Bússola e Rosa dos Ventos

Naquela noite, após um longo banho quente, Azarado se deitou na cama enrolado apenas na toalha. Cansado demais, não se dispôs a vestir um roupão. Deitado, passou a mão pelos cabelos úmidos enquanto pensava nos acontecimentos do dia.

Fora muita coragem pedir para cortejar uma moça que mal conhecia. Se Pedro negasse o pedido, seria muito coerente, mas Azarado teve sorte. Muita sorte. Claro que ele poderia namorá-la às escondidas, mas era um homem direito. Um homem com boas intenções não se relaciona ocultamente nem mesmo com uma prostituta, e ele se considerava um homem direito.

Refletiu sobre tudo que tinham em comum e começou acreditar que ele e aquela moça nasceram destinados a ficar juntos.

O marquês viu o embrulho com o livro de Sorte jogado sobre a cama. Ainda estava com ralos pêlos do peito molhados, por isso arrancou a toalha da cintura e secou o tórax antes de se sentar na cama, pegar o embrulho e abrir devagar. Primeiro desfez o laço bem feito do tecido que geralmente era usado em cozinhas, depois desdobrou o papel pardo dobrado de maneira perfeitamente simétrica e colocou ambas as embalagens de lado.

Analisou o livro e viu que havia um papel firme entre as páginas, em cuja ponta estava escrito: "Parou aqui."

Azarado abriu o livro no lugar marcado e o papel caiu sobre suas coxas. Era verdade, ele lera até aquela página. Quanto passou os olhos pelo marcador, percebeu que tinha mais inscrições no papel perfumado. O marquês ergueu a folha e leu as palavras escritas em caligrafia fina e um pouco inclinadas para a esquerda.

"Quem disse à estrela o caminho/ Que ela há de seguir no céu? (Almeida Garrett)."*

O marquês sorriu, conhecia aquele poema. Sorte era mesmo muito ligada à literatura. Teria ela entendido o que ele escrevera no tabuleiro de xadrez? Talvez sim. Era sua primeira declaração e propositalmente mudara os versos de Shakespeare para dizer que lia o destino de ambos nas estrelas dos olhos dela.

Seria aqueles versos no marcador um sinal de que ela o correspondia?

De maneira inconsciente o jovem se pôs a recitar a última estrofe do poema, enquanto se levantou, andou até a gaveta do próprio guarda roupas e guardou o marcador.

- Ai!, Não mo disse ninguém./ Como a abelha corre ao prado,/ Como no céu gira a estrela,/ Como a todo o ente o seu fado/ Por instinto se revela,/ E no teu seio divino./ Vim cumprir o meu destino.../ Vim, que em ti só hei de viver,/ Só por ti posso morrer. - O homem suspirou enquanto se sentava na cama outra vez.

Leu o livro de aventura do início, até que as pálpebras se puseram pesadas demais para que ele pudesse sustentá-las abertas. Então colocou o livro sobre o criado mudo, para que não rolasse sobre ele durante a noite, e adormeceu.

Em outra cama, sob uma colcha azul florida, Sorte imaginava se fora muita ousadia escrever aqueles versos para o marquês. Ainda não sabia se o poema no tabuleiro fora intencionalmente para ela ou não. Depois de muito refletir, rendeu-se ao cansaço. O que fora feito não poderia ser desfeito jamais. No máximo, remediado.

Sob um grande dossel luxuoso, Ofélia armava uma estratégia para conquistar o marquês. A dois cômodos de distância, o senhor Weirtz pensava no mesmo assunto.

Nem bem nascera o sol e Azarado já estava de pé, ansioso pelo evento do dia. Tomou café e comeu bolo na cozinha mesmo, agitado demais para esperar que servissem a mesa. Saiu em seu cavalo Elegante para conferir o andamento das terras. Uma construção de cercas que ia pela metade, suas cabeças de gado pareciam saudáveis, as vacas leiteiras foram apartadas no curral, como sempre, até que alguém as ordenhasse e soltasse os bezerros para ficar com elas.

Os cavalos corriam pela relva verde, aproveitando o clima fresco e pisoteando o orvalho da manhã enquanto o sol nascia preguiçoso em um horizonte laranja avermelhado. Logo as cores quentes tomariam o lugar do cinza da noite e depois o azul com branco dominaria os espaços sobre aquelas terras férteis.

Quando o marquês voltou para casa, encontrou os pais já acordados. Sentados à mesa tomavam o desjejum. Um pouco mais calmo, o homem se dirigiu até a mãe e lhe beijou a testa.

- A benção, minha mãe. - Pediu.

- Deus lhe abençoe, meu filho. - Ela passou a mão com poucas rugas no rosto do filho, cuja barba estava por fazer.

- A benção, meu pai. - O marquês beijou as costas da mão do velho marquês.

- Deus lhe abençoe, filho. - O homem falou com voz grave e cansada.

Bianca tinha por volta de seus sessenta anos e era uma mulher solar de cabelos pretos acinzentados e verdes olhos perspicazes. Tivera a sorte de ter uma única criança e este nascera macho, realizando o grande sonho do marido. Nunca mais tiveram outro filho, mas um único herdeiro já era o suficiente. A mulher, desde jovem, sempre fora muito cheia de opinião e gostos peculiares.
Só fazia o que desejava, falava o que queria e nunca fingia gostar de pessoas que lhe desagradavam. Senhora Bianca fizera o marido alforriar e empregar todos os escravos em um tempo onde o abolicionismo era apenas um espectro, mas as fugas de senzalas ocorriam com frequência.

Ela odiava os gritos dos seres humanos sob o castigo das chicotadas. Suas mortes precoces pela exploração que sofriam e os rostos encovados de fome a faziam ter pesadelos todas as noites. Julgava-se cristã demais para permitir que outros seres humanos sofressem sob o julgo daquele destino imposto chamado de escravidão. Não se considerava uma heroína, mas sim uma pessoa que devolvera o que aos outros era de direito: a própria vida.

O marido, Francisco José, por muitos anos pensou diferente dela, mas por fim cedeu. Principalmente quando a mulher já não dormia mais, assombrada por gritos e choros que ninguém mais ouvia. Com o tempo, percebeu que pessoas vivas trabalhando por escolha eram melhor negócio. Os que não queriam trabalhar ali partiram para quilombos. Aqueles que ficaram formaram famílias e os filhos continuavam no posto dos pais quando estes morriam. As terras do marquesado eram tantas que todos construíram casas onde podiam morar, mas estas ficavam ocultas, longe de locais aonde as pessoas tinham coragem de ir, além de uma mata muito densa.

Claro que mantivera segredo para não perder o título e os negócios. Dos quais se cansara, aliás. Aos setenta anos, cedeu o título ainda em vida. O filho, aos vinte e cinco anos, já era mais que capaz de cuidar da herança.

Francisco tinha cabelos longos e brancos, no passado, castanhos escuros. Olhos castanhos já embaçados pelo tempo e dentes amarelados pelo hábito do tabaco. Costume que o filho não tinha. Azarado tinha as cores da mãe, mas os traços firmes do pai. Quando ficavam bravos em um mesmo ambiente, era quase como olhar um espelho e seu reflexo.

Tanto o pai quanto a mãe de Azarado não continham opinião formada sobre aquele noivado. A marquesa só vira a família Olivares de relance e o feio acidente na festa da duquesa, na qual e dignou a ir apenas porque o filho tinha recém chegado da Europa e sentia falta dos eventos sociais. Esperava uma conversa com a cortejada e sua cunhada condessa, para apenas então concretizar alguma opinião.
O velho marquês já conversara com o jovem conde, mas apenas superficialmente. À condessa relegara apenas cumprimentos formais e à jovem Sorte, nem mesmo um "bom dia" já que nunca tivera a oportunidade de trocar duas palavras com ela. Sabia por alto que fora educada e treinada para assumir o condado e em breve seria apresentada à Corte Real como futura condessa de Pedra Negra.

Diferente de muitas outras nações, no Império do Brasil, em casos extremos, mulheres podiam herdar os títulos nobiliárquicos. Era costume ver viúvas tituladas, mas quase toda regra tem sua exceção.

No entanto, a maré do destino dera uma guinada com a gravidez da condessa e restava a todos esperar a página seguinte do livro da vida para saber o que ocorreria àquela família nobre.

Do ponto de vista dos negócios, o matrimônio entre Azarado e Sorte era vantajoso para ambos, mas não era essa a maior preocupação de todos os envolvidos na situação.

- Levantou mais cedo que de costume, filho. - A marquesa comentou enquanto o filho sentava-se a mesa.

- Estou um pouco ansioso. - Azarado serviu-se de café enquanto respondia.

- Não necessita tanto afobo. É apenas uma moça, como qualquer outra. Com um sorriso no rosto e uma boceta quente entre as pernas. - Bianca falou direta, sem rodeios ou floreios.

Azarado engasgou-se com o café e Francisco pôs-se a rir da situação.

- Mamãe! - Azarado protestou enquanto sentia a garganta doer pela passagem forçada do líquido quente.

Bianca olhou para o filho e ergueu uma sobrancelha.

- Acaso digo alguma mentira? - Fez-se de inocente.

- Não mamãe... - Azarado respondeu constrangido. - Digo, não sei, nunca vi a moça nua, mas creio que não.

A risada de Francisco evoluiu para uma gargalhada asmática.

- E se não houver uma "racha" debaixo daquelas calçolas, você se casará da mesma maneira. Sei que sim, seus olhos contam. - A mulher comentou e Azarado cuspiu o gole de água que estava na boca.

Por fim desistiu de beber qualquer coisa.

- Mãe, você pode parar com essa conversa sobre a "gruta de prazer", por favor? - Pediu.

- Que metáfora interessante. - A senhora mordeu um pedaço de pão, mastigou e engoliu. - Se mulheres tem "gruta do prazer" os homens tem "tulipas"?

Francisco quase morria de tanto rir da cara do filho. A boca aberta, olhos arregalados, sobrancelhas levantadas e sem saber o que dizer. Azarado olhou para a mesa, em pânico, enquanto apoiava os cotovelos sobre o tampo e passava as mãos pelo cabelo.

- Sua mãe se diverte às suas custas, filho. - Ele falou finalmente.

- Espero que não façam isso na frente das visitas. - Azarado reclamou.

- Tem vergonha de seus pais? - A mãe se queixou.

- Não tenho vergonha, senhor e senhora Almeida. - Respondeu. - O problema é que nem todos têm tão pouco escrúpulo diante da natureza humana.

- A idade ensina a se importar menos com a opinião alheia e mais com a própria felicidade. - Francisco disse.

O filho olhou para ele, grato por aquela pequena dose de sabedoria que apenas a idade trás. A não ser que você seja um jovem observador e inteligente, disposto aprender com as experiências alheias.

- Eu entendo. No entanto, tenham piedade dos jovens desajeitados, ainda estamos em aprendizado. - Azarado disse.

- Não se preocupe, sua mãe e eu somos nobres. Sabemos encenar nosso papel neste teatro moral. - O pai olhou para o filho enquanto a mãe fitava o prato como se visse um rosto no fundo.

O marquês acenou em concordância.

- Só digo uma última verdade, filho. Se ela não gostar de nossa família pelo que ela realmente é, sua união estará fadada ao fracasso. Os acidentes da moça são um desafio pequeno perto de falta de amor e compreensão. - Bianca passou o tecido do guardanapo sobre os lábios e continuou sua refeição.

Azarado meditou por longos minutos enquanto memorizava o rosto da mãe naquela manhã.

Ao mesmo tempo, Sorte acordava com o som da voz de Matilde chamando-a. Precisava se alimentar, depois tomar banho e se aprontar para o almoço na casa dos marqueses. A moça levantou e fitou o cabelo alto no reflexo do espelho da penteadeira. Vestiu o penhoar com os olhos ainda meio fechados e desceu para tomar café.

Adália e Pedro já estavam compostos, com roupas que combinavam a cor.

- Parece um par de jarros. - Sorte murmurou enquanto o sentava-se à mesa.

Adália riu.

- Acaso não acha que fico bonito de verde? - Pedro questionou enquanto passava a mão pelo tecido verde musgo do casaco.

- Claro que fica. - Sorte respondeu ao servir-se de café. - Você fica bonito enquanto Adália vê-se espetacular.

Pedro sorriu e Adália agradeceu ao elogio.

- Tenho minhas vaidades. - A condessa comentou.

Depois de um breve silêncio confortável, o conde pronunciou uma frase que Sorte quase não ouvia:

- Se quiser, pode usar jóias de mamãe.

Sorte escrutinou o rosto do irmão. As jóias de família sempre passavam para quem ficava com o título, mas não foi o caso. Adália não era dona das jóias, mas as usava às vezes e o mesmo valia para Sorte. A ideia do conde era dividir as peças quando a irmã se casasse ou deixar todas para ela quando finalmente herdasse o título. No entanto, a novidade da gravidez da esposa mudara tudo, assim como o pedido do marquês. De toda forma, o conde logo deixaria ambas dividirem os ornamentos entre si.

- Tem certeza? Nem é uma ocasião especial... - Sorte falou ainda analisando o irmão.

- Claro que sim, elas também são suas, Sorte. - O conde bebeu um gole de água enquanto a esposa concordava com um gesto de cabeça. - Assim como tudo que temos. Não fale como se eu a deixara sem eira nem beira.

- Eu sei que tenho meu quinhão de tudo, mas com a chegada de uma criança tudo muda. - Sorte explicou o ponto de vista que tinha.

- Você e Adália dividirão as jóias como bem entenderem. Nossa criança herdará o for da mãe, como deve ser. - Pedro explicou com tranquilidade. - Quanto às terras, tem as de seu dote. Pensei que, como é uma administradora preparada, pode tomar posse de mais duas fazendas que estão fora das propriedades do condado, nossa casa na vila e a casa maior no Rio de Janeiro.

- É muito. - Sorte sentia-se confusa diante daquela conversa. - Quase metade do que temos.

- Disse bem, Sorte, "quase" metade, ainda sairá em desvantagem. - Adália opinou pela primeira vez. - Já tenho pensado há algum tempo sobre a questão das jóias e decidi que, se não for um problema para você, quero ficar apenas com o conjunto de águas marinhas e aquele de esmeraldas, o que gosto de usar.

- E a aliança de casamento, claro. - Pedro acrescentou.

Sorte achava lindo o conjunto de esmeraldas, mas não brigaria por ele.

- Por minha vontade está mais que perfeito, mas porque fazer a divisão de tudo tão depressa? Vivemos juntos, isso não faz sentido. - Sorte não sabia o que pensar sobre aquilo.

Pedro e Adália fitaram-na de maneira misteriosa.

- Você já tem quase vinte e cinco anos de idade e é perfeitamente capaz de administrar seus bens, Sorte. Não cuidarei mais do que é teu. Agora serei pai e preciso de tempo livre, então será como uma divisão de responsabilidades. - Mentiu.

Pedro ocultava o maior motivo para aquela atitude. E era simples: Se a irmã se casasse, cuidaria do próprio dote e dos bens que lhe cabiam. O conde mandaria lavrar os documentos o mais rápido possível.

- Não me sinto segura. - Sorte disse com medo. De fato, mal se via como adulta.

- Eu tinha menos idade que tu agora quando assumi os negócios de nossa família. Adália também era jovem quando precisou cuidar de tudo. Você é mais preparada do que éramos. Se porventura morrêssemos hoje, tu levarias tudo adiante com pulso firme, portanto, já é tempo de cuidar do que lhe cabe. E isto é um ponto final nesta história. - O irmão decretou.

- Adália... - Sorte tentou apelar para a cunhada.

- Sinto muito, querida, mas apoiarei seu irmão. Você é capaz.

E foi pensando nisso que Sorte subiu para o quarto. Era como se Pedro tivesse jogado uma pedra no que restava de sua infantilidade. Teria obrigações com pessoas. Famílias inteiras dependeriam da competência dela para os negócios. E se errasse, dilapidaria o próprio patrimônio. Se parasse na sarjeta, a culpa seria de si mesma.

Sim, fora preparada a vida toda para assumir o condado, mas esperava que um milagre acontecesse e não fosse necessário fazer aquilo. Não queria ser condessa, aprendia porque era bom, pois gostava de adquirir conhecimento.

Enquanto se banhava e posteriormente quando se vestia, Sorte só pensava que precisaria ser a bússola e a rosa dos ventos de sua própria existência. Ao se olhar no espelho durante a feitura do penteado, estranhava-se. Nunca percebera, de fato, a passagem do tempo. Ainda sentia-se uma adolescente, mas o rosto já tomara forma definitiva, assim como o corpo.

Sorte levantou-se do banco da penteadeira com cabelos arrumados em cachos e o corpo coberto por um vestido branco. Para todos e para ela própria era como se ainda fosse a mesma, mas não era, aquele dia tão aleatório foi um divisor de águas em sua vida. O dia em que começou a assumir seu posto de adulta responsável. Claro que não se tornaria adulta de uma hora para a outra, pois o amadurecimento é um processo. Demorado, cheio de erros e acertos.

Ela desceu as escadas devagar, acompanhada por Matilde em seu vestido de cor marrom clara. Pedro e Adália a esperavam próximos ao último degrau, onde ela tropeçou, mas não chegou nem perto de cair, afinal, a família estava preparada para ampará-la.

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Destino de Almeida Garrett, in Folhas Caídas. Grande poeta português da primeira geração do Romantismo.

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