25. Do I Wanna Know?

Carter

Passei as mãos pelo rosto, encarando a tela do celular com os dedos trêmulos. Eu mal conseguia respirar, meus pulmões pareciam preguiçosos, mas, ao mesmo tempo, congelados, eles não queriam funcionar. Cravei os dedos no cabelo, curvando as costas para frente enquanto, repetidamente passava meus olhos por cima de cada comentário depositado em cada notícia, em cada foto das minhas redes sociais e nas de Allison.

Aquilo podia ser avassalador. Independente do quanto nosso cérebro esteja convencido de que mais da metade de tudo o que ouvimos ao nosso respeito seja mentira, uma parte de nós sempre vai se ofender e assumir aquilo como a mais pura e desgraçada verdade, porque, e se realmente for? E se realmente tiverem razão?

Ethan sentou sobre a mesa de centro o que fez meu pai revirar os olhos e chutar as pernas dele para longe do sofá.

Não era como se meu pai detestasse o Ethan, na verdade, ele o tinha como se fosse um filho, mas ambos viviam em um limbo de provocações intensas, mesmo que jogassem videogame juntos e conversassem sobre a vida.

— Tenho que falar com ela! — Disse, sacudindo a perna incansavelmente.

— Falei com a Adalia, ela vai cuidar da Allison — Ethan bebericou um pouco do refrigerante que pegou da geladeira. — Tá tarde, talvez ela ainda nem tenha visto nada!

Ele colocou o copo ao lado do corpo, apoiando os cotovelos sobre as pernas e se curvando para frente, ficando cara a cara comigo. Ethan não era do tipo de cara que tinha vergonha da proximidade humana, o teatro o transformara num cara quase sem pudor.

Sua respiração se embolou com a minha e suas sobrancelhas se mantiveram baixas, seus olhos, que eram da cor de apatitas, se fixaram nos meus, procurando por alguma resposta nas entrelinhas dos meus sentimentos.

Naturalmente, Ethan não era um cara que gostava de passar horas a fio falando, ele era mais ouvinte que qualquer coisa, mas desde que as coisas mudaram para mim quando fui para a faculdade e descobri que a vida adulta era um saco, ele acabara se tornando o tagarela da nossa dupla, mesmo que eu fosse muito mais extrovertido que ele.

Sorrateiro e rápido como um guaxinim, o loiro agarrou meu celular e o arrancou da minha mão antes que eu tivesse chance para reagir.

— Você precisa relaxar — Disse ele, guardando meu celular dentro do bolso da sua jaqueta de couro.

— Relaxar? — Franzi o cenho, ficando ainda mais irritado. — Porra, Ethan, olha o que tá acontecendo. Como eu vou relaxar?

Encostei as costas inteiras no encosto do sofá, tapando meu rosto com as mãos, inquieto. Era como se a qualquer instante, uma bomba atômica fosse explodir e, para piorar tudo, não ter uma puta mensagem da Allison me dizendo qualquer coisa só tornava tudo um pouco mais desesperador.

Minha mãe passou as mãos sobre os meus ombros, afagando a região carinhosamente enquanto se curvava ao meu lado, deixando o rosto ao lado do meu.

— Acho que o Ethan tem razão, querido — Beijou a lateral da minha cabeça. — Você precisa descansar!

— Claro, eu sempre tenho razão — Revirou os olhos. — Sempre!

O remedei com uma careta e ele repetiu a provocação.

Sabia que Ethan tinha razão, mas não era como se relaxar fosse fazer todos os problemas sumirem. Eu não tinha mais dezessete anos e ninguém resolveria meus problemas para mim.

— Mas não posso deixar as coisas assim — Espalmei as mãos sobre as pernas. — O que ela vai pensar?

Meu pai suspirou, jogando a cabeça para trás e afundando o corpo ainda mais no sofá, passando o braço por cima do encosto. Ele segurou os dedos da minha mãe, que caminhou na direção dele e beijou sua testa.

Lentamente, ele soltou todo o ar que juntara nos pulmões pelo nariz, bufando um tanto irritado.

— Sei que gosta dela, Daniel, mas não pode protegê-la de tudo o que acontece!

Revirei os olhos, irritado, ele era a pior pessoa para me dizer aquilo, meu pai basicamente protegia todo mundo da casa de tudo o tempo inteiro.

Quando meu irmão mais velhos ainda estava na escola, meu pai quase arrumou briga com o pai de outro garoto que o enchia o saco na escola e, mesmo que eu fosse o caçula e ele já fosse mais velho quando eu estava no ensino médio, talvez ele só não tenha tentado entrar em nenhuma briga com qualquer cara por minha causa porque eu nunca contava nada pra ele.

— Eu não gosto dela, eu amo ela — Virei o rosto para a escadaria. — É diferente!

— Pode ser uma boa ideia, Dani — Tio Leight finalmente disse alguma coisa, respirando fundo e se ajeitando na poltrona. — Se afastar um pouco do que tá acontecendo, dar o espaço da Allison e respeitar a sua saúde mental são coisas importantes!

Mesmo que eu estivesse de férias, não tinha conseguido efetivamente descansar, passava o tempo inteiro recobrando memórias e me obrigando a encontrar uma saída para as coisas e acabei me esquecendo que parte das férias era sobre não ter que pensar nos problemas.

Claro que eu também não fazia ideia de que encontraria Allison novamente. Depois de tanto tempo longe, pensei que as coisas finalmente teriam se ajeitado dentro de mim e até dentro dela, que teríamos seguido em frente e que nada do que sentimos anteriormente, de alguma forma, continuasse tendo tanto significado, mas isso era só mais um dos meus milhares de enganos, porque, depois de tudo, absolutamente todas as vírgulas, detalhes, pontos e palavras do que vivemos ainda significava e muito para nós dois e, pior, sempre significaria.

Acho que enquanto nós estivéssemos presos na mesma realidade, no mesmo planeta, nossos caminhos se cruzariam sempre que possível, talvez para nos lembrar de que nem sempre pessoas que se amam ficam juntas, mesmo que deveriam...

— A gente devia acampar — Ethan anunciou, colocando o copo com refrigerante na boca, desviando o olhar para o pai.

Leight abriu um sorriso empolgado, levantando as sobrancelhas ao ponto de sua testa enrugar. Acampar já tinha sido uma atividade recorrente para nós, também, como uma família meio estranha, mas feliz.

Íamos para o meio da floresta com barracas, varas de pescar, vários pacotes de marshmallows e passávamos o fim de semana ouvindo histórias de terror, pescando — mesmo que fôssemos incrivelmente ruins no esporte —, brincando com água e aproveitando a impressionante quantidade de insetos que a natureza podia nos proporcionar.

— Eu gosto da ideia — O pai do meu melhor amigo se esticou até conseguir dar um tapinha nas costas do filho.

Olhei para o meu pai e me surpreendi ao descobrir que ele já estava me olhando, esbanjando a mesma expressão que eu. "Isso não é uma boa ideia" estava escrito em letras piscantes bem no meio das nossas testas, como outdoors no meio do deserto.

— Acampar era divertido quando tínhamos dez anos — Olhei para Ethan, que me lançou um dedo do meio.

— Pode ser divertido dessa vez, também! — Leight deu de ombros.

— Não sei, não! — Meu pai coçou a nuca, descontente.

— Você era mais legal quando era só mais um adolescente irresponsável e idiota! — Ethan deu um tapa no meu joelho.

— Não gosto de mato, Ethan! — Bufei, irritado. — Não quero ser comido por, sei lá, um leão da montanha!

— Não existem leões da montanha em Massachusetts — Ethan adquiriu uma carranca inconformada. — Talvez a gente seja comido por um urso, mas ainda assim é pouco provável!

— Nossa, que reconfortante, senhor enciclopédia! — Rolei os olhos.

Ethan respirou fundo e batucou os dedos sobre as pernas, endireitando a postura das costas. Pensei que ele tivesse desistido, porque ele normalmente fazia aquilo quando desistia de tentar me convencer a fazer alguma coisa.

— Que se dane, moleque de cidade grande, vai arrumar suas coisas, a gente vai acampar esse fim de semana! — Ele se levantou, dando um tapinha no meu ombro e pulando por cima do sofá.

— Não pisa no sofá com o tênis, Ethan — Minha mãe ficou com o rosto vermelho de raiva.

— Pelo amor de Deus, Ethan, você não tem mais dezesseis anos — Leight passou as mãos pelo rosto, levantando-se logo em seguida. — Passo aqui amanhã de manhã, então. Estejam prontos!

Os dois saíram pela porta da frente e, no mesmo instante, meu pai virou o rosto em minha direção, esbanjando um sorriso conformado e não muito animado.

— Acho que não temos escolha!

— Não, vocês dois não têm! — Mamãe, pegou o pacote de pipoca e despejou dentro de um pote amarelo.

Ela atravessou a sala e se sentou ao lado do meu pai, aninhando o corpo dela ao dele, que passou o braço por cima de seus ombros, a embalando em um abraço apertado.

— Mas e você? — Perguntei, estreitando os olhos e apoiando a base das costas na mesa de jantar.

— Eu? — Ela me olhou com um sorriso travesso. — Vou ficar muuuuuito feliz de poder ficar sem os dois maiores cabeças-ocas da minha vida! — Ela colocou algumas pipocas na boca. — Tenho que arrumar um quadro novo, já que você quebrou o antigo!

Arqueei as sobrancelhas, me sentindo um tanto culpado pelo incidente do quadro.

— Eu disse que podia pagar por outro quadro, se você quisesse... — Cocei a nuca.

— Mas não quero, querido. Eu já tenho uma ideia do que quero fazer e acho que nada comprado desse jeito pode me oferecer isso!

— Você é muito exigente!

— E você é muito desastrado! — Ela virou o rosto para o meu pai, que tentou beijá-la, mas ela prontamente desviou. — Nem pensar, Sebastian, você e o seu filho precisam arrumar as coisas para o acampamento!

— Ele é seu filho, também!

— Nos fins de semana com acampamentos ele não é, não!

Ela empurrou-o para fora do sofá com os pés, o fazendo avançar em minha direção. Ele, não muito contente, me deu um tapinha nas costas e me conduziu na direção do andar de cima.

Meu pai detestava acampamentos. Na verdade, todo acampamento que fomos ele só ia para não ter que deixar Leight e tia Liz com a bomba ambulante que eu era quando criança, mesmo que tio Leight sempre dizia que daria conta.

Depois de um tempo, começamos a acampar em família e até a minha mãe participava, mas, nossa, era terrível, especialmente para o meu pai que detestava andar descalço até dentro de casa.

— O que eu não faço por você, né, seu pirralho? — Ele riu, me empurrando pelos ombros.

Coloquei minha antiga mochila da escola nas costas e ajeitei as alças, deixando-as um pouco mais largas. Me sentia um pouco inadequado, mas era tudo o que eu tinha para colocar minhas roupas e tudo o que precisava para o acampamento, assim como a lanterna, o canivete, pilhas extras e um rolo de papel higiênico.

Esfreguei os olhos antes de sair do quarto e me deparar com meu pai e sua cara de sono, ajeitando a mochila nas costas enquanto segurava os dois sacos de dormir pela alça do pacote.

Ele entregou um deles para mim e eu o prendi na mochila. Descemos as escadas, lado a lado, e a campainha tocou antes mesmo de termos a chance de tomar café da manhã.

— Nossa, que rápidos — Minha mãe desceu as escadas, apressada.

Ela abriu a porta da frente, empurrando o cabelo para trás dos ombros. Os sorrisos empolgados de Ethan e Leight invadiram a casa rapidamente e suas mãos bateram nas minhas costas e nas do meu pai. Ethan apertou meus braços, tomando da minha mão o biscoito de chocolate e o comendo rapidamente.

— Você tá muito lento pra um jogador de futebol americano — Zombou, me puxando para longe da mesa pela alça da mochila.

— Eu acabei de acordar — Retruquei.

Tirei o celular do bolso e acendi a tela, queria saber se ela tinha me mandado alguma mensagem, se estava tudo bem, mas parecia cedo demais para um sábado de manhã.

— Ah, fala sério, não vai levar seu celular pro meio do mato, vai? — Ethan revirou os olhos, tirando o celular das minhas mãos. — Você não vai precisar disso!

Ele jogou meu celular na direção da minha mãe, que o agarrou no susto, colocando dentro da bolsa.

— Mas e se alguém me ligar? — Perguntei, tentando pensar em alguma desculpa mais convincente. — O Brandon tá cuidando do meu apartamento, e se der merda?

— Sua mãe resolve, anda, já pra dentro da caminhonete!

Meu pai, rendido pela pressão que Leight e Ethan estavam colocando sobre nós dois, também deu o celular para a minha mãe, que o guardou na bolsa.

Pela janela da caminhonete, meio espremido no banco de trás, já que ela não era tão espaçosa quanto eu queria que fosse, observei minha mãe abrir um sorriso para mim e acenar rapidamente. Eu queria que fosse divertido, mas não sabia se minha cabeça ia deixar que eu me divertisse.

Cooper

O som do meu celular tocando invadiu meus olhos e me obrigou a abrir os olhos. Lentamente, tirei o braço de dentro das cobertas e desconectei o cabo do carregador do celular, encarando o visor com o nome de Adalia.

Suspirei, frustrada. Não que eu nunca mais quisesse falar com ela ou coisa do tipo, mas eu precisava de tempo e um pouco de espaço para conseguir processar o que aconteceu.

Querendo ou não, eu ainda me sentia traída por uma das minhas melhores amigas, eu confiava em Adalia talvez mais do que confiava em Angeline e era difícil tratá-la normalmente, mesmo percebendo que seu arrependimento era genuíno.

O celular tocou de novo, e de novo, e de novo, e eu sabia que ele continuaria tocando até que eu atendesse, então me rendi e o atendi.

— O que foi? — Perguntei, me sentando sobre a cama.

Esfreguei os olhos e empurrei o cabelo para trás. Era muito cedo para sair da cama num sábado, mas, pelo visto, não cedo o suficiente para que Adalia permanecesse dormindo.

Allison... Viu alguma coisa estranha na televisão ou nas suas redes sociais? — Perguntou. Eu conseguia sentir a apreensão em sua voz, quase como se ela estivesse se contorcendo para falar.

— Não, eu acabei de acordar — Estiquei as pernas, tentando recobrar os reflexos dos músculos. — Eu deveria ver?

É que aconteceu uma coisa e... Eu queria que você soubesse que você não é nada do que você ler ao seu respeito — Ela hesitou. — Eu nem sei se essa frase fez sentido, mas saiba que não é culpa sua e nem do...

— Adalia, você não precisa cuidar de mim como se eu não soubesse lidar com nada — Rebati, atravessando a fala da garota. — Não precisa tentar armar mais um plano maluco pra me enfiar em uma bolha!

Allison!

Desliguei o celular antes de deixá-la dizer qualquer outra coisa. Respirei fundo antes de olhar para as notificações, minhas redes sociais pareciam malucas.

Uma enxurrada de seguidores novos e de comentários nas minhas fotos começaram a aparecer. Engoli o bolo da garganta, tentando prever o que tinha acontecido.

Talvez alguém viu algum quadro meu...

Mas não aprecia ser justificativa suficiente para tamanha repercussão, meu celular praticamente não comportava as notificações, o sistema operacional parecia até meio maluco.

Entrei em uma das minhas redes sociais, abri o meu perfil e percebi que eu tinha ganhado onze mil novos seguidores. Meu coração acelerou, quase parou, aquilo não parecia algo bom. Onze mil pessoas não apareciam do nada, aleatoriamente, só porque te acharam legal ou bonito, elas aparecem quando querem encontrar algo que você tem a oferecer e, honestamente, o meu instagram não parecia algo muito convidativo para ninguém.

Meu coração parou quando entrei nas notificações. O suor brotou nas palmas das minhas mãos antes que eu pudesse tocar na mais recente, que me direcionou para a minha foto mais antiga da conta.

E lá estava eu, esbanjando um sorriso largo e quase assustado, entre Angeline e Michael. Usávamos roupas ridículas e óculos de plástico gigantes e coloridos, nossos cachecóis eram cheios de penas falsas e coloridas e nossas roupas eram ridículas.

Eu estava usando um colete brilhoso que tinha encontrado no guarda-roupa de Angeline e ele estava exageradamente grande em mim, especialmente porque eu sempre fui menor e mais magra que ela, a blusa regata branca estava suja de salgadinhos e a calça vermelha só piorava as coisas.

Apesar de saber que aquela foto era um caos, era uma das minhas melhores lembranças da minha adolescência, porque nós três tínhamos quatorze anos e estávamos apenas aproveitando mais uma das várias festas do pijama que fazíamos recorrentemente. Sabia que era ridícula, mas me recusava a tirá-la de lá.

Passei os olhos para os comentários, tinham muitos, bem mais do que os quatro que costumavam ter anteriormente. Ainda com medo, sentindo meus braços arrepiarem e um frio na barriga tomar conta de todo o meu corpo como se, a qualquer momento, eu fosse morrer, toquei para exibir todos os comentários.

— Não acredito que alguém tão bonito quanto Daniel Carter esteja transando com uma garota tão estranha, ela é tão magra que parece doente... — Li o primeiro comentário em voz alta. — Ela só está interessada no dinheiro dele — Li a resposta e logo corri os olhos para o que vinha embaixo. — Ela deve ser muito boa na cama pra conseguir a atenção de alguém como ele...

Passei o dedo sobre uma lágrima solitária que escorreu pelo meu rosto antes de ser interceptada. Eu não deveria me sentir mal por ler aquilo, aquelas pessoas não me conheciam, não sabiam de nada da minha vida e não conheciam o meu relacionamento com o Daniel, mas ainda doía ler aquilo.

Soltei o celular sobre a cama, o empurrando para o mais longe que eu consegui, eu não queria sentir meu peito doar por aquilo, mas doía no fundo da minha alma e parecia derreter todos os meus ossos como ácido sulfúrico.

Quando comecei a namorar Daniel, eu costumava ouvir comentários como aqueles pelos corredores da escola. Nenhum dos outros alunos tinha coragem suficiente para dizer isso para mim ou para ele, mas isso não significava que eu não os ouvia, porque eles não faziam questão de esconder.

Diziam que ele só estava comigo para que eu fizesse a lição de casa dele, ou que eu só estava com ele porque ela rico, diziam que não entendiam como ele tinha se apaixonado por mim e alguns até diziam que era tudo um jogo, porque ele nunca se apaixonaria de verdade por alguém como eu.

Mordisquei o lábio inferior, tentando manter a cabeça em ordem. Não era tão fácil quanto eu queria que fosse, mas depois de passar anos na terapia reclamando sobre os comentários ácidos que todo mundo fazia ao nosso respeito, tudo o que me restava fazer era me convencer de que nada daquilo era verdade.

Ouvi o som da campainha se espalhar por toda a casa, aguda e estridente. Eu sabia que não precisava me sobressaltar, minha mãe provavelmente atenderia quem quer que estivesse do lado de fora, mas, mesmo assim, tive medo de que fosse Daniel, Adalia, Angeline ou até mesmo Michael, porque eu sabia que todos eles só tentariam falar comigo sobre o que tinha acontecido e eu não sabia se queria conversar sobre como metade da internet tinha passado a me odiar por ter sido flagrada saindo com Daniel.

A curiosidade me fez levantar da cama e espiar pela porta. Não consegui ver quem era, minha mãe estava na frente e o resto da parede que ficava acima da porta me impedia de enxergar o rosto, mas sabia que tinha longos cabelos finos, cheios e escuros, que vestia um blazer cinza e uma calça sailor preta e de cintura alta.

Me apressei para entrar no banheiro, especialmente porque eu não queria que a pessoa atrás da porta me visse de pijama e descabelada. Fechei a porta atrás de mim e a tranquei, grudando o rosto na porta, tentando ouvir o que minha mãe estava falando.

— A Allison deve estar no banheiro, já chamo ela — Ouvi minha mãe fechar a porta. — Fica à vontade!

— Muito obrigada, Marianne — A voz de Helen fez meu coração parar.

— Puta merda — Grunhi, escorando as costas na parede.

Olhei para o meu reflexo no espelho e respirei fundo. Eu realmente não parecia ser o tipo de mulher por quem alguém como Daniel Carter se apaixonaria, eu era tão comum que dava raiva e ele parecia ter vindo de outro universo.

Sabia que pouco tinha a ver com a minha aparência, mas detestava me olhar no espelho com aqueles comentários na cabeça porque era como se eu voltasse aos meus dezesseis anos e me sentisse um monstro se escondendo na pele de uma menina comum e sem graça.

Joguei um pouco de água no meu rosto antes de escovar os dentes, eu não queria parecer tão antiquada descendo as escadas como se tivesse acabado de acordar, Helen Carter podia ser gentil e divertida, mas sua aparência era intimidadora.

Minha mãe bateu à porta e eu a abri um pouquinho permitindo que nossos olhos se encontrassem pela fresta.

— A Helen Carter tá na sala e ela quer falar com você — Ela fez uma careta assustada, como se eu estivesse ferrada. — Vê se não demora!

— Eu já tô saindo...

Respirei fundo antes de conseguir sair de dentro do banheiro. Alisei minha blusa antes de descer as escadas, queria ao menos parecer um pouco apresentável.

Helen levantou-se quando me viu no topo da escada e eu caminhei em sua direção. Ela era alta e esbanjava um sorriso carismático e cheio de dentes brancos e alinhados. Apesar do sorriso do Daniel ser muito parecido com o do pai, eu conseguia ver alguns dos traços dele no rosto de Helen, até mesmo os olhos dele pareciam uma mistura dos verdes de Sebastian com os cinzas de Helen.

— Oi, querida, quanto tempo — Ela sorriu, me segurando pelos ombros.

— Oi... — Devolvi o sorriso, um tanto desconcertada.

Eu sabia que ela tinha percebido o quão nervosa eu estava. Era, no mínimo, estranho tê-la na sala de casa, ela não era uma grande amiga da minha mãe ou coisa do tipo, ela era a mãe do meu ex-namorado.

— Sei que deve ser estranho me ver por aqui, mas eu precisava trocar uma palavrinha com você — Merda... Será que...?

— Algum problema? — Perguntei, recuando um passo.

— Não, nada disso — Ela sorriu, balançando a cabeça como se tentasse afastar aquela ideia boba da mente. — Daniel e Sebastian andaram aprontando esses dias e acabaram sacrificando um dos meus quadros favoritos. Me lembrei que quando estavam no High School, você era uma excelente artista e pensei que seria a pessoa perfeita para pintar um quadro novo para mim — Ela apertou os lábios, dando uma longa pausa antes de continuar. — Tudo bem se não se sentir confortável para pintar um quadro para mim, eu posso... Encontrar outra pessoa...

— Não! — Pisquei algumas vezes, atônita. — Seria uma honra. Isso é incrível!

Uma alegria tão grande corria pelas minhas veias que eu mal conseguia conter, queria pular e dizer que finalmente eu poderia fazer algo que eu realmente amava fazer, mesmo que fosse um tanto estranho.

— Que ótimo, então! — Ela abriu a bolsa, vasculhando o interior com os dedos. — Pode segurar isso aqui pra mim? — Ela me entregou dois celulares, um preto e um azul, e, sem saber como reagir, apenas os segurei. — Os meninos foram acampar e o Ethan proibiu o uso de celulares pelo fim de semana inteiro, então sobrou pra mim andar pra lá em pra cá com os celulares deles... Não que você precise saber, mas... — Ela franziu o cenho. — Ah, achei!

Ela tirou a carteira de dentro da bolsa e guardou novamente os celulares lá dentro. Helen Carter carregava uma carteira tão cara quanto meu celular e tão sofisticada quanto sua casa, e meu coração congelou quando a vi abrir o objeto e tirar quinhentos dólares de dentro e estender em minha direção.

— O que tá fazendo? — Perguntei, sem graça.

— Pagando pelo seu trabalho. Metade agora, metade quando estiver pronto! — Ela me obrigou a segurar as notas verdes e ásperas.

— Eu não posso aceitar, eu...

— Allison, é o seu trabalho, não pode fazer de graça. Eu quero te pagar por isso, não estou te pedindo um favor, estou comprando um quadro seu!

Baixei os olhos para o dinheiro. Era difícil aceitar, como se eu não devesse cobrar para fazer algo que eu amava, mas, mesmo assim, saber que ela reconhecia o meu esforço e todos os anos de estudo que precisei despender para aprender técnicas novas e como cada tinta funcionava, era gratificante de alguma forma.

— Bom, eu vou indo, então — Ela sorriu, alisando meus ombros. — Tem bastante trabalho pela frente!

Observei ela dar as costas para mim e caminhar na direção da porta. Olhei para o dinheiro em minhas mãos e um bolo começou a se formar entre meus pulmões. Ela estava bem ali e eu sentia que estava a deixando escapar, de alguma forma, como se, deixá-la ir embora significasse que eu estava o deixando escapar também.

— Sra. Carter — Chamei-a, apreensiva.

Helen girou sobre os calcanhares, me olhando atentamente com seus globos oculares cinzentos.

— Como ele tá? — Perguntei, fugindo com os olhos.

Por um instante, pensei que tinha sido uma completa idiota por ter perguntado aquilo, como se eu tivesse acabado de vomitar cinco quilos de merda em cima de Helen Carter, e ela pareceu surpresa com a pergunta, mas abriu um sorriso condescendente logo em seguida.

— Alguém já te perguntou como você está, querida? — Ela devolveu a pergunta, aproximando-se de mim. — Daniel me contou que tinha pensado em te chamar para morar com ele, parecia bem empolgado com a ideia, fez até contas e, bom, ele nunca foi muito bom com números, mas os cálculos estavam certos...

Eu suspirei, me sentando de frente para ela no sofá. Helen manteve as pernas cruzadas para o lado enquanto virava o torso na minha direção, eu, por outro lado, tirei as pantufas dos pés e subi as pernas, abraçando os joelhos.

— Eu não sei como eu estou, pra falar a verdade — Apertei os lábios. — Eu tô bem confusa... Especialmente com as coisas que aconteceram, eu não sei...

Apertei os lábios. Os comentários apreciam pipocar na minha mente, incontrolavelmente, eles apareciam em flashes rápidos, mas todas as suas palavras eram inteligíveis e doloridas. Faziam o fundo do meu peito doer, como se uma pequena e fina adaga fosse rapidamente enfiada e arrancada do meu coração cada vez que eu me obrigava a lembrar daquilo.

— E o que você quer fazer? — Perguntou ela, fixando seus olhos nos meus.

— Eu... — Respirei fundo novamente, recobrando o controle sobre minha voz. Não queria parecer uma menina frágil para ela. Eu não queria parecer uma menina frágil para mim mesma. — Eu queria ir com ele. Queria poder o amar de perto e poder estar ao lado dele, mas... Com tudo o que aconteceu, agora, com essa coisa das fotos que vazaram eu só consigo pensar que talvez eu deva manter distância, não quero sujar o nome dele ou atrapalhar na carreira e... Ele parece tão feliz jogando...

Hele também respirou fundo. Seus dedos finos e compridos contornaram minhas mãos, as segurando com força antes de puxá-las em sua direção. Seus olhos caíam sobre mim, cautelosos, mas cuidadosos.

— Você realmente ama o meu filho, não é? — Ela abriu um sorriso rápido e compreensivo.

Confirmei com a cabeça, mordendo o lábio inferior, sentindo a rolha entre meus pulmões se alargarem.

— Mas eu não sei se ele ainda acredita nisso... — Ri abafado, baixando os olhos para nossas mãos.

Ela fez uma careta confusa, torcendo o nariz e fechando os olhos rapidamente.

— Deixa eu te contar uma coisa... Os homens da família Carter normalmente vêm com um defeito de fábrica — Rimos e ela balançou a cabeça, reafirmando o que tinha dito. — Todos eles são incrivelmente idiotas quando se trata de amor. E isso é um pouco pior quando se trata do Daniel, porque, você sabe bem, ele é um poço de sentimentos — Ela apertou meus dedos contra os seus, acariciando os nós dos meus com movimentos circulares. — Sei que meu filho ama você. Acho que ele nunca amou alguém tanto quanto te ama... — Ela baixou os olhos brilhantes, sorrindo. — Você é especial pra ele. Mas... Allison... Só amor não é suficiente!

— Acha que preciso me afastar? — Perguntei com a voz embargada.

— Acho que precisa encontrar o que é suficiente para você!

Franzi o cenho, abaixando os olhos, sentindo meu peito se expandir rapidamente. Por que dói tanto?

Por que penso que ele não é suficiente para mim? O que falta?

De repente, me puxando de volta para a realidade e para longe da minha própria mente traiçoeira, minha mãe apareceu atrás do sofá com um sorriso meio desconcertado estampando seu rosto. Ela apoiou as mãos sobre o encosto do sofá entre nós duas.

— Eu preparei café!

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