65| Exilado


UZIEL

O querubim vagou pelas pequenas vielas que formavam as partes baixas de Blizzard. Por onde passava arrancava olhares esquisitos. Mesmo sendo um dos melhores lugares para se esconder de qualquer ser celestial, aquele ambiente era repleto por pessoas curiosas. Ele não importou-se, pois sabia que ficar ali era mais seguro, o tecido da realidade era mais frágil. Os celestes não gostavam de andar por onde o tecido fosse mais frágil, pois aquilo poderia denunciá-los aos olhos de algum mortal. Mesmo que alguns ainda se aventurassem por Statera e precisassem passar por uma zona que o tecido fosse mais delicado, ainda sim era arriscado. Uziel caminhou até uma pequena rede de supermercado. Precisava de comida. Agistes como um mortal, agora viverá como um deles. Lembrou amargamente das últimas palavras sentenciadas por Miguel antes de ter suas asas arrancadas a sangue frio por ele.

O arcanjo não se dera o trabalho de importar-se com a causa do querubim, simplesmente apareceu no momento da sentença e proferiu seu julgamento. Arcanjos de baixo grau cuidaram de todo o resto, então o impiedoso Miguel apareceu para mostrar quem estava no poder. O querubim aceitou a sentença de cabeça baixa, sabia que se reagisse poderia ser atingindo por uma flecha estelar. Eram mortais até mesmo para os anjos, feitas para matar qualquer ser vivo que possuísse alguma alma. As flechas estelares eram feitas de sofrimento e morte. Feitas com poeira estelar e angelical, elas dilaceravam o coração de qualquer anjo. Miguel mantinha um rigoroso ritmo de produção das flechas. É preciso matar para poder matar. Quanto mais anjos mortos, mais flechas estelares podemos ter. Uziel ainda mantinha lembranças vivas daquela frase proferida por Miguel. Anjos morriam para virarem flechas.

Chegando ao seu destino, ele arrancou mais uma saraivada de olhares curiosos. Mesmo sendo alto e possuindo beleza digna de um celestial, o querubim tinha uma personalidade extremamente tímida. Encolheu-se para a seção de congelados. Lá estava vazio, nenhum olhar desconfiado. Somente alguns espelhos figurando seu rosto. Cabelos negros como piche e olhos azuis escuros. Chegava a ser surreal sua beleza. Os celestes tinham essa natureza, eram extremamente belos. A estranha sensação da fome ainda o atormentava, há muito tempo não alimentava-se de nada. Ele jogou algumas maçãs e outras frutas dentro do carrinho. Passou pela seção de enlatados e industrializados. Não queria comer a comida dos homens, não queria misturar-se aos mortais. O exilado tentava ao máximo não sentir nada comparado com os sentimentos mundanos. Mas fora fraco no momento em que beijara Lírica. E agora sentia fome. Ele esqueceu que também fora mortal um dia, mas o expurgo reavivou sua memória.

Mas terá que fazer isso para ajudar Daniel. Qual é... não vai me dizer que não consegue fazer isso! Eu vivi por quase dezessete anos entre os mortais em Blizzard, e ainda era na idade média! Eles não são tão ruins quanto os arcanjos dizem, eles são até melhores. Não possuem medo de demonstrar seus sentimentos, mesmo que seja de ódio. Aqui não fazemos isso por medo, mas somos tão normais quanto eles. As palavras de Lírica vieram-lhe a mente. A razão ainda continuava com ela, ele teria que misturar-se totalmente aos mortais. Sentiu-se como um verdadeiro lixo, era assim que os homens sentiam-se o tempo todo? Ao chegar a casa que Daniel o designara para ficar, ele adentrou o recinto e certificou-se que não havia ninguém. Retratos empoeirados com rostos felizes estampavam as paredes. Ele passou a mão por um deles e reconheceu o rosto. Estava na antiga casa de Daniel. O querubim notou uma certa instabilidade no tecido. Aquele lugar carregava uma forte energia instável. Era possível fazer conjurações se quisesse. Não poderia estar em lugar melhor.

Antes mesmo de seu expurgo, Uziel já detestava os arcanjos. A ira dos celestiais mais poderosos do céu chegava a ser repugnante. Junto com Daniel, ele planejava descobrir porque a interferência do Trono ainda não havia acontecido. Onde está o Trono para ver todas essas injustiças? Ele perguntava-se todos os dias. Juntar um exército de anjos não seria nada fácil, mas sabia que a legião de exilados estaria com ele. O querubim comeu algumas frutas e depois vomitou, ainda não estava acostumado com o hábito de comer. Vagou pela casa abandonada de Daniel, ainda havia alguns pratos na pia. Em seu quarto, retratos com uma garota estranha e bela. Uziel deitou-se na cama e levantou uma nuvem de poeira. Lembrou de Lírica, a beijara apenas por impulso? Não acreditava que estava realmente apaixonado por ela, ou se estivesse, não queria. Não desejava sentir tais emoções mundanas.

As asas que não estavam mais em suas costas faziam falta. Uma enorme cicatriz em formato de V marcava suas costas de pele alva. Ele desejou voar pelos céus de Statera e ver se era mais belo que o de Lumen. Em todos os séculos em que fora um celeste, Uziel nunca pensou que iria ser fácil deixar de ser um. Viver no mundo dos homens não era fácil. O som da campainha reverberou pela casa. Ele achou ter ouvido errado até que o som voltou a ressoar. Estranho, pensou. Daniel havia dito que a casa estaria abandonada, então quem está aqui para me importunar?

Relutante, ele levantou da cama e caminhou até as escadas. Parou no quinto degrau ao sentir uma oscilação no tecido da realidade. O hábito de puxar Vingadora, sua espada, o fez levar a mão até as costas. Mas ali havia apenas cicatrizes grotescas. Ele olhou intrigado para a membrana e esperou algo aparecer. Esperou. Nada. Somente o som da campainha ainda reverberava. Então a oscilação está vindo de fora, concluiu.

Com cautela, Uziel vagou até a janela e espiou entre as cortinas. Não acreditou em quem estava parado ali. Cabelos loiro-esbranquiçados. Olho azul e verde. Postura relaxada e curvada. Uziel suou frio, a garganta ficou seca. Soren estava com sua habitual roupa. Moletom branco e calça verde-morto. O exilado respirou fundo e abriu a porta para o filho legítimo do arcanjo Miguel. Eles encararam-se por alguns instantes e então Soren exibiu seu sorriso torto.

- Achei você. Olá – cumprimentou.

- O que você quer? – grunhiu Uziel. – Não devia estar no pescoço da garota Libratum?

- Deveria sim, mas ela não está em perigo. Pelo contrário, está na presença de uma de suas mães. Me deixe entrar exilado. – Soren avançou para o anjo de supetão, o fazendo desviar para evitar um encontrão – então é aqui que você está residindo? Na casa de Daniel?

- Algum problema?

- Você poderia ficar em minha casa aqui em Statera, se quisesse...

- Não. Vá embora Soren! – Uziel segurou o garoto pelo braço e o arrastou para fora. – Ainda não entendi o que está fazendo aqui e nem porque raios de motivo entrou nessa briga! Ela não é sua...

- Ela também passou a ser minha desde que aceitei ser um dos guardiões de Ai... – Soren conseguiu sair dos braços do querubim e voltou para dentro da casa. – Passou a ser minha desde que papai te expurgou.

- E quem pediu para você ser um guardião? Ninguém! Não quero ser o seu motivo de preocupação. Só quero que vá embora.

- É por causa de Lírica? Não acredito...

- O filho do poderoso Miguel está aliando-se ao um exilado? É isso mesmo Soren? – Uziel queria ver o garoto sair de cima do muro e escolher um lado. – Vai mesmo desafiar seu pai?

- Mas é claro, o que papai fez com você foi imperdoável. Vai me deixar ficar aqui? – Soren olhou esperançoso para Uziel.

- Que seja – o exilado fechou a porta e sentiu a mão de Soren sobre seu ombro. – Me largue – grunhiu.

- Pense em mim como seu grande aliado – Soren aproximou-se do exilado e segurou seus ombros com as duas mãos. – Ou talvez como...

- Cale essa boca! – Uziel saiu desconcertado do aperto e foi para fora de alcance de Soren. – Não quero que volte a dizer isso.

- Mas eu nem cheguei a dizer, você não mudou nada.

- Ah é? Isso não interessa. Vai me ajudar ou não?

- É claro, o que você pedir – Soren lançou para o exilado seu sorriso torto.

Por um momento Uziel desejou pedir. Mas aquilo não era certo.

- Ótimo. Comece calando essa matraca – ele passou por Soren e esbarrou em seu ombro. – Pare de tentar tocar em mim!

- Você que tocou em mim, idiota.

O exilado preparou um quarto vazio para tentar abrir um portal. Soren esvaziou o pequeno quarto dos fundos, onde ficavam os antigos brinquedos de Daniel. O lugar era onde o tecido da realidade era mais frágil. Paredes claras e sem janelas, estava perfeito. Um lugar que tivesse paredes escuras não era bem-vindo para se abrir o portal, pois a cor negra absorveria toda a energia materializada. Uziel foi até o onde ficaria hospedado, no quarto de Daniel. Pegou sua grande mochila e retirou alguns cristais celestiais, feitos para realizar rituais de invocação. A faixa de cabelo vermelho de Lírica ainda estava ali, ela a dera antes que ele fosse expurgado. O exilado ainda sentia-se confuso em relação à anja. Guardou a faixa e despiu-se. Procurou por algo que pudesse vestir. Daniel era um pouco menor que ele, então Uziel teve que buscar refúgio nas roupas do pai de Daniel. Aquelas eram boas. Calça jeans e moletom vermelho.

Soren olhava com saudade para o exilado. Uziel observava no espelho as cicatrizes horrendas em suas costas. Sentiu-se incompleto e inútil. Vestiu a calça e o moletom. O reflexo de Soren estava estampado no espelho. Uziel apenas suspirou e passou pelo garoto sem dizer nada.

-Uziel - chamou.

O exilado parou no meio da escada e esperou que o garoto dissesse algo. Não houve resposta. Ele foi até o quarto e fez um círculo com giz celestial, muito usado pelos anjos guardiões. Uziel riu com amargura. Anjos da guarda não protegiam necessariamente os mortais, e sim aqueles cujo possuíam metade da alma celestial e que futuramente iriam juntar-se aos outros para servirem aos arcanjos. Aquilo tudo estava errado. Até mesmo as Deusas estavam erradas. Ele conhecia a verdadeira história de Solária e Shaya. Odiou quando Miguel baniu Shaya para Tenebris apenas por ela ter predominância de Lúcifer na alma. Sua parte boa fora removida para que ela virasse uma tenente perversa do mundo inferior. E agora Solária estava em seu glorioso pedestal. Embora não parecesse com a garota fútil que era por que sua parte má fora removida, Uziel ainda a odiava. Odiava Lírica por gostar da Deusa mesmo sabendo o que ela fizera. Odiava-se por estar confuso em relação à anja.

Ele sentou-se dentro do círculo e depositou quatro cristais ao seu redor. Segurando o colar celestial, usado para fazer comunicações entre as dimensões, ele o colocou no pescoço e aguardou o tecido ficar mais denso. O corpo do exilado vibrou e sua pele pinicou. Era a primeira vez que Uziel fazia um ritual de comunicação. A dor tornou-se intensa quando o tecido da realidade chocou-se como plano étereo, causando um choque no plano físico. Uziel revirou os olhos e tombou no chão. Soren entrou no quarto e gelou ao ver o exilado quase desfragmentar-se diante da colisão de duas dimensões. Um buraco-negro já começava a formar-se sobre o exilado quando Soren o arrastou para fora do quarto. Uziel debatia-se e espumava pela boca. Os olhos revirados indicavam que ele estava tendo um ataque epilético. Soren recolheu os cristais com cuidado para não encostar no buraco-negro. Imediatamente a sala voltou ao normal, mas o tecido ainda estava abalado.

Voltando para onde estava Uziel, ele sentou a cabeça do amigo em seu colo e limpou sua boca com a manga de seu moletom. O exilado recobrou a consciência aos poucos. Com a visão ainda turva, ele viu a imagem duplicada de Soren próximo ao seu rosto. Uziel rolou para o lado e uma onda de dor lancinante o fez parar.

- Você estava ficando louco? – ouviu Soren dizer. – Estava tentando se matar? Sabia que não temos o privilégio do suicídio?

- O que aconteceu? – grunhiu, conseguindo sentar com a ajuda do amigo.

- Relaxe, foi a sua primeira vez tentando abrir um portal certo? – Uziel assentiu. – O seu corpo não está preparado, você agora é como um mortal. Como não é nenhum celeste, seu corpo não iria suportar tanta energia e peso, é como a lei da gravidade.

- Acho que você poderia ter me dito isso antes.

- Você não me deixa chegar perto – Soren sentou mais próximo e voltou a passar a manga do moletom na boca do exilado. – Sei onde pedir mais ajuda...

Uziel enrubesceu e virou o rosto para baixo.

- Q-uem iria querer ajudar um exilado? – perguntou sem olhar para Soren. Amaldiçoou-se por ter gagueijado.

- Will. Quem mais poderia nos ajudar se não o filho do arcanjo expurgado?

- Tem razão, mas ele anda ocupado demais guardando a garota Libratum – Uziel ainda estava envergonhado quando olhou para Soren. – Precisamos dele como nosso aliado na rebelião.

- Concordo. A garota não é mais uma divindade, sua alma foi dividida...

- O que você quer dizer?

- Will a ajudou a salvar a alma de um amigo, agora somente a parte de Shaya permanece nela – o garoto ajudou Uziel a ficar de pé.

- Acho que Will sente-se responsável por ela, já que acompanhou a garota desde a sua criação. Will é o responsável por tudo, a garota nascera por causa dele.

- Isso é verdade. Bem, agora que ela não necessita totalmente de mim, poderei ficar mais tempo tentando te ajudar.

- Isso significa que você vai ficar mais tempo comigo – concluiu Uziel, bufando. – Essa ideia não me agrada.

- Só quero te lembrar uma coisa - Soren segurou os ombros do exilado e lançou seu sorriso torto. - Lembre-se de que não estamos mais em Lumen, estamos em Statera. E aqui tudo pode acontecer, você não tem que reprimir seus desejos e emoções. Você pode fazer o que quiser.

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