o5| Decisões

     Minha garganta estava seca. Precisava de água. Não, necessitava de sangue. Tentei afastar aquele pensamento novamente, mas ele sempre voltava. O demônio dentro de mim estava ali para isso, para lembrar que me tornei uma fera. 

     Tentei me mover e vi que estava preso. Senti algo macio logo abaixo de mim e não consegui identificar onde estava. A escuridão predominava tudo, o que era bom, pois a luz agora era uma inimiga. Não estava sozinho, consegui identificar mais de uma presença além da minha no lugar. Eram três pessoas, era possível sentir o calor humano a longas distâncias.

     Salivei com a expectativa de conseguir sangue, precisava daquilo. A proximidade do calor era tranquilizante, mas a sede era outra e aquilo me fazia querer morrer novamente. O calor ficou mais forte, entrei em alerta para o que viria. 

     Aprumei os ombros e aguardei. Aquelas cordas poderiam ser quebradas com apenas um movimento se eu quisesse, mas primeiro esperaria para ver o que estava tão perto. Uma pequena fenda se abriu logo a minha frente, um feixe de luz invadiu o lugar e logo em seguida uma forma humana entrou junto com ele.

     Senti o ímpeto de saltar para cima da presa e ali beber todo o seu sangue. Hesitei alguns instantes e meus sentidos não entraram em alerta, aquela pessoa não me faria mal. A sombra movimentou-se para frente, vindo hesitantemente até mim. 

     Ela trazia algo como uma espada nas mãos. Aos poucos pude ver claramente seu rosto. Era uma mulher branca como a neve e de cabelos enormes. O que ela seria? Uma bruxa? Era muito estranha. O coração dela pulsava e senti suas batidas como se fossem minhas.

     Suspiro. Pulso. Calor.

     Seu corpo se conectou ao meu de uma forma estranha.

     Desejo. Sede. Sangue.

     A fúria interior cresceu com essa expectativa e meu demônio sussurrava ataque, você precisa se alimentar... sangue... você precisa de sangue.

     Soube que não iria resistir por muito tempo. Decidi que aquele era o momento, deixei o demônio interior me dominar por alguns instantes e preparei o ataque. Puxei levemente as cordas, para não assustar a presa e acabar logo com tudo. 

     Olhei mais uma vez para o rosto da mulher. Ela não se parecia com nada do que eu já havia visto, nem mesmo as roupas. Voltei a puxar as cordas, com um pouco mais de intensidade. Senti que elas iam ceder e me inclinei para frente, pronto para atacar.

     — Olá? — a mulher falou algo, fiquei assustado. — Você está bem?

     O nervosismo em sua voz era evidente. Ela estava mais assustada do que eu. Tentei falar alguma coisa, mas a voz não saiu. Agora o único som estava vindo de dentro da minha cabeça, reforçando que eu deveria atacar.

     — Eu sei que você está acordado, posso vê-lo — sussurrou ela. — Eu quero te ajudar, se você falar alguma coisa tudo vai ficar mais fácil.

     — Eu... — grunhi. — Eu estou confuso.

     — Tudo bem. Vou tentar te ajudar. Não se preocupe com nada. Ei — ela ficou mais próxima, mesmo estando nervosa. — O que você é? Um vampiro?

     Recordei que Celine sempre contava histórias sobre vampiros, mas eu sabia que essas criaturas não existiam. Talvez essa pessoa fosse louca, ou estava apenas rindo da minha desgraça.

     — Não entendo. Você é louca? — rosnei. — Está rindo de mim?

     — Espere, por favor. Eu preciso saber a verdade, diga para mim — implorou. — Talvez eu saiba uma maneira de te ajudar, mas você tem que me contar tudo.

     — Contar tudo? Não lembro nada — murmurei.

     — De onde você é? Como veio parar aqui? — percebi que ela já não sentia medo de mim.

     — Como assim? Onde estamos? — indaguei, comecei a ficar impaciente com aquele diálogo. — Aqui ainda é Blizzard?

     — Sim! — exclamou, se ajoelhando ao meu lado. — Diga seu nome, por favor.

     — Nero...

     — Espera... Nero Lancaster? — ela falou rápido demais, mas sabia quem eu era.

     — Como sabe? É uma bruxa? Foi você que fez isso comigo? — grunhi, sentindo a raiva fluir.

     — Não! A sua história já foi contada várias e várias vezes através de gerações. Nero Lancaster é uma lenda, uma canção, um conto de terror e história local. Você está morto.

     De repente me senti afundando. Ela falou algo que eu já sabia, mas vindo de sua boca soou muito pior. A fúria já estava no auge. Impulsionei o corpo para frente e tentei mordê-la, mas ela caiu para trás no ultimo instante. 

     Seu olhar de horror não me fez sentir pena. Sentada com a madeira na mão, ela ainda tentava manter o diálogo fluente.

     — Consegue recordar algo? Sabe o que aconteceu com você? — murmurou.

     Tentei lembrar o que aconteceu desde que acordei. Pequenos fragmentos de lembranças vieram aos poucos, indo parar na menina de olhos verdes. Olhei para a mulher pálida a minha frente, que me observava cuidadosamente. 

     Senti que seus batimentos desaceleravam, ela não sabia que eu representava perigo. Sim. Eu precisava de algo, necessitava de sangue. Não imaginei qual seria a sua reação quando ouvisse, só queria acabar com tudo e matá-la.

     — Chegue mais perto, não quero que as pessoas lá em baixo escutem o que tenho para te dizer – sorri para ela, tentando soar o mais inofensivo possível.

     — Como sabe que tem mais alguém aqui? — sua expressão era de espanto. — Ainda acha que estou rindo de você? Ninguém pode ser tão sensitivo assim.

     — Acho que começamos um pouco mal — fui me inclinando lentamente para frente. — Estou com muita sede...

      — Ah, tudo bem. Vou trazer um copo de água para você — ela não me deixou terminar, já caminhando até a pequena porta.

     — Não, minha sede é outra. Eu preciso de sangue.

     Não imaginei que a reação da mulher fosse tão tranquila, ela não gritou, muito menos fugiu. Apenas virou o rosto e disse algo por cima do ombro como médicos e bolsas de sangue.

     — SORA! LIEFF! — os gritos de Lili vieram acima de nós. — Corram até aqui, ele acordou!

     Dei um pulo do sofá e olhei para Li, que vinha da cozinha apressadamente. Juntos, subimos para o quarto, pulando dois degraus e chegando até Lili.

     — Você tem certeza? — guinchei.

     — Sim, falei com ele. Não me parece perigoso, só está confuso. Acho melhor você falar com ele Sora, já que foi a primeira a entrar em contato.

     — O que? Não vou entrar lá sozinha!

     — É claro que não, nós vamos juntos — disse Lieff.

     Quando entramos no quarto escuro, já era possível ver a silhueta do garoto sentado na cama. Ele era maior do que eu imaginava, suas pernas eram longas, comparadas as de Lieff. 

     Seus cabelos negros entravam em contraste com sua pele extremamente pálida e seus músculos estavam tensos. Ele usava apenas uma calça preta de um tecido que se assemelhava ao jeans. Olhando para cada um de nós, ele passou a língua rapidamente nos lábios e fungou.

     — Não sei – murmurei. — Ele me parece zangado.

     Não havia nenhum pelo em seu peito nu. Poderia até ser bonito, se não tivesse começado a fazer um som esquisito entre os dentes. Saliva começou a escorrer de sua boca e ele voltou a passar a língua nos lábios. 

     Peguei o taco da mão de Lili e me aproximei do garoto, ele estava com uma expressão sombria no rosto, parecia estar se controlando para não atacar ninguém. Quando fiquei próxima o suficiente, ele se curvou para frente e me estudou com seus olhos estranhos.

     — Você – sibilou. — Você estava lá, naquela noite. Como escapou? Você sabe o que aconteceu comigo?

     A voz dele era de desespero. Não entendi o que o perturbava tanto. Olhei para os gêmeos em busca de ajuda, mas o máximo que eu consegui foi um dar de ombros de Lieff.

     — Eu não te conheço, e quero saber porque e como você apareceu aqui — falei.

     — Não lembra? Eu tentei te salvar quando lançaram o fogo... sou Nero Lancaster... — arquejou. — Ficou zangada por que não consegui salvá-la e me jogou um feitiço?

     — Espera, você está dizendo que é o Príncipe Suspenso? — indagou Lieff.

     — O que você quer dizer Li? — aquilo não fazia o menor sentido.

     — Vocês não estudaram a história de Blizzard não? — riu Li. — O Príncipe Suspenso adoeceu no dia da morte de Celine, mãe de Ruccorn Lancaster, e daí não acordou mais, morreu. Por isso ele tem esse apelido, sua vida foi suspensa de forma misteriosa e letal.

     — Tá, espera. Você está nos dizendo que esse cara — apontei para o morto-vivo. — É alguém nobre que supostamente morreu e estava enterrado debaixo da minha casa?

     — Eu adoeci no dia que te encontraram no lago da floresta fria. Você estava imersa no frio e mesmo assim respirava. Todos se encantaram com sua beleza, até mesmo eu — ele fez uma pausa e voltou a lamber o lábio. — As anciãs te acusaram de bruxaria e resolveram queimá-la.

     — Se ele estava enterrado aqui, então acho que esse era o castelo onde tudo aconteceu — murmurou Li. — Sora, o que você não contou para nós?

     Senti um nó se formando na garganta e o estômago embrulhar. De repente fiquei fraca, parte daquilo fazia um pouco de sentido, eu sempre sonhava que estava no fogo. 

     Olhei para ele por alguns instantes, tentando recordar de onde aquele rosto era familiar. O sonho, tudo sempre voltava para aquele sonho estranho. O lago, a fogueira, o garoto.

     — Quem é você? Está me espionando? — falei, com a voz trêmula. — Esse sonho, como sabe sobre ele? É sempre a mesma coisa, eu sempre acabo no fogo.

     — O que você está me dizendo Sora? — guinchou Lili. — Sou sua melhor amiga e você não me conta uma coisa dessas? E agora aparece esse cara e você resolve botar tudo para fora assim?

     O ataque aconteceu muito rápido. O garoto ergueu os punhos e quebrou as cordas, junto com o pedaço da cama em que estava amarrado. Ele saltou com muita destreza, indo parar diretamente na frente de Lili, que não tentou fugir e foi agarrada pela cintura. 

     Lieff correu até a irmã, cerrando os punhos e preparando-se para acertar o inimigo, mas foi arremessado para longe com um simples empurrão. Não consegui reagir, estava tão paralisada de medo que consegui apenas observar. Aqueles olhos me fitaram por alguns instantes e ele disse, quase sussurrando.

     — Não quero machucar ninguém, mas preciso de sangue — dizendo isso, ele inclinou a cabeça de Lili para trás e enterrou o rosto em seu pescoço.

Senti o corpo quente da mulher branca junto ao meu. Toda aquela conversa só me fez sentir mais vontade de sangue. Saltei até seu pequeno corpo e o prendi com os braços. Ela não fez menção de reagir, muito menos gritou, apenas me observou com aqueles olhos acinzentados, como se entendesse o que eu queria. Baixei a cabeça para seu pescoço e o mordi, sua pele era macia e senti o sangue pulsar dentro de suas veias. O seu cheiro transmitia medo e ansiedade, ser rápido seria a melhor opção para nós dois.

Seu sangue pedia para ser sugado. Quando molhei os lábios, me curvei para mais perto da mulher, sentindo uma forte dor em minha cabeça. Aquilo ardeu profundamente, fiquei fraco e a larguei. A dor desconhecida me trespassava de forma cruel, despenquei no chão e ânsias de vômito vieram, em vão, não me alimentava há séculos. Um pequeno zunido começou a ecoar em minha cabeça, seguido de uma voz gutural, que daria medo até mesmo nos guerreiros mais poderosos de Blizzard.

A dor era insuportável. Gritei. Meus olhos arderam e a visão ficou turva. O homem branco retirou a presa de meus braços, ela estava em estado de transe. A voz tentava dizer algo, eu não conseguia ouvir, a dor era lancinante. De repente tudo ficou silencioso, as três pessoas presentes no aposento estavam acuadas no canto, me observado. A dor foi diminuindo e consegui distinguir aos poucos o que a voz queria dizer.

- O sangue dela não! Ela é filha do incesto! – bradou a voz.

- Não entendo... – falei. – Quem?

- A menina que você acabou de morder. Ela não tem sangue puro, seu nascimento é pecaminoso. Filha do incesto. Semente indesejada e filha do pecado!

- CHEGA! – gritei.

- Aberração! Ela e seu irmão. Nascidos na luxúria e concebidos ao mundo dos puros. Filhos do estupro...

- AAAAAAH, CHEGAAA – aquilo estava me enlouquecendo.

A voz cessou tão rápido quanto veio. Todo aquele silêncio era tudo que eu desejava no momento, até mesmo esqueci que precisava me alimentar. A sede parecia ter ido embora e levou consigo a vontade de matar. Desejei sumir e deixar aquelas pessoas para trás. A mulher branca estava sentada no chão, me fitando com interesse. Ela levou a mão ao pescoço, onde eu havia mordido. Não parecia sentir dor, mas sabia que algo estava errado com ela, podia sentir.

A loira carregava em sua mão um pequeno machado prateado, que refletiu um fraco feixe de luz em meu rosto. Virei para o lado. Aquela situação seria difícil de contornar já que ataquei um deles. Verifiquei rapidamente se o local tinha janelas. Quando identifiquei uma, corri até ela e arranquei a lona que a cobria. Um soco foi o suficiente para quebrar o vidro.

Apoiei as pernas no parapeito e me preparei para pular quando fui surpreendido pela menina que ataquei. Ela agarrou meu braço com muita e chegou muito perto. Seus olhos estavam muito abertos e o coração tão acelerado que achei que fosse sair pela boca. Seu cheiro era de puro desespero.

- Não vá, por favor. Eu preciso de você – sussurrou tão baixo que tive certeza que somente eu havia escutado. – Todas as respostas que procura estão conosco. Sangue não será problema, posso ajuda-lo a conseguir o quanto quiser.

Eu a encarei como se tentasse puxar do fundo de seus olhos a verdade, ela queria desesperadamente que eu ficasse.

- Cuidado Lili! O que está acontecendo? Que droga! O que você está falando com ele? – gritou a loira, tive vontade de quebrar seu pescoço. – Lili! Saía daí!

- Você fica? – ela apertou meu braço e sussurrou em meu ouvido. – Existem muitas coisas que as canções e os livros de história não contam sobre Nero Lancaster... eu posso ajudá-lo a descobrir tudo. Por favor, fique.

Tinha que conseguir respostas, de como morri e ressuscitei. Talvez aquele fosse meu único refúgio, eu precisava daquelas informações. Embora fosse difícil para mim, fazer um esforço para não ataca-los seria um desafio. Ela ainda implorava com o olhar. Não pude deixar de ficar curioso, ela parecia me conhecer ou então desejava algo de mim. Filha do incesto, sangue impuro . Recordei da voz ecoando e me perguntei se a mulher sabia de sua verdadeira origem. Hesitante, cedi ao seu apelo. Meu olhar foi de seus olhos para a ferida no pescoço. Ela me guiou para fora do parapeito. Os outros dois não recuaram quando fiquei mais próximo. O garoto me fulminava com os olhos.

- Estou faminto. Vai ter que me ajudar a procurar sangue se quiser que eu fique – murmurrei para a mulher branca.

- Nem pensar – sibilou o homem, me irritando por ter escutado.

- Ele fica – disse a mulher branca. – Nós temos que resolver essa situação, isso está ficando muito sinistro.

- A única coisa esquisita aqui é você ficando amiguinha dessa coisa depois dele ter mordido você! – ele voiciferou, me deixando com mais vontade de matá-lo.

- Lili, isso não está certo. Olhe só para ele, está na cara que não é humano! – guinchou a loira. – Onde você pensa em conseguir sangue para ele? Vai procurar alguém para matar?

- Procurar alguém? Não falei nada disso. O hospital está repleto de bolças de sangue, e mamãe tem as chaves desse setor – ela olhou para mim e sorriu. – Acho que você deu sorte.

Não tive tempo de reagir. Olhos verdes me acertou com o pedaço de madeira e logo voltei a afundar da escuridão.

Após a imensa confusão, sentamos para conversar e esclarecer tudo. Lili nos surpreendeu com sua decisão. Fiquei atenta ao seu comportamento, era óbvio que ela planejava algo e não queria me contar. O garoto chamado Nero foi arrastado até a cozinha e Lili nos deu um ultimato para ficarmos quietos no quarto. Esperamos por cerca de quinze minutos. Lieff ameaçou descer cinco vezes caso a irmã não retornasse após o tempo estimado.

Toda aquela situação era extremamente surreal. Aquele garoto estranho, sua sede por sangue e os sonhos. Eles não pararam de vir desde os meus dez anos, a música e a fumaça sempre faziam parte dele. Quando me conectava ao sonho, era transportada para um mundo totalmente diferente da realidade. Era o mesmo, mas ano passado algo mudou. Eu sempre acabava no fogo e ninguém tentava me salvar, nem ao menos ter misericórdia. No último, ele apareceu. Nero, então era esse seu nome. O príncipe que morreu misteriosamente e estava nas histórias contadas ao redor de fogueiras crepitantes e nas canções sobre amantes tristes e melancólicos. Esse cara tinha algo para me contar, talvez fosse por isso que voltou. Estávamos conectados pela mesma agonia, o esquecimento.

Fiquei apavorada quando o vi. Ele era extremamente igual ao dos sonhos. Mais de vinte minutos se passaram e nada de Lili. Comecei a ficar ansiosa e olhei para Lieff, que estava pronto para ver se algo estava acontecendo. Concordamos em descer e ouvimos passos arrastados, Li apressou-se para ver o que era, mas era apenas Haru arranhando o carpete da escada.

- Já estou no meu limite. Não confio nesse cara, ele carrega algo ruim dentro dele – grunhiu.

Li estava tenso, sua postura era defensiva e seu queixo estava retesado. Levantei da cama e fui ao seu encontro, ele tinha razão, muito tempo já havia se passado desde que eles desceram. Embora a situação estivesse estável, duvidei que Lili pudesse resolver tudo sozinha. O estranho se achava deitado no chão quando descemos, um pequeno filete de sangue escorria por entre seus lábios, ele parecia estar tendo algum tipo de convulsão.

Imediatamente ficamos tensos, o sangue poderia ser de Lili. Olhamos em volta, apreensivos. Para nosso alívio Lili vinha do banheiro, enxugando as mãos com uma pequena toalha verde manchada com nuances de vermelho. Aquilo só poderia significar uma coisa, ela havia sido atacada. Ao se aproximar, ela nos olhou com um pouco de hostilidade, aquele olhar que era reservado somente para Lieff.

- Eu disse para ficarem lá em cima – disse, com aspereza.– Já resolvi tudo. Temos um problema, parece que nosso amigo é um vampirinho.

- Estávamos preocupados por conta da sua demora, esse sangue é seu? – perguntou Lieff, apontando para as mãos dela.

- Não, esse sangue é do pedaço de fígado que estava na geladeira, ele tomou tudo – falou Lili, apontando para o garoto no chão, que soltava alguns gemidos.

- Você está me dizendo que esse cara sugou todo o sangue que tinha nesse fígado ai? – pigarreei.

- Sim, estou lhes dizendo, ele tem algo estranho. Não sei como explicar, mas parece que realmente estava precisando do sangue. Quando lhe entreguei o pedaço de fígado ele quase o devorou, mas só o sangue foi consumido. Temos que conversar sobre isso – suspirou, dando uma pequena risada de escárnio. – Acreditam em mim? Acreditam que ele possa ser um vampiro?

- Não, não acredito que ele seja um vampiro. Acho que você está querendo nos assustar – guinchei.

O garoto começou a gemer mais alto, como se estivesse preso dentro de algum pesadelo. Seus músculos começaram a contrair, dando a impressão de que alguém os contorcia. As presas agora eram mais visíveis, ele parecia estar se revigorando de alguma forma. Aos poucos ele abriu os olhos, franzindo o cenho para a luz no teto da cozinha. Reparei que sua pele não entrou em combustão como na primeira vez. Ele sentou. Sua expressão era deplorável, parecia estar de ressaca. Era um cara grande, mesmo sentado.

Lili agachou-se e eles se olharam por alguns instantes. Mesmo não sendo eu a ficar frente a frente com um suposto vampiro, fiquei nervosa. Ele ficou de pé com a ajuda de Lili, que sob os protestos do irmão, resolveu se afastar um pouco. Aprumou os ombros, primeiro como se estivesse alongando para um longo exercício. Depois de alguns momentos em silencio, ele finalmente disse algo.

- Não espero o perdão de vocês, isso pouco me importa. Apenas quero que vejam uma coisa – disse, olhando para mim. – Esse castelo já foi meu, era maior é claro. Creio que foi desgastado com o tempo, mas algo nele ainda permanece intacto.

- O que permanece? – perguntei, temendo ouvir o pior.

- A cripta, onde meus ancestrais estão enterrados e onde eu também dormi todo esse tempo.

- O que você quer dizer com isso? – indaguei.

- Venham comigo. Por onde acham que sai? Pensou mesmo que eu perderia tempo saqueando castelos? Meu pai era rei.

- Isso não importa agora – bradou Lili. – Você tem que nos agradecer pelo que te fizemos até agora, estamos todos assustados com tudo isso. A pior parte já passou, mesmo que muito rapidamente. Já sabemos quem é você e de onde veio. Agora nos resta descobrir qual a ligação entre vocês – ela me fulminou com o olhar. – Minha amiguinha aqui ainda esconde muitas coisas de nós, e a sua aparição foi a melhor oportunidade que ela já teve para colocar tudo para fora.

Fiquei encolhida atrás de Lieff. Eles se olhavam com hostilidade. Ele parecia saber que não era bem-vindo.

- Bem, eu gostaria de saber seu nome – grunhiu.

- Sou Lieff – intrometeu-se Li.

- Não perguntei para você, seu saco de bosta – rosnou o morto-vivo.

Li avançou com os punhos cerrados. Sua expressão demonstrava tremenda irritação. Lili e eu nos prostramos diante deles e bloqueamos a passagem. Olhei para o estranho com hostilidade.

- Nós estamos em outra época sabia? Aqui não existem mais reis e muito menos a sua corja de empregados – gritei.

- Não me interessa – retrucou.

- CHEGA! – ralhou Lili. – Eu me chamo Lili Wendel se foi para mim que perguntou. Vamos parar de nos comportar como crianças, por favor, já estamos numa situação bem complicada!

- Se ele não fosse tão arrogante...

- Chega Li – falei, puxando o braço dele para o lado. – Eu me chamo Sora Bloom, e esse garoto aqui – apontei para Lieff. – Se chama Lieff Wendel, irmão gêmeo de Lili.

- Quantos anos você tem? Uns duzentos? – zombou Li.

- Não importa. E quantos você tem? Está afim que esse seja seu último? – ele trincou os dentes e passou a língua no lábio. – Posso resolver isso bem rápido.

- Muito bem crianças. Chega de tanta provocação – Lili encarou Nero. – Acho que você merece um banho, que tal?

- Onde estão minhas vestes? – perguntou ele.

- Bem, você ainda está com a parte debaixo, sua blusa estava em um estado deplorável, então joguei fora. Vou pegar alguma roupa de Lieff para você.

- Não vai dar nada meu para ele! – protestou.

- Cala a boca! – Lili voltou-se para Nero. – Vocês dois são grandalhões, então vai servir.

- Conheço Blizzard, acho que os lagos estão congelados. Como vou tomar banho? – ele só olhava para Lili, pareceu esquecer que estávamos ali.

- Vai tomar banho de chuveiro – disse Lili, sorrindo docemente para ele.

Ela parecia não enxergar que ele era perigoso. Lili queria algo dele, e eu iria descobrir.

- O que é um chuveiro? – perguntou, era óbvio que nunca ouviu aquela palavra.

- Você verá – suspirou Lili.

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