26. Call Me When It's Over

Carter

Olhei pela janela da caminhonete, as nuvens escuras tinham tomado conta de todo o perímetro azul em um piscar de olhos o que, para a nossa infelicidade, podia ser um péssimo sinal para ir acampar, mesmo que eu soubesse que, independente do que eu dissesse, Ethan e Leight não voltariam atrás.

Me remexi no banco, tentando ajeitar as pernas, mas eu já não as sentia mais. Meu pai virou para trás, incomodado com os meus joelhos cutucando suas costas pelo banco.

— Para quieto, Daniel — Resmungou, passando o braço para trás e dando um tapa no meu joelho.

— A gente já tá chegando? — Continuei tentando me ajeitar no banco.

Tio Leight olhou-me pelo retrovisor, mas logo voltou os olhos para a estrada.

— Quase lá, na verdade — Respondeu, lendo uma das placas da estrada.

— A gente pode fazer uma parada? — Ethan perguntou, apoiando as mãos no banco do pai. — Eu tenho que mijar!

O loiro mais velho estalou a língua no céu da boca e guinou a caminhonete na direção do acostamento. Um dos maiores problemas das estradas que guiavam para os campings era a falta de infraestrutura, se seu carro quebrasse no meio da estrada, você teria que andar por dois dias até encontrar alguém.

A caminhonete foi desligada e, no mesmo instante, abri a porta ao meu lado e coloquei as pernas para fora, as esticando bem antes de tentar ficar de pé. Apoiei as costas na lateral da caminhonete, observando Ethan se enfiar no mato na beirada da estrada para conseguir esvaziar a bexiga.

Leight parou ao meu lado e cruzou os braços na frente do peito, observando meu pai mirar o mato para mijar também.

— Você não era tenso assim — Ele virou os olhos azuis na minha direção.

— Eu mudei bastante, tio Leight — Encarei meus tênis sujos sobre o acostamento e chutei algumas pedrinhas para longe.

— Você amadureceu muito, mas tem deixado a sua essência ir embora... E a culpa disso é apenas sua! — Ele ergueu uma das sobrancelhas.

Estreitei os olhos para ele, eu não estava deixando minha essência ir embora... Quer dizer, eu achava que não. Pensava que não estava tão diferente e nem tão mais maduro que o de costume, mas sabia que as coisas já não eram mais as mesmas.

— Você tem deixado os seus problemas ditarem quem você é, e isso tá fazendo você entrar em parafuso — Ele continuou, dando de ombros e olhando para frente. — Faz tempo que não vejo você rindo descontroladamente, e nem falando um monte de merda. É até estranho!

— É que... — Respirei fundo, olhando para cima das árvores, que sacudiram com a ventania. — Eu tô apavorado, na verdade!

Leight apertou os lábios e confirmou com a cabeça. Ele tinha me visto crescer junto com Ethan, assim como ele passara a maior parte da vida dele ao lado do meu pai. Mesmo que existisse um pedaço da história dos dois que parecia um limbo temporal desconhecido pela maior parte das pessoas, eu sabia que eles eram como unha e carne e que, por essa proximidade e intimidade que eles tinham, Ethan e eu éramos como irmãos, porque eles dois eram como irmãos.

Leight Mullins não era só o melhor amigo do meu pai. Ele estava no hospital quando meus irmãos e eu nascemos, ele nos pegou no colo como se fôssemos filhos dele também, e meu pai também estava por perto quando Nathan e Ethan deram as caras. Ele era da família.

E como ele tinha se tornado delegado, ficou como o responsável pelo caso da Allison quando toda aquela merda com o Miles aconteceu, ele sabia como as coisas que aconteciam com ela me afetavam também.

Quando o assunto era Allison Cooper, minha cabeça entrava em parafuso, meus sentimentos viravam uma bagunça e eu quase não conseguia pensar como costumava fazer. Não era como se ela me apagasse, eu me apagava, me metamorfoseava em outra pessoa, porque, talvez, esconder quem eu era me ajudasse a resolver as coisas, já que eu sempre fui tachado como um cara problemático.

Ele riu anasalado, baixando a cabeça e erguendo as sobrancelhas grossas.

— Tenta relaxar esse fim de semana. Depois você pensa em toda essa bagunça, garoto!

— Não sei se consigo...

— Ah, você vai conseguir — Ele abriu um sorriso sacana. — Sabe que ele não vai te deixar ficar com essa cara de bunda pelo resto do fim de semana!

Leight apontou para o filho que, mesmo que se parecesse muito mais com Elizabeth Mullins que com ele, ainda carregava um toque da personalidade de Leight que o tornava estranhamente desajeitado, engraçado e inteligente.

Ethan tropeçou no guardrail da estrada quando pulou por cima dele para voltar para o acostamento. Meio sem graça por quase ter caído no chão como um boneco de posto extremamente magro e desengonçado, ele alisou a camiseta com as mãos, expulsando as folhas e galhos presos no casaco.

— Não tá apertado? — Perguntou, afinando os olhos para o galho que ele tirava do cabelo. Neguei com a cabeça. — Eu trouxe alguns jogos de tabuleiro e de cartas pra gente jogar de noite!

— A gente não vai jogar War! — Anunciei, arqueando as sobrancelhas.

— Mas é meu jogo favorito!

— Ethan, da última vez, passamos três horas na mesma campanha. A gente não vai jogar War nem se você me pagar!

No mesmo instante, meu pai apareceu atrás de Ethan, batendo as mãos sobre a roupa e empurrando a sujeira e a poeira do mato para longe.

— Dani, vai na frente — Anunciou, abrindo a porta de trás e se sentando no lugar que anteriormente era ocupado por mim. — Não aguento mais tomar joelhada nas costas!

Não protestei e também não demorei para entrar novamente na caminhonete, esticando as pernas abaixo do painel e colocando o cinto por cima do meu peito.

Com um pouco mais de quarenta minutos de viagem, finalmente tínhamos chegado no camping. Leight estacionou o carro perto de onde ficaríamos, na última entrada de carros que existia por ali.

Depois de pegarmos todas as coisas da parte de trás da caminhonete, começamos a nossa ilustre caminhada por entre as árvores para encontrarmos o melhor lugar para montar acampamento.

O espaço que tio Leight e meu pai escolheram tinha uma mesinha de madeira, que sediava uma área não muito ampla, mas plana, onde poderíamos colocar a barraca e montar a fogueira para mais tarde.

A floresta ao nosso redor me deixava confuso, mas não era difícil encontrar a estrada e nem o estacionamento se você fosse esperto o bastante para não confundir a trilha do rio com a trilha do estacionamento.

O local não ficava muito longe do rio, o que era ótimo para pesca e para o banho precário. A água cristalina era apenas um bônus, assim eu não precisaria surtar por não saber exatamente o que tinha deslizado por cima do meu pé, mas também não me deixava muito animado, porque estar perto de uma área úmida como aquela era o mesmo que um contrato com todos os animais silvestres que habitavam a região.

Coloquei uma das caixas térmicas sobre a mesinha de madeira e, logo em seguida, todas as coisas estavam ocupando os bancos que se dispunham ao redor da mesa comprida.

Meu pai e o melhor amigo estenderam o tecido impermeável da barraca sobre o chão e, aos poucos foram montando as hastes que seriam responsáveis por segurar toda a estrutura óssea do tecido cinza e laranja.

A estrutura não era exatamente a coisa mais fácil de se montar. Ethan segurava o manual de instruções com uma das mãos enquanto, com a outra, tentava me ajudar a conectar os pedaços das hastes. Ele estreitou os olhos para o manual e o girou sobre os dedos, pendendo a cabeça para o lado.

— Cara, foi mal, eu tava lendo de ponta cabeça... — Ele desmontou o que tínhamos montado. — É assim...

Ethan conectou com muito mais facilidade os dois pedaços da estrutura, fincando uma das extremidades no chão. Eu queria dar um soco na cara dele, mas não podia o fazer, sabia que aquele manual de instruções era uma loucura e que mesmo que estivesse de ponta cabeça, poderia ser difícil de adivinhar o erro.

Algum tempo depois de conseguir montar toda a estrutura esquelética da barraca, começamos a enfiar as hastes no tecido, fazendo um esforço desgraçado para conseguir levantar a barraca pesada. Fincamos as extremidades no chão e, com fios fortes amarrados a ganchos metálicos, prendemos a estrutura no chão para que ela não fosse levada pelo vento.

A barraca era grande, tinha uma tela contra insetos na entrada, que abria espaço para uma espécie de sala e dois quartos, fechados com telas contra insetos e uma que ia por cima, barrando parte da luminosidade. Aos poucos, colocamos as caixas térmicas para dentro e ajeitamos as coisas no compartimento da frente, que era amplo o suficiente para deixarmos as mochilas, assim não ficaríamos espremidos nos dois quartos da barraca.

Meu pai deu uma sacudida na barraca, só para ter certeza de que ela estava bem presa antes de pular para dentro, tirando os tênis e ajeitando o saco de dormir em um dos quartos.

— A gente pode pescar — Ethan levantou duas varas de pescar na altura dos ombros, esbanjando um sorriso divertido e empolgado.

No mesmo instante, um trovão alto irrompeu pelo horizonte, sacudindo as árvores e dando a deixa para que vários pássaros alçassem voo.

— Ou não... — Seu sorriso desapareceu e ele abaixou as varas de pescar. — E nem vai dar pra acender a fogueira, então!

A chuva começou sem pedir licença, forte e barulhenta, e nós corremos para dentro da barraca ampla. Tio Leight fechou a tela de insetos da frente da barraca, nos fechando para o lado de dentro com todas as nossas coisas.

No meio da sala da barraca, estendemos a mesinha de plástico montável que Leight sempre levava para acampar e nos sentamos ao redor dela. Ethan correu para perto de uma das malas e tirou de dentro uma caixa de banco imobiliário, voltando para perto da mesa e colocando a caixa sobre a superfície de plástico.

— Eu vou com o peão de dinossauro — Disse ele, abrindo o tabuleiro em cima da mesa.

— Eu quero o pato de borracha — Meu pai pegou o patinho prateado.

Tio Leight pegou o barco e eu escolhi o pinguim. Ethan rapidamente distribuiu o dinheiro entre nós e passou os dados para o meu pai, que estava ao seu lado.

Os dados foram jogados de primeira e, assim que o número apareceu, meu pai andou as determinadas casas e parou em cima de uma das propriedades. Ele prontamente comprou-a, sem pensar muito.

Era um saco jogar banco imobiliário com o meu pai, ele era esperto e não deixava as coisas passarem com facilidade, o que só dificultava pra todo mundo.

Rolei os dados. Sete casas. Peguei o meu peão e avancei, contando até sete, e acabei caindo num ponto de interrogação. Puxei uma das cartas de sorte ou revez e torci para me dar bem. Sorte. Duzentos para a minha conta.

— Sorte de principiante — Meu pai ergueu uma das sobrancelhas.

Ethan rolou os dados e ganhou o número seis. Ele olhou bem para a propriedade e decidiu comprá-la, deixando cem dólares com o banco e posicionando a carta em frente ao corpo.

Ele novamente jogou os dados e parou bem mais para frente, mas olhou bem para o preço do lote e desistiu.

Leight girou os dados logo em seguida e praguejou quando percebeu que cairia na propriedade do Ethan. Ele o entregou o dinheiro e girou os dados novamente, tirando um número mais alto.

Algumas rodadas mais para frente, meu pai contava o bolo de dinheiro enquanto tentava separar as propriedades que tinha comprado para saber se ele conseguiria colocar uma casinha em uma delas.

Eu estava preso na cadeia, já que a última carta que tinha pegado era revez.

Antes que pudéssemos terminar a partida, uma barriga roncou alto, cortando a fala do meu pai, que estava colocando o dinheiro no banco para conseguir colocar a casinha na propriedade.

— Acho que alguém tá com fome... — Ele riu.

— A chuva ainda não parou, não acho que seja uma boa ideia acender o fogareiro aqui dentro — Leight passou os olhos sobre as propriedades.

— Tem lanche em uma das caixas térmicas, acho que na azul! — Ethan jogou os dados. — Traz um pra mim, também!

— Acho melhor a gente parar pra comer um pouco, na verdade — Leight guardou o dinheiro que tinha ganhado durante as rodadas dentro da caixa. — Outra hora a gente joga!

No mesmo instante, a chuva cessou. A floresta se tornou silenciosa e tudo que conseguíamos ouvir eram os pássaros cantando do lado de fora e o farfalhar das folhas conforme o vento as guiava para lá e para cá.

Em poucos minutos, a luz do sol passou a iluminar toda abarraca e o calor insuportável do verão tomou conta novamente dos nossos corpos.

— Bom, agora dá pra acender o fogareiro lá fora — Meu pai deu de ombros, se levantando. — Seu tio e eu vamos fazer o almoço, vão, sei lá, dar uma olhada por aí!

Ele me empurrou para fora da barraca junto com Ethan.

Acampar não era exatamente a minha atividade favorita, mas era divertido, mesmo que não tivéssemos mais dez anos de idade.

O clima quente que tomou conta do lugar nos impulsionou para a trilha que guiava até o rio. Tirei os tênis quando percebi que o terreno tinha ficado úmido e tomado por pedrinhas redondas, coloquei os pés para dentro da água, observando-os pelo cristalino esverdeado. Estava fresca o suficiente.

Tirei a camiseta e a joguei sobre uma pedra perto de onde tinha deixado meus tênis, pulando para dentro do rio enquanto Ethan, mais tímido e um tanto apreensivo, tirava os tênis, os deixando ao lado dos meus.

Ele entrou logo atrás, encolhendo os ombros e posicionando os braços na frente do corpo, tremendo com o frio.

— Ah, nunca vou me acostumar com a temperatura da água — Reclamou, parando ao meu lado.

— Olha pelo lado bom, pelo menos tá calor o suficiente pra você entrar — Empurrei água na direção dele, que fechou a cara e empurrou uma enxurrada na minha direção.

Ele abaixou para dentro da água, deixando apenas o nariz e os olhos para fora, levantando os olhos em minha direção. Empurrei o cabelo para trás, longe do rosto, e dei uma olhada nas árvores do outro lado da costa.

— Tá conseguindo relaxar? — Perguntou, colocando a boca para fora da água.

— É mais fácil relaxar quando você não me pergunta se eu tô relaxando — Ergui uma das sobrancelhas.

— Ah... Foi mal — Ele estreitou os olhos para o outro lado do rio. — A gente devia ter trazido as varas de pescar, senti um peixe passando entre minhas pernas!

— Cuidado pra ele não comer seus dedos — Provoquei, beliscando seu braço por trás e afundando sua cabeça para dentro da água.

— Vai pro inferno! — Ele gritou, saindo desesperadamente para fora da água.

Ethan tentou me agarrar pelos ombros para me derrubar na água, mas eu pulei para o lado, o fazendo cair novamente, deslizando os pés pelas pedras arredondadas do fundo.

Corri para fora do rio, agarrando meus tênis e minha camiseta, correndo pela trilha enquanto Ethan corria atrás de mim, tomando galhadas e reclamando dos galhos espetando seus pés.

Traçando uma trilha molhada até a barraca, meu pai virou-se para nós dois e suspirou, fechando os olhos, frustrado.

— Claro que vocês dois pularam no rio sem levar toalha e chinelos — Disse, entrando na barraca. — Vou pegar as toalhas de vocês...

— O almoço tá quase pronto — Leight girou o hambúrguer sobre a grelha da fogueira.

Pouco tempo depois, nos sentamos ao redor da mesa comprida de madeira que ficava ao lado da barraca. O almoço não era muito elaborado, mas o fato de ter sido feito numa grelha ao ar livre o tornava ainda mais saboroso do que os hambúrgueres feitos em frigideiras.

Quase ficamos entediados antes que meu pai e tio Leight começassem a conversar aleatoriamente sobre a adolescência deles dois e sobre algumas das coisas mais estranhas que eles já tinham feito quando eram mais jovens.

O tempo passou voando, especialmente depois de termos esgotado todos os planos de divertimento do Ethan. Já tínhamos jogado bola, uno e mais um monte de jogos de tabuleiro e de cartas, chegamos a pescar alguns peixes minúsculos e depois soltá-los de volta no rio, então, quando o sol começou a se esconder por entre as árvores, já não tínhamos mais energia para mantermos nossos corpos em pé.

O banho precário que tomamos no banheiro do camping não tinha me deixado mais relaxado, na verdade, a água fria somada à queda de temperatura da noite tinha me deixado tremendo, enrolado em manta fria e usando duas meias nos pés.

— Precisa de mais alguma coberta? — Meu pai sentou-se ao meu lado.

Neguei com a cabeça.

— Vou me esquentar, não tá frio, mas a água gelada não me ajudou muito, tá ventando pra caramba lá fora!

Ele confirmou com a cabeça, seguindo Leight com os olhos enquanto o loiro se enfiava no quarto que eles compartilhariam. Logo em seguida, Ethan também se enfiou no quarto que dividiríamos, ele mal estava conseguindo manter os olhos abertos.

Na beirada da cabana, nós ainda conseguíamos ter uma vista ampla do céu acima da copa das árvores cheias. Ali, bem distante de qualquer cidade, era muito mais fácil contemplar as infinitas estrelas que salpicavam o céu.

— Tá se sentindo melhor? — Perguntou, me olhando de canto de olho, erguendo uma das sobrancelhas.

Enchi os pulmões com ar, passar o dia todo fazendo um milhão de coisas realmente tinha me ajudado a afastar os problemas do foco, mas sempre que eu precisava ficar quieto, toda a barulheira da minha cabeça vinha à tona.

— Eu vou ficar bem — Sorri fraco.

— Claro que vai — Ele sorriu amplamente, passando o braço por cima dos meus ombros.

Ele me puxou para perto, apertando o abraço e bagunçando meu cabelo com os dedos antes de me empurrar para que eu recobrasse a postura.

Meu pai prendeu os olhos para mim com o queixo erguido, me olhando de cima a baixo com os olhos estreitados. Ele abriu um sorriso de canto antes de voltar a olhar para o céu.

— Tenho orgulho de você, moleque. Você cresceu muito, não é mais menino e é até engraçado dizer que você já é um homem maduro, porque acho que sempre vou olhar pra você e para os seus irmãos e os enxergar como crianças!

— Também tenho orgulho de você, velhote! — O empurrei com o ombro.

— Ah, é?

— Claro — Sorri para ele, que sorriu de volta. — Você tinha tudo pra dar errado. Teve um filho na adolescência sem ter um tostão no bolso, ficou rico e fez todos os pais dos meus amigos parecerem velhos chatos!

— Acho que eu tenho jeito pra coisa, então.

Respirei fundo, olhando para o céu também.

— Pai... — Ele virou o rosto para mim. Não tive coragem de olhá-lo também. — Acha que... Acha que pessoas que realmente se amam podem permanecer separadas?

— Isso tem a ver com a Allison? — Perguntou, erguendo uma das sobrancelhas, adquirindo um olhar pensativo logo em seguida.

Confirmei com a cabeça.

— Acho que... Se duas pessoas foram feitas para ficarem juntas, eventualmente elas ficarão, e não importa quanto tempo demore para isso acontecer!

Cooper

Era um tanto constrangedor estar na cozinha de casa com Helen Carter me observando com seus olhos cinzas e estreitos. Me lembravam os olhos de um felino cauteloso.

Minha mãe colocou entre nós duas o bule com café e algumas torradas, espalhou os potes de geleia pela mesa e sentou-se ao meu lado. Seu sorriso sem graça sempre subia para Helen, que a devolvia um sorriso igualmente desconfortável.

A mãe de Daniel era bastante observadora, como se ela não desse um passo sequer sem analisar bem o ambiente com seus olhos ágeis. Ela colocou a xícara com café sobre o descanso de copo, contornando a borda com a ponta do indicador, como Daniel costumava fazer quando estava pensando em algo.

— Onde está o Anthony? — Perguntou, franzindo o cenho para o café em sua xícara.

Mamãe apertou os lábios, desconcertada. Ela respirou fundo algumas vezes antes de conseguir levantar os olhos para Helen, que prendera o olhar na ruiva.

— Ele quase nunca está em casa nos fins de semana, na verdade. É normal — Deu de ombros, bebericando o café.

Helen ergueu as sobrancelhas, conformada, soltando um "hm" abafado antes de passar manteiga em uma das torradas, colocando-a sobre o prato de porcelana.

— Precisei me livrar dos meninos nesse fim de semana — Ela riu sozinha, se divertindo com a ideia de que estava sozinha o fim de semana todo. — O Sebastian gosta de sair comigo a maior parte do tempo, mas amo poder passar um tempo sem ele, pra variar. É bom pra ele também, especialmente porque ele tá com o Daniel!

Minha mãe torceu o nariz, fazendo uma careta, ela não estava muito convencida da confiança que Helen tinha naquilo.

— Não se sente insegura? — Perguntou, unindo as sobrancelhas.

— Com o quê, exatamente? — Helen estreitou os olhos, abrindo um sorriso confuso.

— Com Sebastian ficando fora o fim de semana inteiro...

— Por que eu deveria?

Minha mãe hesitou. Eu sabia bem o motivo e conseguia sentir a dor dela. Eu entendia a insegurança dela melhor que qualquer outra pessoa.

— Quando saio com Anthony, percebo que ele olha para outras mulheres com tanto desejo nos olhos que... Bom... É desconfortável e estranho — Ela murchou os ombros, afundando na cadeira. — Elas são sempre tão jovens... Claro que isso deve ser diferente com você, já que sempre teve esse corpo de modelo e sempre foi bonita...

Ela apoiou os dedos na beirada da mesa, alisando a toalha com cuidado. Sua respiração estava acelerada e ela espremia os lábios com força. Seus olhos entristecidos tomavam um tom muito mais azul com a tristeza dançando por eles.

— Me pergunto se tem algo de errado comigo, porque ele não me olha assim há muito tempo — Ela suspirou.

Eu sentia meu coração se contorcer dentro do peito. Eu a entendia bem, sabia como era se sentir insuficiente para alguém, e como era aquela sensação de não ser desejada por quem desejamos. Não se sentir especial para pessoas que deveriam cuidar de nossos corações como joias preciosas era como morrer lenta e dolorosamente um pouco mais a cada dia.

Não pude conter a conversa que tive com meu pai quando estava bêbada. A verdade é que ele não a amava, e minha mãe provavelmente já sentia que o amor deles dois já tinha morrido há algum tempo, talvez ela só não quisesse aceitar.

Helen suspirou lentamente, provavelmente elaborando uma resposta em sua mente.

— Definitivamente o problema não está em você, Marianne!

Segurei o copo com suco entre os dedos e o guiei para minha boca, queria poder, de alguma forma, sumir com a minha presença dali do meio. Aquela conversa parecia ser adulta demais até para mim, especialmente porque eu não era casada e não tinha a idade delas, independente do quanto eu quisesse entender algumas coisas, e mesmo que eu até entendesse o sentimento que minha mãe sentia, não sabia como aquilo a afetava.

— Vocês ainda transam? — Mamãe perguntou de repente, me fazendo engasgar com o suco.

Os olhos de Marianne se arregalaram no mesmo instante. Ela desceu o rosto para a xícara de café e segurou a alça com os dedos firmemente, guiando-a para os lábios arredondados e vermelhos.

Eu nunca, em hipótese alguma, perguntaria aquilo para alguém, mas sabia que minha mãe não tinha o mesmo bom senso.

— Hã... Sim — Ela afastou a xícara dos lábios lentamente. — Vocês não?

Achava que era impossível deixar Helen Carter com vergonha, ela tinha muitos dos traços de Daniel e ele era a pessoa que menos sentia vergonha de falar o que fosse preciso.

Uma vez, durante uma das aulas de biologia, uma campanha de conscientização sobre o uso de preservativos durante o sexo fez com que a professora Gladys Ruley nos ensinasse a colocar uma camisinha em um pênis de borracha.

Gladys ficou irritada com a falta de interação da turma e perguntou se algum de nós já tinha se envolvido sexualmente com alguém. A sala inteira emudeceu, metade dos alunos tinha ficado com a cara vermelha de vergonha, mas Daniel levantou a mão lá no fundo e disse:

"Não tenho vergonha de dizer que eu já transei. Qual o problema?"

A professora parou na frente da mesa dele, colocou o pênis de borracha diante do garoto e entregou um pacote de preservativo para ele. Disse para que ele mostrasse para a sala inteira como que se colocava uma camisinha masculina e, pacientemente, ele, mesmo que rindo para disfarçar o nervosismo, colocou a camisinha no objeto e o entregou para a professora.

Minha mãe virou o rosto para mim, lançando-me o mesmo olhar que ela costumava me lançar quando queria conversar com meu pai sem a minha presença ou a dos meus irmãos. Eu captei o recado rapidamente, deixando o copo de suco pela metade e saindo da cozinha o mais rápido que pude.

Mas eu queria saber o que elas conversariam, queria saber o que minha mãe diria, nem que fosse para ter certeza de que meu pai era um grande otário se escondendo atrás de uma máscara ridícula.

Parei atrás da parede que separava a cozinha da sala de jantar, encostando as costas e virando o rosto para ouvir melhor.

— Desculpa ter te perguntado sobre isso, especialmente depois de tudo... — Disse mamãe com a voz fraca.

— Sem problemas, não guardo ressentimentos daquela época, éramos bem jovens e idiotas — Helen suavizou a conversa. — Mas me preocupa que você se sinta assim. Sempre pensei que você fosse superconfiante, especialmente com o Anthony...

— É que... — Minha mãe hesitou. — Não tem mais nada... É como se o nosso relacionamento tivesse morrido aos poucos desde o nascimento da minha primeira filha... Como foi com você?

— Bem diferente, na verdade — Helen riu abafado. — Eu ainda era adolescente quando Mark nasceu. Foi muito difícil no começo, tanto para mim quanto para o Sebastian, nós não sabíamos cuidar de um bebê, e mesmo que tenha sido tão difícil e que às vezes as coisas ficassem muito complicadas entre nós dois, ele ainda me dava o apoio necessário para seguir em frente. Acho que foi isso que nos ajudou a chegar onde chegamos, nós éramos o suporte um do outro... — Ela respirou fundo. — E mesmo que a rotina tenha mudado com a vinda de Mark, e depois com Andrew e mesmo com Daniel, foi como se o nosso amor sempre se renovasse.

Apertei os lábios, raspando as unhas na parede, sentindo meu peito doer. O relacionamento dos meus pais parecia muito distante, mesmo quando passávamos momentos juntos em família.

— Nós tentamos reacender as coisas... Com a Allison e com o Sam, mas...

— Filhos não são suporte de relacionamento, Marianne... Eles são o resultado de um amor que transborda. Não é responsabilidade deles manterem vocês dois juntos, porque, depois que crescem e vão embora, tudo o que resta é o casamento de vocês!

Minha mãe respirou fundo, suprimindo um soluço.

— E se nunca transbordou? — Perguntou, a voz dolorida.

Helen deu uma longa pausa.

— Há quanto tempo vocês não...?

— Desde que eu não o contei as atualizações da polícia a respeito do caso da Allison, na época que aquele garoto, o Miles, era namorado dela...

Engoli em seco. Eu sabia que aquilo não era culpa minha, mas me sentia culpada, de alguma forma.

— Já tentaram de novo?

— Ele diz que não sou mais tão jovem para isso...

Engoli em seco. Eu não sabia mais se queria continuar ouvindo aquela conversa. Eu já tinha a minha resposta, talvez eu sempre tive aquela resposta enraizada no fundo do meu coração e só nunca quis aceitar.

Respirei fundo antes de desaparecer da sala de jantar e voltar para o meu quarto, abrindo meu celular e privando todas as minhas redes sociais. Eu não queria ter um relacionamento como o da minha mãe, eu queria que meu relacionamento fosse como o de Helen e Sebastian Carter, queria que durasse para sempre e que transbordasse tanto que não coubesse mais em nós.

Eu tinha pouco menos de uma semana para descobrir o que era suficiente para mim e se ir com Daniel realmente seria suficiente para nós dois. O amor não se sustenta sozinho e eu tinha medo de que tudo o que nós dois tivéssemos se resumisse ao amor.

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