o2| Problemas

     Fechei a porta para que o vento congelante que vinha de fora não pudesse entrar. Lili já estava na cozinha procurando algo para nos servir, ao meu contrário, ela entendia de culinária. 

     Observei Lieff despir seu longo casaco de pele de lobo sintética, que para ser sincera, era mais barata e aquecia bem mais. Ele notou que eu o observava e entregou seu casaco, para que pudesse ir até o banheiro no andar de cima. 

     Já que não reuni coragem o suficiente para chamar um encanador ou consertar o desastre que kalinne, minha irmã, fez no banheiro dos fundos no térreo.

     Depois de alguns minutos esperando por ele, senti um doce aroma de biscoitos amanteigados vindo da cozinha. Li vinha descendo a escada quando Lili gritou.

     — Como posso fazer um chá, se você não tem nenhuma erva nessa cozinha Sora?

     — Ah, faz qualquer coisa, acho que ainda tem algumas frutas por ai — pigarreei.

     Ouvi Lili resmungar algo como resposta e continuar a procurar algo comestível. Lieff já havia se prostrado ao meu lado no pequeno, mas muito confortável sofá vermelho. 

     Esperei um pouco, mas nem sinal de Lili se aproximando, era a hora. Olhei para Li, sua expressão era de imensa tristeza, mesmo naqueles olhos grandes e cinzas.

     — Muito bem, pode começar a desembuchar. O que está acontecendo? — falei o mais baixo possível para que Lili não ouvisse nada.

     — Ah Sora, estão acontecendo tantas coisas. Não sei por onde começar. Acho que tudo está acabando para mim — ele suspirou e afastou seus cabelos brancos da testa.

     — Então por que você não começa me contando o menor dos problemas, que tal? — sugeri, sorrindo para ele.

     Lieff me devolveu o sorriso e deitou sua cabeça em meu colo. Peguei o pequeno pente na cabeceira ao lado e escovei seus cabelos brancos e lisos. Decidi dar tempo ao tempo. Ele iria me contar tudo, mas no fundo eu sabia o que estava acontecendo. 

     Se não conhecesse Lieff tão bem, eu diria que estava errada. Ao perceber que meu tempo estava esgotando e que Lili viria a qualquer momento, peguei uma caneta do bolso em meu casaco e comecei a escrever na alvíssima bochecha dele.

     "Qual o número 1?"

     Ele sorriu, me fazendo borrar o número um, que ficou mais parecido com o dois. Lambi a ponta do dedo e passei na bochecha dele, que pigarreou na mesma hora.

     — Eca — murmurou suavemente ao perceber o que eu havia feito.

     — E então? Estou pronta para te ouvir, mas preciso saber se você está pronto para falar — sussurrei em seu ouvido.

     — Tudo bem, lá vai o número um. Para começar, meus pais brigam bastante e tenho quase certeza de que vão se separar. Segundo ...

     — É melhor ir com calma — o interrompi para que pudesse digerir um problema de cada vez. — Você diz que seus pais estão brigando muito ultimamente, mas você tem que me dizer se sabe a razão para tanta briga.

     — Eu já ia te dizer o segundo motivo, e é esse a razão para tanta briga. Papai acha que não somos filhos dele, disse que mamãe o traiu antes de serem casados.

     — Que horrível Li! Não acredito nisso, sinto muito mesmo. Não quero acreditar que seu pai possa pensar uma coisa dessas! — ouvimos um som abafado de algo caindo no chão e Lili resmungando um palavrão.

     — O pior de tudo é que ele acha que somos doentes, disse isso para mamãe em mais uma de suas brigas explosivas. Falou que se ela e nem ele tem histórico de albinismo na família, então é porque ela o traiu. Sem falar que Lili ouviu isso. Quer dizer, acho que ouviu, mas ela finge que está tudo bem.

     Fiquei sem fala por alguns instantes, não acreditava que o Sr. Wendel fosse capaz de pensar uma coisa daquelas, principalmente de seus filhos. 

     Certo que todo casal tem brigas em seu relacionamento, mas começar a desprezar seus próprios filhos era desumano. Olhei para Li com profunda tristeza, pela primeira vez não sabia como reagir. Apenas fiquei em silêncio, como se estivesse lendo meus pensamentos ele falou.

     — Não precisa me dizer nada Sora, sei que esse é um assunto difícil de discutir, principalmente quando não é você quem tem que enfrentá-los.

     — Não é isso Li, só estou absorvendo o impacto. Quero muito te ajudar, mesmo. Só não sei como e por onde começar.

     — Como você vai me ajudar se nem eu mesmo consigo lidar com essa situação? O que eu mais queria era fugir daquela casa, de todas as brigas. Não por mim é claro, mas sim por Lili, ela não merece aquilo! — Lieff começava a ficar vermelho, era estranho quando ele se sentia enfurecido ou constrangido, era uma das raras vezes que eu o via com alguma cor em suas feições.

     Como de súbito, tive uma ideia que jamais poria em prática se os gêmeos não fossem minha única família no momento. Ponderei um pouco, aquela seria uma proposta um pouco ousada, nem que fosse temporariamente.

     — Li... — comecei a falar, um pouco hesitante e constrangida. — O que você acha de morar aqui comigo? Você e Lili. Já que moro sozinha, bem, pode ser temporariamente se você quiser.

     Quase não consigo terminar por que Lieff já me abraçava fortemente, até me deixar um pouco sem fôlego. Não consegui evitar e senti meu rosto esquentar, o que era até gostoso de sentir em um frio daqueles. Envolvi meus braços em volta do corpo dele, fazendo-o me apertar ainda mais.

     — Obrigado Sora, você é a melhor pessoa que conheci até agora, obrigado por tudo — sussurrou, captando meu olhar intenso. — Eu aceitaria essa proposta sem hesitar, mesmo que não houvesse problemas em minha casa.

     — Estou interrompendo algo? — pigarreou Lili, em um tom esganiçado.

     Lieff e eu nos soltamos muito rapidamente e olhamos para ela, que fazia uma careta que não sabia se ria ou ficava com ciúmes do irmão. Caímos todos na gargalhada, era bom rir um pouco de nossa situação para descontrair a tensão do momento. 

     Entre risadas, Lili nos chamou para comer seus deliciosos biscoitos amanteigados. Ajudei Li a levantar do sofá e juntos caminhamos em direção a um delicioso café da manhã. 

     Após terminar de comer contamos a Lili o que pretendíamos fazer, ela nos ouviu com estranha cautela, já que sempre fazia algum estardalhaço sempre que não contávamos algo para ela. 

     Depois de acertar tudo com os gêmeos, avaliamos qual seria a reação do Sr. e Sra. Wendel, mas os gêmeos já eram maiores de idade e poderiam ser independentes quando quisessem. Tudo estaria certo para às dezoito horas quando nos despedimos.

     — Mais uma vez obrigado Sora, você é a melhor — disse Li, me dando um último abraço antes de partir. — A propósito, posso trazer minha gata?

     — Você tem um gatinho e não me contou? Que mala!

     — Temos sim — disse Lili. — Ela se chama Lieffa.

     — Lieffa? — olhei para Lieff que direcionava um olhar fulminante para a irmã, ficando muito vermelho. — Mais que nome lindo. Tudo bem, Haru ficará muito contente com uma nova companhia.

     — Vamos embora — resmungou Lieff, no seu tom mais carrancudo.

     — Nos vemos mais tarde — pigarreou Lili, fechando a porta para a próxima nevasca que ameaçava cair.

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