21. Their Way

Carter

Ethan puxou o celular de dentro do bolso e deu uma bela olhada no horário e na data antes de se virar para mim com um sorriso malandro. Eram os meus últimos dez dias em Brookline, o que significava que ele queria aproveitar ao máximo, fazendo todas as coisas que nós costumávamos fazer quando mais novos.

Segundo ele, se não fizéssemos tudo aquilo, eu voltaria ainda mais frustrado para Ann Arbor, especialmente porque as coisas com Allison não tinham dado nada certo. No fundo, achei que ele estava mais frustrado que eu com o chute que eu tomei.

Era quase como uma ofensa pessoal. Sempre que aquele assunto voltava, ele colocava as mãos na cintura e revirava os olhos, como se fosse ele quem tivesse levado o chute.

"Claro que eu tô mais frustrado que você, esperei quase minha vida inteira pra vocês dois acontecerem e, no fim das contas, vocês se separaram. É triste!" era o que ele dizia.

Eu estava conformado de alguma forma, não significava que eu estava feliz com o que tinha acontecido, mas não tinha o que fazer. Era a escolha dela, independente de quantas coisas eu tentasse fazer, de quantos argumentos eu usasse, se ela não se convencesse sozinha de que nós dois ainda valíamos a pena, ela não mudaria de ideia.

Conhecia Allison como a palma da minha mão, sabia como as coisas funcionavam com ela e sabia que, por mais que ela quisesse fazer determinadas escolhas, às vezes o medo de se aventurar poderia ser avassalador e cobrir qualquer oportunidade.

Quando namorávamos, era algo que eu tentava incentivar ela a mudar. Allison já tinha perdido algumas oportunidades incríveis por medo de arriscar, ela imaginava milhares de coisas e possibilidades, encarava todos os pontos e todas as formas que poderiam dar errado, chorava compulsivamente por não saber o que fazer e, no fim, deixava passar a oportunidade porque dizia que não era capaz.

Por mais que eu dissesse que talvez valesse a pena se arriscar de vez em quando, sabia que aquilo só dependeria dela, se ela não quisesse mudar aquilo, estava tudo bem pra mim, desde que estivesse tudo bem para ela também.

E eu até entendia. Largar o trabalho era uma barra grande para podermos ficar juntos, não era algo simples, a vida não era um conto de fadas em que as coisas magicamente se arrumavam só porque um príncipe encantado apareceu na sua frente, e, por mais que eu estivesse disposto a abandonar qualquer coisa para poder tê-la ao meu lado, sabia que talvez fosse o fim da linha se eu o fizesse. Ela também teria que estar disposta, de certa forma.

— A gente pode assistir Star Wars — Ethan guardou o celular de volta no bolso.

— A gente não pode assistir Star Wars — Rebati, estacionando o carro na frente de sua casa. — A gente já assistiu Star Wars quinhentas vezes. Decorei o roteiro inteiro e minha memória é uma merda, então a gente não vai assistir Star Wars!

Ethan me olhou um tanto frustrado. Star Wars era um dos seus filmes favoritos, simplesmente porque ele passara a infância inteira assistindo aos filmes com o pai, mas não era como se eu fosse extremamente viciado em ver naves espaciais atirando umas nas outras e caras de pijama lutando com espadas laser coloridas.

Nossos pais amavam Star Wars, e, segundo eles, só tinham se tornado amigos por causa do filme, então assisti-los era basicamente uma atividade de família. Cresci os assistindo com meu pai, também, mas definitivamente não eram meus filmes favoritos do universo.

— Tudo bem, a gente joga videogame — Ele puxou o pacote de salgadinhos do banco de trás e abriu a porta.

— Valeu — Peguei a garrafa de energético e a de refrigerante, também no banco de trás e saí do carro.

Tranquei o carro e segui Ethan até o interior da casa, colocando as garrafas no canto da mesa de centro enquanto ele abria um dos pacotes de salgadinho.

— O de sempre? — Perguntou e eu confirmei com a cabeça. — Tá na primeira gaveta!

Abri a primeira gaveta, tirando os controles pretos dali de dentro e encarei algumas das várias e várias caixas de jogos que Ethan tinha guardado em milhares de lugares da casa.

A caixa velha que por vários anos foi a nossa maior diversão ainda estava lá no meio, mas corri os olhos pela fileira, me deparando com uma novinha em folha, sem riscos no plástico, ou manchas de dedos sujos de salgadinho nas beiradas.

— Você comprou o último lançamento! — Puxei a com a ponta do dedo, mostrando-a para Ethan.

— Claro, ninguém mais joga os antigos, as salas online estão sempre vazias! — Deu de ombros. — Comprei com seu pai antes de você chegar.

Ergui as sobrancelhas, surpreso. Eu sabia que meu pai tinha comprado um jogo novo, simplesmente porque toda vez que eu chegava em casa, ele estava ocupado demais jogando alguma partida.

Meu pai, por vezes, gostava muito mais que eu de ficar de frente para a televisão jogando videogame e, por muitos anos da minha vida, aquela foi uma das nossas atividades favoritas.

— Ele zerou anteontem — Comentei. — A gente pode...?

— Claro — Ele sorriu. — Coloca aí!

Liguei o videogame e a televisão, observando a tela de início enquanto abria a caixa e retirava o CD de dentro, que foi sugado para dentro do videogame rapidamente assim que o coloquei na entrada.

Puxei um dos controles, que já estava conectado ao console e me sentei atrás da mesa de centro, onde Ethan já me esperava com o pacote de salgadinho. Peguei alguns e deixei que ele pegasse o outro controle, configurando o jogo e iniciando uma partida online.

Ethan sempre ficava extremamente concentrado quando jogava, era quase um momento sagrado, ele mal piscava. Mas, daquela vez, era como se ele estivesse ansioso por algo, e eu sabia disso porque ele estava morrendo mais do que comumente morria durante as partidas, justamente por falta de atenção.

Ele tinha o olhar afiado, sabia conciliar o tempo entre olhar o mapa e a tela de jogo perfeitamente, coordenando as duas atividades de maneira impecável, não deixando que nenhum inimigo o atingisse, especialmente pelas costas. Mas ele não estava conseguindo.

Era como se seus dedos estivessem confusos entre os botões. Ele arremessou uma granada sem querer na minha direção e eu precisei sair correndo, quebrando a posição do time inteiro, o que abriu passagem para que um dos inimigos invadisse a nossa área e derrubasse o personagem de Ethan.

— Cara, a gente vai perder se você morrer mais alguma vez — Retruquei, atirando na testa de um cara da equipe inimiga.

— Foi mal — Ele revirou os olhos, apertando o botão para injetar uma seringa de vida na perna do personagem depois de ter reaparecido e tomado algum dano.

Ele era praticamente viciado em videogame. Na verdade, Ethan tinha uma péssima tendência a ficar viciado em qualquer coisa. Quando éramos mais novos, ele era viciado em analgésicos e, depois, passou para algumas drogas mais pesadas porque a ansiedade o fazia surtar e a única coisa que o acalmava eram as drogas.

Depois de muito custo, ele conseguiu ficar limpo e, mesmo com terapia, ele acabou transferindo o vício nas drogas para o videogame. Era menos pior, mas não significava que ele tinha se tornado um cara mais saudável.

Claro que ele tinha melhorado muito desde que éramos adolescentes, especialmente porque ele não tinha um videogame em Nova York, mas, desde que eu tinha chegado em Brookline, a maior parte do tempo em que estávamos juntos, nós jogávamos videogame.

Mas, naquele dia, ele estava tão desconcentrado que nem mesmo o vício era capaz de fazer com que ele jogasse bem. Ethan tomou um tiro na testa e a tela piscou rapidamente, mostrando a derrota do nosso time.

O loiro soltou o controle sobre o colo com os ombros baixos, decepcionado consigo mesmo. Ele normalmente nunca perdia as partidas e, apesar de eu ser muito suspeito para falar de jogos, ele era um tanto melhor que eu. Por mais que ele fosse de suporte e eu cuidasse da linha de frente, ele ainda conseguia fazer mais baixas que eu nas partidas.

— Que merda — Jogou a cabeça para trás, pegando um punhado de salgadinhos e enfiando alguns na boca.

— O que te deu hoje, hein? — Perguntei, puxando a garrafa de energético e tirando o lacre.

Ethan virou o rosto na minha direção, apertando os lábios em um sorriso sem graça enquanto eu virava a garrafa na boca. Era o jeito dele de dizer que videogame não era exatamente o que ele queria fazer.

— Ah, sei lá, não tô no clima — Deu de ombros. — Vai estar ocupado na sexta?

Seu rosto metamorfoseou-se em um piscar de olhos, adquirindo um sorriso travesso e empolgado de repente. Suas sobrancelhas subiram e a pitada de curiosidade que corria por seus olhos era quase incontrolável.

Achava besteira aquele tipo de pergunta, tecnicamente, eu estava de férias, então não tinha muito o que me ocupasse. Se eu não estivesse ajudando meus pais, jogando videogame, ou jogando alguma coisa com meu pai nos fundos de casa, eu estaria deitado na cama vegetando. Era óbvio que eu não estaria ocupado na sexta.

— Eu tô livre — Estreitei os olhos. — Por quê?

Ele deu de ombros e virou o rosto para o teto. Eu detestava quando ele fazia aquilo, simplesmente porque eu queria que ele me desse a resposta o mais rápido possível.

— Pensei de a gente ir naquele restaurante novo que abriu. O Michael disse que é bom — Ele franziu o cenho. — Tô cansado de comer a comida da minha mãe!

Eu ri abafado, a comida da mãe do Ethan não era ruim, mas Ethan detestava comida caseira. Quando ele era mais novo, todo dia era dia de ir no McDonald's, mesmo que a mãe dele não o deixasse comer sempre, o tio Leight acabava o levando no McDonald's sempre que eles estavam sozinhos.

Mas quando me dei conta do que ele tinha acabado de me dizer, foi como se uma bola de demolição tivesse acertado minha cara. Não precisei de muitos neurônios para ligar os pontos, mesmo que metade da minha cabeça pudesse estar com uma quantidade não muito eficaz de terminações nervosas.

Foi automático. Eu fiquei estático, segurando o controle com o suor brotando na palma das minhas mãos. "Eu tenho uma ideia... Na verdade, o Michael me ajudou com a ideia!", eu ainda me lembrava da exata frase que ele soltara no dia do poker, com a voz entusiasmada, mesmo que arrastada pela bebida e um tanto cansada pelas horas não dormidas.

— O que você realmente quer que eu faça na sexta? — Perguntei, estreitando os olhos em sua direção.

Ethan segurou o controle com força entre as mãos, deixando os nós dos seus dedos cada vez mais brancos enquanto ele selecionava a classe de armamentos e mudava para a tela da contagem regressiva para o início da partida.

Ele o excesso de saliva em sua boca e respirou fundo, virando o rosto em minha direção com um sorriso provocativo e quase sem entusiasmo.

— Nem tudo que eu faço tem segundas intenções, Carter — Ele levantou uma das sobrancelhas, voltando os olhos para a tela novamente.

Eu não estava nem um pouco convencido. Conhecia Ethan desde o dia do meu nascimento, sabia de coisas sobre ele que mais ninguém sabia, e podia dizer com toda a certeza de que ele nunca fazia coisas sem segundas intenções.

Nem quando éramos crianças ele fazia coisas apenas por fazer. Eu conseguia me lembrar perfeitamente de quando estávamos na quinta série e ele fingiu começar a chorar na aula de inglês só pra professora deixar Trevor Evans de detenção.

Desde pequeno, eu sabia que as coisas com Ethan tinham um significado a mais, mesmo que suas intenções fossem boas.

— Se isso tem a ver comigo e com Allison, então me fala logo — Retruquei, recarregando a arma no jogo.

Ethan bufou, irritado. Ele não gostava de ser confrontado, detestava se sentir sobre pressão, especialmente porque o tio Leight era delegado, então ele sabia exatamente quando Ethan estava mentindo e sempre acabava o pressionando.

Ele dizia que sempre se sentia em um interrogatório quando estava em casa e tentava esconder alguma coisa dos seus pais, e mesmo comigo, que, perto de Leight, era um lesado idiota, ele detestava que eu o pressionasse e perguntasse sobre milhares de coisas que ele não queria responder.

— Não é sobre vocês dois, não tem nada a ver — Ele deu de ombros sem desprender os olhos da tela, correndo para o andar de cima da casa do jogo e pulando pela janela logo em seguida. — Só pensei que seria legal passar mais tempo com você e fazer alguma coisa legal, pra variar. Não sei quando vamos nos ver de novo depois que você voltar pro Michigan!

Virei o rosto para o jogo, percebendo que eu tinha sido fuzilado antes mesmo de ter tido a chance de reagir.

— Se recupera logo, a gente tá perdendo — Ethan matou o cara que tinha me fuzilado.

Respawnei no jogo sem mudar de classe, subi algumas escadas e atirei no sniper que estava escondido entre dois tonéis grandes.

Por um instante, me senti constrangido por ter duvidado de Ethan, murchei os ombros e emudeci na hora, tentando me focar unicamente na partida do videogame, mas, mesmo que eu tentasse com muita força, minha mente não me deixava em paz.

— Então qual era a tal ideia que você e o Michael tiveram? — Soltei as palavras rapidamente. — A que você contou pro meu pai!

Ethan franziu o cenho, confuso.

— Que ideia? — Perguntou, ainda sem tirar os olhos da tela.

— A do dia do poker!

— Carter, acho que é coisa da sua cabeça — Ele abriu um sorriso sacana.

Engoli em seco, franzindo o cenho para ele, irritadiço.

— Droga, Ethan, se for alguma ideia que possa me ajudar a tê-la de volta... Eu preciso saber, porra! — Grunhi para ele, que me olhou de soslaio antes de abrir um sorriso largo.

— Cara, você tava muito bêbado — Seu sorriso se alargou no rosto. — Deve ter alucinado, sei lá!

— Não, seu otário, eu tava bastante acordado — Empurrei seu ombro.

Ethan estalou a língua no céu da boca, franzindo o cenho e recuperando a postura.

— Droga, Carter, eu morri! — Retrucou, virando o rosto para mim enquanto a contagem regressiva ainda passava na tela dele. — Você tava muito louco, eu não falei nada disso!

Larguei o controle, irritado, e passei as mãos pelo rosto, puxando minhas pálpebras pra baixo.

— Ethan, eu tô te falando, eu não estava tão louco assim. Eu ouvi o que você falou. Tenho certeza! — Me levantei, caminhando na direção do videogame.

Eu desliguei o console sem pedir licença, queria que Ethan prestasse atenção no que eu estava falando, detestava saber que ele estava mais vidrado naquela porcaria que em mim e no que eu estava dizendo.

Eu sabia que ele era completamente capaz de prestar atenção no que eu estava lhe falando e no jogo, mas não era a mesma coisa. Era horrível falar sobre aquilo, sobre algo que ainda fazia meu coração se contorcer dentro do peito, e não ter os olhos dele sobre mim, me enxergando.

— Daniel, larga a mão de ser idiota — Ele franziu o cenho, ligando o console pelo controle. — Por que eu mentiria pra você?

— Sei lá, você é maluco! — Olhei para os lados, procurando na minha mente um ótimo motivo para lembrá-lo de que era completamente capaz de mentir na minha cara, se isso o ajudasse com o que ele precisava. — Ethan, fala sério!

— Tô falando, seu imbecil. Senta aqui e joga essa merda comigo!

Baixei os olhos para os meus pés. Eu queria acreditar que ele estava falando sério. Queria me convencer de que não tinha nada a ver comigo e com Allison, tinha até cogitado ter alucinado com o que ouvi, mas tinha sido real demais, detalhado demais para ser apenas uma alucinação.

— Por que a gente não vai hoje, então? — Perguntei, me sentando ao lado dele.

Ethan de uma boa olhada no meu rosto. Eu não sabia se ele estava tentando calcular uma boa resposta, ou se ele só queria saber o quanto aquela conversa tinha me afetado.

— Sexta é um dia melhor — Deu de ombros e voltou a olhar a televisão, selecionando a partida online. — Ainda não estou tão de saco cheio da comida da minha mãe, mas sexta eu não vou aguentar ver um frango frito na minha frente, vou preferir comer grama e pedra à comida da minha mãe, então a gente vai na sexta!

Confirmei com a cabeça, voltando meus olhos para a televisão e entrando na partida, esperando o sistema do jogo encontrar mais pessoas para começar.

Ethan escolheu a classe de armamentos e eu repeti o processo, dando início à contagem regressiva do jogo.

— Eu te encontro lá na frente — Disse, estreitando os olhos para a tela. — Droga, acho que preciso pegar meus óculos... Enfim, não precisa se preocupar em me buscar, eu vou de carro dessa vez!

— Tudo bem... — Suspirei, sorrindo de canto.

Afundei as costas no sofá. Era como se todas as minhas esperanças estivessem lentamente escorrendo pelo ralo.

Eu sabia que Allison me amava, eu consegui enxergar e sentir o seu amor assim que coloquei meus olhos nos dela, e eu ainda fui capaz de sentir, mesmo quando ela me deu um chute para longe. Mas saber que existia amor não significava que ficaríamos juntos, amor não sustenta merda nenhuma!

Talvez eu realmente tenha que a deixar ir de vez...

Não abri mais minha boca, não queria mais falar, queria afundar até o mais profundo da minha mente e me esconder ali até que eu tivesse uns noventa anos e estivesse velho o bastante para morrer.

Cooper

Pensei que Adalia chegaria em casa para conversarmos depois do almoço, então eu estava pronta para pegar um táxi junto com uma caixa de papelão e buscar todas as coisas que tinha deixado para trás no escritório, porque sabia que, se eu não fosse buscar, Corey podia simplesmente jogar cada uma delas no lixo.

Mas ela não chegou depois do almoço, muito pelo contrário. Quase não tive tempo de trocar de roupa quando a campainha tocou.

Desci os degraus e olhei pela fresta da cortina, ela esbanjava seu cabelo cacheado e bem definido preso acima da cabeça por uma faixa amarela, a camisa larga e colorida estava abotoada até o pescoço e as mangas terminavam pouco abaixo dos seus cotovelos, a calça apertada era dobrada no punho, deixando seus tornozelos amostra e os coturnos pretos estavam ralados nas pontas.

Abri a porta sem demora e ela entrou em casa rapidamente, com um sorriso rasgando seu rosto de orelha a orelha. Seu entusiasmo era tanto que ela saltitou para dentro, mas seu sorriso sumiu assim que seus olhos esbarraram na caixa de papelão que eu largara sobre o sofá.

— Vai fazer o quê com isso? — Perguntou, destampando a caixa para ver se tinha algo dentro.

— Tenho que buscar minhas coisas no escritório — Fechei a porta, jogando a cabeça para trás, mostrando toda a minha falta de entusiasmo.

— Ah... — Ela tampou a caixa. — Precisa de ajuda?

— Na verdade, acho que não, mas vou aceitar porque eu tô com muuuuuuita preguiça! — Suspirei, pegando a caixa pelas beiradas.

Adalia soltou uma risada anasalada, se levantando logo em seguida. Eu sabia que ela estava ali em casa para falar da tal proposta boa que poderia me ajudar, mesmo que eu não tivesse mais um emprego, mas, de alguma forma, eu sentia que ela ainda não estava pronta para falar sobre aquilo, especialmente porque um silêncio tenso se instalou entre nós duas.

Ela girou sobre os calcanhares com um sorriso leve nos lábios grossos, sua cabeça pendeu para o lado e ela estreitou os olhos em minha direção. Adalia me segurou pelos ombros, me puxando para mais perto, e me analisou profundamente por longos segundos.

— Encheu a cara, né? — Perguntou, apertando os lábios e me soltando.

— Tá tão na cara assim? — Murchei por completo.

— Allison, sua cara tá péssima!

Resmunguei um som indecifrável, batendo o pé no chão como uma criança birrenta.

— Não posso aparecer lá com essa cara, o imbecil do Corey vai exatamente o que eu fiz. Não quero que ele pense que eu enchi a cara porque perdi o emprego!

— E não foi por isso que você encheu a cara? — Perguntou, erguendo uma das sobrancelhas.

Neguei lentamente com a cabeça.

— Então... Qual foi o motivo? — Ela apoiou o corpo novamente no braço do sofá.

Eu hesitei, não era como se eu quisesse dizer aquilo para ela. Era diferente de dizer para um completo estranho, mesmo que ele me julgasse, eu provavelmente nunca mais cruzaria com ele novamente, agora com Adalia a história era outra.

Ela ergueu as sobrancelhas, se mantendo na expectativa da resposta. Eu sabia que podia confiar nela cegamente, mas ainda me sentia envergonhada.

— Eu queria entender algumas coisas — Minimizei, baixando os olhos.

— Ficando... bêbada? — Ela estreitou os olhos, confusa.

Confirmei com a cabeça, empurrando o cabelo para trás da orelha com a ponta dos dedos enquanto encarava meus pés.

— É que... Não sei se eu fui muito idiota ou muito corajosa — Abri um sorriso bobo e quase orgulhoso, se aquilo ainda não me deixasse confusa. — Mas ao menos eu me livrei daquele emprego de merda e daquele cara chato!

O sorriso de Adalia se alargou incompreensivelmente, o fato de eu detestar Corey a divertia mais do que devia.

Eu não tinha falado que encarava aquilo como uma oportunidade de romper todas as barreiras entre mim e Daniel, simplesmente porque ainda pensava que não seria tão simples, não podia ser tão simples.

— A gente vai buscar suas coisas ou não? — Perguntou, relaxando os ombros e dando um tapinha na caixa.

— Ah, é verdade! — Levantei a cabeça, me dando conta de que o tempo estava passando e, quanto mais cedo eu chegasse lá, mais cedo eu sairia.

Sem nos preocuparmos com muitas formalidades, com cumprimentos, com condolências e toda aquela balela que esperam de mulheres extremamente educadas e gentis, atravessamos o saguão do estúdio sem olhar para qualquer um, não por sermos pessoas sem educação, mas porque a conversa estava tão boa e nós gargalhávamos tanto que mal nos demos conta de que já estávamos dentro do escritório, colocando pilhas de coisas dentro da caixa de papelão.

Ela me passou uma pequena pilha de livros, que coloquei no canto da caixa, empurrando as outras coisas para o lado, encaixando algumas outras coisas lá dentro.

— Trabalhava aqui dentro? — Perguntou, fazendo uma careta. Confirmei com a cabeça. — Aqui é péssimo, parece um casulo!

— Não é tãaaao ruim assim. Tipo, tem esse janelão — Mostrei o janelão com as duas mãos, como se mostrasse a coisa mais incrível do mundo.

Ela jogou a cabeça para trás, rindo.

— Sua alegria era olhar uma cidade pela janela? — Ela estreitou os olhos, colocando dois vasos de plantinhas dentro da caixa.

Confirmei com a cabeça. Aquela janela aliviava um pouco do estresse, sim. Quando eu não gostava dos personagens que eu desenhava, olhava o movimento da rua em busca de inspiração. Eu não era muito boa em geografia e não sabia me localizar muito bem, mas tinha quase certeza de que conseguia ver Brookline através daquele janelão, por conta da altura do prédio.

— Bom, pelo menos agora eu posso fazer o que eu bem entender e não desenhar aquele monte de porcaria — Dei de ombros.

— Quanto amor pelos desenhos, Allison — Ela puxou uma pasta. — Precisa por isso aqui dentro, também?

— Não, esse não — Peguei o que sobrara dentro de uma das gavetas e coloquei dentro da caixa.

Adalia abriu a pasta com cuidado, mostrando algumas das várias folhas com rascunhos de personagens que eu tinha desenvolvido. Seus olhos correram rapidamente por cada um deles, mirando os detalhes com cuidado e passando os dedos por alguns dos que pareciam ser seus favoritos.

— Eles até que são legais — Fechou a pasta, a jogando no canto da mesa.

— Alguns são, sim — Respirei fundo, abrindo a última gaveta.

Meu coração congelou, eu tinha me esquecido de que não tinha levado o caderninho de rascunhos para casa, e tinha entendido o motivo de ter passado tantos dias revirando meu quarto em busca daquele caderno e, no fim, não tê-lo encontrado em lugar nenhum.

Ele esteve bem ali, o tempo inteiro.

Com cuidado, o puxei com a ponta dos dedos. Não consegui recuperar na memória quando o guardara naquela gaveta, mas saber que ele estava seguro em minhas mãos novamente tirava um grande peso das minhas costas.

O abracei como se fosse um bicho de pelúcia antigo da minha infância, mesmo que soasse estranho para os olhos de Adalia. Me levantei, parando de frente para a Adalia.

Saber que ela estava bem ali para me dizer algo e, mesmo depois de tanto tempo, não ter nem tentado tocar no assunto, de certa forma, me assustava. Eu juntei todo o ar que meus pulmões podiam juntar, espremendo o caderninho contra o peito e soltando tudo lentamente pelo nariz.

— Sobre o que você queria conversar, mesmo? — Perguntei, estreitando os olhos para ela.

Adalia pareceu surpresa com a pergunta, levantando as sobrancelhas e soltando a pasta que ela folheava. Ela raspou a unha levemente na ponta da capa da pasta, que era de plástico. Seus olhos fugiram por um instante e eu sabia que ela estava vasculhando sua mente atrás de palavras certas, porque ela entortou a boca e torceu o nariz, como sempre fazia quando queria dizer algo, mas não sabia como.

Ela espalmou as mãos sobre a mesa, apoiando o peso do corpo e se curvando para frente.

— Ah, sim. Aquilo — Ela abriu um sorriso largo e confiante. — Eu quase me esqueci!

Eu não acreditava que ela tinha se esquecido, parecia mais que ela estava evitando tocar naquele assunto tão cedo.

— Conversei com uma amiga minha da aula de teatro, nos reencontramos esses dias no Parque Griggs — Ela começou, lembrando da época em que ainda era uma aspirante a atriz. — Ela comentou que queria encomendar um quadro, que fosse algo bem exclusivo e tudo mais, porque tá reformando a sala da casa dela, algo assim!

Prendi meus olhos nela, sentindo meu coração palpitar com força. Fazia algum tempo que eu não pintava em telas. Eu não encostava em um pincel desde que tinha voltado da Califórnia, tinha medo de ter perdido completamente todas as técnicas.

Quando eu era professora na Pinewood, tinha mais tempo para pintar, especialmente porque nas férias dos alunos, eu também tinha férias e passava a maior parte do tempo fazendo quadros, tanto para decorar a casa, que quase não tinha móveis, quanto para dar para minha vizinha, Catherine.

Quando ela me pedia para cuidar do Matt, aproveitava para pintar quadros com ele, que se divertia e lambuzava as mãos nas tintas, me ajudando a transformar as marcas de suas mãozinhas em diversas coisas divertidas.

Certa vez, transformei as marcas de seus polegares em árvores, ele gostou tanto que quis levar o quadro para casa, o pendurou no quadro e dizia que queria ser um pintor como eu quando crescesse.

— Falei de você para ela, e ela pareceu se animar com a ideia — Adalia abriu um sorriso. — Mostrei algumas fotos dos seus quadros para ela. Ela curtiu muito o seu trabalho!

— Adalia, isso é incrível! — Respondi, com os olhos brilhando.

Meu sonho era poder fazer quadros para alguém, eu queria muito poder viver pintando meus quadros e fazê-los sob encomenda. Era como se eu pudesse materializar a imaginação de alguém e aquilo me enchia de entusiasmo.

Ela confirmou com a cabeça, os olhos fechados e o sorriso se alargando ainda mais no rosto.

— Ela quer te conhecer, pra vocês conversarem melhor e se acertarem! — Ela endireitou a postura, colocando a tampa sobre a caixa.

— Como? Onde? Quando? — Segurei-a pelos pulsos, deixando o caderninho sobre a mesa.

— Sexta à noite, no restaurante novo! — Ela abriu um sorriso amplo. — Não se atrase, ela estará lá na frente!

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