12. Swoon
Carter
— Não vou! — Protestei, esbravejando.
Ethan revirou os olhos, frustrado. Ele colocou as mãos na cintura, como se estivesse tentando pensar em uma forma melhor de lidar com uma criança birrenta.
Ele tinha acabado de me convidar para ir para o aniversário da minha ex-namorada, não sei o motivo de ele ter considerado a possibilidade de, magicamente, eu concordar com aquela ideia.
— Ela quem te chamou, eu só estou repassando a mensagem — Deu de ombros, tomando o controle do videogame da minha mão. — E você vai!
Me levantei da beirada da cama, parando de frente para ele. Eu não era muito mais alto que Ethan, mas meu porte físico sem sombra de dúvidas era mais intimidador que o dele.
O loiro colocou o braço para trás, mantendo o controle do videogame longe dos meus olhos. Aquele era o nosso objeto de barganha e ele não me devolveria pacificamente.
— Me devolve o controle — Grunhi.
— Claro que não — Ele me empurrou para trás com a mão livre. — Te devolvo assim que você decidir ir comigo para o aniversário da Allison!
Minha vez de revirar os olhos.
— De onde você tirou que isso é uma boa ideia? — Perguntei, estreitando os olhos.
— Ah, você sabe, precisa parar de fugir dela como se ela fosse, sei lá, um monstro enorme que fosse sugar sua alma — Ele deu de ombros. — É uma boa oportunidade de falar com ela!
Eu hesitei. Ele tinha razão de certa forma, mas eu não queria fazer aquilo na frente de um monte de gente. Sabia que Ethan, Adalia e quem quer que fosse, não perderia nenhum detalhe da nossa conversa, nem que fosse para terem o que conversar depois, ou só para saberem se as coisas dariam realmente certo.
— Tudo bem... — Respirei fundo.
— Isso é um sim, então? — Ele ergueu as sobrancelhas.
Confirmei com a cabeça, observando ele jogar o controle em minha direção com um sorriso largo rasgando seu rosto de fora a fora.
— Não estrague tudo! — Ele virou-se para mim, antes de abrir a porta do meu quarto. — Te mando o horário por mensagem!
Assenti, não muito empolgado. Aquilo não parecia ser a melhor ideia do universo, mas era tudo o que eu podia me agarrar naquele momento — na esperança quase nula de poder, de alguma forma, falar com ela e arrumar as coisas.
Sorri sozinho para a parede, como se ela fosse capaz de me compreender. Eu falaria com ela...
Senti um calafrio percorrer todo o meu corpo e, dentro dos meus órgãos, pequenas penas deslizavam pela parede do meu estômago, como se tentassem escapar. Engoli em seco, me sentindo um idiota por estar tão empolgado com aquilo. Não seria nada muito especial, eu não seria um presente de aniversário ou coisa do tipo, eu apenas seria capaz de falar com ela novamente.
Mantenha o controle! Pensei, me esticando sobre a cama. Não é nada especial ou coisa do tipo, ela é só uma amiga de longa data... Só isso... Não pense nela como a sua ex!
Soltei o ar dos meus pulmões lentamente, eu não sabia se deveria comprar algum presente para ela, eu sabia o que eu deveria dar, ou o que eu deveria fazer para agradá-la, já tinha dado alguns presentes de aniversário para ela durante os três anos que passamos juntos e não era uma tarefa muito difícil saber o que ela gostaria de ganhar.
Mas talvez eu estivesse sendo inconveniente ou parecendo desesperado, e eu não queria parecer nenhum dos dois.
∞
Aquele café já tinha sido palco de muitas conversas minha e da Allison. Quando saíamos da escola, antes de voltarmos para casa, passávamos horas sentados ao redor das mesinhas, conversando, rindo, tomando alguma coisa e, às vezes, até tentando planejar o futuro como se fôssemos passar o resto de nossas vidas juntos.
Adalia tinha sido esperta quando disse para Allison sentar-se na cadeira vazia que estava bem de frente para mim, e eu sabia que aquilo era proposital, Ethan tinha se sentado ao meu lado justamente para que eu pudesse ficar de frente para ela.
Allison passou os olhos sobre toda a mesa até parar sobre mim, fazendo o suor brotar nas palmas das minhas mãos. Eu não conseguia levantar o rosto, não queria olhá-la tão de perto, quanto mais eu estivesse longe dos seus olhos, mais eu estaria imerso na minha zona de conforto.
Ethan cutucou meu braço com o cotovelo, e eu sabia que ele queria que eu dissesse alguma coisa. Eu tinha que dizer alguma coisa, não poderia passar o resto da noite encarando a mesa.
Levantei os olhos na direção dos dela, sentindo meu rosto esquentar com o toque dos seus orbes castanhos. De repente, o mundo desapareceu novamente, como se tivéssemos sido lançados em um espaço só nosso.
— Feliz aniversário — Forcei as palavras a saírem da minha garganta, quebrando o constrangedor vazio que se estabeleceu entre nós dois.
Tentei me forçar a abrir um sorriso que a confortasse ou que a mostrasse que as coisas estavam bem entre nós dois, mas eu falhei miseravelmente, e acabei deixando escapar um pouco de dor.
Seus olhos caíram e suas sobrancelhas se arquearam, entristecidas. Ela engoliu em seco, remexendo os dedos nervosamente.
— Obrigada... — Suas bochechas adquiriram um tom avermelhado de repente.
Ela contornou a cadeira de Adalia e sentou-se na que estava de frente para mim, deixando a bolsa de lado. Voltei meus olhos para a mesa novamente, enterrando as mãos entre as pernas enquanto eu não conseguia manter minha perna parada.
Tensionei o maxilar, pensando que talvez eu devesse ter me esforçado mais em tentar parecer mais contente de estar ali.
Ethan, depois de algum tempo, segurou minha perna para que eu parasse de sacudir compulsivamente, apertando meu joelho com força, irritadiço.
— Como foi na Califórnia? — Perguntou ele, rompendo o silêncio.
Eu sabia que ele queria que, magicamente, eu fosse capaz de me comportar como sempre, que eu começasse a fazer as piadas idiotas e a provocar todo mundo com o meu tom ácido de sempre, mas não era tão fácil.
— Foi incrível — Allison respondeu, abrindo um sorriso fraco.
Ela jogou a cabeça para trás, deixando o cabelo escorrer para trás de seu corpo. Com os olhos fechados, ela parecia recuperar todas as memórias que tinha de lá, de tão longe.
Seu pescoço brilhava para mim, delicado e vulnerável, e eu estremeci. Eu ainda era capaz de me lembrar da textura que ele tinha e da sensação que era beijá-lo. Eu me senti um pervertido idiota por me lembrar do gemido que ela sempre soltava quando eu a surpreendia por trás, empurrando o cabelo para o lado e beijando seu pescoço.
— Mas é bem diferente daqui. No começo foi difícil! — Ela completou, recobrando a postura.
Agradeci mentalmente por ela ter voltado a mostrar seu rosto para mim.
Ethan olhou para mim de soslaio, sinalizando com a cabeça em minha direção. Ele podia ser um bom ator, mas era péssimo em tentar ser discreto, porque se ele tentou fazer aquilo disfarçadamente para que eu não percebesse, ele tinha falhado miseravelmente.
— E como foi no Michigan, Dan? — Allison perguntou suavemente.
Dan...Há quanto tempo eu não ouvia alguém me chamando de Dan?
Não era como se aquele fosse o meu apelido mais conhecido. Minha família me chamava de Dani, o pessoal que estudou comigo costumava me chamar pelo sobrenome, já que, na nossa turma, teve outros dois Daniels e Dan era o apelido do mais velho.
Carter era como a maioria das pessoas me chamavam, e, por vezes, era até complicado eu me lembrar de responder pelo meu próprio nome, já que estava acostumado a ser chamado apenas pelo meu sobrenome.
Mas Allison tinha parado de me chamar de Carter quando começamos a namorar. Ela dizia que era estranho me chamar pelo sobrenome, e como ela não queria "copiar" o apelido que minha família usava para mim, ela pegou o clássico apelido de Daniel, o Dan, e passou a usá-lo comigo. Ela era a única pessoa no mundo que me chamava daquela forma.
Levantei os olhos para o rosto dela, encarei seu sorriso ameno voltado para mim e suas sardas claras na ponte do nariz. Senti um frio na barriga incontrolável, não conseguia desviar os olhos de seu rosto, intercalando o olhar involuntariamente entre seus olhos, seus lábios e suas mãos.
— Foi legal... — Minimizei, fugindo novamente para a mesa.
— Não foi só "legal", Carter. Credo! — Adalia apoiou os cotovelos sobre a mesa e o rosto nas mãos. — Você fez várias coisas incríveis, a gente sabe disso, mas queremos saber da sua boca!
Pisquei algumas vezes, atordoado com o que Adalia disse. Eu tinha feito milhares de coisas legais, muita coisa tinha acontecido e meu sonho estava realmente se realizando, eu podia dizer que estava com a vida feita e tinha apenas vinte e três anos, mas eu estava nervoso demais para conseguir falar direito.
Soltei o ar lentamente, esvaziando meus pulmões. Eu tinha que voltar ao normal em algum momento, e ri sozinho de mim mesmo por estar me sentindo daquela forma por causa de Allison, que sempre me deixava mil vezes mais confiante do que eu já era.
— Tudo bem — Dei de ombros. — Eu sou incrível, o que eu posso fazer? — Abri um sorriso sacana. — Foi um tempo tão bom que eu mal consigo acreditar que as coisas realmente aconteceram!
Allison fez menção de abrir a boca para dizer algo, mas Michael cobriu seus olhos com as mãos, parando atrás da cadeira dela e curvando-se levemente para frente com um sorriso no rosto.
— Mike, eu sei que é você! — Ela puxou os dedos dele para baixo.
— Droga, você é muito sem graça — Ele bufou, esperando ela levantar-se.
Ele a abraçou e entregou um pacotinho de presente para ela, que não tardou em abrir, soltando um sorriso ao encontrar os pacotes de doces que eles comiam quando eram mais novos. Michael fez questão de não deixar que ela dividisse com mais ninguém, porque Allison sempre acabava dividindo as coisas contra a sua vontade só para agradar.
Ela virou-se novamente para frente, trombando seus olhos com os meus e, mesmo que eu não quisesse, ela recebeu meu sorriso com carinho e sorriu também. Era como nos velhos tempos, ela estava sorrindo para mim como ela costumava sorrir.
— Quem é esse? — Adalia me fez recobrar a noção de tempo.
Franzi o cenho, confuso, antes de virar o rosto na direção que Adalia, Ethan e Michael já estavam olhando.
Ao lado de Angeline, com um sorriso triunfante nos lábios, o mesmo cara que estava com ela na lanchonete se aproximava lentamente da mesa. Merda, eu já devia imaginar!
Mas eu não podia agir como se já o tivesse visto, também não podia falar para aquele cara sumir porque ele estava me atrapalhando ou coisa do tipo, eu não tinha o direito de sentir raiva ou ciúme, eu não era do tipo ciumento, por mais que eu estivesse sentindo meu interior inteiro borbulhar.
Você não tá com ela, Daniel. Ela é uma mulher livre para fazer o que quiser, sempre foi. Não surta, não surta!
Ethan franziu o cenho e curvou-se para o lado, colocando a mão na frente dos lábios para que mais ninguém fosse capaz de decifrar o que ele estava prestes a me dizer.
— Sem chances, é esse o cara? — Sussurrou para mim e eu confirmei com a cabeça.
— O que você tá fazendo aqui? — Allison perguntou com a voz trêmula.
O cara, que não era mais que dois centímetros mais alto que Angeline, coçou a nuca, meio sem graça, abrindo um sorriso amarelo e torto. Ele ajeitou os óculos e a camisa, inquieto.
— Ah, a Angeline me chamou! — Ele indicou a loira ao lado.
Adalia respirou fundo, não muito surpresa. Ela girou na cadeira, ficando de frente para a mesa novamente, e apoiou os braços cruzados sobre a superfície de madeira, tamborilando a ponta das unhas, que emitiram um barulho irritante.
— Claro que a Angeline te chamou — Ela revirou os olhos.
— Eu não me lembro dele na escola — Michael ergueu uma das sobrancelhas para o de óculos.
— Ele não estudou com a gente — Angeline deu de ombros, puxando a cadeira ao lado de Michael para que ela se sentasse. — Esse é o Corey, o novo...
— Amigo — Allison atravessou Angeline antes que ela terminasse a sentença. — Meu novo amigo. Ele trabalha comigo!
Olhei para Allison rapidamente, confuso, especialmente porque Corey não parecia muito satisfeito em ser classificado apenas como o novo amigo do trabalho. No fundo, me senti aliviado, mas não sabia se aquilo duraria por muito mais tempo.
— Amigo? — Angeline perguntou, ácida. — Tem certeza de que ele é só seu amigo?
Allison intercalou o olhar entre a melhor amiga, Corey e eu, nervosa e sem saber onde enfiar a cara.
— Claro — Ela sorriu forçado.
— Então você é o Corey? — Adalia perguntou, erguendo uma de suas sobrancelhas.
Eu sabia que não era um bom sinal, toda vez que Adalia adquiria aquela postura imponente de endireitar as costas, estufar o peito e erguer uma de suas sobrancelhas, alguém saía constrangido ou magoado com verdades duras demais para serem engolidas de uma vez só.
O rapaz confirmou com a cabeça.
— Sou eu, sim — Ele sentou-se rapidamente ao lado de Allison, passando o braço sobre o encosto da cadeira, fazendo com que ela se afastasse, curvando-se para frente. — Não acho que amigo seja a palavra certa para nós dois, mas por enquanto, é o que eu tenho para hoje, né?
Corey riu sem graça antes de correr os olhos por todos os rostos da mesa. Ele deu uma boa analisada em Adalia, em Ethan, pulou para Michael e finalmente congelou em mim.
Seus olhos castanho-avermelhados se arregalaram em um instante, suas sobrancelhas subiram e enrugaram sua testa estreita. Ele tirou o óculos lentamente para esfregar os olhos e os colocou novamente, praticamente boquiaberto.
— Não mesmo, você é o Daniel Carter? — Perguntou, apontando para mim. — Tipo o Daniel Carter que foi o motivo do Pirates vencer a temporada passada do Super Bowl?
Ethan quase se engasgou com o copo de refrigerante ao tentar segurar a risada.
Merda.
— É... Sou eu — Sorri, sem graça.
— Ah, corta essa! — Ele virou-se para Allison. — Por que não me disse que conhecia esse Daniel Carter?
Ethan curvou-se novamente para o lado, virando-se para trás para que mais ninguém visse o quanto ele estava segurando a risada. Ele parou o rosto perto do meu, eu praticamente podia sentir sua respiração no pé da minha orelha, fazendo os fios do meu cabelo balançarem e fazerem cócegas na lateral do meu rosto.
— Parece que o novo pretendente da Allison é o seu maior fã! — Provocou, socando meu braço.
— Vai pro inferno — Resmunguei, o empurrando.
— Cara, você é incrível! — Disse ele, repousando a mão sobre a mesa. — Eu não sou um torcedor do Pirates, não me leve a mal, mas tenho que reconhecer que você é muito bom!
Allison abriu um sorrisinho orgulhoso e esticou as mãos em minha direção sobre a mesa. Surpreso, eu encarei seus dedos apontarem em minha direção.
— Ele é o melhor jogador que eu conheço — Disse, tamborilando os dedos sobre a mesa. — Se continuar sendo tão bom quanto ele é, vai ser o melhor jogador da atualidade sem muito esforço!
— Não é pra tanto — Torci o nariz.
Allison revirou os olho.
— Desde quando você é modesto? — Perguntou, lançando um sorriso provocativo em minha direção.
— Eu não sou modesto, eu sou realista! — Dei de ombros.
Ao redor da mesa, Michael, Adalia e Ethan nos encaravam como se fosse exatamente aquele tipo de interação que eles estivessem esperando desde que Allison chegara no café.
Por outro lado, Angeline não parecia muito contente com aquilo, como se eu estivesse atrapalhando algo ou coisa assim.
— Você não é nem um pouco realista — Allison cruzou os braços na frente do peito.
— Ah, não? — Fiz o mesmo movimento, erguendo uma de minhas sobrancelhas. Ela negou com a cabeça. — Então como você me explica a apresentação de teatro do penúltimo ano?
— Isso é golpe baixo! — Ela bufou. — Eu tinha esquecido de decorar as falas, eu tinha motivo para ser pessimista!
Eu ri baixo, me lembrando de como ela corria de um lado para o outro procurando por algum roteiro sobrando para que ela pudesse estudar as falas de última hora.
— E quanto ao primeiro jantar com a minha família em 2015? — Ela ergueu as sobrancelhas. — Fala sério, Dan, você é o mais emocionado de nós dois!
— Claro, seu pai me odiava! — Revirei os olhos. — Eu tinha que estar preparado para me defender, caso ele tentasse arrancar minha cabeça!
Corey soltou uma risada abafada e desmotivada ao lado de Allison, tirando o braço do encosto da cadeira e murchando os ombros.
— Parece que vocês se conhecem muito bem, não imaginei que fossem tão íntimos — Disse ele, cortando o assunto completamente.
— Eles são beeeeeem mais íntimos do que você imagina! — Adalia riu, chamando o garçom.
Depois de pedirmos as coisas, eu conseguia conversar com ela como se o tempo que ficamos longe um do outro nunca tivesse acontecido e, droga, aquilo estava fazendo eu me sentir melhor do que deveria.
Era como se só nós dois estivéssemos na mesa, por mais que os outros também conversassem entre si e que, por vezes, até participassem do que estávamos falando. Ela não me contou muito sobre a Califórnia, e eu também não quis falar muito sobre o Michigan, saber daquilo não parecia muito importante, ao contrário, nós relembrávamos de muitas coisas que tinham acontecido e conseguíamos rir do passado como se ele realmente tivesse sido uma piada boba.
Allison esbarrou seu joelho no meu, por baixo da mesa, e nós paramos de falar de repente, enquanto a conversa ao redor se tornava mais baixa a cada segundo. Instintivamente, meus dedos tocaram a lateral de seu joelho e ela, em vez de recuar, desceu sua mão, encontrando com meus dedos e os tocando com as pontas dos seus.
Guiei meus olhos para seu rosto, ela já estava me encarando. Eu mal conseguia piscar. A sensação da pele dela na minha ainda era eletrizante, eu ainda conseguia sentir meu sangue borbulhar dentro das minhas veias, o tempo começou a se dilatar ao nosso redor, eu podia passar o resto da minha vida ali, sentindo os dedos dela nos meus, sentindo os olhos dela nos meus.
Com um movimento simples, girei meus dedos e segurei os dela como há muito tempo não fazia.
Quando éramos mais novos e íamos naquele café depois da escola, quando as coisas ficavam mais tensas entre nós dois, eu costumava segurar sua mão por baixo da mesa, sentindo as pernas dela encostarem nas minhas. Eu costumava acariciá-la com o polegar até que ela estivesse mais calma e pronta para resolver algum problema, ou me contar algo que a incomodava.
Era um jeito que tínhamos de deixar as coisas melhores para nós dois, por mais bobo que parecesse segurar sua mão por baixo da mesa.
Ela abriu um sorriso discreto e eu retribuí, quase sem fôlego.
Merda, por que ela tá deixando que eu segure sua mão dessa forma?
Com cuidado, ela acariciou minha mão com seus dedos, mas recuei assim que meu celular vibrou dentro do bolso da minha calça.
Puxei o celular para fora do bolso e encarei a mensagem do meu pai.
"Dani, saí com sua mãe para jantar, mas o Mark me mandou mensagem falando que vai levar a Barbara no hospital, pode ficar com o Sean até eles voltarem?".
Eu não podia falar que não, era o meu sobrinho. Merda, eu não queria ir embora tão cedo!
"Pode ser" Enviei a resposta, não muito contente.
Meu pai me agradeceu rapidamente e, sabendo que eu não teria muito tempo para chegar em casa e receber meu sobrinho, guardei o celular de volta no bolso e olhei para Allison, não muito contente.
— Eu não achei que fosse precisar sair mais cedo, então... — Puxei o pacote de presente que estava ao lado do meu pé, escondido embaixo da mesa.
— Você já vai? — Ela perguntou, erguendo as sobrancelhas, surpresa.
— Meu pai mandou mensagem falando que eu vou ter que tomar conta do meu sobrinho — Dei de ombros, descontente.
Ela murchou por completo.
Coloquei o pacote do presente sobre a mesa e a conversa paralela parou de repente só para me observar.
— Saí com o Ethan esses dias e a gente achou as duas edições que faltavam na sua coleção de teoria das cores — Comentei, empurrando o pacote com os dedos para mais perto dela. — Lembrei que você passou anos atrás desses livros e tinha até desistido de encontrar, então, como a gente achou, eu comprei a terceira e o Ethan, a quarta edição!
Vi os olhos dela brilharem para o pacote. Seus dedos se agarraram nas bordas e, sem muito rodeio, desfez o pacote e encarou a capa do livro, passando os dedos pelo relevo das letras. Ela folheou todo o miolo das páginas e aproximou-o do rosto, dando uma cheirada leve no conteúdo, como ela sempre fazia quando ganhava um livro novo.
Ela abraçou o livro como se fosse um filhote de cachorro e eu dei risada, vendo o Ethan puxar o pacote com o livro que ele daria para ela.
— Onde você encontrou isso? — Perguntou, entusiasmada. — Eu procurei por essas edições por anos!
— Numa livraria no centro de Boston — Olhei para Ethan, estreitando os olhos, tentando me lembrar onde, exatamente.
— Eram as últimas unidades de uma leva exclusiva que a editora tinha lançado — Ethan completou, entregando o pacote para ela. — A gente deu sorte de achar, na verdade!
— Muito obrigada — Disse ela, guardando os livros de volta no pacote e colocando dentro da bolsa. — Foram os melhores presentes que eu poderia ganhar, sério!
Eu sorri, feliz de vê-la tão empolgada com o presente. Eu sabia que não era um grande desafio dar um presente que fizesse jus a ela, mas não esperava me sentir tão bem.
Afastei a cadeira da mesa, abrindo espaço para que eu pudesse passar. Me despedi de Ethan, de Adalia, de Michael e até de Angeline, mas quando eu estava prestes a me despedir de Allison, Corey levantou-se, apressado, colocando as mãos nos bolsos, meio nervoso.
— Vou ter que discordar, Allison — Disse ele, sorrindo. — Esse vai ser o melhor presente que você poderia ganhar!
Estreitei os olhos para ele, na expectativa de entender o que ele queria dizer com aquilo.
De dentro de um dos bolsos, Corey tirou uma caixinha azul de veludo e a abriu diante dos olhos de Allison, que recuou um passo. O anel prateado com uma pedra brilhante e branca em cima, era mais extravagante que qualquer coisa que eu já tivesse dado para ela, mas admito que ele tinha bom gosto, era bonito.
— Eu sei que eu tô correndo mais rápido do que minhas pernas conseguem acompanhar, mas — ele respirou fundo —, quer namorar comigo?
— O quê? — Ela estreitou os olhos, não muito surpresa.
Ethan franziu o cenho, apertando a borda da mesa, Adalia estava se segurando para não se intrometer no meio daquilo, Michael estava boquiaberto e Angeline esboçava um sorrisinho provocativo nos lábios.
Eu desisti de me despedir ou de dizer qualquer outra coisa, deixei cinquenta dólares com o Ethan para que ele pagasse minha parte da conta e caminhei lentamente na direção da saída do café, procurando a chave do carro no bolso traseiro da calça.
Senti as mãos dela envolverem meu braço, me obrigando a virar novamente para ela. Seus olhos estavam fixos nos meus, suas mãos não soltavam meu braço, como se ela quisesse ter certeza de que eu não sairia correndo dali e acabasse desaparecendo para sempre.
— Não tem como você ficar mais um pouco? — Perguntou, afobada.
— Sinto muito — Respondi, olhando para Corey, que ainda segurava a caixinha com o anel enquanto encarava as costas de Allison a espera de uma resposta. — É melhor você voltar pra lá!
Ela olhou para trás rapidamente e logo virou-se para mim, seus olhos estavam desesperados, seus dedos tremiam sobre o meu braço e eu sabia que ela não queria voltar para lá, de alguma forma.
Instintivamente, curvei-me para frente, beijando sua bochecha e encaixando seu rosto em minha mão, fazendo movimentos circulares com o polegar. Seus dedos subiram para minha mão em seu rosto e ela baixou os olhos, pesarosa, a respiração descompassada tornava praticamente audível o quanto seu coração batia forte dentro do peito.
— Feliz aniversário, Allison — Finalizei, dando as costas para ela e saindo do café.
Entrei no carro, mas não consegui o ligar de primeira. Segurei o volante com força antes de girar a chave na ignição. Eu até poderia ter ficado mais tempo lá dentro, mas eu tinha medo de qual resposta Allison daria para Corey, a ideia de que ela poderia dizer "sim" me assombrava com tanta força que eu estava praticamente passando mal.
E se ela disser sim?
Eu não poderia fazer nada, no fim das contas. Talvez eu nunca tivesse nenhuma chance de fazer algo. Ela sempre foi uma mulher livre, e era isso que eu mais amava em Allison, mesmo que sua liberdade a empurrasse para longe de mim cada vez mais.
Estava tudo bem.
Tudo bem se ela seguisse em frente. Eu também seguiria, se preciso.
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