o7| Intimidade


Subimos a escada e nos deparamos com Lili e Nero conversando sorrateiramente. Eles olharam para nós e cessaram imediatamente a conversa, era estranho ver ela se sentir tão tranquila ao lado daquele cara. Ele segurava algo que parecia ser um colar nas mãos, que em seguida entregou a Lili. Ela saiu da janela e veio até mim, parecia ter chorado, a ponta de seu nariz estava rosada e suas narinas um pouco dilatadas. Ela deu um longo bocejo, a coisa nos observava com interesse.

- Precisamos conversar – disse, despreocupada.

- Realmente temos. O que você está escondendo de mim? Por que parece ser amiga desse nojento? – pigarreei. – Não gosta que eu guarde segredos de você...

- Tá, tá! Chega. Eu conto depois – grunhiu. – Agora é sério, precisamos ter uma conversa.

- Tudo bem. Vamos para o meu quarto – agarrei seu braço.

- É claro – ela olhou de Nero para Lieff e parou. – Espera, não acho uma boa ideia deixar esses dois a sós – apontou para os garotos.

- Tem razão. Li, é melhor você esperar em outro lugar – apontei para baixo.

Lieff estava apoiado na soleira da porta, olhando sombriamente para o morto-vivo. Ao ouvir o que lhe pedi, ele fez uma careta.

- Não vou tocar nessa coisa asquerosa, fique tranquila – bufou.

- Anda Li, vai logo – falei.

- O que vocês estão escondendo de mim? – pigarreou.

- Nada, agora desce – ordenou Lili.

Li preferiu não discutir com a irmã, ela sempre o vencia em qualquer batalha. Ele se descolou da porta e foi pisando duro em direção à escada.

- Ah! Ei Lieff! – chamou Lili, ouvindo um resmungo dele como resposta. – Você não vai dormir no meu quarto, irá dormir no de Sora... – tentei interrompê-la, mas ela colocou a palma da mão em minha boca. – A não ser que prefira passar a noite no sofá!

- AH! TUDO BEM – disse Li, num tom de voz mais alto do que o habitual.

- LILI! – guinchei. – Isso não é justo comigo!

- Vamos lá, no seu quarto – disse ela, me puxando pelo braço e olhando por cima do ombro para a Coisa – E você, fique aqui. Por favor.

Quando chegamos, não encontrei lugar para Li dormir ali, a não ser a cama, que infelizmente era de casal. Sentamos no pequeno parapeito da janela, contemplando a imensidão azul da floresta. Lili sentou ao meu lado, olhando em meus olhos ela começou a falar.

- Sabe Sora, eu nem parei para te agradecer pelo que você fez por mim e Lieff. Desculpe, eu sei o que anda se passando lá em casa, não é nenhum mar de rosas, embora Lieff tente me poupar de algumas coisas.

- Sua casa é essa, não precisa me agradecer por nada. Vocês são meus melhores amigos e é reconfortante sempre ter vocês por perto. Pode contar comigo sempre que precisar.

- Ah, você é muito fofa – cantarolou. – Bem, tenho que te contar uma coisa.

- Desembucha.

- Eu quero pedir algo, que talvez você não aceite, mas vou entender se recusar.

- Pode dizer Lili – arfei.

- Eu quero que Nero fique. Que ele fique aqui conosco – uma grande baforada de ar saiu de sua boca.

- Eu não entendo, por que você me pede isso? – ela me olhou com interesse, como se estivesse pensando em algo para me persuadir.

- Tem muita coisa acontecendo, e você sabe disso. Não podemos ignorar tanta coincidência.

- Mas não vejo coincidência em nada.

- É claro que vê Sora, não pode ignorar o que está acontecendo com você. Os sonhos, tem que contar mais sobre eles. E o Nero, não acha que tem alguma coisa a ver com tudo isso?

- Tudo bem. Ele pode ficar, mas quero que tenha certeza que ele não vai machucar ninguém – olhei para a marca em seu pescoço, ainda era visível. – Você será responsável por ele.

- Sim, eu serei responsável até por você e Lieff.

Depois da nossa discussão sobre onde o morto-vivo ficaria, decidi que encerrar aquela conversa seria melhor, não queria falar sobre os sonhos com Lili. Olhei no grande relógio a minha frente, já era duas da madrugada, aquilo tudo parecia ter se passado em segundos. Fui ao banheiro, me senti imunda ao lembrar que meu último banho fora ontem. Abri a porta do quarto e me deparei com Lieff já deitado na cama, era possível ouvir seu ronco de longe. Ele usava apenas uma calça de pijama ridícula de dinossauros. Ri daquela situação, ele não perdera tempo, pelo menos estava dormindo.

Consegui entrar sem fazer barulhos, não queria que ele acordasse. Cheguei ao guarda-roupa em passos longos e silenciosos e peguei um pijama qualquer. Rangidos. Malditos rangidos. Dessa vez não foram os canos. Li acordou com o imenso rangido que a porta fez quando a abri. Ele olhou ao redor do quarto, adaptando os olhos na escuridão e procurando de onde viera à cacofonia. Tentei entrar sorrateiramente no banheiro, mas ele conseguiu me ver no último instante.

- Sora? – indagou.

- Eu vou tomar banho Li – falei, me odiando por ter deixado que ele me descobrisse.

- Ah, tudo bem. Eu te espero.

Ele se ajeitou sobre a cama, puxando os lençóis até seu peito nu. Ótimo. Agora ele ia me esperar, torci para que adormecesse enquanto eu tomava banho. Retirei a camiseta de caxemira e despi a calça e o tênis. Olhei para meu reflexo no espelho e não consegui ver ninguém além de uma garotinha indefesa. Lili havia cuidado de toda a situação, eu a invejava. Liguei o aquecedor do chuveiro, a água era sempre congelante.

O dia seria longo. Estava cansada e agora teria que me preparar para enfrentar as armadilhas de Lieff. Meu aniversário se aproximava e com o ele o medo de que algo pior viesse nos sonhos também. Quando terminei o banho, enrolei uma toalha sobre o corpo e uma na cabeça. Procurei pelo pijama. Droga. Lembrei que o deixei sobre a penteadeira. Fiquei tão apressada para entrar no banheiro que esqueci o pijama. Girei a maçaneta e abri apenas uma pequena fresta, mas não foi o suficiente para ver se ele já estava dormindo. Coloquei a cabeça para fora e para meu desespero Li ainda se encontrava acordado, e me observava.

- O que foi? – perguntou. – Precisa de algo?

- ÃN... SIM, EU QUERO MEU PIJAMA – minha voz saiu esganiçada.

- Quer que eu pegue? – Li estava tranquilo, tudo estava saindo exatamente como ele queria, e eu estava facilitando.

Assenti.

Ele levantou e caminhou até a penteadeira. Agora era possível ver todo o seu corpo. Li era magro, mas tinha boa forma, e suas pernas longas eram as mais bonitas que já vi. Ele pegou meu pijama e esfregou o tecido nas mãos, aquilo fez meu rosto esquentar rapidamente. Uma onda de irritação tomou conta de mim, eu não disse onde estava o pijama, ele havia visto que esqueci e não avisou. Quando chegou à porta, recuei para dentro e apenas estendi o braço para fora, a fim que ele me entregasse a roupa.

Ele segurou meu braço e o puxou em sua direção, imediatamente recuei. Com uma mão para fora e outra segurando a toalha em volta do corpo, era difícil manter o equilíbrio. Quase escorreguei quando me livrei do seu puxão e tentei fechar a porta, mas Li colocou sua longa perna entre a abertura, me impossibilitando de fecha-la. Entrei em uma situação complicada, nenhum de nós havia falado nada, apenas dei um grunhido de raiva.

- O que você quer Li? – rosnei.

- Eu só quero te entregar o pijama, você me pediu, lembra? – ciciou, um pouco irritado.

- Ok, ok. Mas não precisa abrir a porta, só o coloque na minha mão! – guinchei.

- Tudo bem, toma – ele disse, removendo a perna do vão.

- Me entrega – ordenei, bastante irritada.

Coloquei a mão para fora e esperei que ele me entregasse a peça. Subitamente ele colocou a mão na fresta e escancarou a porta, quase me jogando longe. Dei alguns passos desconcertados para trás, tentando escapar de uma pancada. Antes que caísse, fui amparada por seus braços, que me colaram junto ao seu corpo. Fiquei espremida por ele, que fazia pressão com seus braços sobre mim. Li me fitou com intensidade, seus olhos acinzentados me estudaram com interesse. Tentei espernear e fugir, mas ele apenas aumentou a força do aperto.

- Me solta Li – esbravejei.

Ele não pareceu me ouvir ou apenas me ignorou, porque continuou a me examinar. Uma forte rajada de vendo invadiu o quarto, nos fazendo tremer, uma tempestade se aproximava. Li liberou um braço o levou a minha cabeça, tentando tirar a toalha dela. Aproveitei a oportunidade para me desvencilhar dele, mas com um único braço ele ainda me mantinha imóvel. Quando finalmente retirou a toalha da minha cabeça, ele sorriu.

- Fica mais bonito assim – disse, moldando meu cabelo para frente.

- Ok, você já me entregou o pijama, quer dizer, acho que me entregou. Agora pode ir saindo, está invadindo a minha privacidade.

- Não estou não, foi você quem me chamou, lembra? – seu tom de presunção me irritou mais ainda.

- Eu não quero te machucar Li, você é meu melhor amigo, mas se não me soltar eu vou ter que chutar seu saco – ameacei.

- Oh, não diga isso, já me sinto dolorido – brincou.

- Vou te dar cinco segundos para me soltar, caso não o faça, vou te fazer sofrer bastante.

- Humm. Gosto da sua agressividade Sora – riu.

- Por que a gente não aproveita esse momento para se beijar? – inclinei minha cabeça em sua direção, tendo que ficar na ponta dos pés.

Ele desceu seus braços até minha cintura e me impulsionou mais para frente. Quando vi que sua cabeça estava bem próxima da minha e que nossos lábios iam se encontrar a qualquer momento, puxei a cabeça para trás e levei minha testa de encontro com seu nariz.

- AAREEE! – gritou, me soltando rapidamente e pondo as mãos no nariz.

- Eu avisei – grunhi. – Agora me deixa vestir esse pijama!

Aproveitando que ele estava com as mãos sobre o rosto, saboreando a dor de me irritar, empurrei Li para fora sem pena, ele caiu no chão no mesmo momento em que eu fechava a porta com estrondo. Após trancá-la, me recostei sobre ela e soltei uma gargalhada que apenas ele conseguia arrancar de mim.

- Assim não vale Sora – gemeu, com sua voz agora um pouco nasalada.

- Relaxa Li – falei, ainda rindo. – Agora você já sabe o que vai acontecer se tentar fazer isso de novo.

- Certo, desculpa – ele riu da própria desgraça. – Acho que vou vestir um moletom, está ficando mais frio.

Depois de vestir o pijama, me arrependi na mesma hora. Peguei o mais atrevido possível, nem tinha parado para pensar. Ele era preto no bojo dos seios e caia em uma renda fina e quase transparente, indo do preto ao cinza-claro. Estava ridícula com ele, então peguei a toalha e joguei em volta do corpo. Caminhei para a cama e encontrei Li ainda acordado, com seu pijama azul. Ele segurava a ponta do nariz, que estava vermelho, mas para meu alívio não estava quebrado. Ele sorriu quando me viu enrolada.

- Ainda não vestiu esse pijama? – perguntou. – Que coisa difícil.

- Vesti sim, só não quero que me veja com ele – resmunguei, entrando debaixo das cobertas e jogando a toalha em sua cara. – Segura, você não queria tanto?

- Ai, meu nariz ainda dói – gemeu, retirando a toalha do rosto. – Você tem um cheiro bom.

- Obrigado, mas vou dormir agora. Passei por muito estresse ontem e hoje também – disse, puxando a coberta até meu pescoço e dando as costas para ele.

- Ah, deixa eu te fazer uma massagem então – sussurrou Li, se aproximando de mim.

- Não vem não Li! – me encolhi. – Vamos dormir, por favor!

- Mas é claro – disse, entrando debaixo das cobertas e chegando até meu refúgio. – Ah, seu pijama é uma graça – com isso, ele passou o braço por minha cintura e acomodou seu rosto em meu pescoço. Decidi não discutir, até por que o sono já havia chegado. 

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