Saber quem fez...


Há clareza na loucura. Uma certa sabedoria adquirida ao abandonar tudo o que você uma vez considerou dolorosamente inevitável.

Uma solidão quase reconfortante ao aceitar que suas escolhas, mal pensadas e condenatórias como foram, a levaram até aqui.

Alicent se levantou, suas costas dolorosamente retas e o olhar assustadoramente vazio enquanto sete rostos divinos a encaravam de volta. Olhos brancos esculpidos em pedra olhando para ela com reprovação.

Ela tentou encontrar misericórdia nas feições congeladas da Mãe, procurou força por trás da espada do Guerreiro e do martelo do Ferreiro, buscou sabedoria nos confins da lanterna da Anciã e até tentou vislumbrar a inocência há muito perdida escondida dentro da beleza da Donzela.

Um exercício inútil e desnecessário, pois tudo o que estava diante dela, tudo o que restava para ela, eram o julgamento do Pai e o convite do Estranho.

Se ela se permitisse o presente da honestidade, a condenação e a morte subsequente eram tudo o que ela possuía no lugar de sua fé.

Um profundo vazio oco ecoou dentro dela, engolindo tudo o que restava de sua devoção, e não deixando nada além da distância entre ela e os sete altares para trás.

Alicent olhou e procurou, dedos parados e marcados, e o que ela encontrou foi o que sempre esteve lá. Sete rostos e apenas a condenação a encaravam de volta.

Adoração gera sacrifício.

Um não pode coexistir sem uma abundância do outro.

Uma lição arraigada na mente de cada seguidor dos Sete. É no seu dever, e nos compromissos nascidos dele, que você encontrará a verdadeira salvação.

No entanto, o poder supremo de Westeros não se mantém em dissensão a esse fato? Afinal, os Targaryen não abriram caminho para sua cadeira feia meio derretida com dever e sacrifício, não, eles fizeram isso com fogo e sangue.

Talvez essa fosse a sentença para todos eles. Para aqueles contaminados por seu sangue.

Ao amanhecer do novo dia do ano, Edith foi a primeira das suas criados a cumprimentá-la, com preocupação e inquietação acompanhando o vestido que ela colocou sobre a cama da Rainha.

"Por favor, Edith, pegue meu xale preto e dourado, e avise minha filha que irei vê-la."

"Como... Vossa Graça desejar."

Sor Criston a esperava do lado de fora dos aposentos, a expressão atordoada de Tayla refletida em seu rosto ao ver seu traje.

"Você está bem, minha Rainha?”

Alicent encontrou seu olhar perplexo com o seu próprio olhar carregado, ciente demais das sombras sob seus olhos injetados de sangue.

"Muito bem, Sor. Agora, se você quiser, eu gostaria de logo ver minha filha e minha neta.”

Isso não era inteiramente verdade. Por todo o amor que ela tinha por seus filhos, achava, a muito tempo, passar tempo com seus filhos tão desconfortável quanto Viserys.

Como Viserys fez uma vez.

Deveria ter falado a verdade sobre a má sorte deles como governantes e, no entanto, é ela, uma Rainha de Hightower, que é aberrante.

Ela dedicou toda a sua vida aos decretos da Fé e o que ela tem a mostrar por isso?

Filhos que ela não tem esperança de entender?

Um marido que agora está morto, e mesmo em vida, vivia em dívida com todos, menos com ela?

Uma companheira outrora preciosa e então perdida, sacrificada, aos exigentes chamados do dever?

Ela fez tudo o que lhe foi pedido, seguiu os ditames de seu pai, seu marido, o reino, ela rendeu seu próprio ser e para quê? Para ser capaz de usar a Estrela dos Sete sem se apegar ao peso premente da vergonha?

E nem mesmo essa simples misericórdia lhe foi concedida. As correntes sempre puxando para baixo e torcendo, um estrangulamento de joias para lembrá-la do que ela deve fazer e do que ela não pode esperar ter.

Os últimos tempos foram uma prova de fogo, testando a Fé de Alicent e fazendo-a depreciar os ensinamentos da Estrela de Sete Pontas.

Todos aqueles anos passados ​​prostrando-se e rezando por orientação, força, salvação parecem um esforço desperdiçado agora.

Seu primogênito estava morto.

Seus dois netos estavam mortos.

E seu segundo filho era o maior suspeito. Oh não, todos sabiam que ele era na verdade o verdadeiro culpado, mas também o suposto novo rei...

Seu pai foi morto.

O Reino caiu em guerra, como seu pai sempre previu. Mas não pela ganância e luxúria de Rhaenyra, mas pelo seu sangue.

Sangue dos seus filhos...

Malditos sejam os Sete e malditos sejam os sacrifícios que eles fizeram por ela.

Alicent na maior parte do tempo permaneceu sem palavras, um espectador indesejado, não convidado e indesejável em meio ao caos da Fortaleza.

Seu filho a baniu do Conselho e ousou ameaçá-la. Matou seu neto mais velho, seu sobrinho, envenenado. Seu segundo neto, por ordem de seu pai, foi retirado em segurança do castelo, mas morto antes de chegar à proteção de Hightower House.

Ela jurou que seria Rhaenyra a descer fogo e morte contra todos. À anos diz isso. Jurava com toda a certeza. Mas então....

A Princesa Suprema de Dragonstone ainda estava la. Em sua ilha rochosa e sobrenatural, envolvida em dragões e histórias de magia maligna, mas nunca se envolvendo.

Como o esperado.

Como deveria ser certo...

Deveria ser Rhaenyra.

Deveria ser ela a nos destruir.

A causar guerra ao reino.

A matar sua família. Sendo uma assassina de Parentes, e não seu filho.

Deveria ser ela a ser a maldita Assassina e Prostituta condenada por todos.

Mas não.

Não foi.

E é com dor no peito, que ela observa diariamente os causadores de tudo isso.

Ela.

Seu pai. Principalmente ele.

Viserys.

Aegon.

Aemond...

Foi com um grito em sua garganta, ao encontrar o corpo de Aegon, seu menino, seu primogênito, esparramado na sala do trono, com as roupas destruídas e com sua carne apodrecendo e fedendo, com Caranguejos e moluscos fazendo de seu corpo morada...

Seu menino...

Com um olho faltando, com cortes agressivos e desregulados mostrando sua morte brutal.

Não fuga.

Morte.

Assassinato.

E quando ela vê o rosto cortado.

O corte podre e aberto, assim como o olho faltante, ela sabe.

Sabe quem fez.

Quem assassinou seu filho. Seus netos e quem esta os condenando.

E não é Rhaenyra.

Ela implorava aos Deuses que fosse, mas não.

Era seu filho.

Seu garoto comportado. Educado. E diligente.

O mostro sobre a pele que herda de si.

A criatura horrenda que os atacou de dentro para fora. Que os confinou, os prendeu e matou seu pai.

Que pendurou suas cabeças ao redor da fortaleza, que exigiu informações que não lhe pertenciam e que destruiu metade do reino simplesmente porque podia.

Monstro...

Bêbado.

Silenciosa.

Esquecido.

Isso foi tudo o que saiu de si.

Tudo o qual ela lutou com unhas e dentes por tanto tempo até não ter mais forças, e mesmo assim continuar.

Aegon estava morto. Mesmo em vida.

Helaena se matou após encontrar o corpo de seu filho falecido na cama, de seu irmão no trono e de seu avô na aste, gritando que não deveria ser assim. Que a morte destruiu tudo...

Sua doce menina.

Gentil demais para esse mundo cruel.

Daeron.

Seu mais novo.

Aquele qual a maior parte do reino esquece. Gentil, doce, amoroso. Preso. Pelo próprio irmão.

Usado como herdeiro e refém, comandado como um boneco de cordas. Como ela foi por seu pai.

Sinto muito.

Sinto muito.

Não deveria ser assim.

Deveria ser Rhaenyra.

Deveria ser ela a nos destruir.

A causar guerra ao reino.

A matar sua família. Sendo uma assassina de Parentes, e não seu filho.

Deveria ser ela a ser a maldita Assassina e Prostituta condenada por todos.

...

....

....

E por mais que lhe doa admitir. Alicent admiti internamente, que era Rhaenyra quem deveria ser Rainha.






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