24. Bottles
Carter
Allison pegou no sono nos meus braços. Seu rosto repousado sobre o meu peito, seus dedos curtos sobre meu coração, sua respiração pesada deslizando sobre minha pele, seu corpo desnudo colado no meu e tudo o que eu conseguia sentir era meu peito se comprimir.
Eu deveria me sentir no céu, mas acho que enquanto eu ainda fosse capaz de ver as coisas ruírem diante dos meus olhos, seria impossível. Mesmo que a mulher dos meus sonhos estivesse deitada dentro do meu abraço, despreocupada e tranquila, minha cabeça não me deixava em paz.
Pela primeira vez na vida, quis que Allison não tivesse medo de arriscar, pela primeira vez, quis mudar uma única vírgula da sua personalidade, porque eu não queria que ela precisasse pensar para poder aceitar o meu amor, eu queria que ela estivesse tão disposta quanto eu. Mas saber que eu tinha apenas uma semana antes de voltar para o Michigan com ou sem ela era desesperador.
E se ela dissesse não?
Quando cheguei na conclusão de que a nossa única saída era chamá-la para morar comigo, não pensei que fosse se tornar algo tão difícil. Eu tinha conversado seriamente com meus pais sobre aquilo, e mesmo que eles dissessem que eu já era um adulto e que aquela decisão precisava ser tomada apenas entre mim e ela, sentia que o maior empecilho ainda estava fora do nosso relacionamento.
Nós não éramos o problema. Não necessariamente. Mesmo que Allison precisasse tomar uma decisão, eu sabia o quão complicado seria explicar para os pais dela sobre aquilo e, talvez, por aquele motivo ela precisasse pensar tanto.
Afaguei suas costas com cuidado, não queria acordá-la. Na verdade, queria que o tempo congelasse para que eu pudesse permanecer ali pelo resto da vida. Ajeitei seu corpo no meu, segurando seu pulso contra meu peito e afastando seu cabelo com os dedos.
Quando começamos a namorar, eu tinha pesadelos constantes com ela. Praticamente toda noite a mesma cena se repetia: ela me mandando mensagens, eu chegando em sua casa e arrombando a porta do banheiro, ela praticamente inconsciente no chão do banheiro, os frascos de remédio espalhados por todo canto. Eu acordava ofegante, às vezes gritando, e não conseguia mais pegar no sono.
Eu comecei a ir na terapia por recomendação do conselheiro da escola, já que minhas notas começaram a cair de novo. No começo culpavam meu relacionamento com a Allison, mas depois que eu acordei a casa toda depois de um pesadelo, meus pais perceberam que o buraco era um pouco mais fundo. No fim, descobriram que eu estava sofrendo de um negócio chamado síndrome pós-traumático e a terapia cognitivo-comportamental me ajudou bastante.
Vê-la dormindo tranquilamente nos meus braços sempre foi uma maneira de me acalmar, mesmo que, por vezes, eu colocasse o dedo na frente do nariz dela só para saber se ela ainda estava respirando. Com o tempo, tudo aquilo melhorou e eu consegui relaxar, especialmente quando Allison começou a dar os primeiros passos na direção da superação do trauma do outro relacionamento.
Passei a mão por seu rosto e ela franziu o cenho, apertando os olhos antes de abri-los lentamente. Ela piscou preguiçosamente, passou os olhos por nossos corpos e levantou a cabeça, abrindo um sorriso ao encontrar meus olhos e eu não pude deixar de retribuir, sentindo meu coração acelerar.
— Você ainda tá aqui — Ela alargou o sorriso, apoiando o corpo nos cotovelos.
— Pra onde mais eu iria? — Franzi o cenho, confuso.
Ela baixou os olhos, apoiando o peso do corpo nos braços antes de impulsionar o corpo na minha direção. Seus lábios tocaram os meus, apertando-os um contra o outro lentamente.
Eu não sabia se devia deixar que ela o fizesse, não sabia mais se tinha sido uma boa ideia ter transado com ela depois de tudo. Eu ainda não tinha uma resposta positiva, ainda não sabia se ela realmente iria comigo para o Michigan e, no fundo, tudo aquilo só tornava as coisas ainda mais difíceis para mim.
— Qual o problema? — Ela levantou as sobrancelhas, apreensiva.
— Não é nada... — Fugi com os olhos, encarando nossas roupas jogadas pelo chão. — Que horas são?
Ela curvou-se sobre o meu corpo, deslizando o peito no meu. Puxou o celular na mesa de cabeceira e acendeu a tela, iluminando seu rosto com o brilho azulado, deixando suas sardas claras um pouco mais aparentes.
Seus olhos se arregalaram e, naquele instante, eu sabia que talvez fosse tarde demais para que eu estivesse deitado, sem roupa, numa cama de solteiro com Allison.
Ela pulou por cima de mim, recolhendo as roupas no chão. Enquanto vestia o sutiã e a calça, entregou minhas roupas no mesmo ritmo acelerado e, acompanhando a euforia dela, coloquei a calça e calcei os sapatos.
Varri o quarto com os olhos procurando pela minha camisa. Ela não estava em nenhum lugar.
Dei um tapa na testa. Tá na sala!
Descemos as escadas tropeçando nos pés, acelerados como se nossas vidas dependessem daquilo. Passei os braços para dentro das mangas da camisa, que estava amarrotada, abotoei o máximo de botões que consegui, desistindo nos últimos três, e pulei por cima do sofá, empurrando o cabelo para trás com os dedos enquanto ela tentava colocar a camisa para dentro da calça novamente.
Ela desistiu, deixando apenas um dos lados para dentro. Contornou o sofá e sentou-se ao meu lado, escorando o corpo no meu, segurando um pote de balas entre os braços. Ela puxou meu punho, fazendo com que meu braço circundasse seus ombros. Com as mãos ela vasculhou atrás do corpo até encontrar o controle da televisão a ligando em um canal aleatório para fingir que estávamos assistindo.
Ela entrelaçou nossos dedos e eu senti meu coração apertar. Queria repeli-la, não queria que ela me fizesse sentir aquelas coisas, definitivamente não queria desejar seu corpo, seus lábios, seu sorriso e seu amor, e não queria implorar por aquilo.
A porta da frente se abriu e eu prendi a respiração, assustado com a possibilidade de que o pai dela nos flagrasse naquela situação. Eu não saberia o que dizer, ou o que fazer, não saberia se ela simplesmente o diria algo como "tô arrumando minhas malas pra ir embora com ele" ou "eu posso explicar, não é o que você tá pensando".
— Ah, sem chances, você tá aqui? — Samuel apareceu do meu lado, me dando um aperto de mãos.
Ele hesitou por um instante. Seus olhos castanhos, que contrastavam com o cabelo laranja, correram de mim para Allison, para nossa posição, para nossas roupas e, por fim, ele ergueu as sobrancelhas, esbanjando um sorriso malandro.
— Vocês transaram? — Perguntou sem vergonha alguma.
Meu coração falhou todas as batidas que ele tinha direito, senti o suor brotar nas palmas das minhas mãos. Tá tão na cara assim?
— O quê? — Allison arregalou os olhos, apertando meus dedos. — Não!
— De onde você tirou isso? — Tentei controlar a voz, mas ela falhou.
Ele pendeu a cabeça para o lado, franzindo o cenho e sorrindo de canto. Samuel não era mais criança e ainda era estranho aceitar que ele já tinha dezenove anos e sabia exatamente o que era transar, pior, era estranho aceitar que ele sabia que eu tinha transado com a irmã dele.
Mesmo que a situação fosse a pior possível — e a mais constrangedora —, eu estava agradecido por não ser Anthony Cooper bem na minha frente, me perguntando se eu tinha transado com a filha dele.
— Ela tá descabelada e você abotoou errado a camisa — Ele apontou na minha direção.
Desci os olhos para o meu peito, observando os botões, todos colocados na casa errada. Franzi o cenho, eu não tinha a intenção de sair na rua com a camisa abotoada daquele jeito.
— Merda — Deixei escapar, desabotoando tudo de novo.
— Não esquenta, não vou falar pro meu pai ou coisa do tipo! — Ele deu de ombros, escorando o corpo no braço da poltrona.
Allison levantou-se, me dando mais espaço para colocar os botões em ordem. Ela parou de frente para o irmão, passando os dedos pelo cabelo, abaixando os fios desgrenhados e desembaraçando os nós.
— É o mínimo que você poderia fazer — Ela franziu o cenho e cruzou os braços na frente do peito. — Ele definitivamente não precisa saber da minha vida sexual!
— Muito menos que eu fiz parte dela — Conformado, me levantei, terminando de dobrar as mangas da camisa. — É melhor eu ir embora...
— O quê? — Allison virou-se para mim. Os olhos pedintes caindo sobre os meus. — Por quê?
Fugi dos seus olhos olhando para baixo. Eu sabia que ela queria que eu ficasse ali com ela, talvez até mesmo eu quisesse ficar com ela por mais tempo, mas não era como se eu conseguisse. Algo dentro de mim me dizia que eu estava sendo um completo idiota por me deixar levar por ela, simplesmente porque não tínhamos certeza de nada.
Sim, ela me amava, sim, eu a amava, mas isso era a única coisa que tínhamos e, no fim das contas, só amor não é suficiente para sustentar um relacionamento.
Ela segurou meu braço e eu engoli em seco. Seus olhos me imploravam silenciosamente por mais tempo, por uma dose um pouco mais longa de nós.
Samuel, por outro lado, não tirava os olhos de cima de nós dois, como se ele estivesse assistindo a um filme trágico de camarote.
— Não vai ser bom pra você se o seu pai me encontrar por aqui — Virei o rosto para a porta da frente. — Não quero te encrencar nem nada...
Ela abriu a boca, fazendo menção de dizer algo, mas não conseguiu. Seus dedos deslizaram para longe do meu braço conforme eu me afastava na direção da porta.
Seus ombros despencaram e seu rosto adquiriu um tom soturno e melancólico. Eu odiava vê-la daquela forma, doía em mim também, e era isso que eu mais odiava em nós dois e no nosso amor, enquanto eu estivesse perto dela, vendo seus olhos, sabendo do que acontecia com ela, eu seria capaz de sentir tudo.
E eu sentia sua confusão e seu medo, e aquilo me frustrava. Eu não queria que ela sentisse medo, eu queria que ela estivesse ao meu lado, que nós pudéssemos recuperar todo o tempo que estivemos longe, queria que ela fosse capaz de se sentir um pouco mais confiante de escolher ir comigo quando estivesse perto de mim, mas não era suficiente.
Destranquei a porta e a abri, sentindo o vento frio bater no meu rosto.
— Daniel... — Ela chamou antes que eu pudesse descer as escadas da varanda.
Respirei fundo antes de me virar para ela. Eu sentia todo o meu corpo falhar, especialmente quando percebi que ela se aproximava lentamente de mim.
Sua presença ainda era avassaladora, ainda era capaz de me bagunçar, de me confundir e de agir como um completo imbecil sem cérebro. Instintivamente, dei um passo para trás, tentando aumentar a distância entre nós dois.
Ela não queria que eu me afastasse, e talvez tê-lo feito tenha a machucado. Seus olhos brilharam abaixo da luz prateada da lua, que era a única coisa que nos iluminava ali fora, ela piscou algumas vezes, tentando dissipar as lágrimas que brotavam em seus olhos. Merda, Daniel, merda!
— Eu fiz alguma coisa errada? — Ela agarrou minha mão, abaixando a cabeça, o cabelo deslizando por cima dos ombros. — Por que tá me afastando?
Não, por favor, não!
A dor era quase palpável. Allison sempre ficava extremamente machucada toda vez que eu tentava me afastar. Antes de namorarmos, milhares de vezes eu tentei fugir dela, dos seus olhos, do seu toque, e cada vez que eu o fazia, assistia ela se afundar ainda mais.
Eu não queria que ela se afundasse novamente, mesmo que não tivesse ninguém no caminho, ao menos ninguém como Miles. Eu não queria me sentir culpado por magoá-la, mas também não queria me magoar e, naquele momento, eu não fazia ideia do que era mais importante: vê-la bem ou me sentir bem.
Allison apertou meus dedos com força, as mãos trêmulas não queriam me soltar por nada. Não era pra ser tão difícil. Não deveria ser. Se ela ainda não tinha se decidido, não tinha motivos para que ela não me deixasse ir, especialmente sabendo que, independente da escolha dela, talvez ela ainda pudesse me ver.
Soltei minha mão da dela, dando um passo em sua direção. Ela não queria levantar o rosto, não queria me olhar, porque talvez tivesse medo de encontrar uma resposta indesejada em mim. Mas eu queria seus olhos em mim, queria seus olhos nos meus.
Segurei seu rosto, sentindo sua pele esquentar contra a palma da minha mão. Seus dedos contornaram meus pulsos, pressionando com força para que eu soltasse seu rosto. Eu não queria soltar, não queria ir embora, não queria deixá-la pensando que tinha feito algo de errado.
— Ei — Suspirei, acariciando seu rosto com os polegares. — Olha pra mim!
Ela balançou a cabeça negativamente, rangendo os dentes. Allison encolheu o corpo, como se quisesse desaparecer em um instante.
— Olha pra mim, vai — Levantei seu rosto pelo queixo. Seus olhos transbordariam se ela soltasse a respiração. — Tá tudo bem, o.k.? Não é nada com você, nem com a gente... Eu só... — Engoli em seco. Eu não queria dizer que estava me sentindo um completo idiota por ter me deixado levar tão facilmente. — Você precisa pensar, certo? Eu não quero te atrapalhar com isso!
— Eu não quero que você vá! — Ela levantou a voz, respirando acelerado.
Ela não estava me dizendo que não queria que eu voltasse para a casa dos meus pais, me trancasse no quarto e reconsiderasse tudo o que tínhamos feito. Eu sabia do que ela estava falando. Quando se tratava de Allison, eu conseguia entender perfeitamente todas as entrelinhas existentes.
— Então por que você não vem comigo? — Baixei os olhos, tensionando o maxilar.
— Eu não sei... Eu não... — Ela gaguejou, cravando os dedos nas mangas da minha camisa.
Eu a afastei pelos ombros, o bolo que se formava entre minha gargante e meus pulmões aumentava cada vez mais. Eu queria poder mudar o mundo inteiro para que nós dois pudéssemos ter um final um pouco menos dolorido, mas nada do que eu fizesse parecia ser suficiente. Eu queria muitas coisas, e nenhuma delas parecia viável para Allison.
Seus olhos fugiram dos meus, várias vezes. Seus lábios fizeram menção de tentar se explicar, mas não era como se qualquer coisa que ela dissesse fosse mudar muito a situação.
— Dizer que não quer é suficiente, Allison — Quase vomitei as palavras sobre ela, escarnecido.
— Mas eu quero! — Ela respondeu rápido, dando um passo na minha direção.
Eu recuei.
— Então por que não vem? — Franzi o cenho e estreitei os olhos, sentindo meu peito se dilacerar lentamente. — Por que quando eu é quem te peço para voltar, você reconsidera milhares de coisas? Por que estar comigo é sempre tão difícil pra você? — Tentei engolir o nó da garganta, sem muito êxito. — Quando aquele cara te pedia de volta, você se arrastava aos pés dele, mas comigo você inventa mil e uma desculpas pra me empurrar para longe!
Ela desistiu de segurar o choro, as lágrimas passaram a escorrer pelas laterais de suas bochechas, vazando pelos cantos dos olhos e gotejando sobre a camisa branca. Allison não conseguia reagir, seus dedos tremiam tanto quanto seu queixo.
— Eu sinto muito, Daniel — Ela soluçou alto, agarrando meus braços desesperadamente.
— Não, Allison, eu acho que você nunca sentiu porra nenhuma, no fim das contas!
Soltei suas mãos dos meus braços e me virei para a escada. Era mentira, uma mentira ridícula e insensata, porque eu sabia que Allison sentia mais do que podia suportar, mas não sabia mais se o que ela sentia por mim era tão forte quanto ela queria que fosse.
Passei as mãos pelo rosto quando entrei no carro, grunhindo alto. Eu odiava me sentir daquela forma, odiava sentir o que ela sentia, odiava sentir qualquer merda.
Eu queria ser tão sensível quanto uma pedra, mas infelizmente eu era tão sensível quanto a porra de uma garotinha frágil e assustada. Odiava a merda do meu coração mole e dramático, porque enquanto Allison existisse, e enquanto eu soubesse que nós coexistíamos eu não teria um minuto de paz, porque minha mente e meu coração não seriam capazes de deixá-la ir.
— Porra — Gritei sozinho, dando um tapa seco na beirada do volante.
Respirei fundo antes de conseguir ligar o carro e sair dali. Olhei uma última vez para a frente da casa, ela ainda estava lá, seus olhos ainda pesavam contra o carro, seus braços seguravam um ao outro, como se ela tentasse, de alguma forma, proteger o próprio corpo de sentir o que eu sentia.
Parei o carro no sinal vermelho que me impedia de entrar na avenida principal para voltar para casa. Meu celular vibrou dentro da calça e, pelos alto-falantes do carro, o som do toque reverberou por todo o perímetro irritantemente.
Pelos controles do volante, atendi à chamada, vendo o nome de Brandon estampar o painel do rádio do carro. Estreitei os olhos, desconfiado, quando pedi para que ele cuidasse do meu apartamento enquanto estivesse fora disse para ele me ligar apenas em alguma emergência, o que não me deixava nem um pouco aliviado.
Se Brandon estava me ligando, coisa boa não era.
— O.k., qual o problema? — Perguntei, exausto.
A respiração pesada de Brandon fez uma barulheira pelo carro e eu abaixei um pouco o volume, acelerando quando o sinal abriu.
— Pivete, tá onde? — Ele me devolveu uma pergunta.
— Dirigindo. Tô voltando pra casa dos meus pais — Respondi, acionando a seta da direita.
— Puta merda... — Ele estalou a língua. — Escuta, não olha agora, só abre quando chegar em casa. Vou te mandar um negócio!
— Tá, mas qual o problema?
— Carter... Abre só quando chegar na casa dos seus pais. Não tira o foco do trânsito!
— Eu não tenho escolha, no fim das contas...
Desliguei a chamada e acelerei o carro o máximo que pude, não queria encher meu pai de multas, mas queria chegar o mais rápido possível em casa.
Não estranhei me deparar com o carro do tio Leight estacionado na frente de casa. Parei o carro logo atrás, desatando o cinto e saindo dali de dentro o mais rápido que pude. Eu queria saber o que Brandon tinha me enviado e o quanto eu me arrependeria de ter ido viajar largando um apartamento para trás.
Abri a porta da frente, recebendo os olhos de Leight, Ethan e do meu pai, por um instante, pensei que eles, de alguma forma, sabiam do que tinha acontecido e queriam saber se eu estava bem, mas, assim que Leight e meu pai retomaram o assunto de antes, percebi que não passava de paranoia minha.
Ethan levantou as sobrancelhas, curioso. Eu sabia o que ele queria saber, especialmente porque tudo fazia parte do seu plano idiota de tentar me juntar novamente com Allison. Ele pulou por cima do sofá, deixando nossos pais sozinhos na sala, gargalhando juntos como dois adolescentes.
— E aí? — Perguntou, empolgado, me puxando pelo braço na direção da escada. — Gostou da surpresa?
— Eu deveria te dar um soco na cara, na verdade — Revirei os olhos, subindo logo atrás dele.
Atravessamos o corredor rapidamente, entrando no meu quarto logo em seguida. Chutei para longe uma camiseta suja e me sentei na beirada da cama, Ethan, por outro lado, se jogou sobre o pufe azul e velho que eu usava quando queria jogar videogame mais perto da televisão.
— Vai me dizer que você não gostou de ter jantado com ela — Ethan cruzou os braços na frente do peito.
— É... Foi legal — Joguei o corpo para trás, esticando os braços sobre o colchão.
Ethan franziu o cenho, incomodado.
— "Legal"? — Ergueu uma das sobrancelhas. — Como assim? Você saiu com o amor da sua vida e tudo o que você me diz é que foi só "legal"?
Juntei um montante de ar dentro dos pulmões antes de soltá-lo lentamente, tentando colocar a cabeça em ordem.
— A gente transou — Tamborilei os dedos sobre o colchão.
Ethan olhou ao redor, confuso.
— Isso não era pra ser bom? — Estreitou os olhos, impulsionando o corpo para longe do pufe.
Ele deitou-se ao meu lado, apoiando as mãos na barriga e virando o rosto na minha direção. Eu não conseguia tirar os olhos do teto, de um instante para o outro, era como se eu não fosse mais capaz de sentir absolutamente nada. Estava anestesiado, quase como um morto.
— Era... Mas — tranquei os olhos —, porra, ela sempre tenta colocar alguma coisa entre nós dois pra que as cosias não deem certo. É como se ela quisesse provar o tempo inteiro que, mesmo que nós nos amemos, não fomos feitos pra ficar juntos!
Ethan levantou o rosto para o teto, acompanhando a minha visão, contemplando a tinta branca que adornava os arredores da lâmpada.
A vida adulta era um porre. Eu sabia que as coisas normalmente nunca saíam de acordo com as nossas expectativas, mas aquilo estava se tornando muito mais que cansativo.
— Sinto muito — Ele deu de ombros e apertou os lábios.
— Não, Ethan, ninguém sente porra nenhuma — Me sentei novamente. — E esse é o problema!
Puxei o celular de dentro do bolso da calça, me esticando com cuidado para conseguir agarrar a capinha com a ponta dos dedos. Desbloqueei o aparelho e entrei nas mensagens, tocando sobre o nome de Brandon.
— Carter... — Ethan me chamou.
Sinalizei com a mão para que ele esperasse, meus olhos deslizaram pelas mensagens de Brandon me dizendo para manter a calma e não surtar, porque aquele tipo de coisa era "comum" de acontecer, mas só fui entender realmente do que ele tava falando quando abri a imagem.
A manchete era clara e bem direta, vinha de um site de fofocas bastante conhecido por todo o país. A frase que estampava o topo da página, com letras garrafais em caixa alta, bem largas e compridas, dizia "PROMESSA DA NFL É FLAGRADO COM EX, O AMOR NUNCA MORRE".
— Carter, é sério... — Ethan me chamou.
— Espera aí, isso aqui é mais — Estreitei os olhos para a matéria.
Tensionei o maxilar, aquilo não podia ser mais ridículo.
"Daniel Carter, o tão aclamado quarterback do Pirates, tem dado o que falar ultimamente. Primeiro, o boato — desmentido — de que ele estava saindo com a modelo Brianne LaRochè durante a última temporada do Super Bowl criou um bafafá ao redor do nome do jogador caçula do time.
Agora, a história é outra.
Paparazzis de plantão ficaram sabendo do destino de viagem de férias do rapaz após um fã postar uma foto com o jogador nas redes sociais. Desde que Daniel Carter foi visto rodando as ruas de Boston e Brookline com o melhor amigo de infância e com os pais, os empresários Sebastian e Helen Carter, os caçadores de fofocas não descansaram até conseguirem uma notícia fresquinha do quarterback que tem arrancado suspiros de todas as mulheres do país e causado muito orgulho para o time contratante.
Nesta noite de sexta, 09, o jogador foi flagrado acompanhado da ex-namorada de adolescência, a ex-professora e artista plástica Allison Cooper, durante um jantar em um dos restaurantes mais novos e luxuosos de Boston.
Os paparazzis fizeram fotos dos dois pombinhos durante o jantar e, posteriormente, na frente da casa da jovem, onde foram flagrados aos beijos dentro do carro do pai do rapaz.
Nas fotos, é possível perceber o clima de romance entre os dois.
Daniel Kellan Carter está com vinte e três anos de idade e mantém a vida pessoal o mais reservado que consegue. No entanto, apesar do rapaz não ter aparecido com ninguém nos últimos tempos, procurando um pouco mais a fundo nas redes sociais do jogador, encontramos o perfil de sua ex-namorada, e, para a nossa surpresa, ele sempre marcou presença nas fotos, curtindo todas. A jovem também reage às publicações do quarterback mais aclamado do momento com bastante frequência. Será que eles reataram o namoro?".
Mais para baixo, quase um álbum de fotos minhas e da Allison estampavam a notícia com legendas ridículas, como "parece que o galã foi conquistado por uma plebeia".
Eu detestava a mídia. No começo, quando era mais novo e queria ser famoso simplesmente para ser reconhecido, eu não imaginava o quão frustrante e irritante a mídia poderia ser, mas depois que você é inserido num mundo em que a sua vida é uma casa grande e com paredes de vidro, até franzir o cenho para ler alguma placa distante poderia ser interpretado como uma ameaça e o mundo inteiro passava a te odiar.
Aquele boato de que eu estava me enrolando com a Brianne surgiu depois que eu encontrei com ela em uma festa durante uma viagem para Nova York. O Pirates tinha vencido e saí com alguns dos caras do time para comemorar, acabamos passando em uma festa e ela estava lá.
Eu sabia que me envolver com alguém não era a melhor coisa a se fazer, especialmente durante a época de jogos, e não tinha acontecido nada entre nós dois. O boato surgiu porque em uma das fotos publicadas no twitter por alguém que estava na festa mostrava a menina apoiando a mão no meu ombro, eu estava curvado para o lado para conseguir ouvir o que ela estava me falando e, no fim, o assunto não era nada demais. Brianne só estava me pedindo ajuda pra encontrar o brinco que tinha caído no chão.
— Porra, Daniel... — Ethan puxou meu ombro. — Olha isso aqui!
Ethan estendeu o celular na minha direção e puxou o meu, correndo os olhos pela matéria que estampava a tela do meu. No celular dele, Adalia tinha o enviado várias capturas de tela de comentários de outras matérias.
— Tão falando da Allison — Ele passou a mão pelo rosto, desesperado. — E não são comentários nada agradáveis!
Li o primeiro. Um cara com uma foto de desenho animado e um nick bastante duvidoso comentou que ela era "uma vadia interesseira", porque, ainda segundo ele, "é muito fácil querer crescer em cima da fama dos outros".
Porra.
Allison definitivamente não queria crescer em cima da minha fama, ou do que eu estava conquistando de fama. Nem eu e nem ela queríamos isso um para o outro, tudo o que queríamos era um tempo para vivermos apenas nós dois, talvez uma segunda chance dada pelo destino, mas todas as vezes em que as coisas pareciam caminhar de uma forma positiva — ou quase isso — mais e mais problemas surgiam.
— Merda — Grunhi, apertando o celular entre os dedos. — Merda, Ethan, e agora?
— Como eu vou saber? Não sou conhecido em nenhum lugar! — Ele coçou o queixo, nervoso.
Passei os olhos pelos outros comentários, nenhum deles era minimamente animador. Tinha gente tentando defender-nos, respondendo comentários atrás de comentários, dizendo que cada uma daquelas pessoas não tinham absolutamente nada a ver com a nossa vida, mas automaticamente eram invalidados por mais comentários imbecis e imorais.
Minha respiração falhou e eu me levantei no mesmo instante, correndo para fora do quarto, descendo as escadas o mais rápido que consegui. Na sala, meu pai segurava o controle da televisão, o cenho franzido para a tela, a feição de indignação não negava o que estava passando na tela, do seu lado, tio Leight parecia apreensivo, coçando a nuca, inquieto e, atrás deles dois, minha mãe, que acabara de chegar em casa, mal piscava.
Virei os olhos para a televisão, temendo o que encontraria. Engoli em seco. Meu pai detestava aquele canal, depois que ele virou empresário de alguns caras que começaram a crescer o nome na música, era comum que ele ficasse puto com o que a mídia compartilhava a respeito dos artistas que ele empresariava, mas o assunto era outro, não era um cliente, era o filho dele estampando a tela da televisão num programa de fofoca adolescente.
Na tela, a apresentadora jovem segurava um bloquinho com o logo do programa na frente de uma tela, atrás dela, as fotos que tinham compartilhado de mim e de Allison passavam lentamente, dando uma demora proposital nas que eu estava a beijando.
A situação ficou ainda pior quando, por uma falha na edição do programa — que eu tinha quase certeza que fora proposital —, o instagram de Allison foi mostrado na tela atrás da apresentadora. Em poucos segundos, a censura voltou para cima do nome dela, mas a merda já estava feita.
— Desgraçados — Meu pai desligou a televisão. — Porra, eles não deixam as pessoas em paz um segundo sequer!
Minha mãe apertou os dedos ao redor da alça da bolsa, virando sobre os calcanhares na minha direção. Seus olhos basicamente me perguntavam silenciosamente "o que você vai fazer agora?", mas eu não tinha uma resposta, eu não fazia ideia do que fazer.
Queria correr para a casa da Allison e implorar pra ela ignorar tudo aquilo, mas e se ela não tivesse visto? E se aquilo se tornasse só mais um dos motivos para que ela se afastasse? E se aquilo fosse o suficiente para nos manter distantes um do outro?
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