Sermão

— Sim, Vossa Graça. — Sorte respondeu ao irmão enquanto segurava na mão que ele estendia para ajudá-la a se levantar.

Azarado quis pedir para abandonarem as formalidades quando estivessem em sua presença, mas sabia que não soaria adequado. Impassível, assistiu enquanto Sorte se levantava e tentava, em vão, ajeitar a saia do vestido. O conde de Pedra Negra entregou o próprio sobretudo à  irmã, para que ela pudesse esconder o desalinho. Ela aceitou em abrir a boca para falar uma palavra que fosse.

Sorte era inteligente demais, jamais falaria algo, pois o irmão a conhecia de toda a vida e certamente saberia que ela bebera além da conta.

— Aceitamos suas desculpas, Vossa Graça. E lamentamos o inconveniente. — Pedro apertou a mão de Azarado enquanto Sorte se juntava à cunhada. — O senhor chegou recentemente da Europa, certamente não sabia que minha irmã nunca dança, pois não domina bem essa arte.

Era uma terrível tentativa de contornar a situação. Pedro pensou que se mentisse, o marquês seria obrigado a evitar dançar com Sorte, assim, mais tragédias não aconteceriam. Ele só não contava que o marquês lançaria sobre si uma expressão de discordância:

— Como tem a audácia de denegrir o nome de sua irmã de tal forma, conde? Senhorita Olivares é uma excelente parceira de dança, por certo que flutua pelo salão, como uma pluma. Conduzi-la foi como soprar uma folha, tamanha a leveza de seus passos. — Defendeu. — Pois engane os demais tolos, Pedro Olivares, mas a mim você não impedirá de dançar com a senhorita sua irmã.

Sorte, emocionada, apertou a mão da amiga Ofélia, que cruzara o braço com o seu. Adália, ao lado de Sorte, assistia boquiaberta enquanto o marquês contrariava o argumento do marido. Ela mesma sabia que a moça era excelente dançarina, pois auxiliara o marido nas lições da cunhada.

— Não tentarei impedir, Vossa Graça. — Pedro disse desgostoso, depois gesticulou um cumprimento de despedida para o marquês.

Andou até a esposa e deu a ela o braço, para que se apoiasse. Então partiu, seguido por Sorte e Ofélia.

Sorte olhou para trás uma única vez, e em um relance viu o homem que protegera seu segredo de embriaguês erguer o copo em um brinde silencioso, enquanto piscava com apenas um olho em sinal de cumplicidade. Nos lábios, um sorriso matreiro.

Ofélia ao lado dela tentava parecer serena, mas estava claro que desejava mais detalhes do que acontecera ali, naquele cômodo. Infelizmente para ela teria que esperar até a próxima oportunidade, pois ambas se separaram no salão, e ao grupo, se juntou a dama de companhia da jovem Sorte, que de nada servira.

De cabeça erguida, o conde conduziu sua família até a carruagem que os levou de volta à propriedade de Pedra Negra, quase vizinha à de Diamantais. O silêncio era esmagador. Adália até mesmo tentara quebrar o gelo tecendo um ou dois comentários acerca da recepção da duquesa, todos direcionados à dama de companhia, mas sua vontade murchou diante da falta de ânimo do marido e da cunhada.

Na mente de Sorte, não fazia morada preocupação de que levaria um sermão. Seus pensamentos não poderiam estar mais distantes daquilo. Na verdade, a jovem revivia os momentos que passara com o marquês. Precisou de muita força para não rir quando rememorou a fofoca sobre Maria Valeriana. Quem diria que debaixo de toda aquela pureza havia uma leoa prestes a atacar? Quanto mais pensava em Azarado, mais percebia que não dera atenção suficiente à beleza e à inteligência singular que ele tinha. Tudo lhe passara despercebido, pois o que valera na experiência foram as emoções intensas.

Era isso, afinal. As emoções valeram mais que todo o resto, foram elas que marcaram seu coração.

Quando a família chegara ao casarão na propriedade rural dos Olivares, Sorte saltou da carruagem mais que ligeira. Já pisava no primeiro degrau da escada que levava ao corredor onde ficava seu quarto quando ouviu o irmão solicitá-la.

— Sorte, não pense que escapará. — Falou com seriedade.

— Querido, não seja severo demais. — A condessa pediu. — Toda moça vai aos bailes para se divertir, Sorte não é diferente das outras.

— Vá chamar Matilde, ela também precisa ouvir o que direi. — Pedro falou para a esposa antes de soltar um suspiro cansado. — Nos encontre na sala de visitas.

Pedro, com os ombros caídos de cansaço depois da noite tensa que teve, dirigiu-se até a sala de visitas.

— Você ouviu. — Falou para a irmã enquanto passou por ela pelo caminho.

Ela o seguiu, observando que os cabelos castanhos iguais aos dela, já começavam a embranquecer. Não era para menos, Pedro já tinha quase cinquenta anos e apesar da aparência conservada, despontavam as primeiras rugas.

Na sala de visitas, o conde sentou-se em sua poltrona predileta enquanto Sorte jogou o corpo sobre um sofá. Logo a dama de companhia e a condessa se juntaram a eles.

— O que aconteceu na casa da Duquesa hoje não pode se repetir em nenhuma outra ocasião. — Pedro começou a falar enquanto alternava o olhar entre a irmã e Matilde. — E sei que você pensa que é por eu me envergonhar, Sorte, no entanto está errada. Nossa família pode passar por qualquer escândalo e ridículo que ainda permaneceremos unidos pelo sangue que corre em nossa veia. Claro que isso não é uma permissão para que você faça o que lhe der na telha, irmã. Pensa que não senti o cheiro da cachaça que emana de si?

Sorte, pega de surpresa, olhou para o chão, envergonhada.

— Por mais que eu pense me foge o motivo de o marquês tê-la protegido. — O irmão fazia muitas perguntas nas entrelinhas. — Ele abusou de sua inocência, Sorte? Porque se ele abusou de sua inocência, eu juro que lavarei nosso nome no sangue dele, assim como papai faria.

Assustada, Sorte olhou nos olhos do irmão e pôs-se a responder a pergunta.

— Não, irmão! Ele não abusou de minha inocência. — Ela engoliu em seco, pois a voz saiu um pouco embotada devido o álcool que consumira antes. — Eu estava triste e bebi. Na verdade ele me surpreendeu enquanto eu bebia, então pediu desculpas e tentou me acalmar com uma história inofensiva.

Pedro avaliou-a antes de continuar a falar.

— Acredito em você, irmã. Quero que saiba, o que realmente me preocupa, é o fato de que você podia ter se machucado e a outras pessoas também. Felizmente todo o dano pôde ser resolvido com dinheiro e o marquês certamente assumirá a culpa diante da sociedade, mas não podemos contar com a sorte. E se você quebrasse uma perna? E se alguma escrava derrubasse uma travessa sobre si? A duquesa açoitaria a pobre, Sorte. Você sabe bem como eles tratam os criados. São tão arrogantes que se souberem que alforriamos os escravos que tínhamos e todos daqui trabalham por salários, seremos expulsos do círculo social.

Pedro fez uma pausa para respirar. Sorte sentia-se envergonhada. Adália acenava a cabeça em concordância com o marido. Ela fazia de tudo para ajudá-lo, inclusive manter a farsa sobre os ex-escravos. Sempre que recebiam visitas, precisavam representar como em um teatro, inclusive os próprios alforriados. Era tão trabalhoso manter aquela dissimulação que podiam contar nos dedos as festas dadas durante o ano.

— Matilde, manter Sorte longe de acidentes também é responsabilidade sua... — O conde começou a falar, mas Sorte interferiu.

— Ela não teve culpa, irmão. Foi muito repentino. — Sorte defendeu Matilde, que foi sua ama de leite.

Infelizmente o filho da senhora morrera. Houve utilidade para seu leite, mas nunca consolo para o coração partido.

— Também foi culpa minha, Sorte. Se não tivesse sentado tão longe teria visto quando ele a tirou para dançar. — Matilde fez mea culpa.

— O fato, — Pedro interrompeu a ambas — é que isso não pode acontecer novamente. Ficou claro que Sorte não poderá negar danças ao marquês, mas que evite ao máximo.

Todas acenaram em concordância.

— E Sorte... Não se esqueça que se eu e Adália não tivermos filhos, meu título passará para você. Seja responsável, precisamos manter limpo o nome de nossa família, pois temos negócios com a maioria dos membros da alta sociedade e todos de Pedra Negra dependem deles.

— Sim, irmão. — Sorte concordou.

Mas no coração discordava.

Ainda tinha fé de que a cunhada engravidaria. Às vezes se ajoelhava e rezava por horas para que aquilo acontecesse, pois o irmão merecia um filho. Seria um excelente pai, ela sabia. Pedro sempre cuidara dela muito bem, mesmo que precisassem desafiar todo aquele azar, dia após dia. Sorte tinha consciência de que ser rica a ajudava a se manter segura. Apenas dessa forma não precisava chegar perto demais de fogo, utensílios afiados ou animais traiçoeiros. Levou anos e anos para conseguir montar sozinha porque os cavalos sempre a derrubavam. Tinha cicatrizes por todo o corpo e já chorara por isso, mas o tempo amainou sua dor.

Mesmo em face de todas as dificuldades, todos foram pacientes. E Pedro, se responsabilizara por todas as lições que incluíram risco de morte. Fora corajoso em ensiná-la a atirar, visto que os projéteis nunca acertavam os alvos, mesmo Sorte fazendo mira certeira.

Por toda a gratidão que tinha, mesmo já sendo mulher feita, obedecia ao irmão, ouvia seus sermões e principalmente os conselhos.

Finalmente Sorte foi dispensada e subiu para o próprio quarto. Nunca tivera uma festa tão cansativa, sentia o corpo em frangalhos e sabia que seria a fofoca predileta durante alguns dias. Talvez Ofélia aparecesse por ali para colher mais detalhes daquela noite louca.

Sorte tirou toda a roupa com a ajuda de Matilde, depois colocou uma camisola grande e caiu na cama com força. O móvel era reforçado, para evitar que quebrasse como um berço misteriosamente quebrara certa vez. Sorte só não morreu porque Adália tinha o cuidado de apará-la com cobertores e eles amorteceram a queda.

No escuro, a jovem pensava sobre o dia, queria lembrar todos os detalhes, mas sua mente parecia estar ancorada no marquês de Diamantais. Não importava o quanto ela tentasse, os pensamentos sempre se voltavam para ele. Para o sorriso, os dedos com alguns calos, a piscada charmosa, tudo. Quanto mais tentava se esquecer, mais lembrava.

Os olhos verdes a assombraram por horas, até que dormiu.

Longe dali, um homem, sentado frente à janela do quarto, olhava para as estrelas no céu e se lembrava de um par de olhos que brilharam especialmente para ele. Por ele. E o largo sorriso que enfeitara o rosto emoldurado por bagunçados cabelos de cor castanha. Azarado imaginava que aquela seria a aparência dela após fazer amor: rosto afogueado, cabelos bagunçados, olhos brilhantes em um elogio especial.

Ele não deveria pensar naquilo, e poderia se controlar se quisesse, mas não queria. Se seu coração estava ancorado na lembrança de Sorte, ele navegaria na imaginação por completo, alcançando o todo daquela criatura tão singular.

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