48| Donzela Cruel


Ódio. Ódio. Ódio. Como Shaya poderia ser tão dedo duro? Perguntou-se Solária. Sentada diante de sua mais nova penteadeira encomendada sob medida para a mais bela do reino, ela odiou ver que mais uma espinha nascia debaixo do seu queixo. Tenho a pele mais linda e macia, como isso pode nascer justo em mim? Queixou-se mais uma vez. Pegou sua escova feita da melhor cerda de porco, não quebrava os fios nem os deixava volumosos demais. Penteou os longos cabelos dourados até ficarem como queria, liso solto com um pouco de volume. Sorriu para o seu reflexo no espelho, as olheiras haviam sumido por completo. Hoje seria seu grande dia se não fosse por Shaya, agora estava de castigo trancafiada em seu quarto. Mas isso não fica assim, ela irá pagar caro junto com seu amiguinho espantalho.

Se havia uma coisa que irritava Arthur, o rei, era que suas filhas se sentissem melhores que seu próprio povo. Como poderiam machucar de boa vontade alguém semelhante a sua hierarquia? Arthur sempre deixara claro que mesmo sendo suas filhas, Shaya e Solária deveriam ser tratadas como qualquer outro aldeão ou comerciante local. Mas Solária não aceitara de maneira alguma as decisões do pai. Filha de rei deve ser tratada como filha de rei, não como uma plebeia qualquer! Era assim que ela pensava, e fazia questão que todos soubessem de sua linhagem sanguínea. Muitas vezes zombando e até mesmo machucando os outros, era assim que ela imaginava ser a melhor maneira de ser bem tratada. Solária havia desenvolvido o desejo de machucar quaisquer ser vivo que não obedecesse suas ordens. Tornou-se uma adolescente fútil ecruel.

Com apenas seus quinzes anos, a mais bela donzela do reino já era temida até pelos lobos mais ferozes e líderes de suas matilhas. Para ela, a única forma de obter total poder era ser mais temida do que amada. Queria que todos no reino temessem sua sombra, que até mesmo pronunciar seu nome virou um tabu. E assim ela o fez. Os estalajadeiros não pronunciavam o nome da herdeira, as cozinheiras do castelo pensavam duas vezes antes de falar em Solária. A donzela parecia possuir subordinados até mesmo nas masmorras, seu nome tornou-se um verdadeiro agouro para quem ousasse pronunciá-lo em seus lábios. É melhor ser temida do que amada. Olhe só o exemplo de mamãe! Todo o reino a ama, mas ninguém a teme verdadeiramente. Como pode alguém querer que seus súditos obedeçam suas ordens se ela não ordena com autoridade? Isso pra mim não passa de medo, ela é uma medrosa! Queixou-se para seu mais fiel servo e malfeitor, o eunuco Gendry.

Arthur, cansado de ver tanta maldade vinda de sua tão amada filha, decidiu ser severo e mandá-la para Oorus, onde viveria com sua avó, Kruna Moon. Era essa a única opção, ela estava tornando-se cruel e fútil, ele não desejava que uma das herdeiras do reino destruísse tudo com um passe de mágica. Mágica. Quando Solária finalmente soubesse que possuía descendência, o rei temeu por todos. A garota tinha que sair dali o mais rápido possível, para retornar somente quando seu coração estivesse pronto para receber a magia que nele habitava. Solária não se interessava por estudos, quase não sabia ler. Isso era uma vantagem que Shaya possuía sobre ela, a arma do conhecimento nunca era demais. Mas a donzela não se deixava abalar. Não vou ficar perdendo metade da minha vida nesse quarto, sou uma donzela ocupada. Ficarei aqui apenas o tempo em que decido fazer com Shaya e seu amiguinho espantalho, eles não perdem por esperar. Resmungou consigo mesma.

Ela passou as horas do dia planejando sua vingança contra a irmã, a noite veio e o crepúsculo manchava o céu com o alaranjado das nuvens no fim da tarde. Pela primeira vez sentiu-se nervosa com o que estava pensando em fazer. Um plebeu a menos não faz diferença, não é mesmo? Perguntou-se, mas seu reflexo nada fez além de fitá-la de volta. Ela pulou para trás com o susto que levou, seu coração batia forte contra o peito, mas era apenas Pia, a cozinheira chefe do castelo. Ela vinha trazendo a refeição da donzela. Pão, água e uma maçã. Ótimo, papai está querendo bancar o durão. Resmungou. Viu que o rei havia cortado suas refeições favoritas, essa era a mesma do café da manhã e almoço. Ela já não aguentava mais alimentar-se de maçã e pão. Seu estômago roncou ao recordar das diversas tortas que Shaya e Douglas roubavam do estalajadeiro, desejou uma delas agora. Mas tenho que me alimentar, vou precisar de energia para fazer minha irmãzinha sofrer, ela e o espantalho. Lembrou-se.

A primavera finalmente entrava em ascensão. Ela sabia disso quando as doninhas voltavam do Sul para seus ninhos descongelados. O perfume que os botões de flores começavam a exalar era incrível, Solária amava a primavera mais que tudo. Era sempre assim, o inverno vigorava até o aniversário de Shaya, que também era o seu. Mas a partir da meia-noite, o inverno parava de vigorar e dava espaço para a adorável primavera. É incrível como até o inverno vai embora quando eu ordeno, sou digna de um trono. Ela sorriu consigo mesma ao ver que não havia mais nenhuma neve cobrindo as grandes árvores floridas, e nenhum lago congelado. Agora finalmente vou poder voltar a nadar nua no lago, acho que Pietro também gostaria de saber que o lago começou a descongelar. Sei que ele sempre fica me espionando, mas não tem coragem de falar comigo. Por que os garotos são sempre tão complicados? Perguntou-se.

Solária forçou a imensa porta do seu quarto, mas ela não se moveu. As trancas estavam prostradas do lado de fora. Teve a ideia de pegar as chaves quando Pia viesse deixar sua próxima refeição, mas essa só viria mais tarde. Até lá o festival de boas vindas para o Príncipe Nórdico, William, já estaria acabado. Ela esperou praticamente a sua vida inteira para encontrar-se com o tão belo Will, mas sua querida irmã tinha que estragar tudo. Você me paga Shaya! Não cansava de lembrar-se. Mas estava obstinada e iria a todo custo para o festival. Como poderia a mais bela donzela faltar ao grande evento? Aquilo era um absurdo para ela. Com certeza vou ser a escolhida, tenho a pele mais linda. O mais belo cabelo. O mais belo olho e o corpo mais escultural. Solária era definitivamente uma narcisista, para ela, ninguém superava sua extrema beleza. Mal sabia ela que parte de sua aparência descendia de arcanjos poderosos.

Sua mãe Ignis, era descendente de Tsadkiel, o grande arcanjo da liberdade e misericórdia. Já seu pai Arthur, não era nada mais do que descendente de Lúcifer. Ambos nascidos com linhagem angelical extremamente poderosa. E como não poderia ser diferente com suas filhas, o casal deu à luz a duas grandes potências divinas. As gêmeas anunciavam o inverno e a primavera, mal sabiam que possuíam tal magia no sangue. Arthur guardaria esse segredo até que as filhas estivessem preparadas o suficiente para saber controlar todo o poder dentro de si. Mas Shaya era esperta demais, já sabia que podia fazer algo que as pessoas comuns não podiam fazer. Ela mergulhava profundamente dentro dos livros, procurava sugar cada informação que pudesse lhe trazer algum benefício. Solária era fútil e perversa, não se importava com tais inutilidades. Para ela, os livros deveriam ser queimados.

A donzela escolheu seu melhor vestido, aquele que mandara encomendar exatamente para esse dia. Sua cor era como o azul do céu em uma tarde de primavera, uma longa cauda descia até os pés, na frente era curto acima dos joelhos. Era uma peça ousada, parecia ser muito à frente de sua época. Ela tomou seu melhor banho, prendeu os cabelos numa trança única e passou seu melhor perfume de rosas. Estava pronta. Mas como iria sair? Pensou e pensou, mas sua única saída sempre voltava para Pia, à tonta cozinheira. Se eu não fizer isso, não vou chegar a tempo de ver Will e fazer com que ele me escolha para ser sua noiva. Estava decidida, não deixaria nenhuma outra garota ser escolhida por Will, ele já era seu. Lembrou com amargura que a mãe também selecionara Shaya na lista de pretendentes, mas tranquilizou-se, a irmã não tinha olhos para príncipes, ela só importava-se com a arte da guerra.

- PIA! – esganiçou-se, mas não ouviu nenhum som vindo da escada. - PIAAAA – voltou a gritar.

Recostou o ouvido na porta para ouvir melhor, mas o corredor ainda continuava em silêncio.

- AAAAAH VOCÊ NÃO PEGA! – ela pulou de susto ao ouvir Sahya correr pelo corredor.

- A tinta não quer sair! – grunhiu Micah.

- Shaya? – chamou Solária.

- Ora, ora. Alguém está me chamando? – zombou Shaya, parando em frente à porta.

- Me tire daqui! Will precisa me ver! – ordenou.

- Will? Ele nem sabe que você existe, e vai continuar não sabendo. Vai ficar trancafiada no quarto até pensar sobre o que fez.

- Não faça isso comigo Shaya, preciso de um príncipe! - guinchou, batendo com os punhos cerrados na porta. – Me tire daqui!

- E eu preciso de um penico novo! Você é realmente uma pessoa horrível irmã. Espero mesmo que o tempo que passe no quarto sirva para você refletir um pouquinho melhor...

- Pare com isso! Sabe que eu odeio quando cita freses desses livros inúteis!

- Mas... ah esqueça. Vamos Micah – Shaya afastou-se da porta com o amigo e voltou a descer as escadas.

- VOCÊ E ESSE ESPANTALHO ME PAGAM – ameaçou Solária.

Estava furiosa, aquilo foi à gota d'água. Como tinham coragem de desrespeitá-la tanto? Eles pagariam caro. Esperou que os passos na escada cessassem para voltar a chamar Pia, se a irmã ouvisse, poderia ser delatada.

- PIAAAAAA – gritou com todas as forças de seus pulmões. – SOCORRO! TEM ALGUÉM NO MEU QUARTO!

Voltou a colocar o ouvido na porta e sorriu consigo mesma ao ouvir os tropeços desajeitados da cozinheira subindo as escadas. Ela estalou os dedos e os punhos, aquecer a mão tornaria melhor seus movimentos. Não seria difícil, porque Pia era mais baixa e atarracada. Solária fingiu estar choramingando enquanto a cozinheira tentava desesperadamente abrir a porta. Quando a tranca foi removida, a donzela escondeu-se atrás da penteadeira e aguardou que Pia entrasse totalmente no quarto.

- Princesa Solária? Por Deuses! Onde você está? – esganiçou-se Pia.

A donzela saiu sorrateiramente detrás da penteadeira e projetou-se como uma sombra nas costas de Pia. Foi rápido e fácil demais. Ela segurou a cabeça e o queixo da cozinheira e girou seu pescoço. Pia caiu inerte no chão, com uma expressão de preocupação no rosto. Estava morta, morrera preocupando-se com alguém que desejava sua morte. Isso foi mais fácil do que eu pensei. Disse para si mesma, depois jogou o pesado corpo de Pia pela janela. Solária possuía uma força sobrenatural que não conseguia explicar, mas gostava daquilo. O som da cabeça de Pia estraçalhando-se contra o chão a fez ter arrepios, mas ela ignorou e seguiu para a porta que enunciava sua liberdade. Olhou ao redor e não viu ninguém, era a sua chance. Ela correu sobre as sandálias altas, quase tropeçando sobre os degraus da escada. Ela não esperava deparar-se com o imenso guarda prostrado diante da saída.

- Noite Princesa Solária! - exclamou o grandalhão.

- Noite Zenon, deixe-me passar! - ralhou.

- Desculpe Princesa, mas está autorizada para sair? Onde está Pia? – murmurou o guarda, receoso sob o olhar fulminante de Solária.

- É claro que estou! Não está me vendo vestida para o festival? Que tonto! – ela empinou o nariz e passou pelo guarda, deixando-o sem reação.

Uma melodia suave ressoava perto do enorme totem que ergueram para receber o Príncipe Will. Tinha mais de dois metros de altura, dois lobos e um dragão entrelaçavam-se sobre uma sequoia secular, era um belo totem. Ela procurou pelo príncipe no meio da multidão, ele não estava perto da fogueira, nem perto do pequeno trono montado em uma carruagem. Havia muitas moças e rapazes dançando alegremente, mas nem sinal de Will. Ela vagueou ao redor da carruagem e notou que ela era feita com a melhor madeira dos quatro reinos. Ele deve ser muito rico. Pensou.

- Boa noite Solária! – exclamou Daario, um rapaz baixo e muito bonito.

- É Princesa Solária – resmungou a donzela.

- Oh perdão – encolheu-se o rapaz.

Um aglomerado de pessoas começou a forma-se perto da fogueira. Solária tentou observar, as pessoas corriam para ver o que estava acontecendo.

- Eu só queria dizer que hoje você está muito bonita...

- Saia da frente! – ralhou, esbarrando nos ombros de Daario.

Ela correu apressadamente, mas com cuidado para não transpirar. Solária empurrou todos que estavam na sua frente para ver quem estava roubando toda a atenção de seu príncipe. Para seu desespero, ela viu Will todo manchado de tinta vermelha, aquela que se usava para pintar madeira. O príncipe olhava sério para Shaya, que estava segurando sua mais nova criação, o lançador de tintas. Ao seu lado estava Micah, eles também estavam sujos de tinta, mas não tanto quanto Will. Solária observou a cena horrorizada, Shaya estava maltrapilha e comportava-se como uma herege. Usava uma calça de tecido grosso e sujo, aquilo era horrível para uma donzela usar. Mas ela parecia não se importar, estava exibindo um sorriso triunfante no rosto. Will passou os dedos sobre a tinta e cheirou, mas nada disse. Solária correu para seu príncipe e agarrou suas mãos.

- Oh meu príncipe, me desculpe por isso. Perdoe por esse comportamento tão hostil. Shaya é perturbada e fica agitada quando vê estranhos – ela quase babou no príncipe ao ver seus olhos estranhos. – Não vejo o porque você ainda continua aqui nesse festival se já escolheu sua noiva.

- Já? – Will a olhou com descrença e ergueu uma sobrancelha. Seus olhos azuis e verdes a estudaram por um instante.

- Mas é claro! – Solária exibiu seu melhor sorriso forçado.

- E quem seria? – indagou o príncipe.

- Eu! A mais bela de todas!

Will olhou mais uma vez para Shaya, observando seu sorriso presunçoso.

- Não – falou.

- Não o que? – indagou Solária.

- Não quero você... quero ela – Will olhou para Shaya e sorriu novamente, caminhou até ela e fez uma reverência.

As gêmeas ficaram sem reação. Solária nunca tinha sido tão humilhada em sua vida. Shaya recuou quando o príncipe tentou tocá-la, Micah riu da amiga e juntos eles correram para dentro do castelo. Will sorriu mais uma vez, aquela definitivamente seria a sua esposa. Mulheres fúteis e vazias como Solária não o interessavam, ele estava praticamente apaixonado por Shaya. A donzela olhou para todos que estavam debochando dela ao redor, decidiu que sair sem falar nada era o melhor. Ela passou por Will sem olhá-lo, depois seguiu para seu quarto no castelo. O guarda grandalhão estava caído na porta e roncava com um copo de vinho na mão. Ela fechou as portas. Rasgou todo o seu vestido e chorou sozinha em sua cama. Eles me pagam, eles me pagam. Ninguém roubava seu príncipe como se não fosse nada. A donzela estava mais decidida do que nunca, sua vingança seria lembrada por todos do reino.

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