Prólogo: California

Cooper

E lá estava ele. O sorriso sacana estampava seu rosto, os dentes alinhados brilhavam como pérolas, a barba estava bem aparada e o cabelo cacheado caía sobre a testa. A pele era marrom dourada, era bem viçosa e parecia ser muito mais macia que a minha, os olhos tinham um tom de chocolate amargo, escuros e intensos.

Mas lá também estava eu, nada interessada no que ele tinha a me dizer, porque, honestamente, eu estava cansada de saber que ele tinha um doutorado mesmo sendo tão jovem. Não me impressionava em nada, ele simplesmente trabalhava no mesmo buraco do inferno que eu, e, mesmo assim, tudo o que tinha a dizer era para tentar me impressionar. Ele não estava conseguindo.

Claro, eu não deixava de esboçar um sorriso quando ele terminava de dizer suas frases de efeito, eu não queria parecer uma completa babaca, mas com praticamente vinte e três anos, tudo o que eu queria era poder dizer "Nossa, que cara chato" e sair sem dar maiores explicações.

Eu não faria aquilo. Parte de mim ainda era a mesma menina tímida de sempre, que não tinha coragem de impor muitas coisas, a outra parte passara tempo demais com Adalia Payne e estava prestes a mandar Jesse Hale para o inferno.

Mas eu não era Adalia Payne, o que significava que eu precisaria passar por toda a tortura remanescente daquela noite até ele decidir me levar para casa.

Tamborilei os dedos sobre a mesa, encarando o prato vazio do hambúrguer que tinha comido. Eu não deixaria ele pagar a conta, eu tinha dinheiro, eu podia me virar daquela vez. Jesse sorriu, conformado, quando percebeu que eu não estava com tanta vontade de prosseguir com o assunto das moléculas de gás carbônico. Ele se remexeu na cadeira e tirou a carteira do bolso rapidamente.

— Vou pagar isso aqui e te levo para casa! — Disse ele, casual.

— Eu pago minha parte — Abri minha carteira e tirei alguns trocados de dentro.

— Não precisa, gatinha, eu tenho tudo sob controle — Ele sorriu, sacana.

Gatinha... Pensei. Uma pontada no fundo do meu peito me fez engolir em seco, meu estômago revirou e meus pulmões se comprimiram de repente, puxando minhas costelas junto deles. Gatinha... Eu não queria ser chamada de gatinha por Jesse Hale, eu mal queria estar ali, do outro lado da mesa, encarando ele e seus olhos castanhos percorrerem o meu rosto como se eu fosse algum tipo de obra de arte.

Jesse não me deixou pagar a conta, por mais que eu tivesse insistido. Eu detestava aquela sensação. Cinco anos antes, eu não teria reclamado ou me importado, mas ali, com vinte e dois anos nas costas e um emprego de merda, eu detestava a ideia de que o professor de química estivesse pagando o meu jantar porque a porcaria do boato de que a professora de artes estava com o aluguel atrasado tinha se espalhado pela escola inteira.

Todo mundo sabia, porque uma das alunas das minhas turmas de High School me ouviu negando dinheiro do meu pai para pagar o aluguel no intervalo, enquanto eu estava escondida no banheiro mais escondido da escola, jurando que não seria descoberta.

Jesse abriu a porta para que eu entrasse no carro.

Aceitei sair com ele mesmo recebendo os avisos de algumas outras professoras. Ele atirava para quem tivesse um alvo na testa, e não perdia uma oportunidade. Era um galinha descarado e, com certeza, um babaca, mas, de alguma forma, eu achava que seria capaz de me atrair por aquela pose de galã que ele tinha, queria provar um pouco do seu sabor e saber se seria capaz de me apaixonar por ele e, quem sabe, ter um relacionamento que me desse frio na barriga só de pensar, mas depois daquele jantar, todas aquelas ideias idiotas já tinham ido por água abaixo. Jesse Hale era um saco.

— Pode passar a noite lá em casa, se quiser — Ofereceu ele, e eu franzi o cenho, incrédula. — Ah, claro, você não faz o tipo que faz essas coisas no primeiro encontro. Tinha me esquecido disso!

Revirei os olhos com tanta força que pensei que eles fossem cair da minha cara.

— Não me leve a mal, mas eu estou cansada e a semana ainda não acabou. Amanhã tenho seis aulas para dar! — Respirei fundo e ele riu.

— Nem me fala das aulas... — Ele tamborilou os dedos sobre o volante. — Sabe o Connor Wright, do grupo C? — Perguntou e eu confirmei com a cabeça. — Ele estourou o becker na última aula e a mistura, por algum motivo, ficou inflamável. Tô com medo de que ele tenha tentado fazer alguma coisa para ligar os rociadores de incêndio!

— Connor é um garoto difícil, mas tem um bom coração — Dei de ombros. — Ele quer atenção o tempo inteiro, é complicado...

Jesse confirmou com a cabeça, acelerando o carro para sair do estacionamento.

— Ouvi dizer que os pais daquele garoto vivem em pé de guerra — Comentou. — Por isso ele é assim, todo problemático!

Eu não podia dizer que tinha achado aquele comentário completamente babaca, mas sabia que não estava tão errado assim. Connor tinha grandes problemas com os pais, que estavam em processo de divórcio, ele sempre acabava fazendo alguma coisa para que o foco dos pais deixasse de ser o divórcio e se tornasse o garoto "problemático" que tinha aprontado mais uma dentro da escola, mas não costumava dar certo, mesmo que ele fosse empenhado.

— É, eu ouvi alguma coisa assim, também — Espremi os lábios, olhando para a janela.

Encarei a paisagem ficar para trás enquanto o carro era guiado pelas ruas. A Califórnia era muito diferente de Brookline e suas casas coloniais e em estilo cape cod, em todos os sentidos. Pelas ruas, as luzes dos postes iluminavam o asfalto e o trânsito estava se aquietando aos poucos, já estava tarde.

Jesse não demorou mais de vinte minutos até que parasse o carro na frente da pequena casa alugada que eu morava. Olhei-o rapidamente, porque sabia que seus olhos não desgrudavam de mim, ele queria um beijo e eu sabia daquilo. Eu não queria beijá-lo, mas, de certa forma, sabia que talvez teria de fazê-lo para evitar algumas dores de cabeça.

Respirei fundo, olhando novamente para a minha casa. Meu coração acelerou, de repente. Por que a memória dele sempre volta? Me perguntei, trancando os olhos, tentando afastar o par de olhos verdes que invadira minha mente.

— Espero que tenha se divertido — Disse ele, rompendo o silêncio.

Sorri para ele um sorriso pequeno e meio sem jeito.

— Foi legal — Menti.

— Podemos fazer de novo, qualquer dia! — Ele abriu um sorriso petulante. — Eu estarei completamente disponível para você!

— É, podemos ver! — Coloquei a mão na maçaneta do carro, destrancando a porta.

Jesse pendeu em minha direção e eu recuei automaticamente, engolindo em seco.

— Ah, me desculpa... — Ele riu, sem graça. — Sinto muito por isso, quem sabe na próxima?

Confirmei com a cabeça, pulando para fora do carro, apertando minha bolsa contra meu corpo e correndo para dentro de casa.

Meu coração queria explodir dentro das costelas. Tranquei a porta e coloquei as mãos sobre o peito, tentando fazer com que meu coração parasse de pular como se fosse um maluco alucinado. Qual é a droga do meu problema? Cravei os olhos, jogando a bolsa sobre a poltrona da sala e jogando-me sobre o sofá, recobrando o ritmo da respiração.

Era só um beijo, não o fim do mundo! Passei a língua sobre meus lábios, espremendo-os logo em seguida. Cinco anos tinham se passado, eu tinha me formado na faculdade dos meus sonhos e, apesar de ter feito o estágio dos meus sonhos, as vagas de emprego desapareceram quando fui me oficializar na equipe da empresa e precisei virar professora de artes em um High School. Eu detestava aquele emprego, mas era o que vinha me sustentando desde o começo do ano, ou quase isso, já que eu sempre pagava o aluguel com certo atraso no prazo.

Tirei meu celular do bolso e respondi as mensagens de Angeline, dizendo que Adalia passaria algum tempo em Brookline, junto de Ethan, para "esfriarem a cabeça". Eu queria ter a regalia que aqueles dois tinham quando algumas temporadas de teatro terminavam, eles estavam fazendo o nome deles muito bem, e eu me alegrava com aquilo, mas sentia falta dos velhos tempos, quando eu não precisava ver Angeline, Michael, Adalia e minha família atrás de uma tela de celular.

Abri uma das minhas redes sociais e me deparei com uma foto dele. Seus olhos verdes estavam fixos no colega de time, ambos riam com mais uma vitória do time que tinha oficializado sua carreira no futebol americano, ele continuava tão bonito quanto cinco anos antes, quando nos vimos pela última vez. Não. Ele estava mais bonito do que quando nos vimos pela última vez, e aquilo era uma droga. O cabelo escuro estava maior e mais despojado, e eu não sabia dizer se era por vontade própria ou por desleixo, ele finalmente tinha barba, barba de verdade, e, em algumas fotos, ela claramente estava por fazer.

Ele estava mais encorpado que quando éramos adolescentes, mas o estilo e o olhar de menino problema ainda eram sua marca registrada, e não era difícil ligar a televisão e se deparar com o rosto dele em algum noticiário durante a temporada de futebol americano. Ele sempre estava lá, e meus olhos sempre o encontrariam de alguma forma, querendo ou não.

Ele era o meu fantasma particular. Ninguém da Califórnia sequer imaginava o que tínhamos vivido oito anos antes, e eu sabia quantos olhos ainda se viravam para ele. Daniel tinha esse dom, um talento natural para aparecer em qualquer lugar.

Até as pessoas que menos acompanhavam futebol americano sabiam quem era o famoso "jogador com pinta de galã de filme", todos sabiam quem era Daniel Carter e o que ele fazia, todos sabiam o quão alinhados eram os seus dentes e o quão carismático ele poderia ser.

Curti a foto que ele tinha postado, eu sabia que ele veria a minha curtida no meio das suas milhares de notificações nas redes sociais, simplesmente porque ele nunca deixava eu me esquecer que ele sabia que eu estava bem e vivendo a minha vida, a sua presença nas minhas redes sociais também era um dos meus fantasmas, ele sempre curtia minhas coisas, talvez para que eu soubesse que ele ainda se lembrava de mim.

Me levantei preguiçosamente, coloquei o celular para carregar e tomei um longo banho, deitando-me na cama e fechando os olhos, eu queria que o dia seguinte chegasse logo e terminasse logo, queria que o fim de semana chegasse para que eu pudesse me livrar da dor de cabeça que os alunos me davam.

***

O encarei engolir em seco, parado na frente da porta da entrada da minha casa, em Brookline. O terno preto caía perfeitamente sobre seus ombros, mas o nó da gravata estava uma droga, e sempre me dava vontade de rir quando olhava para aquela cena, porque não entrava na minha cabeça como ele poderia simplesmente não saber dar nós em gravatas morando com um empresário.

Eu me arrisquei a arrumar o nó da gravata, mas ele afrouxou o laço e jogou-a sobre o sofá da sala, suspirando, frustrado. Abriu os primeiros botões da camisa branca e ergueu uma de suas sobrancelhas para mim. Eu não consegui não retribuir o sorriso.

— Eu odeio essa droga — Disse ele, por fim.

— Tudo bem, não precisa usar, se não quiser! — Dei de ombros.

— Você está linda, vossa majestade — Ele estendeu o braço para mim, abrindo um sorriso bobo.

— Muito obrigada, plebeu! — Fechei os olhos e ergui o queixo, circundando seu braço e deixando que ele me conduzisse até o carro.

Era o tão esperado PROM, o ponto final do nosso High School. E quando entramos no carro, o mundo parecia pertencer somente a nós dois. A música do rádio era praticamente a trilha sonora do nosso próprio filme de romance. Olhei para ele rapidamente enquanto ele não tirava os olhos do trânsito. Eu gostava de olhá-lo sem que ele percebesse. Gostava de anotar mentalmente todos os detalhes que eu gostava nele quando ele não fazia ideia de que eu estava o olhando.

Gostava de como ele segurava o volante e de como ele tencionava o maxilar sempre que pisava no freio. Gostava de como ele era sempre cauteloso nas curvas e da mordiscada que ele dava no lábio inferior toda vez que parava em um sinal vermelho, encostando as costas por inteiro no banco. Eram tiques pequenos que ele mal percebia que fazia.

Ele parou o carro no estacionamento e, juntos, com as mãos dadas — encaixadas perfeitamente, como se fossem planejadas para se complementarem —, caminhamos até o ginásio da escola.

Era uma noite de festa, todo mundo estaria completamente feliz por estarem colocando o tão esperado ponto final no High School, e eu tinha prometido que não anteciparia qualquer tipo de cenário hipotético sobre o futuro dentro da minha cabeça.

Ethan nos cumprimentou levantando um copo com ponche, erguendo as sobrancelhas e ajeitando a gravata borboleta logo em seguida.

— Finalmente essa droga terminou — Disse ele, parando de frente para o melhor amigo. — Mal posso acreditar que você se formou, cabeça-oca!

— Eu também não acredito que me formei, acho — Daniel estreitou os olhos.

— Ele não teria feito isso sem a minha ajuda, claro — Disse, e ele me cutucou com o cotovelo. — Não adianta retrucar, você sabe que é verdade!

Daniel deu uma olhada em volta. O último ano foi complicado para ele, para mim também. Depois que minha irmã e Jordan se formaram, Daniel se sentiu um tanto perdido, como se tivesse sido lançado no meio de um labirinto sem um mapa, e depois de tantos desafios, especialmente dentro do time, sem o seu vice-capitão para puxar sua orelha sempre que ele fizesse uma besteira, Daniel finalmente se sentia orgulhoso de estar colocando um final no High School e rumar para a vida adulta definitivamente.

Engoli em seco. A luz roxa que piscava por todo o ginásio nos iluminava rapidamente, e no meio do piscar das luzes, consegui vê-lo virando-se para mim.

— Michael e Angeline estão numa mesa com as coisas do Ethan, quer ir para lá também? — Perguntou ele, curvando-se em minha direção para que eu o ouvisse melhor.

— Que tipo de pergunta idiota é essa, Carter? — Ethan zombou e Daniel revirou os olhos.

Confirmei com a cabeça.

Nós rumamos para a mesa que Michael e Angeline ocupavam. Adalia não demorou para chegar, junto de Rebecca. E, aos poucos, enquanto as horas passavam e nós jogávamos conversa fora, entre danças e risadas, a festa foi se desenrolando com um ar leve e quente.

Eu conseguia ver os sorrisos nos rostos de cada um deles, e aquilo me trazia leveza também, eu estava animada e feliz, mas tudo pareceu cair sob meus pés, de repente. Por um instante, percebi que estávamos conversando sobre nossas faculdades e o nosso futuro como jovens-adultos que tinham uma vida inteira pela frente.

Meus ombros despencaram, acho que ficou na cara que eu tinha ficado extremamente desconfortável com o assunto, porque Daniel colocou a mão sobre minha perna. O moreno curvou-se para o lado, senti sua respiração tocar a base da minha orelha e ele, baixinho, sussurrou:

— Tá tudo bem?

— Sim, não se preocupe! — Sorri para ele.

Ele apertou levemente minha perna e sorriu de volta para mim, endireitando a postura, voltando para a conversa, empolgado porque tinha passado para a Universidade de Michigan, onde ele entraria para o time de futebol americano pra tentar ingressar de vez na carreira profissional. Ele não fazia ideia ainda, ninguém fazia, na verdade.

Eu tinha conseguido a bolsa que precisava para entrar na faculdade dos meus sonhos... Do outro lado do país.

Me mudar para a Califórnia mudaria todo o rumo da minha vida, e entre Michigan e a Califórnia existiam duas mil e quatrocentas milhas.

Meu coração se contorceu quando a imagem da carta de admissão da Stanford brotou na minha mente, e quando me dei conta, já tinha ficado tempo demais encarando a mesa diante dos meus olhos. A música mudou de repente, vindo junto de um anúncio para que os casais se preparassem, já que seriam revelados o rei e a rainha do baile.

Pressionei as pálpebras, tentando recobrar a consciência da realidade. Virei-me para o palco, onde o DJ curvava-se para o lado, ouvindo a presidente do comitê do baile cochichar o resultado em seu ouvido. Ele ergueu as sobrancelhas e endireitou as costas e segurou o microfone em frente à boca.

— O rei e a rainha do baile são Daniel Carter e Rebecca Hall! — Anunciou, arrastando um monte de palmas e assovios.

Daniel virou-se para Rebecca e ambos se viraram para mim. Não era nenhuma novidade, era mais que óbvio que eles venceriam, as duas pessoas mais carismáticas e bonitas da nossa turma eram eles dois. Dei de ombros e sorri para eles.

— Podem ir em frente, eu espero a próxima música lenta, você tá me devendo uma, Dan! — Dei um soquinho em seu ombro e ele riu.

— Tudo bem, então — Ele levantou-se, estendendo o braço para Rebecca.

Os dois caminharam em direção ao palco e as coroas douradas foram colocadas sobre suas cabeças cuidadosamente. Rebecca empurrou a beirada da sua, ajeitando-a para que se assentasse melhor sobre seu penteado e, juntos, ambos desceram para o meio da pista de dança quando a música começou. Ele segurou-a pela cintura e ela enlaçou o pescoço dele.

Eles riram nervosamente, como duas crianças fazendo bagunça, e conversaram durante a dança inteira, um olhando para a cara do outro como se encarassem seus melhores amigos, não tinha maldade naquilo, nem segundas intenções. Ele não curvou-se para beijá-la, e ela não reclinou sua cabeça na curva do pescoço dele. Eles apenas riam, como se tudo aquilo fosse uma grande brincadeira.

— Ah, eu queria ser a rainha do baile — Disse Angeline, bebericando o ponche.

— E correr o risco de virar o pé com esse salto ridiculamente enorme que você escolheu? — Michael ergueu uma de suas sobrancelhas. — Você mal tá conseguindo andar com ele!

— Não é verdade! — Ela protestou, encarando nosso melhor amigo, tentando buscar em sua mente um bom argumento para contradizê-lo. Ela suspirou, desistindo. — Eu odeio quando você tem razão, que saco!

Adalia riu, balançando a cabeça.

— Tem certeza de que queria ser rainha do baile? — Adalia perguntou, olhando para Daniel e Rebecca. — Você teria que dançar com o Carter. Não tinha como ele não ser o rei do baile...

— Que droga, por que a gente tinha que ser da mesma turma? — Angeline revirou os olhos.

A loira puxou o copo com ponche e deu mais uma bebericada.

— Quando começar a música lenta, vou dançar descalça! — Disse ela, tirando o salto. — Você vai dançar comigo, Mike!

— Quem disse que eu quero dançar? — Ele cruzou os braços, birrento.

— Eu não tenho a droga de um par, seu idiota, eu fui chutada pelo meu namorado!

— Ex — Corrigiu Adalia, provocativa.

— Tanto faz! — Angeline suspirou. — Eu quero dançar com alguém!

Michael relaxou a postura, soltando o ar lentamente pelos pulmões. Ele remexeu-se na cadeira, tentando achar uma posição mais confortável. Aquele tipo de coisa — dançar no meio de todo mundo, aparecer, saber que teria gente observando — deixava Michael extremamente desconfortável, e Angeline sabia, mas sempre pegava no pé dele.

Angeline costumava dizer que Michael precisava superar aquele medo excessivo de passar vergonha na frente das pessoas, e Michael sabia que já tinha perdido grandes oportunidades por conta daquele medo, mas seus senso de autopreservação ainda era muito grande.

— Eu sou desajeitado demais pra isso, Angie!

— Posso dançar com você, se quiser — Ethan pronunciou-se, mas logo virou-se para mim. — Mas também quero dançar com a Allison!

— O Carter não vai achar ruim? — Michael perguntou, apoiando o rosto nas mãos.

— Ele não liga — Comentei.

— E eu sou gay — Ethan estreitou os olhos. — Queria dançar com o Tom, mas ele se mudou antes de termos a oportunidade de nos formarmos juntos!

Adalia suspirou, impaciente.

— Eu danço com você, Angeline! — Disse ela, puxando a loira pelo pulso.

Ethan olhou para mim com as sobrancelhas erguidas e um sorriso conformado no rosto.

— Você não tem escolha, vamos! — Ele estendeu o braço para mim.

Enlacei meu braço no de Ethan, que me conduziu até a pista de dança.

Assim como Michael, eu não gostava muito de dançar, achava que eu era desengonçada demais para fazer aquilo, mas era o tipo de experiência que eu não poderia perder por ter vergonha do que os outros poderiam pensar ao meu respeito.

Como o centro da pista de dança era para Daniel e Rebecca, Ethan e eu paramos mais para o canto, talvez o mais perto possível da mesa, assim, se tudo desse errado e nos enroscássemos com as pernas, poderíamos correr de volta para a mesa sem sermos percebidos.

Segurei Ethan pelos ombros, enquanto ele, cuidadosamente, me segurava pela cintura. Ethan era quase tão alto quanto Daniel, o que fazia com que nossa diferença de altura parecesse quase cômica.

No ritmo da música, nós balançamos lentamente de um lado para o outro. Ethan não desviava os olhos dos meus, de alguma forma, como se tivesse um nó na garganta e não soubesse como começar a falar. Mais para frente, mais perto do meio, Adalia e Angeline dançavam entre gargalhadas divertidas, porque Angeline não fazia ideia de como conduzir ou ser conduzida, então as duas travavam uma batalha para tomar o controle da dança.

— Qual o problema? — Perguntei para ele. — Desembucha!

Ethan deu de ombros, rindo abafado.

— Nada demais, na verdade — Confessou, baixando os olhos para o espaço entre nós dois. — Acho que eu só queria te agradecer, na verdade...

Franzi o cenho, confusa. Eu não me lembrava de ter feito qualquer favor para que ele me agradecesse.

— Pelo quê? — Indaguei, rindo.

— Ah, por muita coisa, se quer saber! Graças a você, eu tenho menos dores de cabeça! — Ele balançou a cabeça. — Mas especialmente por amar ele. — Ethan olhou para Daniel e eu segui seu olhar. — Sabe como é, eu sou o melhor amigo de infância daquele imbecil, conheço ele como a palma da minha mão e sei o quão bem você faz para ele, e isso me deixa feliz também. Obrigado por isso!

— Mas isso não é um favor — Eu ri, desconcertada. — Não é um peso para mim amar aquele idiota!

— Sei disso — Meio melancólico, ele virou o rosto em minha direção. — Mas... Obrigado por cuidar dele!

Sorri para Ethan genuinamente, meu coração, de alguma forma, se retorceu dentro do meu peito. Ele também cuidava do Daniel como se fosse um irmão, e Daniel não ficava para trás. Ele cuidava de nós dois, e aquilo doía de alguma forma. Não costumava doer, mas, ali, no PROM, doía tanto que eu queria ser capaz de voltar no tempo.

Ethan talvez tenha cuidado do Daniel e do coração dele muito mais do que eu, por muito mais tempo. Ethan estava junto com Daniel desde que eles eram bebês, eles cresceram juntos, eles estiveram um do lado do outro em todos os piores dias que viveram, e Ethan esteve do lado do Daniel o tempo inteiro quando eu era o motivo dos dias mais sombrios que Daniel Carter viveu.

— Eu também tenho que te agradecer, então — Suspirei e ele riu. — Sem você, ele provavelmente já estaria morto ou preso, vai saber. Ele é meio doido, não bate bem, é bom ter um cérebro funcional por perto!

— Não é pra tanto, vai — Ele riu, olhando novamente para o melhor amigo, que gargalhava junto de Rebecca, praticamente sem conseguir dançar. — Ele é um cara legal e tem um bom coração, mas, é, inteligência não é lá o maior atributo que ele tem a oferecer. Como você se apaixonou por ele, francamente? — Ele riu, olhando-me, incrédulo. — Se apaixonar por ele é quase um contrato vitalício como professora de matemática básica!

— Ele não é tão burro assim — Eu ri também, curvando-me para frente. — Ele só é preguiçoso!

— Sim, só não deixa ele saber disso — Ele jogou a cabeça para trás. — Era terapêutico ver ele quebrando a cabeça com a lição de casa!

— Nem me fala!

Mas, de repente, ele estava ao meu lado. Daniel deu um tapinha no ombro do melhor amigo, que entendeu o recado. Ethan sorriu para mim e eu o agradeci pela dança. O loiro passou minha mão para a do melhor amigo, que abriu um sorriso quando passou os olhos sobre meu corpo dos pés à cabeça.

— Me concede essa dança? — Ele perguntou.

— Eu deveria, senhor Daniel Kellan Carter? — Ergui uma das minhas sobrancelhas e ele hesitou, confuso. — Claro que concedo, idiota!

Ele riu, aliviado. Suas mãos deslizaram sobre minha cintura, colando meu corpo ao dele. Não havia espaço como quando ele dançava com Rebecca ou como quando eu dançava com Ethan, eu pude sentir e ouvir seu coração batendo forte dentro de seu peito quando me recostei ali. Fechei meus olhos e senti seus dedos deslizarem carinhosamente pelas minhas costas descobertas.

Engoli o nó na garganta. Memorizei seu perfume e sorri quando percebi que ele, propositalmente, tinha usado o perfume que eu mais gostava. Lentamente, ele conduzia nossos corpos no ritmo da música.

Levantei meus olhos aos dele, não me senti muito surpresa ao encontrá-lo já me olhando com aquele sorriso bobo curvando seus lábios vermelhos e arredondados, eu sorri de volta, porque amava receber aquele sorriso diretamente para mim. Não era dolorido amá-lo, eu não sentia minhas juntas implorarem por misericórdia quando estava junto dele, não sentia medo e não me sentia insegura, mas algo no fundo do meu peito me fazia querer desmoronar ali mesmo, e eu não queria estragar a noite.

Algo no fundo do meu peito me fazia querer estar ali, dentro de seus braços pelo resto da eternidade.

— Eu te amo — Disse para ele.

Vi seus olhos brilharem mais do que deveriam. Você sente também, não é? Também está sentindo essa dor no fundo do peito, não está, Daniel?

Eu sabia que ele também era capaz de sentir aquilo. Sabia que o fundo de seu peito também queria explodir em mil pedaços, sabia que ele queria congelar aquele momento pela eternidade, e o brilho que correu por seus olhos quase me fez acreditar que ele tentou reprimir as lágrimas de descerem pelas laterais de seus olhos incrivelmente verdes.

— Eu também te amo — Disse ele, curvando-se para frente, me envolvendo em um abraço apertado, grudando nossos corpos ainda mais. — E eu vou te amar pelo resto da minha vida!

Meus dedos cravaram no tecido do paletó dele, enterrei meu rosto em seu peito e tensionei os dentes, eu não queria ouvir aquilo, não naquele momento. Eu preferia que ele tivesse permanecido calado, sem me dizer o óbvio, porque aquilo reverberou nos meus ossos e sacudiu toda a minha estrutura.

Ele me afastou um pouco. Seus dedos escorregaram pelo meu pescoço e sua mão se encaixou no meu rosto, me puxando em sua direção enquanto ele curvava-se para alcançar meus lábios, nas pontas dos pés, eu o ajudei a encurtar o caminho.

Ele grudou nossos lábios com tanta vontade que tive medo de que nunca mais seria capaz de esquecer o gosto que aquele beijo tinha — chiclete de menta e ponche de frutas, eu não esqueci. Tinha gosto de despedida, de alguma forma. Daniel me circundou com seus braços e grudou nossas testas quando finalmente encerramos o beijo, seus olhos fixos nos meus, a respiração descompassada e os corações acelerados. Eu sabia, ali, que nós tínhamos chegado ao fim, não porque queríamos, mas porque precisávamos seguir por caminhos diferentes.

— Eu não quero que hoje acabe — Disse ele, por fim, rompendo o silêncio e rasgando a música lenta pela metade.

Abri os olhos com a respiração ofegante. Levei a mão ao peito e senti meu coração pular como um maluco, eu não tinha descansado, na verdade, parecia que tinha acabado de correr a maratona. Deslizei o olhar por todo o meu quarto e então percebi que eu tinha quase vinte e três anos, não dezoito, e que Daniel Carter tinha ficado para trás, naquela noite. A nossa última noite.

Uma pontada no peito me fez baixar os olhos para minhas próprias pernas, cobertas pela manta fina e verde. No fundo, nem eu e nem ele queríamos o final de nós dois, mas eu não sabia dizer se, por algum motivo mágico, ele ainda estaria disponível. Ele ainda era o Daniel Carter, o cara encantador, engraçado, carismático e sensível, não era difícil que se apaixonassem por ele, e, intenso como ele sempre foi, não era difícil imaginar que ele também já teria se apaixonado novamente.

Eu sabia que precisava seguir em frente, mas não era tão fácil quanto eu queria que fosse.

Por algum tempo, pensei que tinha superado aquele amor que eu sentia por ele, pensei que tinha me convencido de que as coisas tinham finalmente chegado ao fim e que eu estava completamente pronta para encontrar um novo alguém, ou apenas para permanecer sozinha, porque eu não fazia questão. Saí com alguns caras, conheci pessoas novas, fiz novos amigos na Califórnia, mas todas as vezes em que eu voltava para casa e ligava a televisão e, por ironia do destino, o encarava estampando uma manchete bombástica sobre o talento nato que ele tinha para o esporte, eu sentia o fantasma que ele representava voltar a me assombrar.

E não foram poucas as vezes em que eu me pegava sonhando com ele. Fechar os olhos, por vezes, era como uma sentença de morte. Eu ainda sabia como era a textura da pele dele, o sabor dos lábios dele, o cheiro do seu perfume favorito e do desodorante que ele costumava usar. A lembrança dele ainda era tão vívida, tão forte, que quando acordei naquela manhã, eu ainda era capaz de sentir seus lábios nos meus.

— Que merda — Retruquei, chutando as cobertas para o pé da cama.

Estiquei-me até a mesa de cabeceira e puxei meu celular, conferi o horário e dei um pulo para fora da cama.

Eu não estava atrasada. Eu estava MUITO atrasada. A primeira aula tinha ido para o saco junto com a minha vontade de ser uma adulta responsável, mas, mesmo assim, corri para o banheiro o mais rápido que pude.

Ser professora nunca fora o meu sonho, na verdade, eu detestava com todas as minhas forças, mas não era como se eu quisesse péssima e deixar todo mundo na mão porque o salário continuaria caindo na minha conta no fim do mês.

Implorei tanto para o taxista acelerar para chegar à escola, que ele praticamente me mandou calar a boca, também não me importei em pegar o troco do pagamento, porque eu sabia que assim que colocasse os pés no corredor da escola, qualquer coisa que eu dissesse seria invalidada pelo infeliz demônio de olhos puxados que governava aquela escola, também conhecido como diretor Jim Yoshikawa.

Segurei a alça da bolsa com os livros com tanta força que os nós dos meus dedos ficaram brancos. Respirei fundo antes de dar o primeiro passo em direção à entrada da escola, ouvindo o táxi acelerar para longe dali. Os alunos já estavam dentro de suas devidas salas, e os corredores não estavam tão barulhentos quanto costumavam estar quando as trocas de aula aconteciam, e tudo aquilo só tornava o ar ainda mais frio.

Eu não tinha um trauma impressionante por conta de corredores de escola, apesar de ter milhares de bons motivos para ter, mas desde que eu virara professora de artes no Pinewood School, passar por aqueles corredores era como caminhar no meio do inferno e sendo observada por demônios.

Tinha sido contratada emergencialmente, eles tinham perdido o último professor de artes e não tiveram escolha a não ser contratar a recém-formada Allison Cooper, mas também não fizeram a menor questão de transformar a minha passagem por lá em algo menos pior.

O diretor era péssimo. Não péssimo do tipo que pega no pé de todo mundo e acaba sendo um cara chato porque quer manter tudo em ordem, como Steven Walker costumava fazer quando eu estava no High School, quem dera se Jim Yoshikawa fosse tão chato quanto o diretor Walker, mas ele era péssimo do tipo que acoberta determinadas atitudes de alunos e professores unicamente para manter a reputação da escola na região, e essa era a pior parte.

Algumas professoras chegaram a me avisar da índole duvidosa do diretor Yoshikawa, mas, claro, Allison Cooper já tinha lidado com gente bastante complicada ao longo dos anos, um diretor de High School não poderia ser tão difícil, mas, nossa, ele era pior do que qualquer coisa que eu já tinha enfrentado, e me sentir uma pequena formiga prestes a ser esmagada por seu pé era a pior sensação do universo.

Tentei não me importar em fingir que nada demais estivesse acontecendo, tentei fingir que não estava atrasada ou que eu não deveria estar indo para a sala dos professores praticamente uma hora e meia depois do início da primeira aula. Eu sabia que teria que enfrentar Yoshikawa em algum momento, e também sabia que me depararia com Jesse Hale e teria de fingir que nada tinha acontecido na noite anterior, também teria que olhar para ele e me obrigar a pensar que não foi porque ele tentou me beijar que eu acabei sonhando com Daniel Carter de novo.

Fechei meu armário e abri a porta assim que percebi que a troca de aulas tinha começado, eu poderia, pelo menos, tentar me infiltrar e começar a segunda aula, assim, quem sabe, Yoshikawa não encheria tanto o meu saco. mas quando atravessei a soleira da porta, meu coração parou por um instante.

Eu não esperava presenciar aquela cena tão cedo, não queria acreditar que aquilo era, de certa forma, real. Parecia algo absurdo e que eu só presenciaria assistindo filmes ou coisa do tipo. Eu deveria saber que o ser humano era um poço ambulante de decepções, mas não daquela forma, não às dez da manhã e não com uma adolescente no meio.

Aquilo era errado em tantos sentidos diferentes, que senti a boca do meu estômago arder.

Jesse estava encostando uma garota do segundo ano na parede. Sua postura predatória era ridícula, seus olhos estreitos a encaravam como um pedaço fácil de bife, como se a caça já tivesse sido abatida e ele, como a maldita hiena que era, estava pronto para dar o bote. A menina, desconcertada, virou o rosto para o corredor, tentando desconversar qualquer avanço que ele desse em sua direção.

Ele não parecia se importar, também não parecia intimidado com os olhares confusos dos outros alunos e de alguns funcionários. Jesse era praticamente o braço direito do diretor, eu deveria ter desconfiado da índole daquele cara ao descobrir que ele e o diretor tinham uma amizade próxima, qualquer pessoa que gostasse da presença de Yoshikawa deveria ter algum desvio sério de caráter, eu só não esperava encontrar o desvio de caráter de Jesse um dia depois de ter saído com ele.

Ele não estava de fato fazendo algo com a garota, mas também não a deixava sair e seguir seu rumo para a próxima aula.

Assistir aquilo trouxe à tona tantas lembranças dolorosas que senti o sangue borbulhar dentro de minhas veias. Eu sabia muito bem como era estar presa daquela forma, sabia como era olhar para o lado e não conseguir sair, Miles tinha sido um grande babaca ao me ensinar aquilo da pior forma possível.

Talvez eu devesse apenas me importar com a porcaria do meu trabalho, talvez eu devesse seguir em frente e fingir que eu não tinha visto aquilo. Eu deveria agir como todos os outros, eu tinha contas para pagar, um aluguel atrasado e a porcaria de uma carreira para me preocupar, eu não podia colocar tudo a perder logo de cara, mas eu o fiz. E o fiz com tanta convicção que até mesmo eu duvidei de que a coragem era realmente minha.

Atravessei o corredor rapidamente e espalmei minha mão no rosto quase perfeito de Jesse Hale. A garota arregalou os olhos, mas apertou seus livros contra o peito e saiu por trás de mim, disparando para dentro de uma sala de aula.

— Qual o seu problema, Allison Cooper? — Perguntou ele, passando a mão sobre a bochecha, que estava vermelha pelo tapa.

— O meu problema? — Franzi o cenho, levantando a voz. — Qual o seu problema, Jesse Hale?

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