacos frios e levemente úmidos, com sorrisos brincalhões e comentários leves, sentiram-se mais à vontade um com o outro.
Realmente, Madara já não era mais o mesmo homem que conhecera. Aquele homem frio e desgostoso, tornou-se um homem com, no mínimo, um pequeno senso de humor.
A garçonete entregou o pequeno cardápio com variedades de cafés, chás, bolos, pães e doces. Dizendo que voltaria daqui alguns minutos, a moça bem educada retirou-se de perto da mesa e voltou ao seu trabalho.
O silêncio era incômodo, apesar de estarem em um ambiente movimentado e repleto de pessoas, tudo parecia tão quieto.
Com o cardápio sobre a mesa, Sakura respirou profundamente e olhou através da vidraça o trânsito. Madara que mantinha-se olhando para as variáveis opções, encarou a Haruno com cautela, ela parecia pensar em algo que não disrespeito a ele, e isso fora o suficiente para fazê-lo olhar para baixo.
ㅡ Já escolheram? ㅡ Questionou a simpática garçonete de cabelos castanhos presos a um coque, seu sorriso era alegre, aparentava gostar do trabalho.
ㅡ Vou querer apenas um café. ㅡ Disse o Uchiha olhando para a moça que anotou seu pedido, olhando de seguida para a Haruno.
ㅡ Gostaria de um chocolate quente e uma fatia de bolo de morango. ㅡ Sorriu receptiva.
Novamente o silêncio retornou, mas do contrário de antes, não haviam lugares para focar a atenção. Sakura acanhada e com uma mistura de vergonha e nervosismo, mexeu em seu cabelo com a mão esquerda, fazendo com que o brilho vindo da vidraça brilhasse em sua aliança. Aquilo não havia passado despercebido por Madara, apesar do tempo em que estava semparada de Itachi, ela ainda usava a aliança de casamento? Talvez fosse impressão, afinal, era um anel, e necessariamente, ele não havia visto com clareza.
ㅡ Sabe, Madara. ㅡ A voz falha da mulher denunciava o quão nervosa estava para iniciar aquela conversa, a barriga parecia conter borboletas rodopiantes. ㅡ Eu não sei os seus motivos, não entendo o que você fez, e muito menos entenderei as suas razões para voltar como ser nada havia acontecido entre nós.
Um nó entalou em sua garganta, ela queria continuar, jogar as coisas sobre ele, dizer que tudo era culpa dele. Mas era errado, era mentira.
Ela havia participado tanto quanto ele, ela havia se entregado na mesma intensidade que ele, ela havia se rendido a ele. Ela também era culpada, como ele.
Mesmo querendo gritar, chorar, se debater contra o chão gelado conseguiria, estava sem voz para continuar e temia isso acontecer.
ㅡ Eu realmente quero entender o que você fez, o que aconteceu... ㅡ Respirou profundamente com os olhos marejados, olhando-o com uma expressão de dor e angústia, ela desabou. ㅡ Eu quero entende você, Madara.
As lágrimas escorreram por suas bochechas rosadas, desceram vagarosamente e findaram-se na blusa que ela usava. O ardor em seu peito tornava-se insuportável ao decorrer de como sua mente se esclarecia, ela sabia que a dor que sentia era algo que não havia como controlar, que doeria muito e machucaria mais, sabia que aquela dor insuportável era seu coração rachado relembrando as feridas que o Uchiha à sua frente havia deixado.
ㅡ Sakura, eu quero explicar tudo para você, eu realmente quero dizer o que aconteceu ao longo desses anos. ㅡ Disse em tom de angústia, desespero. Assim como ela, ele também estava sendo atormentado pelo passado, mas não havia dor, afinal, seu coração não fora estraçalhado em pequeninos cacos.
ㅡ Então diga, conte o motivo da sua partida, o motivo pelo qual me deixou em sua cama vazia e fria, cheia de lembranças de uma noite que eu nunca superei! ㅡ Ela exigiu, com as lágrimas escorrendo sem parar e uma batida alta sobre a mesa.
ㅡ Eu não tive escolha, eu não podia te por em perigo. ㅡ Ele disse pegando suas mãos, olhando em seus olhos verdes ele viu o quão cruel ele havia sido, o quanto ele a havia machucado. ㅡ Eu havia me metido em problemas grandes, matei pessoas para ter poder, dinheiro.
Ele suspirou, levando a mão ao rosto pálido da mulher a sua frente. Com o polegar limpou o rastro de algumas lágrimas que escorreram, e com um sorriso torto fez um pequeno carinho em sua bochecha.
Ela estava imóvel, estática, sem reação ou expressão. Sabia que ele não era um homem bom, de todo, também não era ruim, mas a ficha parecia não cair.
ㅡ Não me olhe assim, por favor. ㅡ Ele afastou a mão de seu rosto e recostou as costas na cadeira de madeira pouco confortável, com um suspiro longo e os olhos fitando o teto de madeira envernizada, ele prosseguiu: ㅡ Eu estava sendo caçada por famílias grandes, e precisei arranjar uma maneira de sumir do radar até conseguir arranjar uma forma de amenizar a situação.
ㅡ Por que não me contou, ou ao menos me levou junto com você? ㅡ Questionou quase que em uma voz inaudível.
ㅡ Era perigoso, eu não imaginava passar por muito do que passei. ㅡ Ele suspirou e encostou os cotovelos sobre a mesa, não era adequado, mas os modos não eram importantes. ㅡ Fiquei vivo por sorte.
Com a garganta coçando, a Haruno iria perguntar-lhe o que havia acontecido mas a garçonete retornou com os pedidos sobre uma bandeja. Limpando as lágrimas e desviando o olhar, ela manteve-se silencioso enquanto bebericava um pouco do chocolate quente. Madara agradeceu e viu a moça se retirando, olhando para a bela mulher de cabelos róseos e vendo sua expressão entristecida, seu estado mal cuidado e a magreza evidente apesar das roupas largas, ele sentiu a consciência pesar mais. Ele a havia destruído.
ㅡ Eles me encontraram e mandaram alguém para me matar, tomei um tiro na barriga e um no ombro. Perdi muito sangue e fui deixado para morrer, mas a mulher com quem me casei nesse meio tempo me encontrou. Na época não tínhamos nada, nem mesmo a conhecia. E devo minha vida à ela. ㅡ Ele olhou o café, tão encuro quanto sua alma, tão quente quanto sua vontade e tão amargo como as palavras que saiam de sua boca.
ㅡ Então essa é a mulher que você trouxe quando voltou, a de cabelos roxos. ㅡ Ela mais disse como uma afirmação do que pergunta, e ele sabia disso, entretanto achou melhor concordar com um acenar leve de cabeça. ㅡ A menina é sua filha, não?
Com um riso nasalado ele negou com a cabeça emquanto tomava um gole do café, Sakura não entendendo o olhou inquistiva. Ele explicou com detalhes sobre Konan e a garotinha, e mesmo que inconsciente algo dentro de Sakura sentiu-se aliviado, talvez seu ego?
ㅡ Bem, resumindo, ela me traiu e engravidou, e bem, eu servi de pai para a menina. Gosto dela como uma filha de coração, mas não, ela não é minha filha de sangue.
Os pensamentos conflitantes que rondavam Sakura a anos estavam finalmente sendo respondidos, apesar das dúvidas que restavam, ainda sim estava satisfeita. Sentia-se mais leve, talvez o peso que carregou durante o tempo tenha se esvaido em parte como a chuva que caia fora do café, apesar de fraca, ainda sim era contínua.
Terminando seu café ela esperou que Madara continuasse, mas ele apenas ficou olhando-a, talvez esperando algum questionamento ou seu ponto de vista sobre tudo isso.
ㅡ Eu pensei que você apesa havia me deixado, verdadeiramente eu achei que tinha ido embora para nunca voltar. Até vê-lo em minha porta, após seis anos, com uma filha nos braços e uma mulher ao lado. ㅡ Doeu dizer e relembrar, mas precisava sentir o amargor corroer sua garganta, precisava encarar o que havia escondido por tanto tempo. ㅡ Quando minha vida havia enfim se alinhado, você apareceu como em um passe de mágica, um estralar de dedos.
Ela o olhou nos olhos, respirando calmamente.
ㅡ Eu não entendo o que levou a cometer crimes, e fugir como um rato foge de um gato. Mas eu merecia uma explicação, merecia uma única resposta e você não me deu, Madara. Você me jogou junto de Itachi a uma parede, nos deu opções inadmissíveis e partiu como se nada mais importasse, a não ser você. ㅡ Olhando para ambas mãos sobre a mesa ela rodou a aliança de casamento sobre o dedo. ㅡ Você não imagina o quanto eu temi, o quanto eu chorei e o quanto eu me machuquei durante todo esse tempo.
Ele não saberia, nem mesmo se desenhasse, ele não sentiria sua dor nem mesmo que explicasse, todavia, tentaria ao menos entender para que pudesse recomeçar. O Uchiha desejava recomeça, desejava estar ao lado dela para superar o passado, mas para isso eles precisavam se resolver.
Aceitar as palavras dela estava sendo fácil, difícil era não sentir a dor que elas causavam, ele sabia que a havia machucado muito mas não imaginava que seria de uma medida tão profunda.
ㅡ Madara, você tirou de mim o que eu mais amei. Mas apesar de tudo isso, eu te perdoei, eu ainda te amei. ㅡ Ela suspirou segurando o choro. ㅡ E ainda te amo, mas não sei se consigo esquecer o que vivemos antes e o que eu sofri por você.
ㅡ Sakura, não chore. Me desculpe. ㅡ Ele estava desesperado, vê-la chorar ao ponto de soluços fortes virem a tona o deixou em pânico. Ele não sabia o que fazer, não sabia como agir e estava confuso em seus próprios pensamentos. ㅡ Eu me arrependo de tudo que fiz você passar, de todas as dores que te causei, de todos machucados que deixei, de tudo que te magoou. Eu fui um completo idiota, sem medidas. Eu amei você durante todo esses anos.
Ela o olhou, ele havia realmente mudado, assumiu seu erro, justificou-se e acima de tudo, chorou. Mas, era suficiente essa mudança? Era verdadeira?
Sakura o olhou nos olhos, sua expressão estava triste, ele estava em pânico.
ㅡ Sakura, eu amo você, desde a faculdade, desde a maldita faculdade.
.
Após muito tempo, eu retornei.
Devo a vocês um final, e com o bloqueio fica difícil escrever.
Espero que gostem dos capítulos que estão por vim, afinal, eles serão os últimos.
Estamos na reta final, vejo vocês no próximo capítulo!
:3
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