o6| O Segredo de Lili
Fui arrastado por ela, queria que eu a seguisse. Entramos em uma sala que tinha cheiro de rosas e recordei uma das raras vezes em que Blizzard fazia brotar uma flor. O vento frio me fez sentir calafrios, o que era estranho, pois eu morri. Olhei em volta do salão, Lilí estava sentada na sacada e observava a grande floresta fria e suas enormes árvores petrificadas. Aquela visão me fez lembrar da infância, os tempos de caça e de guerra. Em algum lugar dessa floresta ainda jaziam corpos de vários guerreiros, e de muitos de seus amigos. Mas será que algum deles haveria de reviver também? Eu desejei profundamente que não.
Fiquei próximo dela. Contemplei por alguns instantes aquele rosto pálido e seus longos cabelos grisalhos. Indaguei sobre o que ela era. Nunca havia visto ninguém daquela forma. Ela me tratou muito bem, mesmo depois do ataque. A mordida ainda era visível. Dois pequenos furos avermelhados se destacavam na pele alva. Sem que ela percebesse, rocei os dedos na ferida. Ela me olhou espantada, seus olhos acinzentados me fitavam com tristeza. Ela baixou a cabeça e voltou a contemplar a imensidão da floresta.
- Eu acredito em você – sussurrou ela. – Você lembra alguém especial para mim.
Quis dizer algo, mas as palavras não saíram. Ela acreditava em mim. Aquela confissão me pegou desprevenido. Sorá e Liefí haviam me tratado com hostilidade. A sede ainda fazia a garganta arder, e o sangue da ferida de Lilí me fez salivar. Sentei na sacada ao seu lado, aquele era o momento certo para fazer algumas perguntas.
- O que você sabe sobre mim? – perguntei. – Por que age como se me conhecesse, Lilí?
- Quase certo, é Lili, não usa o acento não – ela riu, mas era um riso triste.
- Bem, não estou usando o assento, estamos sentados na sacada.
Seu riso ganhou vigor. Ela riu até enrubescer. Não consegui entender o motivo do riso, mas ele era contagiante. Soltei uma pequena risada, o que era estranho para um morto vivo. Quando sua vontade de rir foi cessando aos poucos, ela passou o dedo sobre o olho e limpou uma lágrima. Quando despertei, não consegui imaginar que conseguiria sorrir outra vez, mas ali estava, rindo de algo desconhecido.
- Bem, sobre você eu não sei nada. Mas sei o que aconteceu com Daniel, meu melhor amigo. Ele adoeceu de repente, no dia em que nós entramos no ensino médio. Passou dois dias com uma febre abrasadora, ele morreu no terceiro.
A cada palavra dita por Lili, fiquei mais curioso. Ela sabia de alguma coisa, por isso não ficou assustada comigo. Queria saber o que aconteceu com seu amigo, talvez o mesmo mau tivesse me abatido.
- Continue, por favor – implorei.
- Éramos melhores amigos, sempre estudando juntos e como era inevitável, nos apaixonamos... – ela suspendeu suas palavras, uma forte corrente de ar frio soprou da floresta fria, como se ela não quisesse que Lili me contasse o que sabia. – Nós oficializamos o namoro, e todos os dias costumávamos patinar em um pequeno lago. Era noite de lua cheia, e marcamos de nos encontrar no lugar combinado. Eu sabia o que ele faria porque Mischa, sua irmã, havia me contado.
- E o que ele faria?
- Me pediria em casamento, mas naquela noite ele não apareceu – vi seus olhos lacrimejaram. – Esperei durante várias horas, até que não aguentei o frio e voltei para casa.
- Não precisa continuar se não quiser, eu entendo – por mais duro que fosse dizer aquilo, era cruel fazer a garota contar seus segredos para um estranho.
- Não tem problema, vou continuar, eu preciso lhe contar isso – disse ela, limpando a garganta. – Fiquei magoada com aquilo, quis terminar tudo quando o visse novamente. Mas soube que ele foi encontrado na floresta, desacordado. Imediatamente entendi o motivo do seu sumiço. Fui correndo até sua casa, seus pais me disseram que ele estava com muita febre, acharam que tinha sido por conta da longa exposição ao frio. Quando entrei em seu quarto, as cortinas estavam todas fechadas e as luzes apagadas. Sentei ao lado de Daniel. Suas unhas estavam maiores que o normal e as presas, essas estavam enormes – ela fez uma pausa, com seus olhos agora cheios de lágrimas. – Depois disso eu não o vi mais, me privaram até de um último adeus. Ele foi enterrado no dia seguinte, não tive coragem de ir ao velório, era doloroso demais. Bem, agora vou lhe contar o que realmente interessa.
- Se estiver tudo bem pra você, eu a ouvirei – falei.
Ela meneou a cabeça, concordando. Depois limpou as lágrimas marcadas em seu rosto. Com um suspiro longo, continuou.
- Após dois anos da morte de Daniel, eu ainda não havia compreendido a razão de sua aparência ter ficado tão esquisita. Então, na noite do meu aniversário de dezoito anos, eu o vi. Ele me observava de longe, eu estava sentada na janela do quarto. Ele correu quando nossos olhares se encontraram, mas eu sempre fui a melhor atleta de corrida da escola, então pulei da janela, não me importando se eu me machucaria ou não – Lili mostrou uma cicatriz em forma de foice em seu pé, que subia até sua perna. – Me machuquei feio sabe, mas quase consegui alcança-lo. Ele deixou cair algo que foi enterrado junto ao seu corpo.
Ela retirou um pequeno amuleto do pescoço. Dentro dele tinha um pedaço de pergaminho, escrito Eu ainda te amo, depois de todo esse tempo.
- Acho que ele ia me entregar, talvez quando eu estivesse dormindo, não sei – ela pareceu se perder em seus pensamentos, depois olhou para mim e sussurrou.
- É por isso que eu acredito em você. Acredito que você seja um vampiro e também acredito que você viveu na era das bruxas. Pode contar comigo.
- Você não sabe o alivio que sinto agora, obrigado por acreditar tanto em mim. Não acredito que tive a sorte de te encontrar. Vamos descobrir o que houve com Daniel e comigo, se você disse que o viu, ele provavelmente ainda está pela floresta. Tentarei encontra-lo para você.
- Nós vamos acha-lo. Só lhe peço uma coisa, Sora e Lieff não devem saber disso. Esse será o nosso segredo.
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