Enxadristas ou xadrezistas

Em sonhos, Sorte cavalgava livre no lombo de um corcel cor caramelo. Aproveitava a liberdade de se locomover no dorso de um animal sem precisar se preocupar com uma queda. Montava no pêlo e o vento lhe batia no rosto, fresco e forte. Os cabelos castanhos voavam e ela ria para os céus.

Então ouviu um barulho. Olhou para os lados, ainda no lombo de seu cavalo, mas nada de ver um motivo para o barulho. Tentou voltar a cavalgar, entretanto o barulho veio outra vez. Foi aí que Sorte acordou.

Quando abriu os olhos, viu uma silhueta frente à janela, iluminada pela luz da lua, e começou a berrar. Tentou correr da cama, mas a perna machucada estava dura e dolorida. Logo ouviu passos pela casa. A voz do irmão perguntava o que acontecia e se podia entrar no quarto.

— Sorte, o que aconteceu? — O irmão indagou preocupado.

Trêmula de medo ela não respondeu.

A sombra aproximou-se em passos leves e tapou a boca dela enquanto o burburinho aumentava no corredor.

— Vou buscar minha espingarda. — Ouviu o irmão dizer.

O coração de Sorte estava acelerado como se ela fosse morrer. O vulto aproximou a boca da orelha da moça e ela reconheceu a voz do marquês.

— Não tenha medo, sou eu. — A respiração dela se acalmou enquanto alguém destrancava a porta com a chave reserva.

— Esconda-se debaixo da cama! — Ordenou com um sussurro apavorado, mas o homem não coube lá.

Sorte abriu a porta do guarda roupas e o empurrou para dentro onde ele se contorceu para caber, no exato instante que o irmão da moça conseguiu entrar no quarto segurando uma espingarda, iluminado pelas velas nos candeeiros que Adália e Matilde aparavam nas mãos.

— O que aconteceu?! — Pedro perguntou enquanto apontava a arma para todos os lados, qualquer coisa que se mexesse e não fosse a irmã, levaria um tiro.

— Um pe-pe-pe-sadelo. — Sorte justificou trêmula de medo de o marquês dar sinal de sua presença.

— Um pesadelo? — Pedro perguntou incrédulo.

— É! Um pesadelo... Terrível! — Sorte improvisou. — Então eu acordei e pensei que tinha um vulto na janela.

O conde abaixou o cano da espingarda enquanto analisava a expressão de pânico da irmã e a janela aberta.

— Sorte, quantas vezes é preciso dizer para você não dormir com a janela aberta? — Ele asseverou. — É possível que o vulto fosse um bicho.

— Sim, um bicho. — Sorte concordou.

— Volte para a cama, foi apenas um susto. — O irmão ordenou enquanto caminhava até a janela para fechá-la.

Sorte obedeceu com o coração pesado como chumbo. Pelo menos tinha uma justificativa natural para sua face assustada. Até que o irmão tropeçou em algo e quase caiu.

Adália e Matilde adentraram o quarto para jogar luz sobre o objeto que Pedro erguia. Era uma bota masculina de tamanho grande. Não se parecia com nenhum dos calçados do irmão.

— Ora, mas o que é isto? — Pedro fez a pergunta retórica enquanto erguia a bota e o coração de Sorte quase parou de bater.

— Bota. — Ela respondeu com voz fraca.

— Já vejo que é uma bota, mas o que ela faz aqui? — O irmão olhou para os cantos procurando o dono da bota e Sorte quase embarcou para o céu quando os olhos do conde passaram pelo guarda roupas cuja porta estava aberta, todavia não era possível ver o marquês lá dentro.

— Eu não sei. — Mentiu enquanto mentalmente pedia perdão para Deus e justificava-se dizendo que não queria a morte de Azarado.

— Talvez alguém tenha jogado aqui, querido. — Adália concluiu preocupada.

— Os empregados jamais fariam isso. São todos de confiança. — Matilde defendeu.

— Tem razão, Matilde. É melhor dar uma busca, se tem um estranho rondando minha casa eu vou atirar neste safado. — Pedro se retirou do quarto carregando a bota, mas voltou rapidamente para dar uma ordem à irmã. — Feche a janela.

Ela concordou e se levantou. Acendeu uma vela que ficava no criado mudo e observou Matilde, que ainda olhava para ela.

— Durma. — A mulher disse antes de sair e fechar a porta atrás de si.

Sorte soltou o ar ao mesmo tempo em que Azarado saiu de detrás dos vestidos. Felizmente era tanto tecido que o tinham coberto por inteiro. À luz fraca e amarelada da vela, Sorte aproximou-se do homem que parecia embaraçado.

— O que faz aqui? Você enlouqueceu? — Ela bateu a mão espalmada sobre o peito firme.

— Eu soube que você se machucou e fiquei preocupado, então quis ver seu estado. — Justificou.

— A essa hora da noite?! Você não podia me visitar de dia, como alguém normal faria? — Sorte bateu a mão no peito dele mais uma vez, sentindo emanar o calor que vinha daquela pele.

Os olhos dele brilhavam como duas esmeraldas na penumbra.

— Não quis ser inconveniente. — Passou a mão na nuca.

— Entendo... — Ela fechou a mão em punho. — Conveniente é invadir o meu quarto de madrugada e quase levar um tiro. Vá embora, marquês! Antes que meu irmão lhe crive de bala, e com razão.

Azarado segurou as mãos de Sorte e lhe fitou os olhos.

— Perdoe-me, juro que não quis lhe fazer mal. Apenas jogaríamos xadrez. — Falou arrependido e a viu suspirar rendida.

— Eu acredito Azarado. Agora vá, meu irmão fará uma caçada.

O homem meneou a cabeça, ajoelhou no chão e puxou algo de debaixo da cama. Uma bolsa de couro e uma bota.

— Tirei as botas para subir, é mais fácil. — Explicou enquanto Sorte olhava atônita, o homem se sentar na cama e calçar o único pé da bota.

— Só pode ser um pesadelo. — Ela soprou as palavras entre os lábios pouco abertos.

O marquês se levantou, pegou a alça da bolsa de couro e a transpassou no corpo. Depois abriu o acessório e tirou dele um embrulho de cetim branco que entregou para Sorte. Ela estendeu a mão e pegou o objeto sólido, duro e quadrado.

— O que é isso? — Questionou confusa.

— Um presente. — Ele respondeu e depois beijou a testa da jovem, que sentiu um formigar na pele.

— Não posso aceitar. — Sorte tentou entregar de volta.

— Esconda-o. — Azarado falou enquanto se dirigia para a janela.

— Não posso esconder para sempre, marquês.

Ele ignorou o que Sorte dizia e saiu pela abertura.

À primeira hora depois da saída de Azarado, Sorte apenas rezara. Perdera as contas que quantos “Pais Nossos” orou na intenção de que o Senhor preservasse o marquês da mira do irmão.

Apenas quando Pedro e os demais voltaram para casa após uma busca sem efeito, Sorte parou de clamar por ajuda divina.

Após um suspiro aliviado, a moça levantou-se do chão onde estivera ajoelhada e sentou-se na cama. Pegou o embrulho de cetim, abriu a fita que fechava a boca do saco, enfiou a mão entre as bordas do tecido e puxou o que havia dentro. Era uma espécie de caixa que quando aberta se tornava um tabuleiro completo. Fora feita em madeira de excelente qualidade. Quando abriu a caixa, Sorte se deparou com belas peças talhadas em pedra. No fundo da caixa, uma inscrição em letra elegante: “Mas de teus olhos deriva meu conhecimento/ E, estrelas constantes, nelas leio tal arte [o futuro]. Shakespeare”.*

Sorte acariciou a madeira enquanto pensava que ele traduzira de forma errônea os versos de Shakespeare, duas palavras eram uma clara adição. Que recado era esse que o homem tentava enviar? Será que era para ela? Não, provavelmente ele escrevera os versos em outro momento aleatório.

No tempo em que admirava sua peça favorita, um peão, Sorte lidava com a decepção de não ter seus olhos comparados com constelações nas quais um tolo apaixonado tirava conhecimento.

— Ah peão... Se eu tivesse sua força e sua sorte. Revolução é o que tu faz, pequena peça. — Sorte sussurrou para o pino. — Uma sequência de movimentos corretos e tu derrubais a realeza, o clero, os fiéis escudeiros e toma-lhes os lugares. Teu azar é fazer-se igual àqueles que tu combateste junto a teus iguais.

Já era tarde e o sono se fez presente com um bocejo alto da moça. Com cuidado, Sorte guardou todas as peças do xadrez, fechou o tabuleiro e preservou-o no saco de cetim Abriu a gaveta de calçolas, moveu a tampa o fundo falso, onde guardou o presente que ganhara.

Descobrira aquele fundo falso havia muitos anos enquanto brincava no móvel que ficava no quarto dos falecidos pais. Em vez de contar ao irmão sobre a descoberta, pediu para ficar com o móvel como um presente. Ali guardara poucas coisas: o primeiro livro, o primeiro papel onde escrevera próprio nome em letra feia, a primeira boneca que o irmão lhe dera – mal conservada -, um retrato dos pais e então o tabuleiro de xadrez. Tinha retratos da família atual em seu criado mudo. Pedro, ela e Adália em diferentes idades.

Sorte fechou a gaveta, apagou a vela e dormiu.

Sonhou que jogava xadrez com o marquês. E ninguém venceu.

O marquês, por sua vez, conseguira chegar à própria casa com vida e sem um arranhão que fosse. Os cães do conde não conseguiram farejar seu rastro e um vento forte apagou as pegadas de um pé com bota e o outro sem. Não havia rastro da passagem de Azarado nos territórios. Seu único azar era a bota, feita sob medida. Felizmente era um modelo idealizado pelo sapateiro local e não uma de suas exclusivas botas inglesas.

O marquês lavou o pé na cozinha, em um balde de água pega na bica, depois subiu para o próprio quarto. A casa estava silenciosa, mas sua mente escutava um som incessante: a voz de Sorte. Sorriu enquanto subia as escadas, lembrando-se da cara de pânico da moça quando viu o irmão olhar para o guarda roupas aberto. Azarado ficou com tanto temor de levar um tiro que até prendeu a respiração.

Já tinha se aventurado em quartos de viúvas e divorciadas senhoras. Mulheres que solicitaram noites de paixão ardente e com as quais se aperfeiçoara na arte de amar. Se alguém o matasse, ao menos morreria após o prazer do gozo.

Nunca antes arriscara o pescoço por uma partida de xadrez. Queria ver Sorte pensar estratégias, ambicionava presenciar a engenharia de sua inteligência, que não era pouca.

Azarado, cansado, arrancou a camisa e a calça e se jogou na cama apenas com a roupa de baixo. Era uma noite quente, por isso não se embrulhou. Na verdade, cruzou os braços atrás da cabeça e pensou em Sorte batendo em seu peito com a mão espalmada enquanto lançava um olhar cheio de preocupação. Os lábios pronunciando frases de alerta. Os cabelos castanhos caindo em cascata sobre os ombros cobertos pelo casto e longo tecido da camisola de algodão branco.

Nunca vira uma mulher que se vestia com roupa casta. As outras tinham seu valor com seus lingeries sensuais. Eram experimentadas, desembaraçadas e cada uma das experiências foi ímpar. Azarado não jogava nenhuma em demérito.

Pensando o reflexo do fogo da vela na retina de Sorte, o homem dormiu.

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Soneto XIV de William Shakespeare em tradução alternativa. Original: “But from thine eyes my knowledge I derive,/ And, constant stars, in them I read such art…”

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