69| Ultimato
SORA
Voltei a subir as escadas rapidamente quando a lembrança de Charlie voltou para mim. Chorei e chorei. Corri para o quarto e encontrei a amiga de Nero dormindo em minha cama. Ignorei aquilo e fui para o banheiro olhar para o que eu me tornei. Retirei o moletom branco e vi as tatuagens agora fixas para sempre em minha pele. Meus olhos agora azuis profundos refletiam apenas tristeza e arrependimento. Desejei sair quebrando tudo, mas não queria ninguém para vir me dizer que tudo iria ficar bem. Foi nisso que pensei quando comecei a descer as escadas para falar com Lieff, se eu não queria alguém para me reconfortar, certamente ele também não queria. Não queríamos ninguém para nos dizer palavras bonitas enquanto nosso mundo desmoronava e elas fingiam não ver. Além de estar quase idêntica a Deusa Shaya, senti o alívio que era não carregar duas almas furiosas dentro de si. Me senti mais leve e ao mesmo tempo incompleta, era estranho.
Percorri o dedo sobre as tatuagens e senti calafrios. Sorri. Bem, eu era uma tremenda bipolar mesmo, já me sentia um pouco feliz. Sabia que aquelas tatuagens representavam algo mais que uma ligação com Shaya e Tenebris. Elas também serviam para minha defesa. Sabia daquilo porque lembrei do dia em que Nero quase me matava em nossa briga feia. Não sabia como invoca-las, mas também não gostei da ideia de pedir para ele. Querendo ou não, algo estranho aconteceu quando nos reencontramos hoje. Teria algo haver com o fato de sermos filhos de Shaya? Fechei os olhos e tentei me concentrar ao máximo. Pensei em dizer algo, algo como uma palavra de conjuração. Nada. Tentei dizer todas as palavras de conjuração que conhecia, mas nada aconteceu. De repente lembrei que podia dar certo se eu as pronunciasse em latim, mas eu não sabia nada de latim. Lembrei de Grendel, das aulas que ele me dava sobre o idioma e que eu fingia estar prestando atenção. Elas me seriam bem úteis agora.
Derrotada, despi o short vermelho e examinei minhas pernas e costas para ver se algo mais havia mudado. Aliviada ao não encontrar nada, voltei a vestir as roupas e decidi pedir ajuda para o vampiro quando as coisas voltassem a se acalmar. Precisaria muito aprender mais sobre essas correntes, porque seria com elas que eu iria descarregar toda minha fúria de Grendel nele mesmo. Percebi que meus cabelos não voltariam ao normal, que era bem loiro. Agora apenas Shaya habitava em mim, Solária estava em Lieff. Me perguntei se ele ficaria loiro, já que era albino. Afastei aquele pensamento idiota e me concentrei em ganhar coragem para falar com ele. Não sei porque estava tão nervosa, mas precisaria conversar com ele sobre o que aconteceu. Talvez ele estivesse se sentindo tão estranho quanto eu. Seria assim que eu me senti quando era apenas um bebê? Foi assim que eu me senti quando Grendel me criou? Definitivamente não dava para saber.
Na verdade, eu nem existia até ele resolver brincar de Trono com uma menininha que acabara de morrer e colocar dentro dela uma carga poderosa de duas almas furiosas. Bem, eis o resultado. Voltei para descer as escadas e parei para respirar. Contei de um até dez e repeti para mim mesma que tudo ia ficar bem. Que ironia. Lá estava eu consolando a mim mesma. Encontrei Li deitado sobre o sofá e assistindo alguma porcaria na televisão. Parei para observá-lo. A marca da escritura em seu peito ainda vermelha pareciam estar incomodando, porque a minha ainda coçava e ardia um pouco. Além de estar com os cabelos um pouco maior, não vi nenhuma mudança nele. Bem, dois anos haviam se passado e para mim ele continuava o mesmo. Mesmo com vinte e um, Li não deixava de parecer com um garoto de dezessete. Ele odiava aquilo. Ele percebeu que eu me aproximava e sentou para me dar espaço para sentar.
- O que está assistindo? – perguntei enquanto tomava cuidado para manter um pouco de distância.
- Nada demais – um comercial sobre ração para gatos passava. – Você está bem?
- Eu? Mas é claro. Vim saber se você está bem – ele pareceu não entender que eu queria ficar um pouco distante, porque se aproximou e ficou quase colado em mim. – Ei...
- Estou bem. Aliás, estou ótimo – Li encostou a cabeça em meu ombro. – Como não poderia estar bem, se minha melhor amiga me trouxe de volta.
- Ah, sobre isso...
- Sora – ele me interrompeu e segurou uma de minhas mãos. – Quer viajar comigo?
- Viajar? Para onde? – não pude evitar de sorrir, acho que meu velho amigo estava de volta.
- Quer ou não? – ele sentou no cantinho do sofá e me puxou junto, encostei minhas costas em seu peito e observei enquanto ele subia a manga de meu moletom e seguia com o dedo sobre minha tatuagem. – Está pensando?
- Não. Estou tentando adivinhar para onde seria. Quer me dizer? – segurando minha mão com as suas, ele contornou com o dedo sobre a lua em minha palma. – Seria mais fácil se você me dissesse.
- Nada disso espertinha. Vai ser uma viagem muito legal. Sabe, como as que nós fazíamos quando éramos mais jovens...
- Até parece que já somos bem maduros. Só tenho dezenove e você vinte e um. Aliás, você tem vinte e um com cara de quem tem quinze – brinquei.
- Ah é? – ele me apertou entre suas pernas e fez cócegas em minhas costelas, gritei para que parasse e me debati, mas ele só aumentou o ritmo. – Vai ou não?
- Pare, pare! – gargalhei da forma mais escandalosa que pude e não vi saída a não ser aceitar. – Eu vou, eu vou tá bom? Agora pare já com isso seu esquisito!
- Ah que bom – ele parou de fazer as cócegas, mas não afrouxou o aperto, ele sabia que se fizesse isso eu fugiria.
- Agora me diga para onde vamos. Lembre-se que sou foragida da polícia, meu passaporte não é mais válido – adverti. – O que pretende fazer sobre isso seu espertinho?
- Eu? Não farei nada. Quem fará será seu amigo Dandy, ele é muito bom com isso não é? Fez todos os documentos para uma pessoa que nem existia mais!
- Verdade, ele manja mesmo. Mas de quem estamos falando? – indaguei.
- De Nero, sua lesada – Li segurou meus cabelos e cheirou. – Ainda bem, seu cheiro continua o mesmo. Olhe só lesada, você não vai precisar ir ao salão de beleza para se disfarçar! Agora é uma morena autêntica.
Tentei me virar para socar seu peito, mas ele prendeu meus braços com suas mãos e minhas pernas com as suas. Gostei de vê-lo gargalhando enquanto tentava me prender. Desisti, mas esperei que ele baixasse à guarda para tentar fugir e dar o troco.
- Você ainda não me disse para onde vamos - bufei.
- Tente adivinhar espertinha – me senti nas nuvens quando ele começou a massagear meus ombros. – Economizei durante todo esse tempo, já está tudo certo. Falta só você dizer que vai comigo e tudo estará perfeito.
- Mas eu já disse que vou, seu lesado – ele voltou a me apertar e fazer cócegas. – Ah não! Pare com isso Lieff... aaaaah para!
- Você ainda não me disse para onde vamos Kisarague...
- Então me deixe pegar fôlego. Estúpido!
- Tem razão – ele riu enquanto parava seu ataque, mas não me soltava. – Vamos lá.
- Quer me dar uma dica? Qualquer coisa? – pigarreei, não fazia a menor ideia para ele queria me levar. – Então?
- Deixe-me ver. Sabe, não gosto de lembrar do dia em que brigamos feio e nos separamos – percebi que ele se sentia desconfortável falando sobre aquilo, também me senti assim. – Lembra que você roubou duas das minhas cartas para papai? Pois é, acho que lá tem para onde eu quero ir.
- Ah qual é? Eu não lembro disso! Lili pegou as cartas e não as vi desde então – justifiquei. – Não lembro nadinha do que estava escrito ali. Quer dizer, lembro de algumas coisas, mas não do lugar que você quer ir comigo! Me dá outra dica.
- Poxa, como você é atenciosa – ele apoiou o queixo em minha cabeça e bufou. – Só tinha isso como dica para te dar...
- Isso não é justo! Como quer que eu adivinhe? Você só me dá essa dica inválida e se eu disser que não vou mais responder você me ataca com cócegas...
- Ei, ei. Calma – ele riu. – Vou te dizer. Ok?
- Está bem. Me diga – percebi ele afrouxando o aperto e me virei para encará-lo, olhos avermelhados me observavam. – Estou esperando.
Comecei a tentar ajeitar seu cabelo bagunçado enquanto ele ainda me observava. Estava ficando constrangida, por isso arrumei algo para não olhar em seus olhos. Joguei suas madeixas brancas para os lados e nada ficava bom, precisava ser cortado. O clima já estava ficando tenso quando ele resolveu falar para meu alívio.
- Vamos para um lugar lindo – ele grunhiu quando lhe dei um beliscão. – O que eu fiz?
- Disse que ia me dizer! – guinchei. – Desembucha!
- Vamos para Marrocos e depois para o vilarejo Merzouga, que adentra o Deserto do Saara...
- O que? Está de brincadeira? – indaguei.
- É claro que não, economizei o suficiente para nós dois. Vai ser tudo perfeito, ainda mais depois do que aconteceu. Você agora é minha guardiã, obrigado por salvar minha vida – ele me abraçou com força, sorri ao sentir que estava retribuindo o abraço. – Obrigado por escolher salvar minha vida e abrir mão da vida do homem que amava.
Aquilo quase me fez chorar, mas segurei as malditas lágrimas. Não queria estragar aquele momento com meu melhor amigo. Senti que as coisas entre nós finalmente estavam voltando a ser como era antes. Beijei Li na testa e voltei a me recostar em seu peito.
-Você é meu melhor amigo, nunca vou desistir de você. O que vamos fazer no Deserto do Saara? Soube que lá é lindo quando anoitece, quase dá para ver as galáxias...
- É exatamente isso que vamos fazer lá, vamos para contemplar o céu.
- Somente isso?
- Sim, somente isso – duvidei daquilo, achei que ele estava tramando algo. – Agora vamos tratar de negócios, tem o telefone de Dandy?
- Mas já? – peguei meu antigo celular e o número de Dandy era o oitavo. – Aqui.
- Ótimo, mas seria melhor se você falasse com ele – Li me devolveu o celular e disquei, ele atendeu no terceiro toque.
"Bom dia minha vida é um saco" – sua voz alegre sempre me fazia querer rir.
"Humm oi Dandy, lembra de mim?" – indaguei, desejando que sim.
"E como eu esqueceria da criminosa foragida? Ainda tenho seu número querida"
"Preciso da sua ajuda. Ainda está em Florença?"
"Estou embarcando para Blizzard amanhã, levo comigo uma joia rara..."
"Nyaaa" – ouvi uma voz feminina imitar um gato e depois a risada de Dandy "Haha"
"Alô? Podemos voltar..."
"Mas é claro minha celeste, para quando quer os documentos? Faço tudo por você minha querida. Estou levando para você uma espada belíssima. Mande um oi para Lieff, estou escutando a respiração dele daqui. Aliás, o Deserto do Saara é um ótimo lugar para um pedido de..."
"Oi Dandy! Como estão as coisas? Quem é essa joia rara?" – Lieff me assustou quando inclinou-se de repente e falou perto do telefone.
"Oh-ho! Minha mais nova joia é minha Blair, vão conhecer ela em breve!"
"Um momentinho Dandy"
Coloquei o celular de lado e encarei Lieff, ele parecia estar tenso.
- Como ele sabe que vamos para o Saara? – indaguei. – Você já tinha falado com ele?
- Juro que não, sempre achei ele meio estranho mesmo. Ele te chamou de celeste, como ele sabe disso?
- Não faço à mínima – começamos a rir e voltei para o celular.
"Então, você vai vir mesmo aqui? Ainda estou em minha antiga casa, ninguém sabe que eu voltei, estou um pouco diferente sabe..."
"Vou adorar te ver morena, nunca gostei muito de loiras. Então fica tudo certo? Estarei pertinho de você dentro de dois dias."
"Obrigada Dan, desculpe por não ter dado notícias durante todo esse tempo."
"Não precisa disso fofinha, eu sempre soube onde você estava. Preciso ir agora. Blair e eu vamos fazer coisas obscenas agora. Diga tchau Blair!"
"Aaah, é... vou ficar pelada agora, tchau!" – ela tinha mesmo voz de gato. – "Até mais querida. Conversaremos melhor quando eu estiver ai. Beijos lindinha."
"Até mais Dandy."
Nossa gargalhada foi instantânea quando olhamos um para o outro. Mesmo achando muito estranho o fato de Dandy saber de todas essas coisas, ignoramos isso para quebrar um pouco a tensão do momento. Percebi que Li havia parado de rir e me observava com um sorriso sereno. Comecei a dar mais gargalhadas e baixei a cabeça. De repente senti suas mãos me puxando para frente e logo nossos lábios encontravam-se em um beijo faminto. Mesmo que eu não desejasse aquilo, meu corpo queria. Trava-se dentro de mim a luta entre a razão e a sensibilidade. Ele foi me empurrando levemente até deitar-se sobre mim. Enterrei minhas mãos em seus cabelos e inclinei a cabeça para o lado para que ele tivesse acesso ao meu pescoço. Quando finalmente começava a relaxar e em entregar para Li, senti algo quente dentro do bolso do short. Sabendo o que poderia ser, ignorei aquilo. Li adentrou com sua mão para dentro do meu moletom. Quando ele tocou meus seios, senti que o bolso ficava cada vez mais quente. Tentei resistir, mas pulei quando Li começou a remover meu moletom e o bolso tornou-se tão quente que chegou a doer bastante.
- O que foi? – perguntou enquanto desabotoava meu short.
- Espera Li, tenho que ver uma coisa – ele assentiu e deitou a cabeça em meu abdômen.
Como esperado, era uma carta de Grendel. Sabia que era dele porque Soren havia desaparecido há dois dias do meu pescoço e não havia retornado. Desenrolei o pergaminho e ali estava sua caligrafia perfeita. Estava muito irritada, pensei em jogar aquilo no lixo, mas minha curiosidade era bem maior. Li alisava minhas pernas, tornando difícil minha concentração em ler o pergaminho.
"Precisamos conversar pequena garota. Quero que venha até aqui, não me faça ir te buscar porque será pior. Aliás, se continuar agarrada com esse cara e seguir adiante para fazer o que eu penso que você dois pretendem, farei algo muito ruim com você. Tem até a meia-noite para vir ao meu encontro. Espero que não se esqueça que eu salvei seu amigo, mas também posso reverter tudo. Atenciosamente, Grendel Lit."
- Filho da puta – grunhi e rasguei o pergaminho.
- O que foi? – Li me olhou preocupado e pegou o pergaminho rasgado. – Era ele?
- Grendel. Aquele filho da puta. Isso foi um maldito ultimato! O que ele pretende com isso? Ele me paga Li, preciso falar com Nero agora mesmo.
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