13. Hate That I Don't Hate You
Cooper
Angeline passou as mãos pelo rosto, irritada, enquanto Adalia esticava as pernas sobre o colchão da minha cama. Depois de tudo o que tinha acontecido no café, elas decidiram que passariam a noite na minha casa, não para passarem um tempo comigo.
A loira queria me trucidar, Adalia, por outro lado, queria ter a garantia de que Angeline não o faria.
Depois que neguei o pedido de namoro de Corey, meio sem jeito por ter que responder, na frente de todo mundo, à pergunta que ele fez sobre o porquê de eu não aceitar, Angeline praticamente me estrangulou mentalmente.
— Como você pôde fazer aquilo? — Perguntou entre os dentes. — Ele deve ter ficado arrasado. Foi na frente de todo mundo. Você simplesmente disse que não sente nada por ele!
— Mas eu não sinto! — Esbravejei, batendo as mãos nas coxas.
Parei de andar de um lado para o outro no quarto, virando-me para Angeline. Eu sabia exatamente o porquê de ela querer que eu aceitasse, não tinha a ver com sentimentos ou coisas assim, era só um passo mais perto de seguir em frente, mas eu não queria seguir em frente, não mais.
Depois de sentir novamente a pele de Daniel na minha, depois de ver seu sorriso virado para mim, depois de conseguir sentir que ele ainda sentia o mesmo que eu, eu não podia simplesmente seguir em frente como se aquilo não significasse nada.
— Allison, era a oportunidade perfeita para você seguir em frente, para você mostrar pra ele que está seguindo em frente! — Angeline me segurou pelos ombros, dando trancos leves para que eu caísse na real.
Adalia levantou-se rapidamente, se colocando entre nós duas e empurrando Angeline para trás.
— Já chega, Angeline — Repreendeu com a voz alta. — Você não pode tomar esse tipo de decisão por ela!
Angeline fechou os punhos, respirando fundo como se tentasse se controlar e evitar explodir ali mesmo. Ela afastou-se um pouco mais, com os olhos fechados, antes de abri-los novamente, enquadrando o rosto hexagonal de Adalia com labaredas que transbordavam por seus cílios.
— Você também não pode forçá-la a voltar atrás! — Provocou com um sorriso petulante. — Allison não pode viver pra sempre correndo atrás de um cara como ele. Sem contar que ela está se estabilizando por aqui novamente, e o que vai acontecer se ele decidir voltar com ela, hein? — Ela riu, desdenhando completamente de nós duas. — Ele mora no Michigan, agora. Não mudaria nada, o cenário que eles viveram quando ela foi para a Califórnia só se repetiria. É isso o que você quer, Allison?
Neguei com a cabeça, lentamente.
— Ele não largaria o sonho dele só por sua causa — A loira ergueu uma de suas sobrancelhas. — E o Corey é um cara muito mais decente que ele!
— Cala a boca — Bradei, puxando Adalia para trás antes que ela pudesse falar qualquer coisa em meu lugar.
Angeline hesitou, descrente.
Em todos os anos de amizade que tínhamos, poucas foram as vezes em que eu tive coragem de a rebater daquela forma, com tanta raiva e afinco. Angeline sempre fora muito mais alta que eu, além de que sua personalidade sempre se sobressaia à minha.
Ela sabia muito melhor como se impor, e todas as vezes em que eu tentei fazer algo parecido, ela parecia se ofender, simplesmente porque era inaceitável que alguém como eu, que nunca contestava nada, não concordasse com ela.
Eu sabia bem que não tinha uma personalidade marcante e dominante, que eu normalmente desaparecia nas conversas e nas rodas com pessoas que eram mais como Angeline, mas eu não queria que todas as coisas que eu pensasse e que todas as conclusões que eu tirasse fossem invalidadas porque minha voz era mais baixa, ou porque eu não dizia coisas como Angeline costumava dizer.
Ela uniu as sobrancelhas, franzindo o cenho e estreitando os olhos em minha direção.
— Como é? — Ela curvou-se para frente, como se tentasse ouvir melhor.
— Eu disse pra você calar a droga da boca! — Gritei novamente, rangendo os dentes. — Para de agir como se eu tivesse que tomar as mesmas decisões que você só porque funcionou com você!
— Só quero que você fique bem, Allison! — Ela rebateu no mesmo tom.
— Não! Você quer que eu vire um clone fajuto seu pra você poder dizer por aí que tá sempre certa — Bati o pé no chão. — Eu não quero tomar as suas decisões, quero fazer isso sozinha!
Angeline respirou fundo, sentando-se na beirada da cama e engolindo em seco antes de olhar diretamente para mim.
— E o que você vai fazer se ele voltar para o Michigan? — Perguntou. — Sei que você o ama, e sinto que ele ainda ama você, mas não vai demorar para ele voltar. Os treinos começam na metade de julho e a gente já tá no fim de junho!
Eu tentei procurar uma resposta dentro da minha cabeça, mas não encontrei. Tentei calcular todas as possibilidades, mas não consegui. A equação não montava na minha mente, os números não faziam sentido, as informações não se encaixavam como um todo, era como se elas pertencessem a quebra-cabeças diferentes.
Talvez, Daniel e eu pertencêssemos a quebra-cabeças diferentes.
— Eu não sei — Murmurei, encarando meus pés. — Eu não faço ideia...
Adalia aproximou-se por trás, me segurando pelos ombros, aninhando meu corpo ao seu.
— Largaria seu novo emprego por ele? — Angeline perguntou, não era em tom provocativo dessa vez.
Levantei meus olhos para Angeline, essa era outra pergunta que eu não sabia responder. Eu largaria?
Eu gostava de trabalhar no estúdio, gostava de poder desenhar o quanto eu quisesse e desenvolver os design dos personagens que iriam para os quadrinhos. Não era o meu emprego dos sonhos, eu não estava pintando quadros para ninguém, eu não estava expondo minhas obras em galerias de arte ou coisa do tipo, eu estava apenas desenhando personagens de quadrinhos infantojuvenis, mas finalmente estava fazendo algo que se aproximasse mais dos meus sonhos do que quando eu dava aulas para adolescentes.
— Largaria? — Perguntou novamente.
— Eu não sei, merda! — Grunhi, baixando a cabeça.
Meu cabelo escorregou sobre meus ombros, caindo para frente, cobrindo meu rosto da visão de Angeline.
Eu sabia que ela estava certa, sabia que eu tinha que pensar em tudo aquilo antes de sair tomando qualquer decisão, mas eu não queria perdê-lo novamente. Também não queria perder meu emprego, não queria ficar sem dinheiro, não queria precisar pedir dinheiro emprestado para comprar coisas, ou depender dos meus pais novamente.
Eu senti meu corpo inteiro tremer enquanto eu tentava controlar meus nervos e meu coração, que pressionava meus pulmões contra as costelas. O primeiro soluço fez meu corpo pular, e não demorou para que eu não fosse mais capaz de me controlar, de impedir que as lágrimas escorressem pelo meu rosto.
Detestava ser apenas mais uma chorona, detestava o quanto, por vezes, tudo o que eu conseguia fazer era chorar descontroladamente na esperança de que as coisas se arrumassem com o levar dos litros de lágrima que eu derramava.
Por algum tempo, pensei que eu tinha me tornado indestrutível durante os cinco anos em que morei na Califórnia. A faculdade tinha me tornado uma pessoa mais forte emocionalmente, eu não podia simplesmente chorar quando algum trabalho dava errado, eu precisava de nota para passar.
Mas nem sempre eu conseguia manter aquela compostura, aquela falsa fachada de que nada mais era capaz de fazer minhas pernas perderem a força e meus olhos transbordarem como se fossem cachoeiras.
Curvei-me para frente, abraçando meu próprio corpo, sentindo calafrios constantes percorrerem minha espinha, as lágrimas gotejavam pela ponta do meu nariz e do meu queixo, o gosto salgado delas se mesclava com a minha saliva enquanto eu contorcia meu rosto na tentativa de impedi-las de sair.
Adalia abraçou-me com força, abaixando-se comigo sobre o carpete do quarto e Angeline levantou-se da cama, caminhando em nossa direção e me envolvendo com seus braços compridos, também.
— Eu não sei o que eu devo fazer — Suprimi um soluço.
— Não precisa ter todas as respostas logo de cara, Alli — Adalia afagou minhas costas com a palma da mão. — Tá tudo bem, a gente vai dar um jeito nisso!
Tranquei os olhos com força, esfregando as mangas do suéter no rosto para tentar amenizar os rastros de lágrimas.
— Vocês não podem dar um jeito — Olhei-as nos olhos. — Não tem como. Ninguém pode fazer isso por mim ou por ele!
∞
Corri para dentro do elevador, apertando o botão tantas vezes que pensei que fosse enguiçar. Eu ainda não estava atrasada, tinha tempo para chegar no andar do estúdio, mas precisava que o elevador subisse o mais rápido possível.
As portas duplas de metal finalmente de fecharam e eu me senti aliviada porque sabia que chegaria a tempo. Recostei as costas no fundo do elevador, sentindo-o subir rapidamente até o tranco avisar-me que eu tinha chegado no andar certo.
Alisei a roupa com as palmas das mãos, tentando parecer mais apresentável, e atravessei a porta do estúdio, sentindo o ar frio do ar-condicionado invadir meus pulmões e incomodar minha pele.
— Tá atrasada — A voz de Corey atravessou o saguão.
Virei-me sobre os calcanhares até encontrá-lo, do outro lado, com os braços cruzados na frente do peito.
Ele costumava me receber com um sorriso no rosto e algum elogio sobre algum personagem, não tinha muitas reclamações para fazer sobre o meu trabalho, mas, ali, naquela segunda-feira, ele parecia severo e inflexível.
— Apenas um minuto e meio — Puxei o celular de dentro do bolso, me certificando do horário.
— Ainda é um atraso. Terá descontos — Ele virou-se de costas, ficando de frente para a porta de sua sala. — Ah, precisa fazer ajustes nos últimos três personagens, eles não ficaram muito bons!
— Eu teria feito melhor, se tivesse me mandado descrições mais detalhadas. Eu te enviei um e-mail! — Estreitei os olhos, confusa.
Ele sabia que eu tinha solicitado informações mais aprofundadas sobre os personagens em questão, mas ele mal me respondera, duvidava que tinha visto e, por não ter uma resposta, tentei os desenvolver com o pouco que eu tinha em mãos.
Corey não se deu ao trabalho de me responder, ele apenas abriu a porta de seu escritório e adentrou-o, me deixando sozinha do lado de fora. Suspirei, conformada, sabia que aquilo era apenas uma resposta imediata sobre como ele lidava com a rejeição, mas eu não tinha culpa. A escolha de fazer aquilo na frente de um monte de gente fora unicamente dele.
Empurrei a porta do meu escritório apertado. Ele continuava o mesmo de sempre, com a janela grande, que ocupava a parede oposta a entrada do chão ao teto. A mesa de trabalho ficava bem no centro do escritório, com o computador e o display interativo dispostos de forma que ficassem melhores para a minha altura.
A cadeira estofada estava virada para a janela, como eu tinha a abandonado na sexta, mas as flores que eu tinha recebido tinham desaparecido. Estreitei os olhos para o copo de água, agora vazio, sobre a escrivaninha e me aproximei, irritada.
Nenhum dos meus papéis estavam revirados, exceto por uma pilha de livros que eu deixava no canto da mesa. Sabia que alguém tinha mexido ali porque os livros estavam fora de ordem. Passei os olhos pelo resto da escrivaninha, deparando-me com alguns lápis de desenho espalhados pelo chão e algumas canetas desgovernadas sobre alguns papéis, não muito longe dos livros revirados.
Eu não queria tirar nenhuma conclusão precipitada. Detestaria ter um dedo apontado para a minha cara injustamente e não queria fazer aquilo com Corey, por mais que ele fosse o principal suspeito.
Respirei fundo para manter a calma, empurrei a cadeira para perto da mesa novamente e saí da sala, batendo com os nós dos dedos na superfície de madeira do escritório ao lado.
— Pode entrar! — Leo, um dos ilustradores do estúdio, anunciou.
Girei a maçaneta e empurrei a porta, me deparando com um escritório que tinha tudo para ser idêntico ao meu, se não fossem pelos pôsteres colados pelas paredes, pelas action figures espalhadas pela saleta e pelos inúmeros quadrinhos ocupando as prateleiras da estante.
Leo era três anos mais velho que eu, sua pele cor de mel trazia uma completude única para seu cabelo de cachos largos que caíam, cheios, até a altura de suas orelhas. Ele também usava um óculos de armação quadrada e grossa, que fazia seus olhos cor de oliva brilharem um pouco mais.
— Algum problema, Alli? — Perguntou ele, confuso com a visita repentina.
— Não, nada — Dei de ombros. — Viu se alguém entrou no meu escritório mais cedo?
— Não vi, não, Alli — Respondeu, deixando a caneta de lado. — Pergunta para o Aiden, ele chegou mais cedo, talvez saiba de algo!
Confirmei com a cabeça, o deixando sozinho em seu escritório novamente, fechando a porta assim que saí. Bati à porta do escritório de Aiden, que disse para que eu entrasse sem demora alguma.
Aiden não era um cara de muita conversa, diferente de Leo que, se deixasse, passava horas pendurado na porta do meu escritório me contando milhares de coisas sobre sua vida.
Ele tinha o cabelo raspado como o de um militar, e dizia que era herança do seu pai, que era ex-militar, era como uma forma de honrá-lo, já que Aiden se tornara a decepção da família depois de decidir se tornar ilustrador e não seguir na carreira militar, como seu pai. Seus olhos eram estreitos e tão azuis que pareciam violetas, seu rosto quadrado era rígido, mas ele era um cara legal, ou quase isso.
— E aí, qual o problema da vez? — Ele afastou-se da mesa e cruzou os braços atrás da cabeça.
— Viu se alguém entrou no meu escritório hoje mais cedo? — Perguntei, minimizando qualquer conversa com Aiden.
— Aconteceu alguma coisa? — Devolveu-me uma pergunta, curvando-se para frente e apoiando os braços na beirada da escrivaninha.
— Uma coisa minha sumiu, e meus livros estão revirados... Achei meio estranho e decidi perguntar.
Ele balançou a cabeça negativamente e ergueu as sobrancelhas, não parecendo muito surpreso. Era como se, de alguma forma, aquilo já tivesse acontecido antes.
— Não vi nada, foi mal!
— Tudo bem, então... Vou te deixar trabalhar.
Fechei a porta de seu escritório, trancando os olhos e respirando fundo para manter a calma, eu precisava arrumar algum tipo de coragem mágica e paciência dos deuses para poder lidar com Corey e sua incapacidade de ser rejeitado.
Encarei a superfície de madeira amarelada da porta, pensando exatamente em quais palavras seriam mais cabíveis para não fazer a situação com Corey ficar ainda pior do que já estava. Eu não gostava de ter que lidar com aquele tipo de situação.
Ele não era o primeiro cara que não sabia ser rejeitado com quem eu já tive que lidar. Na faculdade, na turma que ocupava a sala ao lado de uma das minhas aulas, estudava um cara que até era bonito, se chamava Bailey e chegamos a ir a algumas festas de fraternidades, juntos, mas ele não me encantou.
Não conseguia sentir nada por ele, tudo era tão vazio e superficial, que eu me sentia uma megera manipuladora quando estava ao lado dele, mas as coisas não foram tão fáceis quanto eu queria que fossem quando eu disse que não queria tentar mais nada com ele.
Bailey me infernizou por um semestre inteiro. Ele inventava histórias, ria de mim pelos corredores e até tentava chamar minha atenção me provocando no meio de todo mundo, especialmente nas poucas festas da fraternidade que eu frequentava.
Talvez, ele só não tenha feito mais coisas porque arrumou uma namorada da turma dele e, por fim, parou de me encher o saco.
Acho que devo deixar pra lá... Suspirei, virando-me para trás e dando de cara com o rosto de Corey atrás de mim. Seus olhos caíram sobre meu rosto severamente, ele endireitou a postura e ergueu o queixo, levantou uma de suas sobrancelhas e colocou as mãos nos bolsos da calça de sarja preta.
— Em vez de ficar de conversinha fiada por aí, você deveria trabalhar — Repreendeu-me, firme.
Senti meu sangue fervilhar. Milhares de bolhas microscópicas pareciam queimar minhas veias de dentro para fora, estourando milhares de vezes por todo o meu corpo. Desgraçado. Cerrei os punhos e tensionei o maxilar, se eu não me controlasse, o xingaria sem qualquer tipo de pudor ou medo de consequências.
— Umas coisas minhas sumiram do meu escritório, vim perguntar se eles viram alguém por aí que poderia ter pegado — Respondi entre os dentes, tentando parecer gentil.
Corey soltou o ar lentamente por suas narinas, abrindo um sorriso petulante, me mostrando seus dentes não muito alinhados. Ele pendeu a cabeça para o lado, achando graça da minha cara irritada, e não fazendo questão nenhuma de esconder seu desdém.
— Eu quem peguei — Deu de ombros. — Eu quem te dei aquelas coisas, como você não quer nada comigo, também não precisa de nada que venha de mim!
Tentei engolir o bolo de raiva que se formou na minha garganta. Desceu rasgando com tanta força que pensei que fosse perder o ar. Esse cara só pode estar de brincadeira!
— Era um porta-lápis e algumas flores — Franzi o cenho e estreitei os olhos. — Faz mesmo questão de coisas como aquelas?
— E você, faz? — Ele rebateu.
Eu hesitei.
Não era como se eu fizesse questão de um porta-lápis e de flores, eu mal gostava de flores, mas achava inaceitável alguém pegar de volta presentes, especialmente presentes tão ordinários quanto aqueles.
— Volta para o escritório, Allison, de onde você nem deveria ter saído! — Apontou para a porta. — Vá ser minimamente produtiva!
— Ótimo — Revirei os olhos.
Eu voltei para o meu escritório porque sabia que independente do que eu dissesse para ele, independente de quão bom fosse o meu argumento, não seria o suficiente para mudá-lo ou para fazê-lo aceitar que estava agindo como um babaca.
Fechei a porta atrás de mim e recolhi os lápis jogados no chão. Sabia que metade deles teriam que ir para o lixo, já que o grafite deveria estar destroçado por dentro e, como eles estavam sem ponta, apontá-los nunca mais seria possível por conta da queda.
Juntei as canetas espalhadas e as coloquei dentro da primeira gaveta da escrivaninha, outra hora eu teria que arrumar um lugar melhor para deixá-las, e a gaveta era melhor do que deixá-las espalhadas pela mesa. Coloquei os livros em ordem, também, tirando de dentro da bolsa os livros que Ethan e Daniel tinham me dado no meu aniversário.
Coloquei os livros de pé, lado a lado, e encaixei os livros novos em seus devidos lugares dentro da coleção, passando os dedos pelo relevo da lombada sobre a capa dura e sorrindo sozinha.
Ele tinha lembrado daquele livro depois de tantos anos, como se a memória ainda fosse fresca em sua mente. Afinal, ele quem me acompanhara pra todo lado, passando por todas as livrarias que eu conhecia, atrás do bendito livro. Na época, não tinha encontrado em nenhum lugar, e era realmente um golpe de sorte que eles tivessem o encontrado.
Sentei-me na cadeira estofada e finalmente liguei o computador, ajeitando o display interativo e puxando a caneta para mais perto antes de abrir os programas e abrir os briefings novos que enfeitavam a caixa de entrada do meu e-mail.
Passei pelos primeiros sem dar muita importância, precisava arrumar as ilustrações que Corey disse que precisavam de ajustes, mas não conseguia encontrar o e-mail de solicitação em nenhum lugar por ali. Cheguei até a checar na caixa de spam, mas não tinha nenhuma solicitação de ajustes.
Estalei a língua, impaciente, e me levantei rapidamente, caminhando em disparada até a frente do escritório de Corey. Bati à porta repetidas vezes até que ele abrisse a porta para mim sem dizer uma palavra sequer.
— Não encontrei a solicitação de ajuste dos personagens — Comecei sem me importar em demonstrar o quão impaciente eu estava. — Se quer que eu arrume, precisa, no mínimo, me mandar o que queria que eu arrumasse!
— Eu pensei melhor e decidi que o Aiden faria os ajustes melhor que você! — Deu de ombros. — Não me leve a mal, o traço dele é mais rígido. — Ele virou o rosto em minha direção. — Mais alguma coisa?
— Não... Nada.
Dei as costas para ele para sair do escritório.
— Allison — Chamou e eu me virei. — Volte ao trabalho.
Lentamente, me virei para a porta, sentindo meu corpo inteiro querer voltar para dentro daquela sala e cometer um crime. Eu queria o empurrar para fora do prédio por aquela enorme janela atrás do escritório, eu poderia facilmente fazer parecer um suicídio, ninguém desconfiaria.
Tentei respirar fundo algumas vezes para manter a calma, mas tudo o que eu conseguia fazer era bater o pé com toda a força até chegar no meu escritório. Como ele consegue ser tão imprestável?
Eu não podia me dar por vencida, eu não podia chutar o pau da barraca. Não perderia meu emprego porque um cara não sabia ouvir um não.
∞
Angeline colocou o copo de café sobre a mesa pequena que dividíamos na cafeteria ao lado do prédio em que trabalhávamos. Ela gostava de saborear o café lentamente, eu, por outro lado, detestava o gosto e me servia com um suco de laranja bem gelado.
— Que babaca — Concluiu, abrindo os olhos em minha direção. — Não pensei que o Corey fosse agir dessa forma!
— Pois é, mas o que eu posso fazer? — Suspirei, passando a ponta do dedo ao redor da boca do copo. — Ele é só mais um homem no mundo que não sabe ouvir um não!
— Que infantil — Ela riu.
A loira levou novamente o copo à boca, bebericando mais um pouco de café, fazendo todo o ritual de degustação que ela fazia a cada gole. Ela soltou o ar pela boca, puxando o donut com cobertura rosa e granulado colorido que estava sobre o prato a sua frente e deu uma mordida pequena e delicada.
— O que você pensa em fazer? — Perguntou sem desviar os olhos do donut.
— Com o quê, exatamente? — Estreitei os olhos para ela.
Ela mastigava lentamente, o que significava que minha resposta também demoraria. Puxei o pedaço de torta de maçã e coloquei uma garfada na boca, levantando novamente os olhos para a loira de olhos âmbar.
Angeline empurrou o cabelo para trás dos ombros e encarou o donut como se ele fosse uma enciclopédia completa com dicas de como lidar com seres humanos e corações partidos. Com a ponta dos dedos, ela deslizou pela beirada do prato de porcelana e deu uma olhada na luz pendurada acima de nossas cabeças.
— Com o Corey... Com o Carter — Deu de ombros. — Com tudo!
Ela baixou os olhos, fixando-os no meu rosto, curiosos.
— Sei que você não para de pensar em tudo isso, então pensei que talvez já tivesse chegado em alguma conclusão — Ela apoiou o rosto na mão. — Ou, pelo menos, em alguma coisa perto de uma conclusão!
Eu tinha passado muito tempo pensando, sim, em conclusões, em coisas que eu poderia fazer, mas não tinha chegado nem perto de resolver as coisas, o que eu tinha, na verdade, eram mais perguntas que respostas.
Baixei os olhos para a minha torta na esperança de encontrar-me com a mesma enciclopédia mágica e cheia de respostas que Angeline encontrara quando olhou para seu donut. Eu não tinha uma resposta ainda.
No fundo, eu queria estar ao lado de Daniel, queria entender o que foi aquele beijo na bochecha, queria entender o motivo de ele ter feito aquilo, queria entender o porquê de ele ter, inesperadamente, feito o que costumávamos fazer por baixo da mesa quando sentávamos naquele mesmo café para conversar ou discutir.
Eu queria me convencer de que ele queria que eu soubesse que, de alguma forma, ele ainda lembrava das nossas pequenas cosias, e talvez quisesse se lembrar de como as coisas eram. Queria me convencer de que ele também me queria de volta ao seu lado, mas com tantas impossibilidades, com tantos obstáculos, nós parecia algo impossível de acontecer novamente.
Sabia que Angeline tinha razão ao dizer que ele não abandonaria seu sonhos por mim, e eu sabia que aquilo fazia parte de um acordo que tínhamos feito quando mais novos, nós não nos colocaríamos na frente dos sonhos um do outro, porque o futuro sempre foi algo incerto. Eu não podia abandonar meu sonho para ter Carter de volta.
Eu não me perdoaria, ele não me perdoaria.
E eu não sabia o que fazer. Eu não estava vivendo o meu sonho, mas estava um pouco mais perto. Ele, por outro lado, estava tendo a vida que ele sempre almejou e aquilo era incrível. Eu não queria ser o motivo da destruição do seu brilhante futuro.
— Talvez eu deva apenas esclarecer as coisas com o Daniel... — Engoli em seco. — Talvez nós dois não fomos feitos para ficarmos juntos, no fim das contas...
Angeline esticou o braço por cima da mesa, segurando minha mão com um sorriso complacente.
— Sinto muito...
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