14. A Soulmate Who Wasn't Meant To Be
Carter
Eu estava voltando pra casa quando olhei pela janela do carro e tive o desprazer de assistir uma garota correr na direção de um cara e o abraçar com força como se não se vissem há muito tempo. Revirei os olhos e aumentei o volume da música como se, magicamente, o som alto me fizesse cego.
Acelerei o carro por mais algumas centenas de metros antes de parar em mais um farol vermelho e ver mais um casal, conversando alegremente enquanto atravessavam a rua de mãos dadas.
— Mas que inferno — Praguejei, dando um tapa no volante.
Eu me perguntava se caras tão frustrados quanto eu também ficavam irritados quando Allison e eu atravessávamos a rua de mãos dadas com sorrisos nos rostos.
Provavelmente, caras que estivessem tão frustrados com a vida quanto eu, deviam me odiar com tanta força, que eles seriam capazes de socar a minha cara, porque era como eu me sentia. Eu queria socar a cara de todas as pessoas estupidamente felizes.
Claro que eu era feliz sem a Allison, a minha felicidade não dependia dela e nem a dela dependia de mim, nunca dependeu, mas era difícil ver as coisas com cores sabendo que ela estava na mesma cidade que eu, vivendo a vida dela, arrumando um outro namorado, enquanto eu permanecia estancado no mesmo lugar há cinco anos, ainda amando a mesma garota como o mesmo adolescente apaixonado que eu fui.
Puxei o celular que estava jogado no banco do passageiro, escorreguei o dedo pela tela, procurando pela conversa do Jordan, finalmente a encontrando como uma das últimas notificações. Ignorei milhares de mensagens dos meus colegas de time apenas para contemplar o chat vazio marcado com o nome do Jordan.
Estacionei o carro e segurei o celular com as duas mãos, considerando abandonar a ideia de mandar mensagem e seguir meu caminho até a casa dos meus pais. Me sentia um idiota, e eu provavelmente atrapalharia o dia dele por completo. Ele não era mais um adolescente, nós dois já éramos adultos e tínhamos responsabilidades, especialmente o Jordan, que trabalhava que nem um camelo e tinha uma esposa grávida pra cuidar.
Não era como se eu pudesse o ligar toda vez que eu tivesse um problema. Eu já estava grandinho demais para pedir socorro para o meu antigo vice-capitão. Não tinha mais dezesseis ou dezessete anos e não sabia o que meus sentimentos significavam, eu tinha vinte e três e não fazia a mínima ideia do que fazer com meus sentimentos, porque eu sabia exatamente o que eles significavam.
Engoli a incerteza de uma vez só e ativei o teclado na tela da conversa, dançando com os dedos acima da tela pensando no que digitar.
"Oi, cara. Eu sei que eu fiquei de te mandar mensagem, mas não fiz. Foi mal. Queria saber se você tá muito ocupado hoje" apertei o botão de enviar sem pensar duas vezes.
"Pensei que você nunca mais me mandaria mensagem. Hoje eu saí mais cedo do trabalho, passa aqui em casa" ele respondeu na mesma hora.
Logo em seguida, Jordan me enviou uma mensagem com o endereço. A casa dele não estava muito longe de onde eu estava, o que era um puta golpe de sorte, já que o trânsito de Boston sempre fora um grande inferno.
Manobrei o carro para fora da vaga e rumei pelas ruas de Boston até a casa de Jordan.
Ele morava longe do centro de Boston, o que fazia com que o terreno de sua casa fosse grande e cheio de verde, apesar de não ter muito paisagismo, provavelmente porque nem ele e nem Madison tinham tempo suficiente para se preocuparem com plantas.
A casa não era grande, ficava no centro do terreno e também não ficava muito longe dos vizinhos, o que era uma característica bem marcante de Boston, já que a cidade era enorme — tão grande que considerava a minha cidade como uma vila pertencente a ela.
Estacionei o carro na frente da casa e o tranquei antes de atravessar o gramado e tocar a campainha. Dei uma última olhada para trás, vendo o início do entardecer manchar todas as casas com seu tom alaranjado e quente, a brisa do fim de tarde era reconfortante, apesar de eu me sentir um tanto constrangido por estar parado na frente da casa do Jordan.
Ele abriu a porta pouco tempo depois, esbanjando um sorriso largo e cheio de dentes brancos.
— Entra — Abriu passagem para mim.
Ainda meio tímido, eu adentrei, passando por cima da soleira da porta de madeira envernizada e dando uma olhada na sala. Era espaçosa, apesar de a casa não ser muito grande.
A escada estreita ficava do lado esquerdo, bem de frente para a entrada, ao lado direito, toda a sala se estendia, com um sofá robusto e cinza, uma mesinha de centro com um descanso de copos e um notebook ligado à televisão por um cabo HDMI. Mais para o canto, dois pufes grandes faziam o serviço de poltronas, se estendendo abaixo de cortinas brancas e compridas.
— E aí, como você tá? — Perguntou, fechando a porta novamente.
— Já tive dias melhores. E você? — Dei de ombros e cocei a nuca.
— É, deu pra perceber. Você definitivamente não sabe disfarçar nada, sua cara é muito expressiva — Ele riu, socando meu peito. — Eu tô tranquilo. Meu chefe liberou metade da empresa antes do horário, o que significa que o meu fim de semana começou mais cedo!
Jordan gesticulou para que eu o seguisse até a cozinha, eu o acompanhei alguns passos mais para trás, ainda apreensivo. Pelo visto, Madison não estava em casa, especialmente porque, conhecendo ela e o relacionamento deles dois, o casaco que o Jordan largou em cima do sofá e não dentro do armário, que era do lado da porta de entrada, nunca estaria ali se Madison estivesse por perto.
Ele pegou dois copos de dentro de um armário que ficava na parte de cima, abriu a geladeira e tirou um galão de suco de laranja.
— Foi mal, a Madison cortou todo refrigerante depois que descobriu a gravidez — Ele destampou o galão e serviu os copos. — A gente mal conversou aquele dia, né?
— Pois é, você tinha que voltar pra casa e eu tinha deixado minha mãe esperando no restaurante — Puxei o banco do balcão e me sentei com os cotovelos sobre o mármore branco.
Jordan puxou outro banco e sentou-se de frente para mim. Seus olhos se fixaram nos meus pelo que pareceu ser uma eternidade. O semblante sério e inflexível era mútuo, tanto eu quanto ele queríamos decifrar um ao outro de alguma forma. Tanto tempo tinha se passado que já não éramos mais como costumávamos ser.
— O que fizeram com você na faculdade? — Ele riu baixo. — Cadê toda a sua autoconfiança e o seu ego do tamanho de Júpiter?
— Lavagem cerebral — Beberiquei o suco, desviando o olhar. — Eu continuo o mesmo de sempre, só que com menos paciência e, talvez, menos ânimo!
Jordan estreitou os olhos para o copo, encarando o líquido laranja, intrigado.
— Algum dia, em toda a sua vida, você teve paciência? — Ele levantou uma de suas sobrancelhas.
— Eu era bem mais paciente quando eu era adolescente — Dei de ombros.
O semblante de Jordan se metamorfoseou em uma careta inconformada. Ele revirou os olhos, descrente.
— Arremessou uma maçã na cara de um garoto da sua sala!
— Em minha defesa, não foi pra me defender — Ergui as mãos em rendição.
— É, eu me lembro bem do motivo — Ele suspirou lentamente. — Foi uma época bem tensa pra todo mundo...
— Nem me fale — Foi minha vez de suspirar.
Eu lembrava do incidente da maçã, que não era exatamente um incidente. Para a infelicidade de Robert, o meu colega de classe, eu tinha uma mira invejável e, graças ao futebol americano, eu tinha muita força nos braços.
Robert não era um cara ruim, na verdade, a presença dele na minha turma praticamente não fazia diferença para a maior parte da escola, já que ele nunca abria a boca, mas, na época, uma das únicas vezes em que eu ouvi ele abrir a boca pra falar alguma coisa, foi pra falar merda sobre Allison.
Eu tinha acabado de fazer dezessete anos, na época, e meu presente atrasado de dezessete anos foi ver a garota que eu amava quase morrer bem nos meus braços por culpa de um cara de merda.
Ouvir de Robert que ela tinha feito aquilo porque era uma "putinha que queria atenção" me fez perder completamente o controle, e eu sempre tive o pavio curto.
Peguei a primeira coisa que tinha achado pela frente e, infelizmente, era a maçã da Rebecca, que espatifou-se assim que acertou a cara do Robert. Para completar todo aquele show de horrores, eu ainda o empurrei até que ele batesse as costas na lousa, apontei o dedo na cara dele e disse que se ele abrisse a boca pra falar qualquer coisa daquele tipo novamente, a última coisa que ele ia se lembrar era da minha mão o forçando a engolir todos os seus dentes.
Eu não me orgulhava daquilo, na verdade, aquilo foi um dos motivos de eu ter passado um mês inteiro na detenção, encarando um relógio acima da cabeça de um dos meus professores enquanto ele me dizia, repetidas vezes, que eu não teria um futuro e continuasse agindo como se as regras não existissem.
Bom... Eu tive um futuro melhor do que ele imaginava, no fim das contas.
— Dá pra acreditar que algum cretino estacionou o carro na porta de casa? — Ouvi a voz de Madison na sala, fechando a porta e jogando as coisas dentro do armário ao lado.
Olhei para trás, para a entrada da cozinha, observando-a atravessar o arco divisório rapidamente.
— Prazer, cretino — Estendi a mão para ela, que arregalou os olhos, surpresa.
A princípio, eu não tinha entendido o motivo de ela ter ficado tão surpresa. Por um instante, pensei que ela só não esperava me encontrar sentado na sua cozinha e conversando com um dos meus melhores amigos da adolescência.
Parecia ser motivo suficiente para que ela ficasse surpresa, mas ela não estava só surpresa. Ela estava em completo estado de choque. Seus olhos mal conseguiam se decidir em quem focavam, se em mim, na minha mão ou em Jordan. Ela estava praticamente boquiaberta, estática, como se acabasse de cruzar o caminho com um monstro horrível.
— Ah, qual é, eu não fiquei feio em cinco anos — Retruquei, esperando que ela reagisse. — Na verdade, eu tô bem mais bonito, né. O que eu posso fazer?
Mas Madison mal se moveu. Seus olhos apenas se fixaram em Jordan que, talvez, já estivesse entendendo o que estava acontecendo há muito mais tempo que eu.
— Madie, onde eu posso colocar as compras?
A voz dela...
Droga. Eu entendi o porquê de Madison ter ficado tão chocada quando me viu. Allison estava com ela e, definitivamente, aquilo — eu, na casa dela, tomando seu suco de laranja junto com o seu marido — não deveria acontecer.
Allison atravessou o arco com a cabeça baixa, lendo o rótulo de um creme capilar, achegando-se perto da irmã mais velha.
— Por que comprou creme de cabelo cacheado? Seu cabelo é liso — Ela comentou, estreitando os olhos para o pote.
— Não é pra mim — Madison comentou. — Preciso aprender a finalizar cabelo cacheado, o cabelo da minha filha não vai ser liso, né?
Allison levantou o rosto logo em seguida e o pote despencou de sua mão. Seus olhos nos meus, seus lábios rosados entreabertos, as sobrancelhas arqueadas, o brilho melancólico correu rapidamente por todo o seu corpo e ela mal conseguiu esconder.
— Daniel...
Allison soltou meu nome por entre os lábios sem que percebesse, em um sussurro congelante que petrificou todo o meu corpo. Eu sabia que Jordan e Madison mantinham os olhos fixos e atentos em nós dois, talvez eles estivessem tão curiosos quanto eu para saber o que aconteceria.
Instintivamente, me abaixei para pegar o pote antes que ela tivesse a chance de fazê-lo. Meus dedos circundaram o plástico do creme capilar e eu estendi-o para ela, que, com as mãos trêmulas, o pegou cuidadosamente.
Ela piscou algumas vezes e, quando os ânimos abaixaram aos poucos, um sorriso leve se formou na curvatura de seus lábios e eu devolvi o sorriso.
— Oi... — Disse ela.
Jordan e Madison finalmente desprenderam a respiração, aliviados.
— Oi... — Respondi, endireitando a postura.
— Não pensei que fosse te ver por aqui, Carter — Madison finalmente falou alguma coisa para mim, me cumprimentando rapidamente.
— Na verdade, não estava nos planos — Sorri, sem graça. — Quer que eu puxe o carro mais pra frente?
— Não precisa — Ela parou ao lado de Jordan. — Vem comigo, preciso de ajuda, vou pegar alguma coisa pra gente comer!
Jordan estreitou os olhos para ela, confuso e não muito convencido do que ela tinha dito.
— Não precisa da minha ajuda pra abrir um pacote de salgadinhos.
— Aí é que você se engana, anda logo!
Madison circundou o braço do marido e o forçou a caminhar para o outro lado da cozinha, ambos sorrindo um para o outro como se um plano maluco se instaurasse automaticamente na cabeça dos dois. A ruiva puxou alguns pacotes de salgadinho e Jordan pegou algumas vasilhas coloridas, as dispondo sobre o balcão.
Allison timidamente caminhou até o outro lado do balcão e sentou-se no banquinho que anteriormente era ocupado por Jordan. Ela apertou os lábios em um sorriso sem graça, e aquele silêncio constrangedor que nos cercava estava praticamente me matando.
Eu tinha tantas perguntas pra fazer, queria saber de tanta coisa, mas, ao mesmo tempo, eu me sentia tão angustiado que mal conseguia fazer. Algo no fundo do meu peito ainda tinha medo de saber das respostas, por mais que a minha curiosidade pudesse falar muito mais alto que qualquer outra coisa.
— Ele te trata bem? — Rompi o silêncio quase que sem querer.
Allison levantou o rosto, surpresa. Ela permaneceu em silêncio por algum tempo, talvez porque não conseguisse encontrar a resposta, talvez porque não quisesse que eu soubesse.
— Quem? — Ela estreitou os olhos.
— Você sabe quem... — Baixei os olhos para o mármore abaixo das minhas mãos. — Aquele cara... Ele te trata bem? Você se sente bem com ele?
A reação de Allison foi confusa, a princípio. No começo, pensei que ela estivesse prestes a me mandar calar a boca, porque eu não tinha mais nada a ver com sua vida, mas, logo em seguida, ela abriu um sorriso bobo e quase caiu na gargalhada.
Ela pendeu a cabeça para o lado, fazendo o cabelo escorregar por seus ombros. Ela me olhou bem, como se analisasse cada mínimo detalhe do meu rosto, talvez para ter certeza de que eu ainda era o mesmo de sempre.
— Você não muda, né? — Ela riu, encarando os próprios dedos. — Eu não aceitei...
Eu hesitei, confuso.
— Como assim? — Estreitei os olhos.
— Eu disse um não bem grande e com luzes piscantes pra ele — Ela abriu um sorriso dolorido. — Eu não me apaixonei por ele ou coisa do tipo, não rolou. E eu acho que nunca mais vai rolar nada assim comigo...
— Não seja dramática — Eu ri anasalado. — Acabou de fazer vinte e três, tem, pelo menos, mais uns sessenta anos pela frente...
Ela riu baixinho, ainda sem coragem de levantar o rosto para mim, ainda sem conseguir me olhar nos olhos por muito tempo.
— Não é isso — Ela murchou.
Desviei os olhos dela por um instante, encarando Madison e Jordan por cima de sua cabeça. Os dois estavam escorados na beirada da pia, nos encarando enquanto beliscavam os salgadinhos, eles não se aproximariam até que algum de nós dois desse o mínimo sinal de que eles já poderiam se incluir na conversa sem nos atrapalhar no que quer que estivéssemos fazendo.
Por um instante, aquele momento se tornou o cenário perfeito para que eu tivesse a tão esperada conversa com Allison, mas ela parecia tão quebrada na minha frente que eu tinha medo de acabar a quebrando ainda mais.
Eu sabia que Allison não era uma garota frágil, na verdade, acho que ela sempre foi muito mais forte que eu, especialmente emocionalmente. Mas isso não significava que ela não fosse sensível, e eu não queria piorar as coisas cuspindo uma tonelada de sentimentos em cima dela sem saber se ela estaria pronta para receber.
— E o que é, então? — Perguntei, duvidando se realmente queria ouvir a resposta.
— É que... — Ela engoliu o bolo que tinha na garganta. — É que eu acho que eu não sou capaz de amar outra pessoa...
Engoli em seco, aquilo estava tomando um rumo que eu não sabia se conseguiria manter o controle ou se conseguiria aguentar. Olhei para Madison e para Jordan novamente, rapidamente, gesticulei para que eles nos deixassem sozinhos na cozinha, só para que tivéssemos um pouco mais de privacidade.
Eu sabia que, enquanto ela soubesse que a irmã mais velha estivesse a assistindo, encarando suas costas e ouvindo tudo o que ela tinha a dizer, Allison não seria capaz de me dizer tudo o que pensava.
Madison pegou a mensagem silenciosa como sempre conseguia saber, analisando toda a situação rapidamente. Ela agarrou uma das vasilhas com salgadinhos e puxou Jordan pelo pulso, o guiando para longe dali, deixando que apenas Allison e eu nos mantivéssemos frente a frente.
— Como assim, Allison? — Estreitei os olhos para ela, levantando seu rosto pelo queixo.
O topo do meu coração queimava, ardia tanto que refletia na minha garganta e na boca do meu estômago. Doía tanto respirar, que eu sentia trancafiado dentro do escapamento de um caminhão.
Ela levantou os olhos para os meus, e, mentalmente, eu entendi tudo. As lágrimas tímidas que se formavam no canto de seus olhos eram suficientes para me explicar, mas poder enxergar seu interior como eu sempre consegui vê-lo era assustador. Prendi a respiração instintivamente, porque eu sabia que eu era muito mais chorão que ela.
Seus dedos correram para a minha mão. Era engraçado, mesmo depois de tanto tempo, eu ainda sentia como se sua mão fosse forjada justamente para encaixar na minha.
— Eu não me importo mais — Ela continuou, enroscando os dedos na minha mão, mexendo nos meus dedos como uma criança nervosa, tentando manter a calma. — Eu não me importo se você já não sente mais o mesmo, se você já seguiu em frente ou coisa do tipo. Eu sinto que eu nunca mais vou conseguir dormir em paz se não me livrar logo desse bolo na minha garganta... — Ela respirou fundo, contendo as lágrimas e tomando o controle novamente.
Por outro lado, eu é quem estava prestes a perder o controle. Minha visão ficou turva de repente, sabia que se eu não conseguisse controlar minha respiração ou desacelerar meu coração, eu desmoronaria por completo.
— Então, que se dane se você seguiu em frente — Ela rangeu os dentes, baixando a cabeça, deixando o cabelo cobrir seu rosto. — Eu não segui, e eu não consigo, porque eu nunca, em hipótese alguma, consegui deixar de te amar!
Puta merda.
Minha respiração falhou, descompassou como se eu tivesse tropeçado, como se uma lança tivesse perfurado meu peito. Eu mal conseguia falar.
Merda. Por que eu nunca consigo falar nada nessas horas?
Senti tanto medo de estragar tudo que, por muitos segundos longos, eu não consegui sequer me mover. Eu não queria arruinar as coisas como quando eu era um adolescente que não sabia interpretar sentimentos, porque, antes mesmo de nós dois existirmos, eu tinha estragado tantas coisas por não saber me expressar que metade do que tinha acontecido poderia ter sido evitado se eu dissesse a coisa certa.
Eu não sabia se estaria sendo um completo egoísta se simplesmente a dissesse que também a amava e que também não conseguia deixar de a amar, porque, no fundo, eu sabia que nós implicava em muito mais do que juras de amor eterno e essas baboseiras.
— E essa merda tá doendo muito — Ela soluçou, encolhendo os ombros. — Tá doendo porque eu sei que as coisas não são tão simples quanto eu queria que fossem!
Encaixei seu rosto na minha mão, sentindo a primeira lágrima escorrer e se dissipar sobre meu polegar. Eu sabia o quanto doía, eu sentia o quanto doía e, no fundo, acho que estive fugindo daquele momento todo aquele tempo porque sabia que as perspectivas não eram tão boas quanto eu queria que fossem.
No fim das contas, eu ainda morava no Michigan e ela já tinha se estabilizado em Brookline novamente. Mesmo que decidíssemos qualquer coisa sobre o nosso futuro, ainda existiam oitocentas milhas nos distanciando um do outro.
Onze horas de viagem de carro, duas horas de avião, rotinas completamente diferentes. Merda. Que merda. Que merda!
Eu não era um cara racional, nunca fui, na verdade. Pensar e ignorar completamente as vontades do meu coração definitivamente não era o meu ponto forte, eu nunca conseguia o fazer, mas sabia que, ali, entre nós dois, eu não podia ouvi-lo deliberadamente e prometer pra ela que as coisas ficariam bem, porque talvez não fossem ficar.
Eu queria levantar, contornar aquele balcão e beijá-la pra que ela tivesse certeza de que eu também a amava, mas, porra, não era tão simples. Eu não queria estragar ainda mais as coisas, não queria que ela sofresse ainda mais, não queria sofrer ainda mais.
Aquela vontade inflamava tanto dentro do meu peito que eu mal conseguia pensar, não existiam saídas fáceis. Ou eu largava o futebol americano e me mudava de volta para Brookline, ou ela teria que pedir demissão do novo emprego para ir comigo para o Michigan.
Baixei os olhos, rangendo os dentes e grunhindo involuntariamente pela compressão do meu peito.
Droga... O que eu faço?
Tranquei os olhos, tentando pensar em alguma coisa, eu tinha que arrumar uma solução. Eu não podia, magicamente, deixar que ela escapasse novamente, eu não queria ter que deixá-la para trás novamente.
— Eu largo o futebol americano — Vomitei as palavras em cima dela, que me encarou, assustada. — Droga, eu largo tudo, me mudo pra cá e, sei lá, arrumo algum emprego por aqui. Merda, Allison, eu não quero te perder de novo!
— Não — Ela levantou-se em um pulo, contornando o balcão e me forçando a virar-me para ela, que parou entre minhas pernas. — Não pode fazer isso!
— Eu não ligo — Franzi o cenho, irritado. — Eu não me importo. Merda, Allison, eu definitivamente não tô nem aí, eu só não quero te perder de novo!
Allison segurou meu rosto entre suas mãos e eu inspirei ruidosamente pelo nariz, fechando os olhos quando senti seus dedos acariciarem minhas bochechas cuidadosamente.
— Eu não posso deixar que você faça isso — Ela apertou levemente o meu rosto, me obrigando a olhar para ela.
Seu dedo afastou a lágrima solitária que escorria pelo meu rosto antes que as outras se alastrassem.
— É o seu sonho, Daniel. Não pode me colocar na frente do seu sonho — Disse ela, respirando fundo. — Lembra? A gente já conversou sobre isso há muito tempo!
— Quem se importa com essa porcaria de conversa, porra? — Grunhi, suprimindo um soluço. — Quem se importa com a porra do dinheiro ou, sei lá, eu não ligo. Eu não ligo se vou ter que parar de jogar pra te ter ao meu lado, eu só não...
Tranquei os olhos, sentindo meus ossos doerem e minhas juntas gritarem por socorro. Eu não consegui completar a frase, e me sentia um imbecil por isso.
Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguiria segurar algo entre elas. Me curvei para frente, sem forças para conseguir conter a enxurrada de lágrimas que começaram a transbordar dos meus olhos, pingando pelo queixo e pela ponta do nariz. Eu me sentia patético chorando igual uma criança.
Ela encaixou meu rosto em seu pescoço e torneou os braços ao redor do meu, me apertando com força contra seu corpo. Apertei seu corpo contra o meu com tenta força que tive medo de quebrar seus ossos, mesmo que minhas mãos e meus braços estivessem tremendo como se todas as minhas terminações nervosas estivessem falhando.
Seus dedos entraram no meu cabelo, afagando com cuidado, como ela costumava fazer quando deitávamos no sofá de casa para assistir filme. Ela virou o rosto, beijando a lateral da minha cabeça, eu me perguntava como ela tinha se tornado tão forte ao ponto da diferença de controle emocional que nós dois tínhamos se tornar um abismo tão distante.
— Eu não posso te perder de novo — Rangi os dentes.
— Para de falar, merda — Ela grunhiu, apertando meu corpo.
Sua voz estava trêmula e seus ombros começaram a subir e descer rapidamente, seus dedos perderam a força e ela me empurrou para endireitar a postura, enfiando o rosto no meu peito e apertando meu tórax com os braços, cravando as unhas na minha camiseta, soluçando com força.
— Cala a porcaria da boca e não torna isso mais difícil do que já é!
Isso é um adeus, então?
Eu mal conseguia piscar. Senti como se meu corpo inteiro tivesse desligado por completo, eu não estava funcionando. Qualquer sinapse que acontecesse dentro do meu cérebro não emitia resposta suficiente para o meu corpo.
— Não... — Deixei escapar. — Não, não, não... — Apertei ela contra o meu corpo. — Não, merda, não, não, não! Allison, não!
— Eu sinto muito, Dan — Ela espremeu os dedos ainda mais. — Muito mesmo!
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas aproveitando a presença um do outro, talvez pelos nossos últimos momentos juntos, onde podíamos ser apenas nós dois novamente.
Respirei fundo, enterrando minhas mãos em seu corpo pequeno, sentindo seus dedos escorregarem pelas minhas costas até que nossos corações finalmente parassem de sacudir dentro de nós e se acalmassem.
Ela se afastou antes do que eu queria que o fizesse, seus olhos, contornados por cílios claros e não muito espessos, se fixaram nos meus e eu senti uma pontada no fundo das costas, perfurando meus pulmões lentamente quando suas mãos tocaram meu rosto e seus dedos escorregaram pela minha pele.
Allison deu um passo a frente, e depois outro, ficando tão perto que eu podia sentir sua respiração tocar meu rosto suavemente. Empurrei uma mecha de seu cabelo para trás da orelha com o dedo, sentindo sua pele arrepiar-se quando meus dedos escorregaram por seus braços e circundaram sua cintura. Ela colou nossas testas e fechou os olhos.
Seus dedos escorregaram para o meu pescoço e se emaranharam no meu cabelo, puxando levemente entre a carícia leve. Merda, o tanto que ela me deixava em chamas era enlouquecedor, eu poderia facilmente perder a cabeça se ela continuasse.
Seu rosto lentamente foi se achegando ao meu, seus lábios roçaram nos meus, mas fugiram antes que eu pudesse avançar. Ela beijou minha testa, e deslizou o nariz sobre o meu, deixando que eu sentisse sua respiração profunda sobre meu rosto. Pensei que ela continuaria com aquela tortura para sempre, mas ela puxou meu rosto em sua direção com as duas mãos.
Seus lábios invadiram os meus, movimentando-os lentamente. Subi minha mão para seu pescoço, a puxando para mais perto. Senti sua língua pedir passagem e eu não neguei acesso, eu queria poder senti-la ao menos uma última vez, porque, se aquela era a última lembrança que eu teria de Allison, que fosse a porra do melhor beijo da minha vida.
Daquela vez não tinha gosto de brilho labial de morango, mas, de alguma forma, ainda era o meu sabor favorito de beijo, porque a boca dela, o corpo dela, o toque dela, a forma como ela me fazia parecer um completo idiota, fazia com que meu corpo pegasse fogo de dentro para fora.
Ela tinha o controle de tudo, e eu não me importava de ser conduzido pelo ritmo dela, pelo toque dela, pelos desejos dela.
Allison separou nossos corpos e eu beijei os cantos de sua boca, suas bochechas, seu queixo, sua testa até voltar para seus lábios e demorar por ali, juntando nossas testas novamente, fechando os olhos, respirando pela última vez o perfume suave que ela usava.
— Eu te amo — Disse, rompendo o som das nossas respirações se cruzando.
— Eu sei — Ela deslizou a ponta dos dedos pelo meu rosto, dando uma boa olhada em cada detalhe. — E acho que eu sempre soube...
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