|Corrente Fria 2|
Eu não devia, mas fiz. Entrei na primeira porta aberta do corredor, naquela noite de furto. Peguei o colar mais bonito que brilhou sob meus olhos e inseri no bolso urgentemente, pois tínhamos pouquíssimo tempo. Como o combinado, era para esperar Jeff no carro, mas eu tive a porra da ideia de buscar por mais... mais que o necessário. Aflito, Jeff permaneceu calado e pensativo a noite inteira. Mal tiramos um cochilo, pois nem o sono se aproximou de nós.
Nos primeiros raios solares que iluminaram o novo dia, decidimos de maneira plausível, vender aquelas joias nas primeiras horas da manhã e conseguir, se possível, um valor equivalente ao estimado. Como eu fiz a cagada, concordo ser o prestigiado a me arriscar a se livrar de todas as preciosidades. Coloco-as em um saco plástico e depois na mochila, no momento que ouvimos as batidas na porta.
Levei meu olhar ligeiramente para Jeff, sentindo o medo esbugalhar meus órgãos internos. Será que fomos descobertos? Jeff me nota com olhos arregalados, possivelmente sentindo o mesmo que eu.
Toc, toc!
A batida soou mais forte. Esfrego meus dedos no cabelo e Jeff inicia passos vagarosos para sair do quarto. Sigo meu irmão e estico as vistas na direção da porta principal da casa, e frouxo os ombros ao ver a porta ser aberta pelo meu pai.
- Olha só! - ele alarga o sorriso. - Quem é vivo, sempre aparece!
Jeff para no meio do caminho e gira sua cabeça rapidamente em minha direção, escancarando desespero no seu olhar.
- Oi senhor Jones.
Inflo meus pulmões ao ouvir soar a voz de Jess, e alongo as vistas instantaneamente para visualizá-la melhor. O que está fazendo aqui? E a essa hora da manhã?
- Jason está? Preciso falar com ele.
- Que eu saiba, sim. - responde aos risos, liberando espaço para ela adentrar.
A garota de mechas rosa envelhecidas no dourado do cabelo, para de andar ao ver Jeff... e depois fixa seu olhar para mim logo atrás de meu irmão. Tanto eu, quanto Jeff, ficamos parados olhando a garota totalmente calada e ao mesmo tempo apreensiva. Tudo o que eu vi, e o que ela fez e a dor que me causou, sobreveio assim que Jess surgiu na minha frente, assim também com o abuso que sofreu e... sua traição com meu irmão... Como é desconfortante estar com os dois em um cômodo tão pequeno.
- Olha aí... ele está em casa! - meu pai dá tapinhas no ombro dela, depois de também me avistar. - Vou trabalhar, por que alguém precisa sustentar essa família! - ironiza e sai em rumo ao ferro-velho. Até parece que ele dá conta de tudo...
- O que está fazendo aqui? - ultrapasso Jeff, antes que ele pudesse dizer alguma coisa. - Falou que não queria mais me ver.
- Sim eu... falei. - desvia o olhar para meu irmão, retornando ligeiramente para mim. Parece que para ela, também está desconfortante. - Acontece que tem viaturas por toda a Vila e estão revistando todos que passam na rua.
- E você veio até aqui só pra avisar? - diz Jeff. Tirou as palavras de minha boca...
- Não, eu... - volta a olhar para Jeff e retorna para mim mais uma vez, então reparo no inchado de seus olhos verdes. - Preciso muito conversar com você...
- Isso pode ficar para depois, não é Jason? - Jeff a interrompe. Fita meus olhos me repassando a mensagem que precisamos nos livrar dessas joias rapidamente.
Sinto falta de Jess. Sinto falta da garota que fez meus dias felizes quando éramos um do outro. Que por causa de razões conhecidas, como sua abstinência, ela me traiu e foi violentada. Senti raiva. Mas não a ponto de odiá-la... por que eu... ainda a amo. Por mais que agora quisesse ouvir o que tem a dizer, eu tenho a consciência que precisamos vender essas joias nesse momento, por isso, eu maneio a cabeça positivamente para Jeff em resposta.
- Vocês não podem sair de casa, não ouviram o que eu disse? - Jess segura meu braço, antes que eu pudesse voltar para o quarto e pegar a mochila. - Vocês estão sempre lidando com essas paradas por aí - diminui o tom da voz ao insinuar as drogas. - , e se eles pegarem vocês? Eu mesma fui revistada vindo pra cá!
Levei meu olhar para Jeff novamente. Realmente é arriscado correr o risco de ser revistado com tantas preciosidades na mochila...
- Não podemos sair de casa... é muito perigoso... - diz Jeff, depois de bufar indignado ao esfregar seus dedos no rosto. Ouviu meus pensamentos... - Caralho... que azar! - resmunga.
- Que isso... é só não sair com drogas. - abre um meio sorriso, e em mim quase brota um também por admirar o que me fazia falta. - Ouvi rumores, que a polícia está procurando dois caras que roubaram uma mansão do centro da cidade.
Arregalo meus olhos diante de Jeff. Ele tomba as costas na parede de madeira, revelando sua tormenta psicológica.
- Vocês estão muito estranhos... - ela franze o cenho incrédula. - O que... aconteceu?
- Aconteceu que... - levo minhas pupilas no canto dos olhos para avistar Jeff de olhos arregalados, esperando minha conclusão, afinal não podemos contar a ninguém o que fizemos. - O problema não são as drogas.
- Cala a porra da boca seu imbecil! - aperta os dentes e anda pisando forte em minha direção.
- Ai.Meu.Deus. - Jess para na minha frente, bloqueando meu irmão de se aproximar. - Não me diz que vocês são os procurados?
Não digo uma palavra, apenas fico boquiaberto sem argumento, sem uma mentira.
- Acho melhor você voltar outro dia - Jeff passa por nós. - , tá legal? - abre a porta e acena pra ela sair.
- Mas que merda! Foram vocês mesmo! - ela anda até Jeff. - Por que fizeram isso? - empurra a porta ao fechá-la e volta seu olhar a nós novamente sem sucesso por respostas. - Ai caramba... - anda até a mesa e fica de costas a nós, refletindo... enquanto o silêncio regia pela casa. - É tudo por causa de Ramírez, não é? - embarga a voz. - Da dívida... - gira nos calcanhares lentamente revelando os olhos marejados. - E por causa de mim?
Expirei o ar que estava preso e deixo as pálpebras caírem ao frouxar os ombros. Ah Jess... não diga isso... Entendo que ela buscou por tudo isso, mas nada justifica jogar toda a culpa sobre suas costas. Todos temos uma parcela de culpa... essa é a verdade.
- Respira fundo Jess... - ela diz a si mesma, inspirando e expirando. - Respira fundo. - seca as lágrimas com o dorso da mão, pelo menos algumas delas. O mínimo que eu poderia fazer é andar até ela e segurar suas mãos. E foi o que fiz. - O que vocês roubaram? - concentra seu par de olhos verdes cercados pelo vermelho do choro.
- Só algumas joias... e mais nada. - puxo-a vagarosamente para meu abraço, sentindo-a se acalmar aos poucos em meus braços, conforme nossos ferimentos internos engalfinhavam contra nosso sossego.
- Então, eles estão revistando a Vila inteira por causa de algumas joias? - ela desfaz o abraço e me encara por instantes com suas sobrancelhas franzidas. Levo meu olhar ligeiramente para Jeff, que a propósito estava escorado na porta com a cabeça rebaixada e de braços cruzados. - Tem alguma coisa aí que vocês pegaram e não deviam... - ela conclui.
Jeff ergue o olhar lentamente, direcionando as vistas em mim. Eu engulo a seco. Ela tem razão...
- Será que tudo isso é por causa do colar? - pergunto para ele.
Jeff por sua vez, espia pela janela ao lado da porta, trazendo mais uma vez o silêncio entre nós.
- Acho que não. - ele volta a me notar e suspirar ao andar em direção do quarto. - Deve ter alguma coisa a mais.
Olho para Jess e em meu ventre passo a sentir um ardor. Sigo Jeff imediatamente e os passos da garota me acompanham. As joias estavam mais uma vez atiradas na cama, ao passo que Jeff revirava cada uma delas. Não hesito um segundo para fazer o mesmo, assim também como Jess fez, porém ela buscou rapidamente pelo colar, aquele que roubei do quarto que era proibido.
- Gostou? - pergunto, trazendo seu olhar ao meu.
- Tá brincando, né? - ela sorri diante do colar que reluzia em seus olhos. - Nunca antes tinha visto uma coisa tão linda como essa! É claro que gostei!
Por um momento, esqueci da cagada que fiz em roubar esse colar, pois a feição de Jess diante dele, me faz repensar na possibilidade de trazer outra consequência.
- Puta.Que.Pariu. - a voz pausada de Jeff leva nossas atenções para o cartão de memória em sua mão, e na outra segura o broche cafona em forma de leme. - Estava embutido nessa bosta!
Respiro mais ar do que preciso, e Jess abandona o colar na cama.
- O que será que tem aí de tão importante? - dou um passo falho até ele, sem despregar a visão no cartão de memória.
- Ai meu Deus... - a voz de Jess me acompanha.
- Começamos a cavar nossa própria cova. - as pupilas dilatadas de meu irmão transparecem assédio pelo medo, sentindo e contagiando um temor constante em todos nós.
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O smartphone vibra sob o travesseiro me despertando aos poucos, então deslizo a mão por baixo até sentir o aparelho. Abro meus olhos minimamente para avistar o nome da pessoa amaldiçoada que me acordou a essa hora... Mana... Quase vejo meu crânio ao revirar os olhos. Affs... ninguém merece...
- Alô... - minha voz soa rouca, e meus olhos fecham sonolentos.
- A noite foi boa assim que não apareceu nem na pensão?
- Foi maravilhosa... - abro um sorriso instantaneamente ao falar em quase um sussurro, pois o garoto ainda dorme ao lado com a mão sobre minha cintura.
- Meu Deus! Você TRANSOU!
O quê? Arregalo meus olhos e afasto o aparelho da orelha. Aiii! Que goela!
- Não! - enalteço a voz e ajeito meu corpo para assentar. - Não foi o que eu disse. - murmuro, mas ela faz descaso rindo igual a uma hiena. - Para de rir sua louca, isso não é engraçado.
- Onde vocês "passaram a noite"? - engrossa a voz.
Por favor... Apoio meus dedos no rosto.
- Na cabana.
- Hummm!
- Pelo amor de Deus... - reviro meus olhos brutalmente. - Mas só pode estar bêbada ou bateu com a cabeça?
- Não é nada disso... Eu só fico feliz por você!
Abro um sorriso instintivamente. É louca, mas eu a amo... Um leve remexo da mão de Mad, chama minha atenção para o garoto ao lado. Meus olhos arregalam minimamente ao ver os seus acordados e possivelmente, deve ter ouvido minha conversa com a ruiva escandalosa.
- E-Eu vou desligar. - continuo no smartphone forçando um sorriso para Mad, ao passo que ele estreitava os lábios para não rir. - Depois conversamos.
- Vai ter que me contar tudo, mocinha...
- Taaaa... Tchau. - desligo, antes que ela pudesse prolongar.
Respiro fundo e olho novamente para Mad com o cabelo bagunçado e cara de sono. Até assim ele consegue ficar lindo... Ele endireita-se ao sentar e envolve seu braço em minha cintura.
- Era a Mana, não é? - estala um beijo na minha mandíbula.
- Uhum. - giro meu rosto e fito seus olhos verdes.
- Ela é uma figura. - mal abro um sorriso em concordância e seu beijo chega em minha boca estalando nos lábios, simultaneamente com sua mão escorregadia para meu quadril. - Bom dia.
- Bom dia. - me afasto de seus lábios, do seu corpo... da tentação. É tão difícil... Mas preciso. Ficar assim tão próximos, sentindo seu cheiro, sua pele, reacende o que tinha sossegado, pelo menos espero que tenho acalmado... um pouco... bem pouco, quase nada... - Vou ao banheiro.
- Está bem. - expressa um pouco de desânimo.
É preciso. Tenho meu próprio tempo, e ele sabe disso. Espero que entenda... Saio de baixo dos cobertores e uma corrente fria me encontra rapidamente. Caramba, que frio... Envolvo meus braços em torno de mim mesma e ando até o banheiro. Após fazer minha higiene matinal, volto apressada para o quarto em busca de minhas roupas, pois o frio não dá uma trégua. Mad fala no celular quando cheguei, então passo a recolher as roupas atiradas no chão, afim de vesti-las de uma vez.
- Nos encontramos ali, então... Até daqui a pouco. - encerra a ligação.
Começo a vestir minhas roupas e sinto-me aquecer novamente. Minhas vistas concentram-se em Mad saindo da cama, e permaneço fixada em seus movimentos ao recolher suas roupas. Não consigo não olhar para os detalhes de seu corpo, me causando ardor em meu rosto só de notar o volume extra sob o pijama xadrez em preto e branco. Meu Deus... e bota volume nisso...
- Vamos encontrar Chris e a Mana para o café. - sua voz desperta minha atenção para si, ao invés de ficar secando suas partes... íntimas... por favor... Pisco uma sequência de vezes ao desviar para seus olhos rapidamente, sentindo minhas bochechas aquecerem encabulada. Em seu rosto brota um sorriso de canto... óbvio que percebeu minha depravação.
- T-Tá bem... - forço um sorriso acanhado. Prendo minha atenção na minha vestimenta, e assim consigo ser mais ágil em vez de parecer uma lesma tarada.
Posteriormente da higiene matinal de Mad e estarmos prontos com jaquetas e toucas de lã, deixamos a cabana e nos afastamos dela conforme avançamos montanha abaixo. Entrelaçamos os dedos revestidos por luvas de lã, enquanto andamos e jogamos conversa fora por assuntos aleatórios. Não demoramos a sair da estreita rua entre os pinheiros, chegando finalmente na rua asfaltada da cidade em poucos minutos. Fomos para o local combinado e encontramos Mana e Chris no café a nossa espera.
- Olha, os pombinhos chegaram! - a ruiva alarga o sorriso e esbordoa no antebraço de Chris sentado em seu lado.
- Que demora, hein? - Chris abandona a xícara na mesa. - Já tomei uns três cafés até agora!
- A cabana não é tão perto quanto a pensão. - Mad responde e sentamos na frente deles.
- E falando nisso... - a ruiva escora seu rosto na mão apoiada com o citovelo na mesa, maneando suas sobrancelhas ao dizer: - Queriam ficar sozinhos na cabana, não é?
Dou um chute em seus pés, assim que manifestou sua péssima piadinha.
- Vão ter a chance de conhecer a cabana também. - Mad leva sua mão na nuca ao sorrir envergonhado.
Os risos alheios surgem em nossa volta e meu rosto passa a queimar de vergonha. Pelo amor de Deus... Apoio meus dedos no rosto. Eu vou matar essa garota... No decorrer do tempo, ignoro toda essa zombaria, pois Mana é assim mesmo... uma débil mental...
Tomamos café com croissants em meio de nossa diversão, acompanhadas de gargalhadas das piadinhas inacabáveis e sem graça do Chris. Aproveitamos nosso último dia no Aspen, passeando pelas ruas e bares da cidade, tirando inúmeras selfies em cada pedacinho turístico que nós conhecia. Sem contar com as brincadeiras e risos que damos pelo caminho, e com certeza o melhor... o contato físico que aumenta entre eu e Mad, nos deixando mais soltos e íntimos diante do público.
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As primeiras horas do dia resumiram-se em risos com nossa empolgação, pela animação das brincadeiras e conversas engraçadas que causamos durante a manhã toda. Fiquei o tempo inteiro ao lado da garota que modifica tudo em minha volta... segurei sua mão, abracei e a beijei... Completamente perfeito... Ver o sorriso feliz da Lana, me faz repensar na vida que sempre me privou de reações como essas. Tudo antes foi planejado para seguir um rumo completamente oposto do que está acontecendo agora. Evitei pensar. Não quero mais nada do passado. Desejo mudar o que está traçado, e passar a admirar a alegria dessa garota por todo o tempo que ela permitir minha companhia.
A tarde, fomos ao rinque de patinação para concluir nosso passeio. Os patins para locação não são adequados para patinação artística, mas para o lazer espero que funcione. Pelo menos as botas são rígidas... O que é essencial para proteger os tornozelos. Enquanto assento no banco livre para calçar as botas, Chris faz o mesmo sentando ao meu lado, no momento que Lana e Mana se preparavam para entrar na pista.
— E aí, como foi a noite? — Chris esbordoa meu antebraço ao manear as sobrancelhas. — Sabe do que estou falando, né? — arranca um riso meu.
— Seeei...
— Vou indo com a Mana, está bem? — a voz da Lana chama minha atenção, antes que ela pudesse acompanhar a ruiva no rinque.
— Tá, tudo bem. — minhas pupilas correm para o canto dos olhos para avistar o garoto ao lado. — Eu e Chris vamos logo atrás.
Ela assente e se deixa levar pela Mana aos risos com os primeiros embalos dos patins. Largo uma risada instantaneamente. Até que elas são boas! Levo meu olhar para Chris que ainda esperava por uma resposta.
— Não rolou. — digo abruptamente.
Ele franze o cenho e ergue o canto do lábio superior.
— Que estranho...
Agora eu franzo o cenho incrédulo.
— Como assim?
— A parte da Lana ser fácil, entendi que é mentira — gesticula sem jeito. — , só não achei que iria se fazer de tão difícil.
— A questão não é se fazer de difícil ou fácil. — me ergo, sem despregar as vistas nele. — A questão é, que sexo não é tão simples para ela.
— Então Ethan... — pensativo, ele rebaixa a cabeça e maneia negativamente. — Não entendo.
— Era mentira, simples. — dou um passo na direção da pista e observo Lana de mãos dadas com sua amiga, deslizando as lâminas sob os pés sutilmente no gelo.
— Então... — Chris para ao meu lado, coçando o alto da cabeça. — Ela...
— Não transou com ele... — interrompo. — E com mais ninguém.
Tenho essa quase certeza...
Não culpo Lana por acreditar na possibilidade de ter perdido a virgindade. Não faço a mínima ideia do que ela sentiu naquele dia. Mas como ser humano, entendo que seu corpo recebeu tanta adrenalina, na luta de resistir e escapar das mãos daquele... filho da puta... que todo esse fato culminou uma dor imensa por todo seu corpo, camuflando até a dor de uma possível penetr... Argh! Desvio tal possibilidade. Pois as chances de uma garota sentir o hímen rompido são maiores e também, porque eu desejo que ela tenha essa esperança de reverter uma parte de seu sofrimento.
Chris continua com a testa franzida. Entendo que seja difícil compreender, pois até então, todos acreditaram na mentira que inventaram. Eu quase acreditei e, sinto raiva por isso.
— Te conto tudo outro dia, tá legal? — entro no rinque, após ele assentir.
O garoto me acompanha e parece não se importar em esperar por respostas. Patina imediatamente na direção da ruiva, me recordando desse seu interesse dissimulado entre uma brincadeira e outra. Eu sei que tem sentimento aí... É visível que o que lhe convém, é relativo com a moça de cabelo vermelho.
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Nessa manhã, passei mais tempo que a estimativa do lado de Chris. Era para ser superficial, sem sentimentos ou um possível envolvimento além de uma amizade. Desde o início, tudo foi pela intenção de manter Lana sozinha com Mad, mas tudo mudou. Já é automático. Quando menos espero, eu e Chris estamos juntos sem ao menos ser planejado. Estou cada vez mais confusa... Pois tudo o que faço ao lado de Chris, acaba me trazendo lembranças de... Jeff. Tento evitar essas recordações, afinal, aconteceu só uma vez e não devia se tornar tão significante. Porém teve tanto impacto, que meu corpo carece e clama pelo calor da pele do moreno cacheado. Eu realmente preciso esquecer disso...
Durante o tempo que Chris e Mad calçavam os patins, eu aproveito minha amiga enquanto ele não chega para eu estar ao seu lado... de novo. No local soa música eletrônica e algumas dos anos 80, mas nada que mude nossa diversão, pois ignoramos qualquer ameaça do descontentamento. Há a companhia de mulheres com mais de cinquenta anos, super preparadonas patinando com fones de ouvido, outros caras que dão um show por onde passam e famílias de cinco crianças onde os pais são gentilmente humilhados pela habilidade dos próprios filhos.
Diversão não falta nesse lugar... e distração.
Entre um minuto e outro, minhas vistas correm instintivamente para os meninos e isso já está me dando nos nervos. Quando os dois estavam ainda em um bate-papo, quase pisando na pista de gelo, eu seguro a mão de minha amiga e a levo para a beirada do rinque.
— O que houve? — ela pergunta assim que paramos.
— Por que não transou com Mad?
— Ah, fala sério! — bate as mãos nos quadris. — Parou só pra perguntar isso?
— Ué... — disfarço um sorriso ao coçar o canto da cabeça. Na verdade nem sei porquê perguntei isso, se conheço seus motivos e entendo-os até certo ponto.
— Quando eu quiser, eu faço. Você sabe disso! — dá um passo a frente, mas seguro seu pulso.
— Espera.
Lana volta a me notar e em seguida, leva seu olhar para a direção que os meus tanto insistem examinar: Nos dois garotos patinando em nossa direção.
— Você não quer falar sobre mim! — alarga o sorriso e inclina uma sobrancelha. — Só quer fugir do Chris!
— Eu? — apoio a mão no peito e largo uma risada irônica. — É claro que não! — deslizo os pés mais a frente. — Por que eu faria isso? — mantenho um sorriso forçado e minha amiga manteve a expressão desconfiada no rosto.
— E aí, o que perdemos? — Chris para ao meu lado com um sorriso largo, e meus olhos arregalam minimamente assim que meu rosto foi aquecendo.
— O que você perdeu, né? — de sorriso debochado, Lana segura a mão de Mad e o puxa para longe de nós.
— Não entendi. — o garoto franze o cenho ao me olhar.
Quase deixo meus olhos transtornarem. Tem coisas que é melhor você não entender mesmo...
— Deixa isso pra lá. — seguro sua mão espontaneamente e escorrego os primeiros passos no piso congelado.
Consequentemente, abandono-o assim que percebo meu intuito de sempre agarrar sua mão. Saio disparada do garoto que agiliza as pernas, e começamos uma perseguição entre as dezenas de crianças em nossa volta... a propósito, é o que aparentamos nesse momento de diversão. Desvio das senhoras super estilosas e suavizo meus pés para amansar essa perseguição, até porque torna-se perigoso para as demais pessoas presentes. Entretanto, a fatalidade sobreveio quando as mãos do garoto seguraram minha cintura, me girando de frente para si conforme nossos pés foram perdendo a velocidade e atenuando linhas sob as lâminas no gelo. Nossos olhos se conectam e os risos abrandam-se lentamente, acalmando minha revolta interna.
Os olhos castanhos de Chris aproximam-se dos meus azuis e minha boca, inconscientemente, toca a sua de maneira aveludada. Suas mãos firmam-se em minha cintura, principiando um beijo lento e incrivelmente... bom... Tinha na memória o beijo maravilhoso que um dia damos, e agora usufruo mais uma vez, produzindo um efeito intenso dentro de meu peito. Portanto, desperta a hesitação de prosseguir, pois ainda tenho a consciência que meus atos pode prejudicá-lo.
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Meio desajeitados, eu e Lana embalamos os pés suavemente sobre o piso congelado, enquanto também observamos aqueles dois crianções patinando entre as crianças e as senhoras de idade. Tivemos que achar graça.
— Não acha que aqueles dois estão muito... íntimos? — Lana pergunta, conforme diminuímos a velocidade.
— Isso é bom, não é?
— Eu não sei... — franze o cenho pensativa, enquanto eu avistei Chris agarrar a ruiva delicadamente. — Tem alguma coisa errada com el...
— Será? — interrompo.
Ela segue a direção de minhas vistas e vê os dois em um amasso no meio de todos. Volta a me notar imediatamente com o queixo lá embaixo.
Sabia que aí tinha coisa...
— Mas é ligeira! — me contagia com seu riso.
Assim como todos, ficamos olhando para o beijo desentupidor, mas minhas vistas procuram rapidamente para a morena em minha frente. Lana entrega seu sorriso doce e olhar encabulado, e minha vontade de beijá-la retorna pela milésima vez. O baque das pessoas cortam nosso clima, pois ficar se agarrando diante do público embate com a pureza do pingo de castidade existente do mundo.
A ruiva se distancia de Chris com olhos arregalados e assustados. Franzo meu cenho e olho imediatamente para Lana com a mesma expressão que eu. Mana desliza os pés de ré, se distanciando do garoto aos poucos, enquanto ele dá um passo a frente, desistindo de prosseguir quando ela girou nos calcanhares patinando agilmente na direção da saída, sem ao menos nos olhar quando passou por nós. Os olhos castanhos de Lana me notam sem compreensão, antes de iniciar passos e ir atrás de sua amiga. Faço o mesmo com Chris, pois até então, ele ficou imóvel de olhos pregados na ruiva que se afastava.
— Que beijo, hein!? — entretenho. — Até eu fiquei com vontade de te beijar!
— Sai fora! — até brotou um riso em seus lábios, mas desfez consecutivamente ao escorregar seus pés em direção da saída. Então eu o acompanho. — Achei que estávamos se dando bem... — continuou e largou uma risada irônica. — Me enganei feio.
— Calma aí... — apoio a mão em seu ombro. — Talvez ela esteja só confusa e...
— Precise de um tempo? — interrompe e senta no banco.
— Ééé... — assento a seu lado, no momento que ele arrancou os patins. — Sabemos que ela diz na cara o que a incomoda. Se ela não disse nada... — faço uma pausa, e ele reflete. — É por que ela está gostando.
Em nele surgi um sorriso relaxado, porém se mantém calado, um tanto apreensivo. Devo admitir que percebi o interesse de um pelo o outro, mas não imaginava que ela reagiria dessa forma, abandonando meu amigo depois de um beijo sem dizer uma única palavra.
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