50| Ação e Reação
NERO
"Não aguento mais esperar Nero, volte e destrua Shadoe... ela me traz muito sofrimento".
A suave voz de Shaya entorpecia meus pensamentos. Quando finalmente consegui dormir, entrei em uma espécie de transe. Pequenos fragmentos do meu passado vieram à cabeça como um filme antigo. Por mais que quisesse despertar daquela tortura, não consegui sequer abrir os olhos, tive a estranha sensação de que alguém estava me sufocando. Não recordo de ter bebido alguma coisa antes de dormir, muito menos de comer. Apenas bebi algumas bolsas de sangue, mas nada que me deixasse anestesiado. Foi como a primeira sensação que tive ao despertar dentro do caixão fétido. Foram exatamente às mesmas vibrações de desespero e crise existencial.
Novamente eu estava preso dentro de mim mesmo. Minha mente não era um bom lugar para se olhar, principalmente quando só se via morte. Fui sugado por um turbilhão de cores escuras que formavam um imenso buraco negro, tentei desesperadamente agarrar algumas raízes presas nas laterais do precipício no qual estava caindo, mas elas desapareciam a cada menção que eu fazia em tocá-las. Entrei em pânico quando percebi que seria uma queda alta, mas eu já estava caindo. O precipício parecia não ter fim, continuei caindo rumo a lugar nenhum. O baque em minhas costas foi lancinante quando finalmente encontrei o chão, indaguei se aquela dor era realmente real. Logo meus ossos voltaram aos seus devidos lugares, me apressei em seguir em frente rumo ao desconhecido.
Vaguei por uma floresta escura e traiçoeira, as árvores não possuíam folhas e eram enegrecidas e tortas. A névoa predominava sobre o local, parecendo ser um cenário perfeito para um filme de terror. Se eu estava em minha própria mente, não me recordei daquele lugar. O uivo de um lobo solitário ecoou sobre ao longe, o que me fez olhar para cima e ficar estupefato com o que via. A enorme lua não estava comum. Essa era amarelada e fazia uma careta medonha para mim, ela possuía olhos enormes e esbugalhados. O sorriso medonho ia de uma ponta a outra e filetes de sangue caíam-lhe dos dentes até o queixo, aquilo era muito surreal. Não deixei transparecer que estava muito assustado, continuei a caminhar lentamente até uma encosta repleta de lírios negros, os mesmos que eu havia visto em Tenebris.
A lua me acompanhou com o olhar, mas nada fez. Apenas continuou exibindo seu sorriso doentio. O que aquilo significava? No mundo real a lua não possuía face, muito menos parecia ser uma coisa infernal. Cheguei até a encosta e um vento soturno fez minha espinha outrora quebrada tremer, olhei para trás rapidamente e certifiquei-me de que ninguém me perseguia. Sendo sincero, estava totalmente apavorado. O frio tornou-se mais intenso à medida que desci a encosta, coloquei os braços em volta do corpo e me arrependi de não ter ido dormir com um casaco, ainda estava usando o moletom azul. Tentei me comunicar com Sam, mas ele também parecia estar fora do ar. Cerrei os dentes ao pensar que ele poderia ter me levado mais uma vez para outro lugar por engano. Inútil, xinguei.
Quando finalmente desci toda a encosta, deparei-me com um enorme vale deserto. Nada de árvores ou grama, apenas o vazio. Corri rapidamente para chegar mais rápido ao outro lado, onde havia um paredão de galhos retorcidos. Mais uma vez o vento soturno, e junto com ele um enorme corvo voou para longe, foi o meu pretexto. Corri em uma velocidade tão alta que acabei esbarrando em alguns galhos do paredão, o moletom agora estava repleto de furos. Quebrei alguns galhos com as mãos e fui abrindo espaço até chegar em um lugar totalmente diferente. Era a antiga floresta de Blizzard, o grande vale onde eu costumava ir quando estava muito triste ou agitado. As árvores cobertas de gelo e o lago de águas calmas me fizeram andar até a longa ponta do enorme penhasco. Mas eu já estava lá, meu outro eu.
Olhei confuso para a ponta do penhasco onde eu me encontrava sentado, estava segurando o cabo de minha antiga espada que estava com a ponta encravada no gelo. Resolvi me aproximar um pouco mais, mas sem deixar que eu me visse. Estava trajando uma espécie de macacão de peles, junto com uma capa grossa de couro. Não me recordo daquela lembrança. Olhei para cima para ver se isso era mais um truque da minha mente, mas não era, porque a lua medonha não estava mais lá. Então aquilo era uma lembrança, algo de que eu deveria me recordar. A lua estava grande e próxima demais, um dos raros eventos que acontecia a cada quatro anos. Um farfalhar de folhas veio de dentro de alguns arbustos próximos do penhasco, me escondi atrás de um pequeno paredão de rochas e esperei para ver quem iria aparecer.
Era Prudence, aquela maldita, sempre me perseguindo para todos os lados. Ela olhou ao redor e sorriu quando me viu sentado sob o luar. Observei ela sentar na rocha onde se tinha uma visão privilegiada da ponta do penhasco, ela enrolou-se em uma lona de couro e continuou sua espionagem, parecia uma louca. Voltei a me observar sentado no penhasco, meu rosto estava vazio e não carregava expressão alguma.
"Sei que não posso fugir de minhas obrigações, mas sempre desejei ser um homem livre..." – me ouvi resmungar.
"Todos acham que ser filho de rei é algo bom, mas eu detesto. Faria qualquer coisa para ser apenas um homem comum, mas papai não me deixa ir embora..." – não me reconheci naquele garoto, ele tinha sonhos e esperança.
"Nero... Nerooo..." – pensei que era Prudence quem chamava, mas olhei para cima e me vi ficando de pé. A lua agora estava muito mais próxima, parecia que iria chocar-se com o penhasco a qualquer momento.
"Quem está falando comigo? Apareça!" – me ouvi esbravejar lá de cima.
"Sou eu, Deusa Shaya. Olhe para trás." – olhei juntamente com ele e vi o mesmo lobo gigante e negro que aparecera para mim – "Não se assuste, nenhum mal te farei, pelo contrário...".
"Oh merda! Estou alucinando outra vez, aqueles cogumelos alucinógenos funcionam mesmo". – me ouvi dar uma risada cansada e esfregar os olhos.
"Estou aqui de verdade Nero, não sou fruto da sua imaginação". – O lobo começou a esfregar a pata na areia –" Quero ajudá-lo a conseguir sua liberdade, mas tudo tem seu preço."
"Oh! Você ainda está ai? É mesmo real?" – percebi que eu estava mesmo confuso, mas Shaya realmente estava lá, e não me recordo de maneira alguma daquela lembrança. – "Quer me ajudar? Como vai fazer isso loba?"
Prudence estava olhando incrédula para um diálogo em que ela só podia me ouvir falando com um lobo, ela não podia ouvir o que o lobo falava em meus pensamentos.
"Vai ter que selar um pacto comigo Nero." – Shaya espreguiçou-se como um gato.
"Ah merda, estou falando com um lobo. Qual o preço? Como vamos selar esse pacto?".
"É fácil, você só tem que me beijar...".
"Não vou beijar um lobo!" – me ouvi pigarrear.
"Devem ser os cogumelos que ele comeu hoje pela manhã" – ouvi Prudence dizer e abafar uma risada.
"É claro que não" – Shaya deixou sua forma lupina e transformou-se em uma bela mulher. – "Acho que assim está melhor, não é?".
Prudence agora cobria a boca com as duas mãos, mal acreditando no que via.
"O que? Isso não pode ser real, você não existe. É um só uma lenda de nosso povo..."
"Estou aqui, não estou? Não tenho muito tempo nesse plano, fará o pacto comigo?" – indagou Shaya, esperançosa.
"Eu faria de tudo para me ver livre dessa época em que as pessoas morrem injustamente, às vezes tenho vontade de despertar em outra época...".
"Posso fazer isso por você Nero, é só dizer que sim".
"Me diga o preço...".
"A morte" – então era isso, no final a culpa foi toda minha. Eu aceitei e paguei o preço.
Me amaldiçoei por não lembrar daquilo, fui um completo inútil.
"Acho que não tenho nada a perder, vou acordar no outro dia, só estou alucinando..." – me vi caminhar até Shaya e colar meus lábios nos dela.
Ouvi Prudence grunhir de raiva e correr para dentro da floresta, isso explicou o seu comportamento no dia anterior, ela queimou a garota no poste.
"Nero, isso não é uma alucinação. Você quer mesmo fazer isso? Não terá mais volta, você dormirá por um longo tempo e só despertará quando chegar a hora certa, quando Shadoe retornar... você terá que matá-la. Você é o único que ainda possui um pouco da minha linhagem sanguínea, é muito precioso para mim. Saiba que posso ter consequência por estar tirando uma vida sem ser na ordem natural, mas você continuará com sua alma e terá o livre-arbítrio". – Ao ouvir aquilo, eu apenas concordei e voltei a beijar Shaya. Depois tudo se tornou escuro novamente e voltei para a realidade.
Acordei de supetão. Respirei profundamente até perceber que prendia a respiração. Filetes de suor escorriam da testa ao meu pescoço. Fui acometido por uma tosse rouca, como se estivesse engasgado com sangue. Abri os olhos e me deparei com um teto sem ventilador. Estava fazendo calor para uma estação fria. Era estranho estar suando naquele quarto enquanto fazia frio lá fora. Fiquei me sentindo estranho. Recordar de repente sobre como consegui estragar toda uma vida por achar estar sob efeito de cogumelos alucinógenos e também por causa de uma birra infantil não me fez chorar, muito menos ficar frustrado. Talvez Shaya tivesse me feito recordar de tudo. Não tudo, apenas uma parte do quebra-cabeça. Olhei para o lado e uma forte dor no pescoço me fez grunhir. O papel de parede daquele lugar era branco e desgastado. Um abajur creme piscava fracamente em cima de uma pequena mesa comida por traças. Olhei mais adiante e avistei uma estante decadente repleta de livros grossos. Uma escrivaninha também completava o local, que também estava entulhada de livros. Senti cheiro de sangue. Não recordo de como fui parar ali. Aquele colchão fazia minhas costas coçarem, como se estivesse repleto de formigas. Era um colchão vagabundo, assim como aquele lugar. Fedia a mofo e sangue.
Acho que dormi de mal jeito, pois a dor no pescoço voltou a me incomodar. Virei à cabeça para o outro lado e me deparei com Billy sentado em uma poltrona. As pernas estavam cruzadas e ele observava catatônico, uma faca suja de sangue seco que segurava. Seus olhos azuis pousaram em mim, e a fraca luz que vinha das persianas batia em seu rosto, dando-lhe um aspecto sinistro.
- Você acordou – murmurou. – Está com fome?
- Sim. Quanto tempo dormi? – indaguei, vendo-o vir até a cama e deitar ao meu lado. – Aqui é a sua casa?
- Sim...
- Quem mais está aqui? Sinto a presença de outra pessoa – ele soltou uma grande baforada de fumaça quando ascendeu o charuto.
- Meu padrasto... – murmurou, como se estivesse falando sozinho. – Moro com ele.
- Ah – novas baforadas de fumaça invadiram o quarto, ficando mais sufocante. – Sua lista é bem extensa, não é?
- Ainda pensando no que aquela garota disse? Sim. Minha lista é muito extensa.
- Quantos?
- Trinta e cinco... acho – ele soltou uma risada tênue. – Mas acho que a sua é bem mais longa.
- Não – admiti. – Embora eu precise matar, não alimento esse vício...
- Esse vício? – retrucou, um pouco irritado. – Não sou nenhum viciado.
- E eu não disse que era. Mas Billy, você possui muita maldade por trás desses olhos azuis.
Ele ficou mais próximo e me encarou, fitando meus olhos mentirosos.
- Ninguém sabe como é ser o homem mau, triste e amargurado – grunhiu.
- Eu sei. Eu sei como você se sente e entendo isso...
- Isso é ótimo. Eu sempre soube que você me entenderia.
Ele roçou levemente os lábios nos meus, e depois invadiu minha boca com sua língua. Segurei seu rosto entre as mãos e o puxei mais para mim, ficando por cima dele. Lambi seu pescoço, afundando meu corpo no dele. Eu queria muito mordê-lo, mas também não queria mata-lo. Voltei a lamber seu pescoço e mais uma vez me senti mais tentado equando Billy acariciava minhas costas com as mãos. Enterrei meu nariz em seus cabelos e aspirei todo o seu cheiro morno, mesclado com suor e sangue. Ele me puxou para mais um beijo rápido e molhado.
- Vamos dar o fora daqui, esse quarto não é um lugar agradável – murmurou.
- Concordo – falei, pulando da cama e procurando meu moletom em algum lugar. – Onde está...
- Aqui – Billy me jogou o moletom, terminando de vestir o seu. – Onde quer ir?
- Tanto faz...
- BIIIIIIIILLY! BIIIIIIIILLY! BIIIIIIILLY! – uma voz gutural e arrastada ecoou pela casa. – VENHA ATÉ AQUI! BIIIILLY!
Fiquei surpreso ao ver a cor sumir do rosto de Billy. Ele só ficou ali, parado. Percebi que ele tremia. Era a primeira vez que o via com algum medo em suas feições.
- BIIIIIILLY! PORRA! VEM ATÉ AQUI! – ouvi passadas pesadas e cheias de raiva subindo a íngreme escada. – SEU MERDINHA...
Fui até Billy e perguntei se estava tudo bem. Ele não respondeu. Engoliu em seco e continuou fitando a porta com horror. Sacudi seus ombros até que ele me olhasse. O terror era evidente em seus olhos, Billy pareceu ter envelhecido bastante nos últimos instantes.
- O que está acontecendo? Você está bem? – indaguei.
- E-ele vai me-me matar... – gaguejou. – Fuja daqui... vá!
Ele me empurrou, mas não fui embora. A porta foi escancarada com estrondo, caindo para o lado. Um homem gordo e fedido a álcool adentrou no quarto. Seus olhos avermelhados foram de mim para Billy, e seu rosto se contorceu em cólera. Por um momento não tive reação quando ele agarrou Billy e o arremessou contra a parede, dando-lhe socos no estômago.
- ENTÃO É ISSO QUE VOCÊ FAZ QUANDO EU ESTOU FORA? – sua mão gorda foi no rosto de Billy, que choramingou. – ESSE É MAIS UMA DE SUAS PUTINHAS? SUA PUTINHA DE MERDA!
Não entendi porque Billy não reagia. Parecia estar anestesiado. Ele apenas chorava, não tentava se defender ou mata-lo. Perdi a paciência quando ele o jogou no chão mais uma vez, batendo a cabeça de Billy contra o concreto frio. Segurei a gola daquele asqueroso e o joguei contra a parede. O som de sua cabeça indo de encontro com o cimento foi o suficiente para saber que ele havia desmaiado. Fui até Billy e o ajudei a ficar sentado. Ele chorava como se fosse um garotinho. Colocou a mão nos ouvidos, como se uma música muito alta ecoasse no recinto. Não soube como reagir diante daquele ataque repentino, ele parecia estar revivendo todos os seus pesadelos de uma vez. Era uma carga muito alta. Ele havia me contado sobre um homem que fazia coisas ruins para ele em um passado triste, devia ser esse cara.
- Vá até lá e faça – grunhi. – Ele é seu padrasto não é? Era ele quem te batia quando criança? Foi ele quem assassinou sua mãe? Foi ele que tocou em você? Ele tocou em você Billy! Foi ele quem te forçou estuprar a própria irmã? Foi esse desgraçado... vá lá e faça.
Aquilo foi cruel com meu melhor amigo, mas ele precisava saber que tinha que fazer. Precisava saber que aquele bêbado merecia ser morto, e havia dado motivos para isso.
- Eu não consigo... – murmurou. – Ele vai me matar...
- Não se estiver morto. Mate-o– forcei Billy a levantar com brutalidade. – AGORA!
Coloquei sua faca em suas mãos e ele correu até o homem caído. Sangue espirrou de sua garganta quando Billy passou a lâmina. O desgraçado abriu os olhos de repente, lançando a Billy seu último olhar fulminante. A pobre criatura morreu afogada em seu próprio sangue, levando consigo todo o ódio que cultivou durante sua existência infame. Descemos as escadas do apartamento com pressa. As mãos de Billy estavam limpas, mas o cheiro de sangue estava impregnado. Mesmo com sede, não tive coragem de beber o sangue daquele homem nojento. Uma menina magrela e taciturna nos observava na saída daquela espelunca. Seus cabelos sujos e loiros caíam-lhe sobre o rosto marcado pela varíola.
- Ei Billy – esganiçou-se. – Tio Mário disse que você é uma putinha...
Passamos apressados por ela, ignorando-a.
- Killer Billy! Killer Billy! – aquela zombeteira entoou como uma canção de escárnio.
Billy dispensou minha companhia, e achei mais do que justo. Ele disse que ficaria bem, e que logo entraria em contato. Não foi como o combinado. Ele praticamente sumiu, me deixando sozinho. Não pude evitar de ter sonhos com ele, e quanto mais me afogava em minhas próprias agonias, mais sentia sua falta. E não deixei de indagar por onde ele andava.
Uma semana mais tarde...
Alguém batia em meu peito quando acordei, era Lili. Finalmente fui recobrando os sentidos e a sensibilidade. Olhei para ela, mas minha visão anda estava um pouco turva, me fazendo ver duas Lilis. Fiquei sentado na beira da cama e esfreguei os olhos, recordando do que havia acontecido enquanto dormia.
- Ei Nero! Você ainda está ai? – esganiçou-se Lili.
- Eu estou confuso – sussurrei.
- Você estava dormindo como uma pedra! – exclamou. – Te acordei por que quero que você vá dormir na outra cama. – Ela apontou para o sofá – vamos lá, agora! Anda, acorda!
- Quer ter um pouco de calma? – protestei, ainda me acostumando com a claridade, foi como se eu tivesse passado anos na escuridão. – Preciso de sangue.
- O que aconteceu com você? – ela sentou-se ao meu lado. – Teve mais um pesadelo?
- Não sei. Continuo sonhado que recordei de tudo.
- De tudo o que? – ela colocou a mão em meu ombro e apertou. – De tudo o que?
Ouvimos a campainha tocar, aquilo quebrou a tensão do momento. Lili me deu o ultimato de contar tudo para ela quando terminasse de atender quem quer que fosse. Concordei, pois não havia motivos para guardar aquilo para mim, ela me ajudaria se necessário.
- Estou indo! – esganiçou-se e se apressou em abrir a porta.
Recordei com amargura que a culpa da minha atual situação era toda minha. Não que agora fosse mais velho, mas naquela época eu era muito ingênuo, e também achava que Shaya era apenas um efeito dos cogumelos alucinógenos.
- Oh Deus! – ouvi Lili exclamar e dar um passo para trás.
Mal acreditei no que via. Daniel estava parado diante da porta com uma garota loira, me senti definitivamente ferrado. Lili cobria a boca com as mãos, suas pernas estavam bambas e tremiam. Corri até ela e segurei seus ombros. Daniel me lançou um olhar fulminante, na qual eu devolvi. A garota loira entrou no quarto sem ser convidada e sorriu para Lili, mas seu sorriso desapareceu quando seu olhar encontrou correntes tatuadas em meus braços. Ela fez uma careta de susto e olhou de Lili para mim.
- Quem é você? – perguntou em um tom insolente.
- Nós que fazemos as perguntas por aqui – rosnei.
A garota me lançou um olhar desafiador e olhou para Daniel, que não parecia estar ali, pois só tinha olhos para Lili. Ela debateu-se em meus braços e correu até o anjo, que a tomou em seus braços. Lili chorava compulsivamente, seus soluços tornavam-se mais altos à medida que o anjo apertava seu corpo junto ao dela. Fiquei sem reação com o que via, fiquei triste e vazio. Mas nada me deixou tão furioso quando Lili pulou para ele e o beijou. Andei com pressa até ela e segurei seu braço, puxando-a para longe do anjo. Ela me olhou com incredulidade e tentou livrar-se novamente do meu aperto, mas fui mais persistente.
- Nero! Me solte, não está vendo que é Daniel!? – esganiçou-se com um grande sorriso. – Ele voltou para mim... me solte!
- Largue ela! – esbravejou Daniel. Ele segurou o outro braço de Lili e a arrancou de mim. – Eu voltei por você, ainda te amo.
Lili voltou a abraça-lo e beijar seus lábios.
- Eu também amo você – falou entre o beijo. – Sempre amei e sempre soube que você estava vivo, eu o vi naquela noite.
- Ah minha nossa, você me viu – eles pareciam ter esquecido que havia outras pessoas no quarto. – Você me odeia?
- O que? É claro que não, por que está me fazendo essa pergunta? – Lili ficou repentinamente séria.
- Não é nada – Daniel me lançou um olhar sombrio. – Foi apenas um sonho que tive, depois darei um jeito nesses pesadelos.
- Ei Daniel, vamos embora, temos pouco tempo – pigarreou a garota loira, que também parecia estar desconfortável com a situação.
- Embora? Você não veio para ficar comigo? Quem é ela? – ele retesou o queixo e segurou o rosto de Lili entre as mãos. – Olhe, quero que me escute com atenção...
Lili assentiu, senti sua aflição.
- Tenho que ir embora, mas voltarei...
- Não vai não – bradou à loira. – Temos um trato Daniel!
- QUEM É VOCÊ? – gritou Lili, virando-se para encarar a garota loira. – QUEM É VOCÊ PARA DIZER QUE ELE NÃO DEVE FICAR COMIGO?
- Calma Lili – falei, mas ela não quis me ouvir.
- Sou eu quem levou ele, Daniel é meu enviado!
Ao ouvir aquilo, Lili ficou muito vermelha e andou pisando forte até a loira. Sua mão foi de encontro ao rosto da outra garota. Foi um tapa bem dado, o som de sua mão na bochecha da garota ecoou pelo quarto. Foi um momento tenso. Tudo aconteceu bem rápido, a garota segurou o pulso de Lili antes dela baixar o braço e o quebrou apenas com um pequeno movimento dos dedos. Lili gritou de dor e caiu no chão, corri a tempo de evitar que a loira a chutasse. Lancei minhas correntes sobre a cabeça dela, que foi arremessada para cima de Daniel e eles caíram juntos no chão.
- Aaah – gemia Lili. – Que droga Nero! Quem é essa vadia?
- Calma, vou colocar seu pulso no lugar ok? – tentei soar o mais calmo possível, fiquei furioso ao ver o rosto de Lili contorcer-se em agonia.
- Lili, você está bem? – Daniel já estava agachado ao lado dela.
- É claro que não seu idiota, ela parece bem para você? Seu babaca – rosnei.
- Ah parem com isso – ela contorceu-se mais uma vez. – Vamos logo isso Nero, parem de brigar.
- Tudo bem – falamos em uníssono.
Coloquei o pulso dela no lugar, mas infelizmente estava quebrado. Segurei ela nos braços e sentei na poltrona, acomodando-a em meu colo. Daniel ficou tenso, seu queixo estava retesado e os músculos rígidos. Era exatamente aquilo que eu queria fazer, e estava funcionando. A garota loira voltou a entrar no quarto, seus cabelos estavam emaranhados e sua testa sangrava, mas ela não voltou a fazer menção em atacar.
- Lili, me escute – Daniel estava desesperado. Ele agachou-se sobre a poltrona e segurou seu pulso quebrado. – Me desculpe por isso. Peço desculpas por Solária, ela não fez por mal.
- Solária? – indaguei. Então aquela era a famosa irmã e rival de Shaya.
- Imagine se ela fizesse por bem – gemeu Lili. Ela tentou sair do meu colo para ficar nos braços do anjo, mas eu a prendi nos meus. – Me solte Nero!
- Venha, tenho pouco tempo – Daniel a tomou de meus braços e voltou a abraça-la. – Eu voltarei para você, sou um anjo – ouvi ele sussurrar em seu ouvido. – Voltarei para te levar em Lumen, você verá minhas asas e voará comigo.
Lili voltou a soluçar e chorar.
- Estou muito feliz em saber que você está de volta – esganiçou-se. – Muito mesmo Daniel, eu te amo! Quero vê-lo novamente, sempre soube que você era um anjo, o meu anjo.
- Eu amo você mais do que tudo, voltarei dessa vez sozinho. Mas tenho que ir agora, não posso ficar muito tempo no plano físico.
- Volte para mim – sussurrou Lili.
- Voltarei. Quero que tenha cuidado com as pessoas que você convive, selecione melhor os seus amigos – ele olhou para mim ao dizer aquilo. – Rápido, me dê seu pulso.
Lili estendeu o pulso para ele. Daniel o segurou entre as mãos e fechou os olhos, depois um pequeno clarão irrompeu de suas mãos. Lili olhou maravilhada para o pulso, que não estava mais quebrado. Solária também olhava impressionada para o que Daniel havia acabado de fazer. O celeste beijou mais uma vez os lábios de Lili e partiu. Ela ficou olhando quando o portal abriu-se diante de seus olhos e os celestes sumiam através dele. Resolvi não falar nada, estava furioso. Lili rodopiou pelo quarto e caiu na cama de braços abertos, exibia um sorriso maior do que o da lua medonha dos meus pensamentos. Ela sequer lembrou que queria saber sobre o que eu havia sonhado. Isso me deixou mais furioso. Levantei da poltrona e fiquei de pé ao seu lado na cama. Ela olhou pra mim e continuou sorrindo.
- Pare de fingir que ainda ama ele, isso só vai piorar tudo – resmunguei.
- O que? O que você disse?
Ao ouvir aquilo, foi à gota d'água. Me senti cada vez mais furioso. Deitei por cima dela e segurei seus braços antes que ela tentasse uma fuga. Lili ainda tentou escorregar por debaixo de mim, mas aumentei meu peso sobre ela, imobilizando-a de vez.
- Me solte! Por que está fazendo isso? – esbravejou.
- Quero que olhe para mim – ela fechou os olhos. – Então vai ser assim?
Ela apertou mais os olhos.
Aproveitei sua teimosia e rocei o nariz em seu pescoço, seu corpo ficou imediatamente tenso. Sorri ao ver que ainda causava efeito nela.
- Olhe para mim, por que não quer olhar? – indaguei.
- Você vai me hipnotizar! – guinchou.
- Não vou não, só quero que olhe para mim enquanto eu estou falando com você – grunhi.
Lili continuou com os olhos fechados. Deixei me levar pela fúria e desejo. Coloquei meu joelho entre suas coxas e a fiz abrir suas pernas. Segurei seus dois braços com apenas uma mão, e com a outra deslizei sobre sua coxa. Ela tentou inutilmente fazer qualquer movimento para escapar, negando-se mais uma vez a abrir os olhos. Voltei a beijar seu pescoço, ela ficou cada vez mais tensa. Agarrei a alça de sua camisola e a rasguei, depois puxei para baixo, rasgando quase tudo. Ela aproveitou quando afrouxei o aperto e virou-se de bruços para tentar escapar.
- AAHHH ME SOLTE – grunhiu. – TENHO NAMORADO!
- Não tem não – fiquei sobre suas costas e apalpei seus seios com as duas mãos. – Acho que você está apaixonada por mim.
- NÃO SOU NÃO! ME LARGA! – ela conseguiu lançar seu joelho entre minhas pernas, me encolhi todo e grunhi de dor.
- Aah Lili, assim não vale – gemi, mas logo me recompus e voltei para ela.
- Pare Nero, estou falando sério! Já tenho namorado, amo Daniel!
- Já disse que você não ama ele – cheguei mais perto dela. – Você me ama.
Voltei a puxar Lili para mim, mas ela debateu-se e me lançou um tapa. Virei à cabeça para o lado e senti a pele de minhas bochechas arderem. Lili pareceu arrepender-se, pois sussurrou um pedido de desculpas e cobriu a boca com as mãos. Permaneci com a cabeça virada para o lado, refleti sobre o que eu pensei em fazer. Um forte desejo de matá-la me veio na mente. Com uma mão segurei seus braços e os apertei, enquanto apertava com muita força seu pescoço, sorrindo enquanto a via ficar vermelha enquanto eu a estrangulava. Eu estava furioso.
- O que você vai fazer? Vai me matar também? – choramingou.
- Também? – indaguei, retirando a mão de seu pescoço.
- Eu sei que foi você o responsável pelas mortes recentes que passam no noticiário! – esganiçou-se. – Vi isso enquanto você cochilava!
- Espere Lili – senti o pânico tomar o lugar da fúria. – Eu precisei fazer aquilo...
- É claro que não precisava! Aquelas pessoas tinham família Nero, e você as destruiu sem nenhum remorso! A POLÍCIA ESTÁ PROCURANDO AQUELE SEU AMIGO ESQUISITO SABIA? ELE TE AJUDOU TAMBÉM?
- Calma... Lili – segurei seu rosto entre minhas mãos e a fiz olhar para mim. – Eu amo você.
Engoli em seco ao dizer aquilo, era o que estava preso em minha garganta há sete meses atrás. Lili não se abalou ao ouvir minha confissão, ela me olhou com nojo.
- Não resta mais nada em você para amar.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top