Capítulo 3 - Take what you need. And be on your way...



Depois da escola, fiquei de me encontrar com o Kevin perto do Central Park. O medo de que ele me desse um bolo logo foi substituído por alívio quando o avistei do outro lado da rua. Ele andava apressado e logo se aproximou.

— Vamos, eu já estou atrasado. — disse ele, sem nem ao menos me cumprimentar.

Kevin não diminuiu o passo, e eu tive que dar uma corridinha para poder alcança-lo. Percebi que ele estava mais cheiroso e sóbrio naquele dia.

— Para onde iremos?

— Tem uns caras me devendo uma grana, e eu vou cobrá-los.

Tentei conter o pânico que me assolou quando Kevin disse o que iríamos fazer, mas eu já começava a hiperventilar.

— Você está com medo? — Kevin perguntou, soltando uma risada nasalada ao olhar para a expressão em meu rosto.

— Mas é claro que não!

Ele me olhou de forma desconfiada, mas não disse nada.

Paramos em frente a um bar bem estranho, que tocava música indie e que abrigava um monte de gente esquisita.

— Você vem muito aqui?

— Eu costumava passar a maior parte do tempo aqui. — Kevin disse, com um grande sorriso no rosto. Ele parecia estar bem orgulhoso em me contar aquilo. — Agora só venho para cobrar os devedores.

— Legal. — respondi, pensando se seria uma boa ideia entrar ali.

— E aí, Kevin! — gritou Jasper assim que nos avistou. Kevin deu um sorriso para ele, caminhando para dentro do bar. Decidi por segui-lo, já que ficar ali fora igual uma pateta não ia fazer a minha história andar.

O bar era mais amistoso e agradável por dentro, mas continuei me sentindo deslocada ao ver os olhares que os homens lançavam em minha direção.

Parei ao lado de Kevin bem a tempo de ouvir o Jasper perguntar o que eu fazia ali.

— Relaxa, ela só está à procura de inspiração.

Jasper riu, mas seu riso fez com que meu corpo todo se arrepiasse. Ele nunca me passou uma boa impressão.

— Se é assim que vocês chamam...

— Nós não estamos juntos, se é isso o que você está pensando. — eu disse, tratando de me retratar logo. A última coisa que eu queria era meu nome envolvido em alguma fofoca maldosa de Jasper Hilton.

Kevin foi até uma das mesas falar com uns homens parrudos, que estavam vestidos de jaquetas de couro. Um deles possuía uma barriga enorme, que parecia apertada pela camiseta preta que ele usava por baixo da jaqueta.

Comecei a anotar algumas coisas aleatórias em meu caderno, mas percebi que eu não estava escrevendo nada que pudesse ser relevante para a minha nova história.

— Você parece uma jornalista.

Coloquei a mão no coração com o susto que levei ao ver o homem barbudo que se aproximou de mim. Ele sorriu, cheio de malícia, e pude notar que seus dentes eram bem amarelos.

Eu sorri apenas por educação, ignorando-o para que ele fosse logo embora.

— Você é tão bonita... É diferente das garotas que aparecem por aqui. De onde você é, gatinha? — ele perguntou, colocando a mão na minha cintura. Me afastei dele, mas ele voltou a se aproximar.

— Me solta agora! — gritei, tentando me desvencilhar de suas mãos escorregadias, abusadas e insistentes.

— Solte-a. — Kevin pediu, olhando para o homem com uma expressão ferina. Ele se afastou de mim rapidamente, correndo para o lado oposto em que estávamos.

Olhei para Kevin de forma agradecida e me assustei ao ver o mesmo homem com uma cadeira na mão, preparando-se para acertar Kevin na cabeça.

Eu gritei:

— CUIDADO!

Kevin se esquivou bem a tempo, desferindo golpes no tarado que o deixaram rapidamente imobilizado. O grupo do homem se levantou, e pareciam prontos para atacar Kevin. Ele me puxou pela mão e me conduziu para fora do bar enquanto ouvíamos sons de garrafas sendo lançadas em nossa direção.

Começamos a correr pelas ruas movimentadas de Nova York lado a lado. Uma vontade louca de rir me consumiu, pois eu não me lembrava da última vez que me senti tão livre. Eu não corria desde a primavera retrasada, quando caí e machuquei o joelho, e me sentir daquela forma fez com que eu me sentisse leve pela primeira vez em muito tempo, como se os meus problemas estivessem longe demais para me alcançarem.

Paramos de correr no Central Park, onde pudemos recuperar o fôlego perdido pela corrida.

O acesso de riso não tardou para me consumir e quando percebi, eu já estava gargalhando horrores. Kevin também deu algumas risadas, e me olhava como se eu fosse uma maluca, apesar de parecer estar gostando da minha reação.

— Quantas vezes terei que te carregar para fora dos estabelecimentos? — indagou ele, sentando-se no gramado bem cuidado do Central Park. Me sentei ao seu lado, ainda me sentindo um pouco ofegante.

— Espero que essa seja a última vez. — eu disse, ainda meio risonha. — Você conseguiu pegar seu dinheiro?

— Mas é claro! — Kevin me mostrou um bolo enorme de dinheiro. Olhei para suas mãos de forma impressionada, tentando não transparecer meu espanto e preocupação logo de cara.

Ele colocou o bolo de dinheiro no bolso do casaco, tirando de dentro do bolso da calça um cigarro de maconha. Me senti estranha em vê-lo fazer aquilo de forma tão natural, principalmente por conta das pessoas que estavam ali por perto, mas algo me dizia que aquela não era a primeira vez que Kevin fazia aquilo.

Kevin tragou o cigarro e fechou os olhos, dando um sorriso torto bem bonito. Por mais errado que Kevin pudesse ser, eu tinha que admitir que ele é um cara bem bonito. Acho que nunca tinha percebido isso antes.

— Eu preciso ir. — eu disse, lembrando-me que eu ainda tinha que escrever e fazer os deveres de álgebra e química.

— Até amanhã. — ele disse, e enquanto voltava para casa, pude sentir um clima amistoso instalado entre nós.

✬.✬.✬

No dia seguinte, fiquei de encontrar Kevin no mesmo lugar de ontem. Eu tinha saído mais tarde do colégio, pois eu tinha perdido a hora escrevendo na sala de informática o meu novo romance, que diferente dos outros, teria um garoto como protagonista.

Chloe disse que não gostava muito que eu pegasse como inspiração um cara como Kevin, mas havia algo nele que simplesmente me fazia querer criar uma história, e eu não podia ignorar isso.

Kevin logo apareceu em meu campo de visão. Ele parecia um pouco cansado. Não tinha reparado muito nele na escola, pois hoje não tivemos nenhuma aula juntos e não costumávamos ter o mesmo círculo de amigos.

Ele me cumprimentou com um aceno de cabeça e caminhamos em silêncio até chegarmos a uma escola.

— O que viemos fazer aqui?

Era horário de saída das crianças, que no tumulto, corriam afoitas em busca de seus respectivos parentes.

— Maninho! Você veio! — disse uma menininha que corria em nossa direção. Assim que ela se aproximou, deu um pulo, jogando-se no colo de Kevin.

Ele sorriu, rodopiando a menina e fazendo-a dar altas gargalhadas.

— Ally, essa é a Selena, a minha irmã. Sel, quero que conheça a Ally. — disse Kevin assim que colocou a sua irmã no chão. Eu dei um sorriso e um beijo na bochecha dela. Percebi que ela se parecia muito com o irmão.

— Ela é bem bonita. — disse a menina, me avaliando. — É a sua namorada?

— Eu não tenho namorada, Sel. — respondeu, revirando os olhos.

— Você vai leva-la lá em casa hoje? — perguntou ela, dando a mão para o irmão e a outra para mim.

Selena parecia ter uns 6 anos de idade, e era tão ruiva quanto o irmão mais velho. Seus olhos azuis eram mais inocentes que os de Kevin, mas não deixavam a semelhança de lado.

— Não mesmo. — Kevin respondeu, falando de um jeito esquisito e ao mesmo tempo incomodado. Selena não se deu por vencida.

— Quando é que você vai voltar a morar com a gente?

Espera aí: Kevin não morava com os pais? Então, onde é que ele morava?

— Sel, eu já disse que não posso voltar para lá.

— Mas eu sinto a sua falta... — Ela choramingou, parando em frente a uma casa com um portão de ferro branco. Pela reação que Kevin esboçou de forma involuntária, percebi que era ali que ele morava.

Kevin se abaixou e segurou as mãozinhas da pequena e eu pude enxergar um Kevin carinhoso e compreensivo, que se importava com os sentimentos de sua irmã. Eu não sabia que poderia viver para presenciar uma cena como aquela.

— Hey, eu estou bem aqui agora, meu anjo...

Selena colocou as mãozinhas sobre o rosto e fez um bico muito fofo. Ela estava prestes a chorar.

— Mas eu não quero que você vá...

— Eu tenho que ir. — disse Kevin, olhando de relance para a casa em que morava de um jeito que me deixou extremamente curiosa.

— Não, você não precisa me deixar sozinha de novo. Você sabe que não precisa.

Kevin soltou um suspiro amargurado antes de responder:

— Sim, eu preciso.

Sel começou a chorar, dando um tapinha na mão de seu irmão mais velho antes de abrir o portão de sua casa.

— Eu odeio você!

Selena bateu o portão da casa e saiu correndo para dentro, ignorando os chamados de Kevin.

— Porque você fez isso com a sua irmã, Kevin? — perguntei, me encolhendo com o olhar irritado que recebi em resposta.

— Eu não quero falar sobre isso. — disse ele, com um olhar triste e ao mesmo tempo repleto de amargura. — Vem comigo.

Caminhamos por uns bons 20 minutos por um bairro que eu não conhecia, e eu já estava ficando meio alarmada com os pensamentos que rondavam a minha cabeça. Afinal, eu não tinha certeza se podia confiar em Kevin.

Entramos em um beco sem saída estreito e esquisito, onde Kevin retirou uma lata de lixo da frente de uma parede cinzenta no final do corredor. Havia um buraco escuro que fez com que eu recuasse alguns passos.

— O que você está fazendo?

— Esse lugar vai nos levar até um teatro abandonado. Lá fica bem conservado, pois o dono ainda limpa de vez em quando.

— Ficou maluco? Isso é invasão de domicílio!

— O meu tio é o dono, mas eu estou sem a chave do teatro. Eu entrava escondido dele quando o teatro ainda funcionava. Vamos logo, relaxa.

Kevin indicou o buraco com a cabeça, que apesar de ser grande, parecia assustador. Só Deus sabe que animais poderiam estar perambulando por ali. Me abaixei e entrei, torcendo para não roçar meu ombro ou o meu pé em algum bicho asqueroso, e me surpreendi ao atravessar o buraco com rapidez e agilidade, pois ele me conduziu até a lateral do palco.

Kevin veio logo atrás de mim, e me olhou de modo satisfeito quando viu a forma como eu encarava aquele teatro.

Kevin não havia mentido quando dissera que o tio mantinha aquele teatro bem conservado, e era tudo tão bonito e limpinho que eu fiquei realmente impressionada.

O lugar era enorme, com inúmeras cadeiras vermelhas enfileiradas. E o palco, era tão grande quanto o teatro em si. O chão brilhava.

— Que lugar maravilhoso. — Sorri, observando tudo ao meu redor. — Porque ele fechou?

— Meu tio não lucrava muito mantendo esse estabelecimento aberto. Ele acabou se afundando em dívidas, e teve que fechar. Claro que ele tem um carinho enorme por esse teatro, pois me paga para que eu cuide dele. É aqui que passo a maior parte do tempo.

Kevin se sentou no fundo do palco, acendendo um cigarro de maconha e sorrindo de forma encantadora. Droga, esses meus comentários mentais estão começando a traçar uma linha tênue entre a sanidade que eu sempre prezei e a atração esquisita que eu começava a sentir pelo perigo que o Kevin exalava.

— Sério? – perguntei, sentindo-me cada vez mais curiosa a respeito de Kevin.

— Eu não fico sempre em boates vendendo drogas, Allycia.

— Me chame só de Ally, por favor.

Me sentei ao seu lado, me sentindo menos incomodada com os cigarros que Kevin fumava. Eu queria saber porque ele nunca me oferecia um, já que isso era algo que meus pais sempre me diziam que acontecia com as pessoas que tinham como amigos "más companhias".

— Kevin, porque você fuma? — Fiz a pergunta que estava entalada em minha garganta, e que fez com que ele me olhasse de uma forma estranha. — Não precisa responder se não quiser.

Kevin ficou em silêncio por um tempo, provavelmente pensando se deveria se abrir comigo ou não.

— Eu comecei a fumar por causa do meu pai, que também usava drogas e batia na minha mãe constantemente. Eu sempre a defendi, e consegui fazer com que ela criasse coragem de pedir o divórcio. Eles se separaram, e por um tempo, tudo se acalmou, principalmente quando ela descobriu que estava grávida da Selena. Mas eles acabaram reatando o casamento. Claro que meu pai disse que estava mudado, mas acho que as cenas dele batendo na minha mãe ficaram na minha cabeça. Eu arranjei um emprego e fui embora de casa porque não conseguia olhar para a cara do meu pai.

Kevin respirou fundo e fechou os olhos. Devia ser muito doloroso ter que contar tudo o que ele viveu antes de resolver ir embora de casa. Coloquei uma mão em seu ombro para consolá-lo.

— Onde você está morando?

— Num apartamento nojento no Brooklyn. — ele disse, de cabeça baixa. Suas mãos tremiam.

— E você nunca pensou em parar de fumar? Sei lá, ter uma vida diferente, objetivos...

— Já, mas a minha vida é toda ferrada. Eu queria fazer medicina e me especializar na área de oncologia, mas eu acho que já percorri uma estrada extensa do caminho que escolhi e não consigo mais voltar atrás.

Ele suspirou pesadamente, e em um ato totalmente impulsivo, coloquei a minha mão por cima da dele. Kevin me olhou de um jeito diferente, e meu coração pareceu se aquecer com aquele contato.

— Então pense na Selena, na sua mãe... Se o seu pai realmente mudou, porque você não tenta dar uma chance a ele?

— Porque é complicado lidar com tantos sentimentos.

Eu não sei o que aconteceu a partir daquele momento, mas foi como se algo no meu peito tivesse sido destrancado. Minha boca ficou seca, e meus olhos não conseguiam para de mirar a boca dele. Era como se um cadeado estivesse sendo retirado do meu peito naquele instante, e agora eu conseguia olhar Kevin de uma forma diferente.

Acho que ele sentia algo semelhante também, porque ele me olhava de um jeito terno, e que me deixou completamente encantada.

Seu rosto foi se aproximando do meu, mas o toque do telefone dele fez com que tudo a nossa volta mudasse novamente.

O encanto tinha se quebrado.

✬.✬.✬

Quando eu cheguei em casa, eu vi meus pais sentados lado a lado no sofá da sala. Eles tinham no rosto uma expressão que me deixou alarmada. Pareciam sérios demais, e ao mesmo tempo, cansados.

Mamãe estava mais pálida do que o normal.

Meu coração acelerou com o olhar que lançaram em minha direção. Me sentei no outro sofá, bem na frente deles, e quando mamãe começou a chorar, eu vi que a coisa estava feia pro meu lado.

— Querida, a sua mãe... — Papai passou uma das mãos nas têmporas, e olhou para baixo, deixando-me mais aflita ainda. Ele respirou fundo, tentando terminar a frase.

— O que tem a mamãe? — perguntei, me curvando para a frente e tentando buscar respostas olhando para o rosto dos meus pais.

— Ela está com câncer de mama.

— O... O-quê?

— Ela iniciou o tratamento há 3 semanas, mas não tem reagido bem a quimioterapia.

— E quando vocês iam me contar? — Me levantei do sofá, aumentando um pouco o tom de voz. Meu coração estava apertado, e as lágrimas já desciam com veracidade pelo meu rosto.

— Eu ainda não estava pronta para te contar, meu amor. — disse mamãe, que estava chorando tanto quanto eu. Me dirigi até ela e a abracei, fechando os olhos logo em seguida, desejando que tudo aquilo não passasse de um pesadelo.

O coração da minha mãe estava doente, mas era o meu que não parava de chorar.

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