74| A Volta de Ellai

SORA

Por um momento eu estava ali, e depois simplesmente quase deixei de existir. Foi como uma possessão. O choque entre duas personalidades foi uma surpresa, mas também uma carga muito alta para a minha alma. Desmaiar foi uma saída que meu corpo encontrou para aliviar a tensão, acho que essa minha teoria estava correta. Um corpo não pode jamais abrigar duas almas. Nem mesmo eu, sendo filha de duas Deusas, possuía duas almas. Era somente uma, um fragmento de cada. Mesmo mantendo meu segredo longe de todos o medo já começava a me fazer recuar, mas já não havia mais volta. Estava feito. Não contei para Nero, muito menos para os gêmeos. Em minha última visita em Tenebris, pedi para Grendel me devolver às lembranças de Ellai. Mesmo me advertindo sobre os riscos, eu não lhe dei atenção. Agora as lembranças começariam a vir, só não sabia que ela também voltaria.

- Pode ser perigoso - advertiu-me. - Vai mesmo arriscar?

- Preciso fazer isso, me sinto incompleta - ele me olhou com descrença. - O que foi?

- Se sente incompleta por que só possuí um fragmento, mas depois você se acostuma - Grendel tinha uma maneira muito simples de consertar as coisas, mas eu sempre as complicava. - Vai ficar tudo bem, basta esperar.

-Não quero esperar Grendel, quero minhas lembranças de volta. Vocês as tiraram de mim, tenho o direito de tê-las de volta - pigarreei.

- Essas lembranças não são suas, são de Ellai.

- São minhas - grunhi.

- Certo. Você não vai me escutar mesmo, quer mesmo isso? - ele aproximou-se de mim e tocou minha testa com o dedo. - Pronta?

- Sim. Traga-as de volta.

Não sei o que aconteceu depois, por que eu acordei em Statera. E aqui estou eu, em uma confusão de ¹alter egos total. Ainda era possível ouvir o barulho da tempestade, então acho que não fiquei desacordada por muito tempo, mas as tempestades em Blizzard duravam semanas. Estava um pouco zonza quando comecei a abrir os olhos lentamente. Um cheiro delicioso de chocolate invadiu minhas narinas. Estava meio escuro mesmo com as cortinas abertas. Olhei para o lado e vi Lieff lendo algo. Não sei o motivo, mas sorri. Acho que era por que ele sempre estava ao meu lado quando eu desmaiava ou tinha algum tipo de colapso. Ele tomava uma xícara de chocolate-quente. O Silêncio dos Inocentes, seu maldito livro favorito.

- Ei - ele sorriu quando me pegou o observando. - Acho que você deve estar com fome.

¹Alter-ego: Um outro "eu", uma outra personalidade de uma mesma pessoa.

Embora estivesse, murmurei que não. Pela primeira vez ele não me acordou perguntando se eu estava bem.

- Está sim - ele se aproximou e ergueu minha cabeça, forçando-me a beber o chocolate. - Está uma delícia!

- Humm... estúpido - grunhi de boca cheia. - Idiota... pare!

Ele gargalhou quando eu o fiz derramar chocolate em seu próprio moletom.

- Ah! Assim não vale - me deixando em paz, ele levantou da cama e removeu o moletom. - Quer que eu prepare alguma coisa para você comer?

Eu queria responder, mas só conseguia olhar para o seu corpo magro. A escritura em seu peito. Suas pernas longas e o cabelo branco. Ele estava lindo de uma forma que eu nunca havia visto antes. Mesmo com todos esses anos de convivência, acho que eu nunca havia realmente parado para observá-lo melhor. Pois bem, ele estava lindo. Uma coisa que sempre gostava nele, seu corpo magro sempre era o mesmo. Mas as pernas longas eram minhas favoritas. Ok, estou falando como uma pervertida, mas não se pode fazer nada quando se tem amigos lindos. Ele estalou os dedos na minha frente, foi quando despertei do meu devaneio.

- Oi? Você ainda está por ai? - Li sentou ao meu lado. - Sora?

- Estou aqui - ri. - Li, até quando pretende ignorar isso?

- Vamos lá - ele me recostou em seu peito. - Ignorar o que?

- As coisas ruins que eu faço com você - segurei sua mão entre a minha. - Eu sou horrível.

- Me conte mais sobre as coisas ruins que você faz comigo.

- Ah, sei lá...

- Se você fala sobre o que vi hoje pela manhã, aquilo não é problema meu. Você pode fazer o que quiser da sua vida. Sou seu melhor amigo e sempre estarei aqui para te ajudar. Sora, você me trouxe de volta para a vida, sempre vou ser grato.

- Então você não fica zangado quando me vê beijando outro cara? - me virei para encará-lo. - É meio difícil de acreditar que não.

- Olha só que convencida. Quer saber se fico com ciúme? - ele ergueu uma sobrancelha.

- Não é bem isso. É que, não sei bem como falar...

- Mas é claro que eu fico. Quando vejo você com outro homem, fico muito furioso. É muito ciúme em jogo, fico me corroendo por dentro...

Comecei a rir.

- Espere, ainda não terminei - ele me puxou para mais perto me colocou em seu abraço apertado. - Quando vejo você com outro homem, saio para bem longe o mais rápido possível e fico com vontade de quebrar tudo. Me mordo com muita força e puxo os cabelos até ficar com dor de cabeça. Ah, e xingo quem estiver mais próximo de mim. É esse o efeito que você causa em mim Sora Bloom. Você me estraga, me deixa derrotado e depressivo. Você é a pior, muito pior que qualquer droga. Mas o pior de tudo é que eu te amo.

- Que cruel - apoiei minha cabeça em seu peito. - Não sei quem é o mais cruel dessa história.

- Acho que é você - ele riu.

Embora soubesse que ele estava sendo sincero e contou aquilo de forma engraçada, sabia que ele se sentia muito triste às vezes. Lieff sabia controlar suas emoções de uma forma irritante. Bem, o que eu poderia esperar de um estudante de psicologia? Mesmo agora sabendo de seus ataques de ciúmes, me senti muito feliz por saber que causava algum efeito nele.

- Muito bem Sora Bloom, agora que lhe contei sobre minhas crises, acho que você também me deve uma explicação sobre as coisas estranhas que estão acontecendo entre você e Nero.

- Tenho mesmo que contar?

- Deve, e vai ser agora. Estou pronto para ouvir tudo - seu tom transparecia firmeza.

- Mas Li... - ainda tentei argumentar.

- Eu disse agora. Chega de segredos entre nós.

- Quero me deitar, vou me sentir mais confortável assim - choraminguei.

- Beleza. Também quero deitar - deitamos e ele encostou o peito em minhas costas, passando o braço por mim. - Pode começar, estou aqui para te ouvir.

- Está bem - calafrios me trespassaram quando senti sua respiração em meu pescoço. - Bem, Nero e eu...

Ele entrelaçou nossas mãos. Bem, para ser sincera eu estava me sentindo muito segura naquela posição de conchinha. Li sabia como me deixar segura, eu amava isso nele.

- Me conte do princípio, não precisa ficar nervosa ou com medo. Não vou te julgar, vou entender e aceitar. E seja o que for, tenho certeza de que vou te amar mais ainda, por que você é uma garota incrível.

Meu coração pulou. Ele falou tão perto de mim, fazendo suas palavras terem um sentido mais profundo. Reuni coragem para contar sobre burrada que fiz. Ele não me julgaria.

-Eu descobri como fui criada. Era um cadáver e foram colocados os fragmentos das almas dentro dele, para que ganhasse vida...

Bem, contei tudo que sabia. Desde a minha criação à descoberta de uma vida passada. Ele me ouviu com atenção, sem me interromper uma única vez. Me senti aliviada, um peso imenso havia saído de cima de mim. Mas sabia que ainda não havia acabado. Ele me faria perguntas e eu estava pronta para respondê-las.

- Certo. Posso fazer algumas perguntas? Vou entende se você não quiser responder nada.

- Vá em frente. Não vou esconder nada.

- Nadinha? - ele terminou de preencher o espaço entre nós, colando o corpo no meu. - Prometa.

- Eu prometo, pode confiar em mim - apertei sua mão na minha.

- Pois bem, não vou ser nada evasivo - retirando sua mão da minha, ele começou a fazer um leve carinho em meu ombro. - O que você sente por Nero, é amor?

- Eu não sei... - engoli em seco.

- Então por que vocês se olham como se quisessem devorar um ao outro?

- Bem, acho que Ellai o amava demais. Ele é muito bonito, mas eu sinto que não o amo. Esse amor pertenceu a Ellai... e está vindo à tona por que ela está voltando aos poucos, acho.

- Ótima resposta Sora Bloom - ele parecia contente. - Agora me diga o que sabe sobre essa tal rebelião em Lumen.

- Sobre isso Li, realmente não sei muita coisa, mas acho que algo muito sério está para acontecer. Daniel está planejando algo grande.

- Já pensou em fazer uma visita em Lumen e conversar com Solária? Você está sempre em Tenebris com aquele cara esquisito.

- Sinto que não tenho nenhuma afinidade com ela. Odiei quando Shaya me disse que Solária se disfarçava dela para me visitar nos sonhos e me instigar a fazer coisas ruins. Solária sempre foi muito ausente em minha vida. Acho que a única vez que falei com ela foi quando pedi ajuda em minha briga com Nero.

- Vai mesmo fazer o que Shaya te pediu? Isso me parece arriscado, não quero você correndo mais riscos.

- Tenho um trato com ela. Solária é má e precisa ter o que merece...

- Mas acontece que você não é o Trono para julgar quem vive ou morre Sora. Por favor, me deixe te ajudar a contornar isso.

Virei-me para ele. Fiquei aflita com aquela sua decisão repentina. Nada podia ser feito. Em parte, aceitei fazer o trato com Shaya para tirá-lo de risco. Ela tinha tanto ódio de Solária, que poderia querer destruir o fragmento da irmã também. Lieff era portador do fragmento de Solária, querendo ou não, ele entrou no meio dessa guerra infernal.

- Li, me escute. Fiz o trato para nos livrar um pouco dessa guerra. Não quero ver ninguém te perseguindo ou tentando matá-lo. Isso já aconteceu e eu paguei caro por isso. Perdi Charlie e por pouco você quase desapareceu da minha vida - senti meu queixo tremer. - Você não pode sair da minha vida sem que eu diga que você pode sair.

- Por que? - seu rosto transparecia preocupação, mas também felicidade.

- Por que... eu, é que... - o nó em minha garganta me deixava confusa, borboletas dançavam em meu estômago. - Eu não sei, você me deixa confusa.

- Certo, deu para entender - ele baixou a cabeça, mas deu para ver que ele estava sorrindo.

- Para! - soquei seu peito, sentido meu rosto esquentar.

- O que? Não fiz nada! - ele levantou as mãos em sinal de rendição. - Como você é raivosa, vem aqui.

Li me puxou de volta para seus braços. Estava me sentindo deprimida. Somente ele me deixava raivosa, depressiva e feliz ao mesmo tempo.

- Estou com fome - resmunguei, apertando seu corpo em um abraço.

- Pois bem, você que manda - ele beijou minha testa e levantou. - Vou apenas vestir um moletom e preparar algo para nós. O que quer comer?

- Um sanduiche com bastante aperitivos. Faz um X-Lieff... - não aguentei completar a frase e caí na gargalhada.

- Ah Sora, que droga! Você ainda lembra disso? - observei seu rosto ficar vermelho enquanto vestia seu moletom da Princesa Zelda .- Isso é tão antigo.

- Você ainda é um babacão - resmunguei, limpando o canto dos olhos.

- Tudo bem. Vejo que isso ainda te faz sorrir, para mim já basta. Vou descer.

Ele saiu do quarto e voltei a deitar. Comecei a sentir um pouco de sono. Decidi cochilar enquanto Li fazia nossos sanduíches. Não demorei muito para sentir o sono chegar, já estava em uma espécie de transe. O som da tempestade me ajudou a dormir. Fui puxada por um turbilhão de cores, sabia que estava indo para algum sonho, ou alguma lembrança.

" Papai dirigia com calma, mas todos estavam ansiosos. Mesmo assim, ele dirigia lentamente. Kalinne jogava em seu maldito tablet, o som barulhento já estava me deixando com dor de cabeça. Nem mesmo com a ajuda dos fones de ouvido consegui relaxar.

- Kalinne! Baixa esse som - resmunguei.

A pirralha fez careta para mim e continuou seu joguinho idiota. Meu celular vibrou e vi que uma mensagem de Dandy havia chegado. Achei esquisito, fazia quase um ano que ele não falava comigo, nem mesmo quando me mudei para esse monte de gelo.

Dandy: Hoje o dia está propenso para desastres não acha? Colocou o cinto?

Eu: Não estou entendendo.

Dandy: Minha celeste, boa sorte nessa viagem. Cuide-se.

Eu: Dandy? Não entendo, para de falar em enigmas.

Ele não voltou a me responder. Achei aquilo tudo muito esquisito. Para nossa decepção, uma chuva torrencial começou a cair, o que fez papai ir mais devagar.

- Eu queria tanto chegar mais rápido - resmunguei.

- Isso é para a nossa segurança querida - mamãe me olhou feio através do espelho.

Bufei e resolvi checar se havia colocado tudo na mochila. Minha tinta vermelha para cabelos estava chegando ao fim. Tudo estava certo, até mesmo a faca para me proteger de tarados.

- Passa essa fase Sora! - Kalinne gritou alto perto de mim, odiava aquilo. - Anda, passa!

- Caí fora! - guinchei.

Aquele pequeno acesso de raiva me deixou tonta. De repente eu não estava mais ali.

Acordei com fortes dores na cabeça. Olhei para os lados. Estava em um lugar estranho, algo que se movia. Entrei em pânico. Uma menina estranha segurava algo brilhante nas mãos. Ela me olhou e riu de mim. Estava com muito medo. O que estava fazendo ali?

- Está tudo bem querida? - perguntou uma mulher com roupas estranhas.

Procurei por minha besta, ela não estava ali. Nada do que eu conhecia estava ali, nem mesmo meus vestidos brancos. Olhei para meu colo e vi uma bolsa grande com tecido e outras coisas dentro. Encontrei uma pequena faca e a empunhei na mão.

- Passa essa fase Sora! Como você é chata! - a menina veio para cima de mim com aquele brilho na mão, achei que queria me atacar. - Você está esquisita.

Empurrei a menina com a perna e imprensei seu pescoço com o pé. Ela começou a berrar, foi quando cortei sua garganta. A outra mulher começou a gritar também e tentou vir ajudar a menina, segurei seus cabelos e bati seu rosto em meu joelho. Ela desmaiou e estoquei a faca em seu olho, depois desci para a garganta. De repente tudo começou a ficar agitado. Senti que estava dentro de algo que se movia bastante, como em uma carruagem. Sem dar tempo para o homem gritar ou fazer algo, quebrei seu pescoço e ele também teve o mesmo destino das duas mulheres. Tudo começou a ficar mais agitado. De repente tudo estava girando. Me machuquei. Corpos misturavam-se com várias outras coisas. Me debati contra as paredes daquele lugar, senti que estava caindo. Acordei com muita dor. Senti cheiro de fogo. Vi muito sangue. Estava tudo quebrado.

Me arrastei até a saída, pedaços de vidros estavam enfiados em meus braços. Comecei a chorar. Nunca havia sentido tanto medo em minha vida, estava sozinha e machucada. Não queria matar ninguém, não queria cortar ninguém, mas tudo estava estranho. Aquelas pessoas não pareciam más. Tentei sentar, mas minhas pernas estavam quebradas, retirei alguns vidros dos braços. Minha visão foi escurecendo. Ouvi sons distantes. Pareciam as sirenes do toque de recolher de Oorus. Por um momento me senti em casa. Por um momento desejei que tudo aquilo fosse um sonho. Chamei por Nero, mas ele estava distante."

- Olá! Terra para Sora - acordei com um solavanco, Li estava diante de mim. - Como você dorme. Senta aí.

- Foi ela, foi Ellai... - passei a mão na testa, estava suando naquele frio. - Ela matou meus pais e Kalinne! Li eu sempre soube que eu nunca havia matado ninguém!

- O que? Calma, do que você está falando? - ele sentou ao meu lado e passou a manga do moletom em minha testa. - Você recordou daquele dia?

- Sim, quer dizer, de tanto as pessoas falarem que eu era culpada, acabei acreditando nisso. Mas sempre soube que havia algo de errado.

- Isso é muito sério Sora, e agora ela está voltando em você aos poucos...

- Estou com medo Li - choraminguei. - O que vou fazer?

- Vamos pedir ajuda para Solária, talvez ela saiba resolver esse processo. Shaya com certeza não fará.

Assenti. Mesmo sabendo que meu encontro com a Deusa poderia ser um desastre, qualquer ajuda era bem-vinda. Estava me sentindo invadida, e a culpa era toda minha.


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