90| Desvanecendo em Pó
DANIEL
Uma semana mais tarde...
O urro de vitória ergueu-se em meio ao caos. A guerra contra os guerreiros de Lumen estava ganha. Os exilados agora se amontoavam em filas e partiam para dentro de portais que os levariam para Statera. O filho de Lúcifer entregava para cada um dos exilados, um anel negro, simbolizando uma nova aliança. Eles estavam todos livres agora. No outro lado do portal gigantesco, estava Daniel. Ele quebrava o anel prateado que os faziam escravos e substituía pelo negro. Os vestígios da batalha logo desapareceriam. A enorme mansão começou a se reconstituir sozinha. A terra engoliu todos os cadáveres e fez daqueles anjos seus novos filhos. As marcas da guerra ficariam apenas nos guerreiros que sobreviveram. Apenas os que ficaram sabiam que a guerra não estava totalmente ganha. Talvez a pior parte ainda não tivesse realmente passado. A dor da perda era sentida por todos. Aliviado em saber que Samuel também lutava contra o irmão, Grendel alimentou expectativas de vitória.
A promessa do Sr. Morte fora cumprida para com os exilados. Lutaram para ter a liberdade. Quando todos foram para casa, Grendel sabia que teria sérios problemas mais tarde. Expulsos do céu por alguma causa considerada inapropriada, eles deveriam permanecer escravos, ou então eram jogados em Statera para conviver com a escória do homem.
-Não vai tardar para alguns serafins virem até aqui me causar mais problemas - murmurou.
- Acho isso difícil. Cara, nós acabamos de massacrar aqueles anjos bundões - riu Daniel enquanto fazia tranças nos cabelos de Ishtar. - Se eles ficarem sabendo do que realmente houve aqui, garanto que não ousaram vir reclamar algo.
- Eles são burocratas, sempre gostam desse tipo de problema, e eu acabei de oferecer um prato cheio para eles - bufou Grendel. - Mas deixe que venha, esse encontro vai esclarecer muitas coisas.
- Ei esquisito, o que fazemos agora? Estou com tédio - murmurou Ishtar, lançando um olhar carrancudo para Grendel. - Até quando vamos esperar Shaya retornar?
- Você pode voltar para casa se quiser, sinta-se livre.
- Hum! Vou ser morta se voltar para aquela pocilga! - ela tapeou a mão de Daniel para que parasse de fazer a trança. - Eu só acho que elas já deveriam ter retornado, faz mais de uma semana que estamos nessa espera que parece se prolongar a cada dia.
- Mais algumas horas e talvez teremos notícias. Foi o combinado com ela. Viajar entre duas dimensões leva muito tempo. Aliás, o tempo por lá se passa muito lentamente. Talvez não tenha se passado um dia completo para elas. Por isso vá com calma.
- Não pode simplesmente se comunicar com ela? - insistiu o arcanjo.
- Não Ishtar, ele não pode - grunhiu Soren. - Cale a boca, está perturbando meu juízo. Samuel cuidará de tudo antes delas e você poderá sair por ai com o cachorro.
- Ah está bem! Mas Grendel, e as notícias sobre Sora e os outros? - ela abriu suas longas asas. - Conseguiu falar com eles?
- Voltarei a falar com Sora somente quando tudo acabar - ele sorriu. - Mas temos notícias. Ela me envia mensagens através do seu colar, mas não irei responder agora...
- Diga logo - pigarreou.
- Lili, ela está grávida...
- Isso eu já sei, afinal, foi eu quem disse para ela - ela abanou a mão no ar, descartando a notícia. - Foi uma pena a morte dele, não teve tempo de saber sobre os gêmeos. Ah, eu lamento por todos que perdemos - ela se virou para o irmão. - Eu sinto muito por Uziel.
- Não sinta, ele não morreu como um covarde - grunhiu Soren.
Ao lembrar de Uziel, ele não conseguiu se conter. O nó na garganta veio e ele se levantou, afastando-se dos amigos para sofrer seu lamento em paz. A conversa entre eles não se prolongou por muito tempo. Soren estava ausente. Grendel recolheu-se em seu quarto e logo tudo foi ficando mais escuro. A visão das duas luas paralelas impressionou Ishtar, que passava sempre todas as noites trancafiada. Daniel a matinha recostada em seu peito. A leve brisa agitava seus cabelos dourados sobre ele. O pensamento do querubim viajou até a Deusa que já havia considerado uma amiga. Também não deixou de pensar como ficaria sua volta para Lumen. Se Miguel fosse abatido, tudo estaria ótimo. Sua preocupação com Ishtar crescia a cada momento, ele não desejava que ela não pudesse mais entrar em sua própria casa. Com Miguel fora do poder, ele perguntou-se como ficariam as coisas por Lumen. Quem governaria e quem seria banido de lá. Seus devaneios foram interrompidos quando o arcanjo virou-se para ele. Ela exibia em seu rosto o sorriso que ele sempre gostava de vê-lo.
Ishtar se enroscou na cintura de Daniel e segurou seu rosto com as duas mãos. Enquanto ela o fitava, ele perdeu-se mais uma vez em seu olhar intenso. Ele a deitou sobre a relva enquanto ainda mantinham-se agarrados. A fraca luz da lua iluminava a silhueta nua de Ishtar. Seu corpo pequeno e esguio encaixava-se perfeitamente com o do querubim. As batidas descompassadas de seus corações pareciam acompanhar o ritmo de seus quadris. Pisadas foram ouvidas. Ishtar empurrou Daniel para o lado e rapidamente vestiu seu vestido branco.
-Rápido! Vista-se logo - sussurrou, jogando as roupas dele em seu peito. - Anda logo!
- Quem está vindo? - indagou ele, enquanto se vestia.
- Soren.
Eles voltaram a se sentar como estavam antes. Soren caminhava lentamente, e parou quando viu que eles ainda estavam debaixo da árvore. Ele ergueu o rosto e farejou o ar.
-O que estava fazendo com minha irmã Daniel? - indagou, voltando a encarar o querubim.
- Como assim? - ele fingiu indiferença.
- Como assim? Eu sinto o cheiro forte de sexo...
- Não fizemos nada - guinchou Ishtar.
- Ah não? E aquela calcinha no chão é de quem? Olhe, eu não me importo com o que fazem, só acho que deveriam fazer em um lugar em particular...
Ele virou-se e continuou a caminhar em direção a mansão. A lembrança de Mischa lhe veio na memória, e aquilo o fez deixá-los em paz. Ishtar soltava grandes gargalhadas do inconveniente, enquanto o querubim afundava no constrangimento. As asas do arcanjo iluminavam o caminho. A oscilação do tecido foi abalada. Ishtar rapidamente identificou o lugar onde um portal estava para se abrir. Eles se surpreenderam quando Shaya e Solária saíram juntas do portal. Com sinais evidentes de combate e um sorriso no rosto, aquilo era o suficiente para dizer que a batalha estava ganha.
Tentar dormir não adiantava para passar o tempo. Lugar de espíritos errantes e imortais atormentados, o parallel ainda guardava muitos segredos e perigos. As Deusas eram constantemente importunadas por todo tipo de criatura, desde demônios patifes a anjos perdidos. Eram pobres almas atormentadas, e a visão das Deusas o fizeram acreditar que estavam ali para salvá-los do esquecimento eterno. O máximo que podiam fazer era dizer que logo seriam libertos com o fim da guerra, mas aquilo era uma verdadeira mentira. Uma vez caídos no parallel, voltar era impossível para aqueles cuja alma e consciência eram fracos. O canal entre as duas dimensões jamais poderia ser desfeito, pois era o que controlava e evitava o choque entre dois lugares repletos de energias diferentes.
-Ah meu Deus! Deusa Shaya! Sou eu, Kaia! Me tire daqui... o que aconteceu comigo?? - ela ignorou o apelo e seguiu em frente.
O tempo parecia se arrastar. Não era possível identificar as horas e os dias. A oscilação de temperatura era constante, assim como a cor do canal. Uma hora completamente vermelho, outrora escuro como um buraco de minhoca. Era isso que o canal parecia, um buraco de minhoca. Muitas vezes usado como atalho para aqueles que sabiam como usá-lo, e para os infortunados, só restava vagar sem destino. E mesmo seguindo sempre em frente, nunca se chega a lugar algum. O som da quarta trombeta reverberou e ecoou pelas paredes do canal, voltando como eco. Shaya tapou os ouvidos. O som não tinha como sair, então elas se puseram a andar mais depressa. Ela sabia que ele se aproximava. Seu olhar vigilante era mantido constantemente sobre a irmã. Solária estava tranquila demais e quase não falava muito. Seu olhar estava vago, parecia estar pensando em como iriam deter um arcanjo, ou estava revendo sua decisão para com Shaya. Iria mesmo se sacrificar pelo perdão?
Mais duas trombetas foram soadas, o que era estranho, pois somente uma era tocada para anunciar mais um dia da aproximação. Elas souberam que era a hora. Asas prateadas e de aço surgiram. Sua armadura imponente não tinha brilho, assim como seus olhos. Miguel não demonstrou reação de surpresa ao avistar as duas Deusas. Ele pousou. Seu rosto mostrava uma expressão dura. Ele caminhou lentamente até elas, fazendo uma leve reverência. Enganou-se Shaya ao pensar que ele faria um ataque direto, mas o arcanjo não fez nenhuma menção de atacá-las. Ele olhava com curiosidade para a Deusa de Tenebris, talvez indagando o que ela estaria fazendo ali. Ele não pensou que fosse sério os boatos sobre o envolvimento da outra dimensão contra a sua. Solária suava frio, sentia-se em uma encruzilhada. Ela sabia o peso de trair a irmã, pois já fizera isso antes, mas ainda não tinha conhecimento do peso de trair um arcanjo. Olhando para o chão, ela não conseguiu fitá-lo.
-Fico fascinado ao ver pessoalmente a Deusa Sombria - disse ele. - Posso ter o prazer de me apresentar?
- Não será necessário, eu sei quem você é - sibilou Shaya. - Por que perde seu tempo com essas cortesias se vai tentar nos matar?
- Matá-las? Mas vocês já não morreram? - ele riu. - Suas excelentes linhagens a fizeram Deusas importantes para nós. Eu sinto muito por você Deusa Shaya, ficar ao lado daquelas escórias de Tenebris não deve ser fácil. Agora você Solária, o que faz perdida no parallel?
Ele sabia o que elas estavam fazendo ali, queria apenas testar a lealdade da Deusa aliada. Aquele também foi um bom momento para Shaya testar a lealdade da irmã.
-Eu... eu.. - gaguejou Solária, erguendo o rosto. - Eu vim detê-lo meu Senhor.
- Ah, foi com eu pensei...
Solária foi arremessada para longe com um tapa no rosto. O arcanjo se movimentava como na velocidade da luz. Rapidamente Shaya também estava no chão. O olhar frio que ele direcionava para elas mostrava que aquilo era o fim. Ele caminhou até Solária e a ergueu nos braços. A Deusa estava imóvel, o ataque a paralisara completamente. Olhando com imensa tristeza para ela, Miguel voltou a colocá-la no chão e ficou ao seu lado. Ele olhava tristemente para ela, que sentia como se veneno tivesse sido injetado em suas veias.
- Vai mesmo continuar com isso? Quer mesmo que eu destrua você? - sussurrou. - Sabe que é muito importante para mim, seu trabalho sempre me foi muito útil...
- Eu quero apenas que ela me perdoe Miguel... - arquejou ela. - Quando ela me perdoar, pode fazer o que quiser comigo.
- Eu sinto muito - disse ele, e suas lágrimas caíam no rosto de Solária. - Eu sinto muito, minha irmã.
Mais uma trombeta foi soada. Miguel olhou assustado para todos os lados. Trombetas eram tocadas apenas quando arcanjos iniciavam alguma queda. Tudo tremeu e ficou frio. O canal mudou de vermelho para azul. Então ele soube. Azul era considerada a cor da tranquilidade para os arcanjos, e a paz entre os homens derivava de um guerreiro bondoso. O amigo dos homens finalmente tomou conhecimento da insanidade do irmão. Miguel ergueu-se e viu seu irmão caminhar até eles com majestosa imponência. Duas enormes metralhadoras pendiam nos braços de Samuel. Suas asas agora ausentes pela afronta, às armas humanas foram sua única saída em um tempo tão curto. Ele sentia uma imensa tristeza ao se deparar com o irmão naquela situação, tão cheio de ódio. Sentir a tristeza de Samuel o deixou triste. Miguel se aproximou rapidamente do irmão para tentar confortá-lo.
-Irmão, suas asas... onde estão? - indagou.
- Eu não sei. Você sempre as prezou, não e? Quando entrei no canal elas sumiram. Será castigo?
- Sim, você sabe que é. Isso é o resultado por desafiá-lo - Miguel colocou a mão sobre o rosto do irmão. - Suas asas o ajudariam bastante agora.
- Não sentir o fardo delas é um alívio - Samuel fitou intensamente os olhos de Miguel. - Um novo dilúvio não é a solução.
- Você sabe que não terá outro jeito. Está tudo acabado, Ele perdeu a fé nos homens - ele segurou as mãos de Samuel e as beijou. - Por que não se junta a mim?
- Eu sinto que não é isso o que Ele quer. Miguel, meu querido irmão, já parou para pensar que isso pode não passar de um teste?
- Sabe que da última vez que o Trono perdeu a fé nos homens, Ele mandou o dilúvio. Agora Ele nos envia para exterminar esse mau. Lute comigo, e acabará morrendo como um deles.
- Tão ansioso para fazer o que acha ser certo...
- Diferente de você - ele empurrou Samuel. - Terá uma morte indigna.
Miguel arqueou suas enormes asas a avançou para o inimigo. Magro e ágil, Samuel desviou da espada do irmão com um pulo. Ele imediatamente ergueu suas duas metralhadoras e abriu fogo. Fechando as asas em volta do próprio corpo, ele girou e ricocheteou as balas.
-Usa tais armas mundanas contra o próprio irmão? - gritou Miguel. - Está ficando mais difícil crer que você ainda é um de nós!
Samuel nada falou, e voltou a abrir fogo. Miguel correu para ele e quase o acertou com sua maça, que se expandiu com espinhos. Shaya observava tudo do chão. Esperava uma oportunidade para ajudar o amigo dos homens. Um soco no queixo fez Samuel largar as armas, e mais outra sequência de socos com punhos de metal o fez cair. Miguel tentou acertá-lo com a maça, mas o irmão rolou rapidamente para o lado e recuperou o equilíbrio, impulsionando o corpo com os braços e girando as pernas, acertando o peito de Miguel com dois chutes fortes. Miguel levantou voo com o impulso forte e gritou de raiva pelo combate estar se prolongado mais do que o previsto. Samuel apanhou uma de suas armas do chão e arremessou para longe, conseguindo distrair o irmão. A oportunidade de Shaya veio quando Miguel pousou, mas seu irmão jogou-se em cima de suas costas e agarrou seu pescoço. Ficando sufocado, Miguel sobrevoou até a parte de cima do canal e chocou-se com ele. Samuel arquejou, mas não desistiu e continuou tentando desmaiar o irmão. Ele não queria a morte de ninguém.
-Vai ficar tudo bem... - sussurrou para Miguel.
Em seu desespero, Miguel colocou a maça no peito e ativou seu dispositivo. Transformando-se em lança, a arma atravessou seu peito e o abdômen de Samuel. Shaya viu com horror quando o arcanjo aliado caiu no chão em profunda agonia. Miguel olhava para o irmão. Lágrimas escorriam pelo seu rosto.
-Desejou conviver com eles, agora morrerá como um deles - murmurou.
Ele deixou sua lança cair e virou-se. Não suportaria ver o irmão agonizar. Quando Shaya viu a mão de Samuel deslizar para a lança, ela lançou suas correntes nas pernas de Miguel e o derrubou. Surpreendido com o ataque, ele caiu e imediatamente procurou por sua arma. Quando olhou para cima, viu que o irmão a empunhava, e estava apontada para seu coração.
- Vai mesmo continuar com isso? Não é á toa que o chamam de amigo dos homens, você prefere duelar comigo e me matar do que lavar Statera desse mau. Essa escória humana! Mate-me logo Samuel, eu estou envergonhado por perder.
- Não, meu irmão. Você voltará para o Trono, e lá vai se redimir diante dEle...
-MATE-ME! - esbravejou, reconhecendo que havia perdido. - MATE-ME LOGO SAMUEL! QUANDO EU MORRER E TUDO O QUE EU PRETENDIA FAZER NÃO FOR CONCLUÍDO, SABERÁ QUE EU ESTAVA CERTO QUANDO SEU REAL CASTIGO VIER!
- Não, meu irmão. Eu não o matarei. Ele me criou para ser misericordioso...
- Eu não teria toda essa clemência por você - sibilou.
- Eu sei. Você deu para Ele o que Ele pediu, eu dei o que Ele precisava.
Irado pelo fracasso, Miguel agarrou a lança e fincou no próprio peito.
- Achou mesmo que eu voltaria para o Trono depois disso? A vergonha me consome... - ele sentiu a dormência invadi seu corpo. - Diga para Soren... eu o amo... e Ishtar...
Lágrimas escorriam por seu rosto. Repleto de dor e tristeza, Samuel abriu um portal rapidamente, mas a explosão de Miguel foi mediata. As Deusas foram arremessadas contra as paredes do portal e sentiram a pele queimar. Samuel as agarrou e elas foram empurradas para dentro do portal. Olhando uma última vez para a poeira que um dia fora seu majestoso irmão, ele fechou o portal.
-Vocês devem voltar para Statera e dar notícias para o filho de Lúcifer. Está tudo bem agora, Miguel não teve tempo de aprender com seus erros, estamos em tempo de provações. Solária, não temos mais necessidade sua em Lumen, está livre para ficar onde quiser - antes que ela pudesse protestar, ele continuou rapidamente. - E Shaya, você provou ser uma entidade boa, será bem-vinda para ocupar um posto ao meu lado em Lumen...
- Tenebris é minha casa, governarei ao lado de Will - interrompeu ela. - Solária ficará conosco.
- Muito bem, que assim seja. Tudo terminou. As almas agora não serão mais selecionadas pela descendência. Vocês são o maior exemplo de que isso não funcionou. Agora vão, a cada minuto que passam aqui pode equivaler a um dia.
- Obrigado Samuel, e sentimos muito - o portal foi aberto, elas retornaram para Statera.
As Deusas caíram no chão. Ainda sentia a pele arder, a poeira do arcanjo parecia ácido. Daniel correu para ajudar Shaya, e sequer olhou para Solária. Ela não entendeu o comportamento do amigo, e foi ignorada constantemente por ele. A irmã estava sob os cuidados de Grendel, e não voltou a falar sobre sua morte.
Já um pouco recuperada da poeira, ela esgueirou-se até os corredores da mansão. As sombras que as tochas lançavam contra as paredes bruxuleavam, formando figuras grotescas. Ela vestia um dos vestidos da irmã, e agora possuía finas correntes nos tornozelos. O vestido negro ajustou-se perfeitamente em seu corpo esguio. O véu negro descia até sua perna branca. Ela prendeu seus longos cabelos com uma flecha estelar. Nunca estivera tão feliz. O seu perdão foi concedido e junto com ele, a chance de recomeçar. A dimensão que um dia teve tanta aversão agora era sua amada casa.
Solária estava decidida a resgatar seu melhor amigo. Ela vestiu-se da melhor forma e seguiu até onde sentia o cheiro de Daniel. Tudo parecia estar conspirando para dar certo. O vento agitou seu vestido quando alcançou o campo. Avistando uma fogueira ao longe, ela correu até onde ele estava. O sorriso em seu rosto morreu quando o viu com a pequena Ishtar nos braços. Seu coração apertou quando viu o beijo. Não quis chorar, mas o nó em sua garganta estava muito apertado. Recuperando a postura, ela suspirou e afugentou as lágrimas e caminhou até eles. Ao vê-la, Daniel imediatamente endureceu o rosto.
-O que significa isso Daniel? - perguntou a Deusa.
- Isso o que? - grunhiu ele.
- Isso - ela apontou para eles. - Esse beijo, essa garota.
- Eu tenho um nome - disse Ishtar. - E só para você saber, nós somos namorados agora.
- O que? Daniel! E como nós ficamos?
- Nós? - ele levantou e foi até ela. - Nunca existiu essa de nós! Você me traiu Solária...
- Não! Eu nunca te trai - ela abraçou o querubim, mas ele a empurrou. - Eu só não te disse a verdade sobre meu passado!
- É a mesma coisa, você é um monstro. Fique longe de mim e de Ishtar. Agradeço a Samuel por tê-la banido de Lumen, pois eu odiaria ter que ver essa sua cara falsa. Vou embora com Ishtar para Lumen esta noite, e nunca mais volte a me procurar.
- Shaya e Will me perdoaram - choramingou ela.
- Mas eu não...
- Então vai ser assim? Vai mesmo me querer longe de você? - ela lançou para ele um olhar suplicante e cheio de lágrimas. - Por favor Daniel, me perdoe.
- Vá embora - ele virou-se e foi até Ishtar, segurando sua mão. - Vamos sair daqui.
- Ishtar! - chamou Solária, soltando os cabelos. - Venha comigo.
O arcanjo olhou para o ombro e viu a flecha fincada nele. O desespero não veio, muito menos a tristeza. Somente a ira. Ela correu até Solária, que aceitou o arcanjo de braços abertos.
-VOCÊ VEM COMIGO, SUA VADIA! - gritou Ishtar.
Daniel somente compreendeu o que havia ocorrido quando viu Ishtar sobrevoar com Solária e uma enorme explosão iluminou o céu. Ele caiu de joelhos, incrédulo. A poeira de Ishtar caia sobre seu rosto e mesclava-se com suas lágrimas. O corpo de Solária fez um baque feio contra o chão. Ele ficou imóvel, não queria tocá-la, queria deixá-la morrer. Shaya e Grendel vieram correndo da mansão. Shaya foi até a irmã e a colocou nos braços. Solária tentava em vão falar algo. O rosto coberto por poeira também estava se desfazendo.
-Shh - chiou Shaya. - Apenas durma.
Solária desvaneceu em pó, que escorreu entre os dedos da irmã e foi levado pelo vento.
Meses mais tarde
A batalha finalmente estava totalmente encerrada. A paz podia ser sentida ao longe. Os serafins burocratas não venceram a guerra contra o Sr. Morte. Os exilados continuaram livres por Statera e estavam protegidos usando o anel negro. Enquanto ao arcanjo aliado, ele assumiu o posto de Miguel e agora governava a dimensão de Lumen. Daniel foi ouvido pelo Trono, e sua posição como capitão das forças angelicais de Lumen foi concedida. Os Deuses da Morte agora governavam juntos e tinham como maior objetivo tentar resgatar alguns infelizes que vagavam no parallel.
Notícias foram enviadas para Statera. O conselho de Lumen resolveu intervir na presença de mortais nas duas dimensões, e que os cristais fossem recolhidos e destruídos. Agora tudo estava definitivamente separado. As almas não mais eram julgadas por sua descendência, e sim por suas decisões e atitudes na vida como mortal. O último descendente de Miguel negou-se a voltar para Lumen. Com a perda da irmã e do melhor amigo, ele decidiu refugiar-se em Statera, em um lugar onde ninguém poderia achá-lo. Obrigado por ter se tornado a pessoa em que mais amei quando estive vivo. Eu amo você Soren, e parti sabendo que todas as coisas me deixaram, menos a certeza de sua bondade. Meu amor por você não morreu comigo. Cuide-se. Essa era a mensagem gravada no colar por Uziel antes de morrer. Soren olhou para cima e sorriu, pois sabia que a maldita guerra tirou quem ele mais amava, mas também libertou muitos de seus irmãos.
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