59| Corra Charlie, corra!
É melhor você correr, melhor correr, correr mais que a minha arma
Todas as outras crianças foram bombeadas com chutes
Melhor correr, melhor correr mais rápido do que minha bala
- Pumped Up Kicks, Foster The People
SORA
O ar ao meu redor estava viciado e meus olhos ainda continuavam fechados, mas os sons eram ouvidos cada vez mais próximos. A temperatura voltou a cair, fazendo meu corpo necessitar de calor. Aquilo era um golpe de mestre dele, porque o calor denunciaria minha posição. Segurei minha pequena adaga batizada com encatamentos feitos por mim, aquilo era um grande feito para quem não conseguia fazer nada sem a ajuda do colar de desejos, mas aqueles encantamentos foram realizados com meus esforços. A vontade de desejar descobrir sua posição fez com que a ametista flutuasse até um penhasco curvado, sorri com esperteza e caminhei sorrateiramente até lá, passando pela fraca luz da lua que tentava penetrar entre as grossas camadas de nuvens negras. Uma rajada de vento soturno bateu em meu rosto, agora.
O capuz do vestido negro ocultou meu rosto entre duas imensas rochas coladas no penhasco. Lá estava ele, olhando para o horizonte como se nada estivesse acontecendo. Sua capa negra era açoitada pelo vento, fazendo suas longas pernas ficarem a mostra. O Sr. Morte raramente usava aquelas roupas, somente quando estava em treinamento comigo. Uma espécie de túnica negra cobria-lhe os ombros e misturava-se com a capa, sua calça e moletom negros eram a marca registrada. Me esgueirei sobre as duas rochas e o observei passar as mãos nos cabelos, estava muito tranquilo para quem ia ser atacado com uma adaga enfeitiçada. Meus pés descalços absorveram o calor da imensa rocha e aquilo poderia me denunciar, mas era tarde demais para voltar atrás. Continuei caminhando até ele silenciosamente com a adaga empunhada em minhas mãos. Ele parecia estar apenas me aguardando.
Pulei em suas costas e coloquei a adaga em seu pescoço, mas ele já não estava mais lá. Me vi caindo penhasco abaixo e gritei. Tudo começou a girar enquanto eu ainda caia rapidamente. De repente me vi encolhida a poucos centímetros de Grendel, ele ainda fitava o horizonte solenemente. Minhas mãos estavam em volta da cabeça e me encontrava na posição fetal. Olhei estupefata para o ambiente, ainda continuava o mesmo. Eu não me encontrava caindo desesperadamente do penhasco, pelo contrário, ainda estava com a boca aberta de tanto gritar e encolhida como uma criança. Ele virou-se para mim e sorriu, suas mãos ainda estavam nos bolsos. O vento açoitou seus cabelos, fazendo uma mecha cair sobre sua testa. Ele sorriu docemente para mim, era um sorriso terno e gentil. Como se eu ainda fosse aquela criança. Tentei levantar, mas minha cabeça ainda parecia estar girando, então continuei na mesma.
- O que foi isso? – murmurei. Até minha voz estava vacilante.
- Isso o que pequena criança? – ele voltou a olhar para o horizonte.
- Isso... – novamente tentei levantar. – Foi um truque de ilusão?
- Exatamente – ele soltou uma risada abafada. – Achei que você já estivesse preparada para receber uma dessas, desculpe.
- Não tem graça – lamentei. – Minha cabeça está horrível.
- Deixe-me cuidar disso.
Ele veio até onde eu estava e agachou-se até mim, nivelando-se ao meu rosto. Grendel abaixou o capuz e segurou meus cabelos, movendo-os para um só lado. Tocando minha clavícula, ele foi me empurrando levemente até que eu estivesse deitada no chão, foi quando pude sentir o quão gelado era seu corpo. Ele emanava morte, e eu um pouco de cada lado. Seu dedo percorreu toda a minha clavícula, me fazendo ter pequenas vibrações de choque térmico. Grendel estirou minhas pernas e sentou ao meu lado, colocando meus pés em seu colo. Comecei a rir quando suas mãos massagearam gentilmente meus dedos, quando tentei recuar, ele prendeu minhas pernas e riu da minha careta de desespero.
- Só relaxe – falou entre a risada.
- Não consigo, meus pés são sensíveis demais... – novamente tentei recuar sobre mais uma onda de cocegas. – Aaah! Pare por favor!
- Se você relaxar, eu te ensino a fazer o truque da ilusão. O que acha? – ele me olhou esperançoso. – Dúvida cruel?
- Não é isso, é que você está muito diferente hoje... – ele ergueu uma sobrancelha.
- Diferente como?
- Está gentil, está se sentindo bem? Pode não parecer, mas eu me preocupo com você sabia? Onde está Grendel e o que fez com ele?
Ele apenas sorriu maliciosamente e voltou a me fazer cocegas. Tentei inutilmente fugir, mas ele não me deixou nenhuma saída, então sentei. Foi quando ele me puxou para mais perto e quase fiquei sentada em seu colo, minhas pernas misturavam-se entre as suas, que estavam cruzadas. Não quis demonstrar, mas meu bumbum estava doendo por que ele me arrastou e esqueceu que eu estava de vestido. Então resolvi sofrer em silêncio.
- Algum problema? – indagou.
- Nenhum – gemi.
- Sabe que eu jamais faria algum mal para você, então só relaxe!
- Então tá né.
Observei enquanto ele subia as tiras negras do meu vestido até os joelhos e alisava minhas pernas. Meu tornozelo começou a coçar onde estava à pequena corrente fina, me inclinei para tentar aliviar a coceira, mas ele não me deixou. Levou a mão até a corrente e a removeu, passando as unhas levemente exatamente onde estava coçando, o alívio foi imediato.
- O que está acontecendo com você? Onde está Grendel?
- Quer uma massagem ou não? – indagou.
- Eu quero – sorri e voltei a deitar.
Grendel massageou meus pés de uma forma que eu não pude sentir o incômodo das cocegas, somente com aquilo a dor de cabeça foi embora. Resolvi não falar para ele, porque aquela massagem estava uma delícia. Ele olhava para mim a cada suspiro que eu dava, me deixando constrangida algumas vezes. Quando suas mãos avançaram para minhas coxas, fechei as pernas e travei sua mão entre ele elas. Grendel sorriu para mim e ergueu sua mão livre para cima, sinalizando que não iria fazer nada de inconveniente.
- Juro que não vou até onde você não queira, era só uma massagem...
- Por que não faz uma massagem em minhas costas? Estou precisando urgentemente – resmunguei, na esperança que ele fizesse. – Por favor.
- Ah é? – ele soltou sua mão de meu aperto. – Sua espertinha.
- Por favor – olhei para ele esperançosa.
- Está bem, mas apenas mais tarde. Tenho outras coisas para fazer...
- Tipo? – indaguei.
- Tipo pare de me interromper, pessoas morrem todos os dias e suas almas devem ir para seus devidos lugares, eu faço isso e você também fará um dia.
- Eu sei disso, só queria que você passasse mais tempo comigo – resmunguei.
Ele voltou a me olhar de soslaio e sorriu. Se não fosse tão convencido, diria que ele estaria fazendo aquilo de propósito. Me deixar sozinha não era nada legal quando não se tinha nada para fazer em Tenebris, mas tinha e eu não queria fazer. Nosso trato já estava feito, eu não iria deixar de vir em Tenebris desde que ele me deixasse passar metade do dia em Statera, contando do tempo de lá. Mas desde o dia em que Charlie me reconheceu e não retirou os olhos de mim, decidi ficar um pouco afastada. Então todo esse tempo ficou sobrando para Grendel, e mesmo assim ele passava boa parte ausente.
- Até parece que você não me quer por perto.
- É claro que eu quero. Só que não estou disponível todo o tempo só para você. Sabe, algumas vezes tenho que passar para o plano físico e isso me deixa completamente exausto. Compreende pequena garota?
- Sim – bufei.
- Ótimo, tenho que ir agora – ele apertou minhas pernas e as retirou do seu colo.
Não consegui calcular o tempo em que ele passou fora, mas durante isso tentei fazer aquele truque da ilusão. O colar não me ajudou em nada, então não obtive sucesso. Decidi ir para o local onde ficava para passar o tédio, era um imenso abismo que tinha visão para o horizonte. Era muito maior do que o abismo que Grendel encontrava-se. Me materializei diante do único salgueiro solitário na beira do abismo e sentei na relva fria. O sol estava lindo e começava a se pôr, mas é claro, em Tenebris nunca ficava tão claro como um verdadeiro dia ensolarado. Ele estava demorando bastante, comecei a sentir sono e fome. Desejei para meu colar um sanduichei perfeito e grande. Terminei de comer e nada daquele morto-vivo. A lembrança do primeiro dia em que voltei para casa depois de dois anos me passou pela cabeça, então tive a súbita ideia de desejar ir para onde Grendel estava. Quando fiz o desejo, um redemoinho de folhas vermelhas me levou até onde ele estava.
Árvores com os troncos negros e folhas vermelhas predominavam o local, formando um grande cerco diante de um pequeno lago de águas cristalinas. Adentrei a pequena floresta avermelhada com cautela, folhas secas estalavam debaixo dos meus pés. Uma enorme tenda com uma lona vermelha estava armada depois do lago, uma cama de dossel e uma mesinha de centro com uma jarra de cerâmica eram as únicas coisas que estavam na barraca. Quando me aproximei, vi Grendel deitado sobre a cama. Ele estava sem sua habitual camiseta e sobretudo negro. O movimento que seu peito nu fazia enquanto ele respirava profundamente era sereno, me aproximei até ficar ao lado da cama, ele dormia profundamente. Então era isso que ele fazia quando não queria me ver, ele dormia. Não consegui me sentir furiosa, pelo contrário. Grendel era totalmente esquisito, mas quando estava dormindo parecia se transformar em outra pessoa. Seu rosto não carregava expressão alguma, ele estava lindo.
Uma brisa agitou seus cabelos negros e uma mecha foi parar em cima de sua sobrancelha, não controlei o impulso e retirei a mecha que estava atrapalhando aquela visão perfeita. Ok, eu estava agindo como uma tarada, então deitei ao seu lado e me contentei em apenas observar seu rosto calmo enquanto dormia. De repente comecei a sentir sono, achei que era porque estava deitada, mas era porque estava desejando dormir. Então parei antes que o colar atendesse ao meu desejo e sentei ao lado dele. Olhei novamente para seu peito, depois para seus lábios. Um formigamento começou em minha boca, então me estendi sobre ele com cuidado para não acordá-lo e aproximei meu rosto ao dele.
- Unff! – levei um susto quando ele reagiu ao toque do meu cabelo em seu rosto.
O nervosismo veio quando percebi que ele estava acordando. Não consegui sair do lugar, fiquei imóvel enquanto ele abria os olhos devagar.
- Que droga... – murmurou ao me ver sobre ele. – Quem...
Ao perceber quem era, ele me jogou para o lado.
- O que está fazendo aqui? Como me achou? – grunhiu.
- Er... com a ajuda do colar, você anda meio sumido.
- Ah – ele passou a mão pelos cabelos e estendeu as pernas. Que droga, aquilo era altamente seduzível. – Só estou cansado.
- Poderia ter me avisado, não é legal ficar te esperando! – protestei.
- Então vá embora!
- Como se você deixasse! – guinchei.– Você fala como se não me quisesse aqui.
Querendo ou não, aquilo magoou feio.
- Não estou disponível para você agora! Só quero um pouco de paz Sora, compreenda...
- Está bem então, estou indo – comecei a levantar da cama lentamente para ver se ele tentava me impedir, mas ele nada fez.
Voltei antes de chegar à saída e vi ele me acompanhar com o olhar com uma sobrancelha erguida. Peguei uma almofada e joguei em sua cara.
- Está ficando louca? – ele grunhiu quando subi na cama e soquei seu peito. – Pare com isso!
Ele segurou meus pulsos e me fez sentar.
- Deveria estar feliz por não passar muito tempo comigo, achei que não gostasse da minha presença!
- Eu aprendi a gostar, idiota! Me sinto muito sozinha e isso não é nada legal...
- E o que eu tenho com isso? – ele voltou a fazer sua habitual carranca.
- E o que você tem com isso? – olhei com tristeza para ele. Lágrimas subiram até meus olhos, mas decidi não chorar. – Nada, você não tem nada com isso. Desculpa por ter incomodado tanto, já estou indo.
- Ei...
Não deixei que ele terminasse, puxei seu cabelo quando ele me largou e não larguei até que ele me mordeu no braço. Grunhi e chutei seu peito, foi quando ele deitou por cima de mim e mordeu meu pescoço. Era para ter sido doloroso, como a mordida em meu braço, mas foi leve e fez calafrios percorrerem meu corpo. Imediatamente ele afrouxou o aperto e colou os lábios nos meus. Não eram quentes como os de Charlie, eram frios e fúnebres.
- O que foi isso? – guinchei. – Que droga Grendel!
- Ainda quer ficar por aqui, ou prefere ir e escapar de mim? – sua voz já demonstrava irritação.
- Está tentando me fazer ir embora? Você acha que um beijinho desses vai me fazer deixar você em paz? Está muito enganado.
Segurei seu rosto em minhas mãos e o puxei para mim. Dessa vez eu me senti no controle, beijei seus lábios frios e sedentos enquanto ele me puxava para mais perto. Passei a mão por suas costas e senti sua pele áspera e fria, não era como a de Li e Charlie, porque ele estava meio morto. Pensar em Charlie não me fez sentir culpa alguma, era como se aquele sentimento tivesse seu lugar tomado por outro, por um coração morto. Uma coisa eu já havia notado em Grendel, ele gostava bastante de pegar em meu cabelo. Sempre quando aproximava-se de mim arranjava alguma maneira de me tocar nos cabelos, agora ele me beijava e enterrava as mãos sobre minhas longas madeixas loiras.
- Isso não está certo – murmurou quando beijei atrás de sua orelha.
- Cale a boca – empurrei ele para o lado e depois fiquei por cima. – O que você quer?
- Eu...
- Não vale gaguejar – rocei meu dedo em sua clavícula, como ele tinha feito comigo.
- Não me interrompa – grunhiu.
- E não mude de assunto, o que você quer? – ele apertava minha cintura com força, como se não quisesse que eu fugisse.
- O que você quer? – grunhiu.
- Vim apenas cobrar a massagem que você me prometeu...
- Então deita – rolei para o lado e fiquei de bruços, aguardando ansiosamente por um carinho. – Posso fazer do jeito que quero?
Ponderei por alguns instantes, enquanto sentia ele tocar levemente em meus fios.
- Faça como quiser – foi um comando automático, pois ele logo tocou minhas pernas e subiu com a mão até a cintura.
Não me senti invadida pelo Sr. Morte. Seu toque frio me confortava e afastava a solidão. Ele começou a subir o vestido até meu quadril, deixando meu bumbum exposto. Fiquei constrangida a princípio, imaginando aqueles olhos de cores opostas observarem meu traseiro orgulhosamente redondinho. Acho que fiquei um pouco tensa, pois ele voltou a massagear meus cabelos. Aquilo era a forma dele de me transmitir tranquilidade. Suspirei quando ele deitou por cima, e senti o movimento serene de seu peito contra minhas costas. Grendel enterrou o rosto em meus cabelos, beijando meu ombro em seguida. Suas carícias eram leves e ousadas, me deixando querer mais e mais. Me curvei um pouco para cima, tendo que empinar o bumbum para que ele tivesse acesso ao meu abdômen, depois os seios. Senti o quando ele me desejava pelo volume que senti através da calça.
Enquanto suas mãos exploravam meu corpo, virei para frente. Ele pareceu surpreso e rapidamente desviou o olhar. Talvez se sentisse mais a vontade se não trocássemos olhares, mas eu queria vê-lo. Queria ver o jeito que ele me observava durante aquele ato de carinho.
- Eu não quero que você pare – murmurei.
Grendel me fitou, e vi que ele não achou aquilo que procurava em meus olhos. Seus lábios voltaram aos meus , mas não muito sedentos. Percebi que estava sendo cruel demais. Era muito evidente que ele procurava algo em mim que não podia ter com outra pessoa, talvez outra amada. Empurrei levemente seu peito arfante e sentei. Ele nada falou, talvez também percebendo o erro que cometemos.
- Você quer transar ou ficar se remoendo em arrependimento? – indaguei.
- Quero dormir, saia de cima de mim!
Ele me jogou para o lado, rolei pela cama e cai no chão.
- Seu viadinho – grunhi.
Levantei e sai caminhando sem olhar para ele, estava me sentindo muito furiosa e decidi que comprar outra briga não seria uma atitude sensata.
- Onde você vai? – ele gritou antes que me visse sair da tenda.
Ergui as duas mãos e fiz sinal feio para ele, depois sumi para dentro da floresta avermelhada. Segurei meu colar e desejei ir para Statera, imediatamente cheguei à clareira e comecei a caminhar para casa. Haru veio ao meu encontro e teve dificuldade para caminhar sobre a neve densa, ele era gorducho e atarracado. Segurei a bola de pelo e entrei e casa. Tudo estava limpo, a possibilidade de Lili estar de volta era muito alta.
- Lili? – chamei.
Ouvi uma porta abrir-se rapidamente e passos apressados ecoarem pela escada. Lieff veio correndo até mim e me tomou em seus braços.
- Que bom te ver novamente – ele beijou minha testa. – Por que apareceu tão cedo?
- Aconteceu uma coisa esquisita – resolvi não contar para ele, Lieff era do tipo que se magoava fácil. – Você me quer por aqui?
- Oh, é claro que sim. Você é minha melhor amiga, sua companhia é sempre bem-vinda Sora Bloom – ele olhou para meu vestido e franziu o cenho. – Gostei.
- Obrigado – consegui dar um sorriso amarelo. Achei estranho ele não ter perguntado nada.
- Sora, acho que tem algo estranho acontecendo – ele me olhou sério. – Arabela disse que sabe que você voltou, e quer falar com você.
- Bem, o que ela quer falar comigo?
- Não tenho ideia, mas não acho que seja algo bom. Quero que tenha mais cuidado.
- Ela não pode me fazer mal, está morrendo...
- Não fale isso Sora – ele apertou meu braço. – Não tem graça.
- Ok, desculpa.
Li tentou fazer uma receita de brigadeiro que viu na internet, mas não saiu como queria e fomos assistir (pela centésima vez) Harry Potter e o Cálice de Fogo. O sono começou a vir, então dormi no meio do filme. Quando acordei vi Lieff ainda ao meu lado, ele lia um livro sobre Psicoterapia e parecia estar concentrado. O ronco do meu estômago o fez olhar para mim e deixar seu livro de lado, ele retirou os óculos e esfregou o rosto. Parecia cansado. Todos estavam cansados, ele e Grendel. Estava começando a achar que não era uma boa companhia.
- Boa noite mocinha linda, acho que está com fome.
- Acho que sim – murmurei enquanto me espreguiçava.
- Vamos sair? Quer ir para algum lugar?
- Quero, vamos para a loja de doces. Que tal?
- Ótima escolha. Vou trocar de roupa e acho que você também deve fazer isso.
Ele pulou da cama e foi trocar de roupa rapidamente. Retirei o vestido negro e vesti calça jeans azul e um moletom vermelho, prendi os cabelos em um coque e passei um pouco de maquiagem. Estava pronta. Descemos para sair mas, antes coloquei a ração de Haru. Entramos em seu carro e dirigimos até a loja de doces, a cidade ainda continuava a mesma. Li estacionou em uma vaga próxima de um beco esquisito, aquela loja de doces ficava meio afastada da civilização. Era uma casa antiga que passava de geração para geração, então acho que eles preferiam não se misturar com o restante das pessoas da cidade. Um pequeno bosque cercava a casa de arquitetura barroca, bancos e mesas estavam espalhados diante das árvores.
- O que vão querer? – indagou uma moça de aparência indiana.
- Ainda vamos escolher ok? – disparei, ela não tinha esperado a gente escolher a mesa e sentar.
- Tudo bem – ela virou as costas e se retirou.
- Acho que alguém aqui está muito estressada – ouvimos alguém grunhir.
Arabela estava ao nosso lado. Seus passos foram tão silenciosos que não escutamos nada. Seu cabelo estava ralo e sem vida, somente os olhos verdes continuavam faiscantes.
- O que você quer? – indaguei.
- Onde está Nero?
- Não interessa, vá embora...
Ela agarrou meu pulso e apertou, mas eu apenas ri e a empurrei para trás.
- Você não vai querer comprar essa briga, por que não morre em paz?
- Sua vagabunda, não vai me dizer como encontra-lo?
- Não, vá embora daqui Bela – Lieff passou o braço por mim.
- Vocês vão se arrepender, esta noite.
- Aguardo – retruquei.
Ela se foi tão rápido quanto veio, para completar aquela noite espetacular, vi a mãe de Charlie descer de um carro com ele e se dirigirem para o interior da loja. Torci para ele não olhar em nossa direção, mas ele olhou e ficou pasmo. Imediatamente lembrei que meus cabelos não estavam negros, agora sim ele tinha alguma certeza, não adiantaria negar. Ele veio apressadamente até nós, Lieff segurou minha mão e me puxou para longe, começamos a andar apressadamente. Mas Charlie nos alcançou e segurou meu ombro, me fazendo virar abruptamente. Ficamos nos encarando por alguns instantes antes dele se recompor.
- Eu sabia, por onde andou? – sua voz estava vacilante.
- Me solte – desejei que ele não me tocasse, rapidamente ele retirou as mãos de mim.
- O que você é?
Lieff voltou a me direcionar até o carro, mas Charlie foi até nosso encalço. Uma forte rajada de vento nos atingiu em seguida de uma repentina nevasca. Aquilo nos retardou, dando a Charlie mais uma oportunidade para me importunar.
- Fale comigo Sora! Eu esperei por você...
- Oh merda! – Arabela estava a poucos centímetros de nós e segurava uma faca em cada mão. Ela sorriu maliciosamente para mim e começou a caminhar lentamente até nós.
- O que diabos Bela esta fazendo? – Charlie retirou sua arma do bolso e apontou para ela. – Pare ai agora mesmo Arabela!
Ela não parou, continuou a vir até nós. Foi quando um forte pressentimento ruim passou por mim e tive certeza que algo terrível estava prestes a acontecer. Olhei para Charlie e puxei a manga de sua camiseta, ele cambaleou para o meu lado e me olhou estupefato.
- Mas o que...
- Corra Charlie, corra. Corra para a floresta! – joguei ele para trás e olhei para Li. – Corra agora!
- Não vou deixa-la sozinha – protestou.
- CORRA!
Quando olhei, Arabela não estava mais lá. A forte nevasca estava tornando tudo mais difícil, os garotos ainda continuavam próximos de mim. Pedi para que eles se aproximassem, mas foi tarde demais quando ela apareceu diante de nós deu um soco no rosto de Lieff. Ele cambaleou para trás e caiu, era óbvio que ela era mais poderosa do que ele mesmo estando tão debilitada. Corri para tentar pegá-la, mas ela foi mais rápida e voltou a sumir. Charlie disparou duas vezes onde achou que tinha visto ela, mas nada acertou. O eco do disparo reverberou pelo campo, tornando-o mais sombrio. Um vulto rápido passou por mim quando quase consegui pegá-lo, ouvi um grito de dor e agonia. Ela puxou Charlie pelas pernas e o arrastou para longe. Gritei desesperada por ele, em resposta mais um tiro foi disparado. Três. Quatro. Corri para onde o som vinha, a nevasca me deixava confusa. Avistei Charlie no chão, seus olhos estavam desorientados e o sangue que escorria de sua boca já congelava nas laterais. Uma das facas de Arabela estava fincada no peito dele, e seus braços pendiam inertes.
- NÃÃÃO! – gritei, me ajoelhando até ele.
- Q-que fri-frio... – murmurou entre o sangue que manchava seus lábios.
- NÃO CHARLIE. VOCÊ NÃO TEM QUE ME DEIXAR! EU TE AMO PORRA!
- D-deus do ce-éu, ol-lhe só... ela finalmente d-disse...
Mas seus olhos já estavam vidrados para o céu, que exibia o caminho ambíguo além da morte. Lieff veio até mim e me segurou pelas costas, me pondo de pé novamente.
- Não! Não! Me solte Lieff... – voltei a cair no chão e bati em seu peito na tentativa de traze-lo de volta, mas ele já estava frio.
- AAH – pulei de susto quando vi Lieff gritar. Meus olhos se encheram de uma fúria cega quando vi Li ser cortado no braço, fazendo seu sangue manchar a neve.
Não sei como consegui, mas agarrei o casaco de Arabela quando ela tentava sumir novamente na neve. Lancei diversos socos em seu rosto e senti seu nariz quebrar. Ela era evasiva demais, e conseguiu desferir chutes em meu estômago. Bastou um momento para recuperar o fôlego, e ela já havia sumido. Lágrimas faziam meu rosto doer, pois estavam congelando.
- ARGH!
Despertei do meu torpor tarde demais. O cheiro de sangue fresco foi trazido pelo vento, junto com os gritos agonizantes de Lieff. Ele oscilou para o lado, em uma inúltil tentativa de manter o equilíbrio. Quando consegui apará-lo, ele já agonizava em meus braços, e eu tentava inutilmente estancar o sangramento debaixo de sua axila e pescoço.
- Não... não... Lieff, você não... – murmurei, percebendo que meu amigo não voltaria.
- Sora? – sangue saiu de sua boca quando ele tentou falar. Sua pele branca agora estava marcada com seu sangue avermelhado. – Sora...
Ele grunhiu uma última vez e pendeu a cabeça para o lado. Um grito agudo de dor saiu de mim quando percebi que estavam todos mortos. O corpo de Arabela estava caído no chão, sem vida. Não chorei por ela, e sim por dois amigos que tinha acabado de perder. Tentei de todas as formas traze-los de volta, mas nem mesmo o colar me ajudou naquele momento. Os olhos de Lieff estavam abertos, fitando o vazio que era o túnel da morte.
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