86| Não Ignore
SORA
Vazio. Era isso o que eu sentia. Eu sabia que estava dentro de um sonho, pois havia muitas portas ao longo do corredor que eu me encontrava. Um vento soturno varreu algumas folhas para meus pés, e tive a impressão de que alguém se aproximava. Outra vez o vento, e dessa vez um sussurro veio com ele. "Você tem que procurar para encontrar". Foi o que eu ouvi. Parecia a voz de Dandy, sempre falando em enigmas. Minhas mãos suaram frio quando as paredes pintadas de branco começaram a descascar e ficarem vermelhas. Comecei a andar com pressa, não correr, pois sabia que algo estava à espreita pronto para me atacar sob qualquer movimento suspeito. Após dar várias voltas e sempre voltar para o mesmo lugar, resolvi que a saída para aquele lugar horrendo estava em alguma daquelas portas.
O primeiro quarto mais parecia o salão principal da mansão de Grendel, mas estava completamente vazio, exceto por um caderno branco que flutuava acima de uma pequena nuvem. Olhei curiosa para ele e ponderei se deveria tocá-lo. Por fim, a minha curiosidade não me deixou escolhas. Me aproximei com cautela e agarrei o caderno, que parou de emitir sua luz quando o toquei. A pequena nuvem também sumiu. Folheei o caderno e vi apenas vários nomes escritos em uma caligrafia perfeita, que se assemelhava com a de Grendel, mas aquilo não poderia ser dele. Encontrei vários nomes de pessoas de todo o mundo. Ao lado dos nomes, havia uma coluna que era preenchida com outro tipo de nome, esses eram estranhos. Descobri que era os nomes dos pais, e um deles era sempre um anjo.
-Oh céus! Acho que esse deve ser o caderno de Solária! - exclamei. - Mas o que ele está fazendo aqui? Será que estou mesmo sonhando?
Incontáveis nomes seguiam-se por todo o caderno. Vi aquilo como uma espécie de purgatório, na qual a Deusa julgava todos. Senti nojo daquele caderno, nojo do que ele podia fazer. Todas aquelas almas eram julgadas apenas por sua descendência, e mesmo as mais perversas, tinham um lugar privilegiado na dimensão "do bem". Joguei o caderno longe e corri para o corredor. Quando fechei a porta, um grande X vermelho surgiu nela e depois enegreceu toda a pintura branca. Engoli em seco e me belisquei, tentando acordar daquele sonho horrível, estava ficando cansada de andar em círculos. O beliscão não surgiu efeito, apenas uma marca avermelhada em minha pele. O vestido branco que eu estava não me protegeu do frio, que logo começou a me deixar mais desconfortável. A porta seguinte era igual a todas as outras.
Adentrei com calma, esse quarto era bem pequeno. As paredes eram amarelas e nelas havia vários porta-retratos. A porta fechou-se com estrondo quando entrei, mas aquilo não me intimidou. Continuei andando até ver que aquelas fotos eram de minha família. Papai sorria em uma delas, em meu aniversário de oito anos. Lágrimas irromperam quando eu menos esperava. Na outra parede, havia fotos de Charlie, Arabela e Kaia. Todos mortos. O que aquilo significava? Aos poucos comecei a entender. Aquela sala mostrava os mortos, aqueles que morreram do início dessa história até agora. Temi olhar para a terceira parede. Virei-me e sufoquei um grito quando vi a foto de Ishtar, Nero, Uziel, Dandy e Blair. Entrei em pânico. Aquilo não poderia ser real. Antes de sair apressadamente, olhei de soslaio e vi que também havia uma foto de Neil.
O mesmo aconteceu com essa porta. O X anunciava que ela estava eliminada. Novamente as paredes começaram a se descascar, era como um relógio, anunciando que meu tempo estava esgotando-se. Corri para a próxima porta. O quarto estava escuro. Esbarrei em algo enquanto andava, tateei o chão em busca do que havia chutado e acabei encontrando uma lanterna. Parecia ser um quarto de crianças. Olhei para o teto e nele havia uma pintura de Tenebris, a outra metade era Lumen. Pulei para trás quando a luz da lanterna bateu em dois meninos que se abraçavam acuados. Rapidamente tateei a parede em busca de um interruptor. Quando finalmente consegui, vi que eram realmente dois garotinhos de cabelos negros. Eles me olhavam assustados. Tentei me aproximar com calma, e um deles escondeu o rosto entre os braços do outro. Me ajoelhei ao lado deles, consegui uma aproximação amigável.
-Olá... - falei para o garoto que me olhava. - Como se chama?
- Salieri - falou. - Meu irmão se chama Seimei. Agora é sua vez de dizer seu nome.
- Sora Bloom, é um prazer conhecê-los. O que fazem sozinhos por aqui? - indaguei, o garoto Seimei ainda continuava acuado.
- Nossa mãe não está em casa, Seimei sempre fica assim quando ela sai, ele é muito dependente dela - ele parecia maduro demais para a idade. - Mas eu cuido dele.
- Isso é ótimo, mas onde está seu pai? - embora soubesse que aquilo era um sonho, fiquei curiosa.
Salieri baixou a cabeça e fitou o vazio por alguns instantes, parecia catatônico.
-Papai está morto, nunca o conhecemos - ele voltou a me olhar, dessa vez seus olhos pareciam tristes. - Nosso titio é como um pai, você se parece com titia, têm os mesmos olhos azuis, mas ela não possui essas tatuagens nos braços.
- Ah, como é o nome da sua mãe? - indaguei.
Antes que ele pudesse responder, fui arrastada para fora. Nada me puxava, era apenas a força do vento. Olhei para Salieri e ele me estendia à mão, mas era tarde demais. A porta fechou-se estrondosamente. Aquela foi à única vez que tentei reabrir, mas ela foi sumindo aos poucos. Fiquei frustrada e zangada. Minha curiosidade era poderosa, e eu precisava saber quem eram aqueles garotos e por que eles estavam ali. Corri para o próximo quarto, peguei a maçaneta e me preparei para abrir quando fui impedida por uma flecha que passou raspando em minha mão.
-Ah! - pigarrei, vendo o sangue escorrer.
- Não entraria em todas essas portas se eu fosse você - olhei para trás e vi a mim mesma, mas meus cabelos estavam loiros. - O mesmo aconteceu comigo uma vez, e eu vi apenas o que não deveria.
Levei o ferimento à boca e senti o gosto metalizado do sangue invadir meu paladar. Olhei para a garota e analisei cada detalhe seu. Ela segurava uma besta e usava uma saia de couro em conjunto com uma blusa de lã branca. Era linda. Seu olhar de reprovação recaiu sobre mim, e ela caminhou até ficarmos a centímetros uma da outra.
-Eu me chamo Ellai di Caterina, e você deve ser Sora - ela sorriu. - Todas essas portas que você entrou, elas significam algo, não ignore o que viu.
- Ellai, então finalmente a conheci. O que você está fazendo aqui?
- Estou indo embora, finalmente esse pesadelo vai acabar. Antes de ir, quero que saiba que sinto muito por todo o sofrimento que eu causei para você. Eu realmente não queria matar sua família, mas minha vida foi interrompida de uma maneira tão estranha, que eu acordei sem saber onde estava e quem eram aquelas pessoas. Meu primeiro instinto foi me defender, é claro...
- Eu não quero saber - chorei. - Eu não preciso saber dos detalhes.
- Preciso que me perdoe - pediu.
- Eu a perdoo Ellai, agora quero que vá embora e nunca mais volte a surgir dentro de mim. Nós não compartilhamos a mesma alma a partir de agora. Vá embora.
Olhar para ela me magoava muito, pois por anos sofri com acusações de um crime que não tinha consciência de ter cometido ou não. Ela os matou para se defender, mas usara o meu corpo, então a culpa também recaia sobre de mim de alguma forma. Nunca iria deixar de me sentir culpada pela morte deles, aquilo seria um fardo que eu teria que carregar pelo resto dos anos. Ela fez uma reverência e caminhou para além do corredor, onde logo se tornou um borrão e sumiu. Desabei no chão e chorei. Queria acordar daquele pesadelo. O conselho de Ellai de nada me serviu, pois eu continuei a entrar em todos os quartos, e em cada um deles, encontrava uma surpresa diferente. Os garotos ainda não tinham saído da minha cabeça, muitas vezes tive esperança de reencontra-los naqueles quartos, mas não havia rastros deles.
Tudo começou a tremer. As pilastras começaram a rachar e cair. Entrei em outro quarto para tentar escapar e me deparei com Shaya e Solária presas em um tronco de árvore sem folhas. Elas estavam abraçadas e acorrentadas com pesadas correntes negras. Mesmo de olhos fechados, lágrimas rolavam pelo rosto de cada uma. Na testa de Solária, estava escrito "perdão", e na testa de Shaya, "relutância". Tudo se encaixava, uma desejava o perdão, e a outra relutava em oferecê-lo. Nada tinha para fazer naquele lugar, saí do quarto e encontrei Dandy vagando pelo corredor.
-Algo ruim vai acontecer minha celeste, e você precisa ser forte - seu olhar estava vazio e triste.
- O que você quer dizer? Que lugar é esse Dandy? - ele continuava a vagar sem rumo, até que olhou para mim e me lançou um sorriso triste.
- Você precisa ser forte. Não ignore o que viu - repetiu, e me dando às costas, seguiu adiante e sumiu.
Comecei a correr quando um nevoeiro pairou sobre o lugar, a névoa era densa e gelada. Não consegui correr muito longe quando fui atingida por ele. Ficou tudo branco. De repente me senti como se estivesse flutuando, meus pés tornaram-se dormentes. Corri com mais velocidade. Não consegui distinguir para onde estava indo, somente após sentir que algo rasgava meus braços foi que percebi que talvez estivesse em uma floresta. Cada passo tornava-se mais doloroso, logo vi que meu braço estava repleto de arranhões e sangue. O som de piano me chamou a atenção, parei de correr para onde os espinhos estavam me levando e segui a melodia. De repente pareci estar pisando em flores, adentrei em uma clareira quase fechada por árvores. A melodia vinha de um piano grande e branco. Quando me aproximei vi que era Grendel quem tocava. Seus dedos grandes e finos traçavam uma melodia linda e assustadora.
-Grendel? - ele parecia não me ouvir, e continuou a tocar deliciosamente bem.
De repente a melodia ficou mais agitada e grave. Olhei assustada para os lados, tudo parecia girar e somente a música de Grendel tocava.
-Você não deveria estar aqui? O que pensa que está fazendo? - ele perguntou enquanto continuava a tocar, aumentando a velocidade dos dedos.
- Eu não sei! Me leve embora, eu vi muitas coisas estranhas e não sei que lugar é esse, estou ferida... QUER PARAR COM A DROGA DESSA MÚSICA!? - gritei.
Ele me olhou sério. A melodia cessou.
-O que quer Sora Bloom? Já não foi o bastante cessar minha música?
- Eu quero que me explique o que estou fazendo aqui. Sei que isso tudo é um sonho, mas eu quero acordar - declarei.
Ele levantou de repente. Agarrou minha cintura e me jogou em cima do piano. Minhas costas doeram, e não entendi aquele ataque repentino. Ele logo subiu no piano e ficou por cima de mim, me prendendo com o seu peso. Nossos narizes encostaram-se e nossa respiração mesclou-se. Fiquei ansiosa, ele estava muito próximo.
-Eu comecei a te amar desde que você tinha sete anos - ele soltou uma risada nervosa. - Pode parecer estranho, mas eu já te amava profundamente, mesmo que você só tivesse sete anos.
- Eu sempre fui muito irresistível mesmo - brinquei para aliviar a tensão.
- Engraçadinha. No seu aniversário de onze anos, eu dormi com você uma noite inteira. Você se agarrou a mim como se fosse um travesseiro. Já nos conhecíamos, é claro, e eu era seu melhor amigo e bicho-papão - ele voltou a rir. - Torci para seu pai não subir ao seu quarto naquela noite, pois eu não queria largá-la, e nem você a mim. Quando as horas passaram-se e ele não subiu, senti-me aliviado para fazer o que ansiava há muito.
- E o que você queria?
- Você acordou confusa, e na manhã seguinte contou para o seu pai que havia beijado um garoto pela primeira vez, e ele apenas riu e disse que tudo não passou de um sonho.
- Ah, não - gargalhei. - Não acredito que foi você! Por que só estou lembrando agora? Você mesmo deletou tudo sobre você da minha mente. Como teve coragem? Eu era uma criança.
- Qual é! Eu me sentia desesperado! Você estava ali em meus braços e dormia tão tranquilamente, tão linda. Eu não resisti. Foi só um beijinho, e você deixou que eu continuasse quando acordou. Tenho certeza de que também me amava, hoje isso parece tão surreal, me sinto um pouco culpado por ter confundido minhas obrigações com o amor, mas sou fraco quando o assunto trata-se de Shaya.
- Eu te acho muito fofinho quando fala dela - caçoei.
- Certo. Sabe o que significa tudo isso aqui? Esse lugar? - ele rolou para o lado, me deixando livre para sentar.
- Peço que me explique.
- Isso é uma espécie de presságio - explicou. - Não ignore o que viu.
- Eu vi gêmeos, dois garotinhos. Seimei e Salieri, quero saber o quem são...
- Você saberá, mas não agora. Acho que está na hora de acordar, Lieff está ficando muito preocupado.
- Mas...
- Acorde - sua voz grave invadiu meus pensamentos, e eu fui jogada para longe.
Estava toda dormente, eu parecia ter passado de uma dimensão para outra. Sentei quando senti o sono querer me dominar novamente, e eu não desejava voltar para aquele sonho terrível. O que vi ainda me atormentava. Não ignore o que viu. Todos que vi me disseram aquilo, e eu realmente não poderia ignorar. Todos aqueles quadros eram o que mais me atormentava, e os gêmeos, quem seriam?
-Está tudo bem? - Li me assustou quando entrou de repente. - Eu trouxe más notícias.
- Li? Más notícias? Eu já tenho várias que ainda não aconteceram.
- Eu falo de Neil, ele adentrou Tenebris com outros anjos e acho que não vai faltar muito para que eles nos encontrem - ele sentou ao meu lado. - O que você estava sonhando? Não parava de grunhir.
- Muitas coisas, todas horríveis. Preciso falar com Dandy. Por que eu dormi?
- Você teve mais um surto, Shaya eliminou Ellai, você está completamente livre dela - lembrei da nossa despedida, então ela realmente se foi. - Ei, tudo bem?
- Sim, estou bem - ele me aninhou em seus braços. - Eu sonhei que nossos amigos estavam mortos.
- Isso não vai acontecer, por que somos todos fortes - quando o beijei, me senti mais segura. - Se possível, eu morrerei novamente para te proteger.
- Não fale isso - grunhi. - Ninguém aqui vai morrer se eu puder evitar.
O barulho ensurdecedor voltou a reverberar por todo lugar, e novamente tudo começou a tremer. Rapidamente desci com Lieff, e me deparei com o salão principal vazio, exceto por Nero, que estava sentado e sozinho. Senti pena. Li me contou sobre sua briga com Lili, e ela ainda recusava contar para todos o que estava acontecendo. Encontramos o grupo recém chegados de Statera reunidos no chão da varanda. Era incrível como eles podiam se sentir tão seguros enquanto Neil a qualquer momento podia nos encontrar. As apresentações finalmente foram feitas, e eu simplesmente amei Ishtar. O arcanjo era elétrico e não parecia de modo algum ser uma celeste, pois seus modos eram semelhantes com os dos mortais. Me recostei no peito de Li quando sentamos, e eles estavam discutindo algo interessante.
-Será que você pode admitir logo que gosta do meu irmão? - Ishtar perguntou para Uziel, que parecia estar passando mal. - Diga logo! Qual o problema?
- Eu ainda não entendi a sua implicância comigo! - rebateu ele. - Por que insiste nisso?
- Sou muito sensitiva, e sei que você ama ele. Olha só! Está praticamente agarrado com ele!
E realmente estavam. Soren já estava totalmente curado das feridas que não cheguei a ver. Uziel o afastou com um leve empurrão ao ouvir o comentário do arcanjo e enrubesceu mais ainda. Era impossível não rir daquela situação. Ele estava enrascado.
- Eu gosto de você Uziel, e ficaria felicíssima se vocês namorassem. De verdade, ficam muito fofos juntos. Não concorda Daniel? - ele hesitou em responder. - Hein?
- Humm... - Ishtar olhou duro para ele, e ri quando ele concordou forçadamente. - É.
- É o que? - sibilou ela.
Daniel coçou a cabeça e olhou para o lado, depois falou de uma forma arrastada e enrolada.
- Ficam lindos juntos - era óbvio que ele estava tentando não deixar os amigos sem graça.
- Viu só? Estamos em tempos difíceis Uziel. A guerra já cavou nossas covas, e Neil já entrou nessa dimensão e falta pouco para eles nos achar. Então, se eu fosse você, eu viveria o que tinha para viver enquanto ainda pode - ela sorriu maliciosamente. - Declare-se logo!
- Já disse que ele é só meu amigo - grunhiu.
- Vejo que ainda está resistindo, tudo bem - ela olhou para Soren. - Quer saber como ele fica quando chega perto de você?
- Quero, seria ótimo - ele riu, e não se intimidou com o olhar duro do amigo.
- Ah, ele fica tão nervoso! Seus sentimentos agora são tão profundos que já não se sente confuso em relação a você. E tem mais, ele te beijou enquanto você dormia. Estou certa, por que consigo saber o que cada um aqui sente. Por que acha que controlo tão bem o meu cachorro? Eu sei o que ele sente...
- Acho que já chega - Daniel tapou a boca de Ishtar, mas ela o mordeu. - AH!
- Ainda não terminei! Beija ele Uziel...
- O que? Acho que vou...
- Beijá-lo? Por favor, faz isso! - ela voltou a sentar ao lado de Daniel e começou a bater palmas. - Beija! Beija! Beija! Beija!
Era óbvio que eles se gostavam, então também tratei de bater palmas e me juntei ao coro. Uziel estava escarlate e escondeu o rosto entre as mãos. Soren continuou tranquilo onde estava. Não desistimos e continuamos a persuadi-lo.
-Por que não está me ajudando? - sibilou ela para Daniel.
- Por que não - ele grunhiu.
- BATE PALMA AGORA! - ralhou, e ele imediatamente começou a bater palmas. - Beija! Beija! Beija! Beija! Beija! Beija!
- Ah vem logo aqui - Uziel nos surpreendeu quando puxou Soren pela gola da blusa e o beijou.
- AHHHH! EU CONSEGUI! - berrou o arcanjo.
No início achei que o beijo foi forçado, mas depois ele relaxou e vi o quanto ele gostou daquilo. Ishtar tinha um poder de persuasão incrível. O frio nos abateu quando menos esperávamos. De repente anjos começaram a cair, e o baque formava imensos buracos no chão. Levantamos rapidamente e entramos na mansão. Nero juntou-se a nós. Enquanto caminhávamos, comecei a ouvir zunidos. Pareciam abelhas. Logo tudo se tornou mais ruidoso. A porta principal foi arremessada para longe, Li me segurou e logo me colocou para trás, mas pude ver anjos adentrando o salão. Ficamos parados no meio da escada, enquanto eles olhavam admirados para o lugar. O anjo que presumi ser o líder possuía uma asa que parecia artificial. Ele nos avistou e sorriu, mas era evidente que não era um sorriso nada amigável. Seus olhos cinza eram frios e mostravam divertimento.
-Aquele é Hazael, líder das tropas celestes - sussurrou Nero. - Sua asa foi arrancada por Soren, em seu último combate. Vamos ter que ir com calma, ele me aparenta ser bem perigoso.
- Ora, ora! Finalmente me reencontrei com as duas criaturas que mais desprezo nesse mundo! - ele direcionou seu olhar para Uziel e Soren. - Mas o que foi aquilo? Um beijo entre dois homens? Isso é repugnante, inadmissível!
- Sabe o que eu acho inadmissível? Um querubim como você possuir apenas uma asa - rebateu Soren.
- Eu vou matá-lo dessa vez Hazael, não estamos mais em Lumen - sibilou Uziel.
Hazael pareceu hesitar e preferiu não falar nada. Percebi que Ishtar e Daniel não haviam entrado, nem alguns outros anjos que haviam chegado. Meu bolso esquentou e imediatamente soube o que era. Desenrolei o pergaminho e vi a mensagem de Grendel.
" Dandy e Blair estão comigo, estamos massacrando alguns anjos que conseguiram adentrar. Ainda não temos sinal de Neil, cuidado com Hazael, ele só parece perigoso, mas é um idiota. Tomem bastante cuidado, e destruam todos eles".
Um anjo grandalhão voou em nossa direção e foi impedido por Nero, que lançou suas correntes e o arremessou para o chão. Ishtar adentrou o salão junto com Daniel, ela exibia um sorriso triunfante. Carregava consigo a cabeça de dois anjos. Era uma coisa horrível de se ver. Ela jogou as duas cabeças para outros dois anjos que estavam presente.
-NÃO! - gritou Hazael quando eles seguraram as cabeças por instinto. - SEUS TOLOS!
Já era tarde demais quando eles explodiram. Protegi meu rosto contra o sangue que jorrou para todo lado.
-Ishtar! Volte comigo, seu pai implora para que volte! - ele andou até ela, mas parou quando Daniel apontou seu arco e flecha para ele. - Querubim imundo!
- Eu sei que eu sou o seu grande prêmio se conseguir parar com a rebelião, mas eu nunca amei você, ao contrário, tenho nojo - ela levantou os braços e se espreguiçou. - Já tenho um guerreiro que amo, ele se chama Daniel.
- Isso é sério? - Daniel soltou uma risada nervosa.
- Sim, idiota.
- Então é assim que vai ser Ishtar? - ele retirou sua espada das costas. - Vamos levar essa briga um pouco a sério?
- Está bem - Daniel acertou um anjo distraído e ele explodiu. - Que os jogos comecem.
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