45| Reunião Sombria

NERO

Nada para dizer. Nada para fazer. Fiquei assim durante horas, talvez até dias. Minha sede já estava incomodando ao extremo e os sintomas da abstinência invadiram meu corpo em todas as partes. Quando finalmente consegui me comunicar com Sam descobri que não havia motivos para a minha presença naquele lugar, o que me deixou mais furioso.

"Já que trouxeram a garota para Tenebris, pensei que essa seria a sua grande oportunidade de conseguir matá-la. Mas se ela está sob a proteção do poderoso Grendel... não há nada que você possa fazer no momento, sinto muito."

Essa foi a sua desculpa. Então era por isso que aqueles anjos foram até o mundo inferior, Sora também estava lá e eles acharam que ela corria perigo.

Recordei do que havia dito para Daniel, ele teria mesmo acreditado? Desejei profundamente que sim, queria ver Lili longe daquele anjo morto. Isso não seria difícil, talvez ele nunca mais aparecesse depois do nosso curto diálogo. Enquanto estive esperando alguém sob a sombra da árvore solitária, parei para pensar sobre as coisas que estavam acontecendo de uma maneira extremamente rápida. Há alguns meses eu dormia profundamente dentro de um caixão desgastado, e agora estava em outra dimensão com a missão de matar uma garota sem ao menos saber o motivo. Era isso, não procurei saber a razão de tudo aquilo, Shaya parecia estar sempre ocupada com algo. Me senti estranho ao lembrar que sempre estive cercado por alguns celestes e não percebi que minha vida era uma mentira, ela me deixou viver tudo aquilo para depois me fazer dormir por séculos debaixo da terra. Era meio injusto, mas de nada adiantava reclamar agora. Estava tudo feito, mas o final não seria escrito pelas Deusas.

Quando Sam finalmente me trouxe de volta, ainda era noite e Lili estava dormindo em meus braços. Não consegui calcular quanto tempo havia ficado em Tenebris, mas tudo pareceu parar durante as horas que eu estive por lá. Desejei que a sede também ficasse longe, mas ela veio com mais força, me fazendo salivar com o cheiro do sangue de Lili. Levantei da cama para não cometer o erro de ataca-la e me arrepender depois. Não havia se passado muito tempo desde minha última alimentação, e sair novamente para caçar me deu uma dor de cabeça latente. Resolvi tomar algumas bolças de sangue para ver se a sede passava, liguei a televisão e coloquei no noticiário local. Passava uma notícia de mais um assassinato.

Serial Killers? Então era assim que estavam nos chamando? Eu definitivamente não era um assassino em série, matar agora era uma necessidade para mim assim como voar era para um pássaro. Coloquei o volume baixo para Lili não despertar e me diverti ao ver os policiais andarem em círculos e não descobrirem nada, como encontrariam as digitais de um homem que estava morto há séculos? Até mesmo a grande INTERPOL fracassaria nesse caso. Para meu alívio a sede passou com as bolsas de sangue que tomei, mais uma vida seria poupada. Desliguei a televisão e fui para o parapeito da janela, era uma noite bonita e agitada em Oorland, mas não para aquelas garotas. Elas tiveram o infortúnio de me encontrar e agora estavam todas mortas.

Não entendi meus sentimentos confusos. Não sabia se sentia culpa ou satisfação pelas vidas que tirei. No que eu havia me tornado? Voltei a olhar para Lili e me perguntei se ela ainda olharia para mim se soubesse a criatura horrenda que se escondia atrás de meus olhos. Algo repulsivo e nojento. Mas minha humanidade fora tirada de mim há muito tempo, minha alma estava corrompida pela sede de poder e dominação, eu fazia jus ao que me tornei. Somente perto de Lili eu me sentia humano novamente, seria amor? Não mesmo. Considero o amor uma doença mental que só os loucos entendem, que só os loucos aplicam em suas vidas. Com um mundo exterior tão morto, era melhor tornar-se um caçador e matar outros para defender quem amamos, do que deixar que outros nos matem por sermos covardes demais para lutar por nossos ideais.

O som metalizado do interfone quebrou o silêncio do quarto. Me perguntei quem seria em uma hora daquelas, deveria ser algum amigo de Lili. Atendi no terceiro toque, a voz grave do Sr. Guedes, recepcionista do hotel, soou arrastada e rouca. Ele fazia diversas ligações durante todo o dia, era natural que sua voz não estivesse em seus melhores dias.

- Boa noite Srta. Wendel, desculpe o incômodo...

- Sou Nero – interrompi.

- Oh me perdoe Sr. Lancaster, me perdoe por ligar em uma hora dessas! – ele estava falando rápido demais.

- Não tem problema – tranquilizei.

- Ah naturalmente. A Srta. Coperfield deseja falar com você. Posso autorizar sua subida?

- Coperfield? Não conheço ninguém com esse nome.

- Perdão. É Kaya o seu nome, ela diz que precisa falar com você urgentemente.

- Continuo sem conhecer essa pessoa, talvez ela tenha errado de apartamento.

Kaya Coperfield? Definitivamente não conhecia alguém com aquele nome.

- Ela se diz a garota do violino no parque...

De repente recordei de tudo. A garota solitária no bosque, que desejava a morte mais do que tudo. Eu salvei sua vida, agora ela era uma imortal. O que queria comigo? Como descobriu onde eu estava hospedado? Ela queria conversar, provavelmente seria uma conversa em particular. Mas isso não poderia ocorrer com Lili no quarto, teria que ser em outro lugar, talvez no café mais próximo.

- Ok. Desço em cinco minutos.

Já estava vestido com a calça jeans preta, então só entrei em um moletom azul, peguei as chaves da porta e olhei uma última vez para Lili, ela estava dormindo profundamente. Preferi descer pelas escadas, isso me dava tempo para pensar em como reagir diante daquela garota. Não demorei muito para chegar, e lá estava ela. Não havia mudado muita coisa quando nos encontramos, só estava menos pálida e os cabelos loiros cresceram um pouco até os ombros, também reparei que ela não usava mais o cilindro. Ela sorriu quando me viu. Estava vestida com um vestido negro até os joelhos. Andei com cautela até a garota, ela parecia muito empolgada em ver alguém que mal conhecia. Alguém que desejou tirar sua vida.

- Oi... – cumprimentou.

- O que você quer? – rosnei.

- Precisamos conversar – ela aproximou-se de repente, me fazendo recuar.

- Está bem – não gostei muito daquela aproximação repentina. – Não pode ser aqui, vamos para um lugar mais tranquilo.

- Certo, vamos? – ela foi até o sofá da recepção e pegou a bolsa que guardava seu violino.

Andamos por alguns minutos em silencio, depois entramos em uma loja de ¹dangos que funcionava vinte quatro horas. O local era quente e agradável, possuía diversos tipos de doces. Sentamos em uma pequena mesa perto da vitrine, onde podíamos observar o contínuo movimento das pessoas. Uma garota pequena de kimono azul veio nos atender. Depois de anotar nosso pedido ela sumiu detrás do balcão, nos deixando sozinhos. Decidi não iniciar a conversa, a iniciativa deveria vir dela. Cruzei os braços e a encarei, ela baixou os olhos e colocou uma mecha de cabelo para trás da orelha.

- Bem... obrigado – sussurrou.

- Não entendo, pelo que? – indaguei.

- Ora, por salvar minha vida – ela ergueu a cabeça e vi que seus olhos estavam marejados. – Obrigado por não me deixar morrer. Você é meu anjo da guarda.

Fiquei sem reação diante daquelas palavras. Embora soubesse que aquilo era uma mentira, eu estava me lixando quando desejei tirar sua vida. Seu verdadeiro anjo da guarda era Sam, ele interveio, se não fosse por ele ela estaria morta naquele momento. Me aprumei sobre a cadeira e limpei a garganta. Ela me olhava esperançosa, mas nenhuma palavra de conforto me veio na mente. Talvez fosse melhor ser realista sobre a situação.

- Olhe Kaya, tem muita coisa em jogo...

- Por favor, não me venha com essa – ela jogou um dango na boca. – Só me diga no que você me transformou.

- Tem certeza que deseja saber? Você pode não gostar do que vai ouvir – adverti.

- Quando você me mordeu naquela noite, eu realmente não acreditei que fosse um vampiro. Só deixei que me mordesse porque não estava mais ligando para nada.

- Então achou que era tudo brincadeira? – indaguei. – Que cruel.

- Ah desculpe – ela riu. – Você tem noção de como eu acordei?

- Não faço à mínima – admiti.

- Bem, foi maravilhoso acordar e não precisar daquele maldito cilindro para respirar.

- Vou ser sincero com você. Eu gostaria muito que estivesse morta e não na minha frente agora. Estou profundamente arrependido de tê-la salvo. Agora a pergunta é, como você me encontrou?

Ela baixou os olhos e ficou séria.

- Você sabe – sussurrou.

- Me conte – eu já sabia o que ela queria dizer, só precisava confirmar.

- As mortes. Nero, você é uma pessoa tão boa, por que machuca os outros?

- Por que necessito – aquela conversa estava ficando entediante. Finalmente uma pessoa que havia desvendado meus assassinatos. – Como me associou com os ataques?

- Bem, eu fui mordida – ela comeu outro dango. – Você não vai comer? – neguei. – Bem, todas as pessoas mortas possuíam mordidas. Então não foi muito difícil te encontrar, todos os assassinatos aconteceram perto do seu apartamento. E acho que você não está agindo sozinho.

- Interessante. Você é muito esperta. Agora sim, merece a verdade, eu a transformei em uma imortal.

Imaginei que a garota iria chorar, mas ela estava boquiaberta. Depois exibiu um largo sorriso no rosto corado de alegria.

- Agora eu tenho certeza que você é meu anjo da guarda!

- Não mesmo, já se esqueceu do que eu fiz com aquelas garotas? – tentar afastá-la de mim seria a melhor opção, ela não sabia o quanto eu poderia ser horrível.

¹Do japonês: doces

- Claro que não, mas você não fez isso comigo. Nero, quero ir embora com você. Me ensine tudo que sabe, me conte tudo sobre você.

- O que você é? Uma stalker? – rimos do termo que usei.

- É claro que não! Mas eu não tenho mais uma vida aqui em Oorland, como posso conviver com meus pais sabendo que não irei mais envelhecer?

- Você tem razão, mas não pode ficar comigo. É perigoso demais...

- Por favor, quero ir com você!

- Kaya, quantos anos você tem? – indaguei.

- Tenho quatorze, já sou quase uma adulta.

- Não mesmo, você é muito nova. Não vai mais envelhecer depois disso.

- Você acha que eu não sei? Acha que vai ser fácil ver todos que eu amo morrerem? – ela lutou contra as lágrimas. – Se não me levar com você, conto tudo que sei para a sua amiga. Não vou medir as palavras. E não me venha com essa de que pode me matar, porque sou imortal!

- Oh – finalmente eu estava lidando com alguém astucioso.

Parecia destino. Vi Billy entrar na loja de doces usando um jaleco branco. Ele estava com um semblante cansando e fumava um charuto negro. Grandes baforadas de fumaça saíam de sua boca e empestava o local com cheiro de hortelã. A atendente japonesa foi até ele pisando forte, avisando que era proibido fumar naquele local. Ele sorriu para ela, lançando uma baforada em seu rosto. A garota tossiu e pareceu se intimidar, mas insistiu que ele jogasse o charuto fora.

- Certo docinho – disse ele, ainda sorrindo para ela.

Nossos olhares se encontraram. Ele pareceu tão surpreso quanto eu. Seus enormes olhos azuis foram parar em Kaya, que também o fitava. Seu jaleco se agitava à medida que ele avançava até nós.

- O que faz aqui? – indaguei quando ele sentou ao meu lado.

- Não precisa ser grosseiro. Acabei de sair da faculdade, dissecar um cadáver não é fácil – seus olhos voltaram a fitar Kaya. – Quem é ela?

- Sou Kaia. Eu conheço você – rosnou ela, oque estaria acontecendo ali? – Assassino.

Billy soltou uma risada de escárnio.

- Assassino? Eu nem a conheço...

- Suspeito de ter matado oito garotas da classe em que estudava... Billy Carson não é? Conheço seu tipo, assassino. Seu patife...

- Ei, ei – interrompi, pois a garota japonesa nos olhava com desconfiança. – O que quer dizer com isso Kaia?

- Esse patife conseguiu se safar de uma chacina. Não sei como, mas escondeu todas as evidências que o incriminava, mas no fundo, todos sabiam quem era o verdadeiro culpado – o rosto dela estava contorcido em cólera raivosa. – Elas eram suas amigas.

- Meu suor foi encontrado no corpo de cada uma delas por que transei com todas – ele riu. – Foi uma de cada vez é claro, mas todas gemiam por mais...

- Ora seu...

- É melhor parar. Parem vocês dois – as coisas estavam ficando interessantes, Billy estava tranquilo porque no fundo sabia que eu sabia sobre sua verdadeira natureza, assim como gostava do que ele fazia.

Não entendi por que Kaia queria vir comigo, pois sabia que eu também era um assassino.

- Então é aqui que você está! – pulei da cadeira ao ouvir a voz de Lili. – O que faz aqui em uma hora dessas?

Seus olhos foram de Billy para Kaya, imediatamente desconfiando de algo.

- Lili? Você não estava dormindo? – indaguei.

Ela revirou os olhos e puxou a gola do meu moletom, me levantando bruscamente da cadeira.

- Ei! O que eu fiz? – pigarrei. Kaya olhava confusa para nós dois.

- Quem é ela? – Lili sibilou entre os dentes, estava ficando vermelha.

- Essa é Kaya, uma amiga – falei. – Esse é...

Fiquei mudo ao ver os olhos predadores de Billy consumindo Lili explicitamente. Eu sabia o que se passava em sua cabeça, e essa ideia me aterrorizava. Ela não me deu tempo de apresenta-lo, e fiquei grato por isso.

- Vamos embora.

Lili me arrastou para fora da loja. Ela não largou a gola do meu moletom até ficarmos a uma distância considerável da loja de doces. Ela teria escutado a conversa? Torci que não. Tentei argumentar com Lili, mas ela não queria ouvir e foi resmungando durante todo o caminho de volta para casa. Não entendi sua reação, ela sempre tratava bem às pessoas, mas com Kaya foi diferente. Não consegui apresentá-las, mas talvez fosse melhor assim porque Kaya sabia demais. Se Lili soubesse metade do que ela sabia, já não olharia mais para mim há muito tempo. Chegamos ao apartamento e ela recusava-se a falar comigo, mulheres são sempre instáveis, nunca sabemos quando realmente estão zangadas ou felizes. Ela retirou seu casaco e voltou a deitar na cama, fiquei tentado a me juntar a ela, mas achei melhor manter distância.

O cheiro de Kaya estava gravado em meu olfato, não seria difícil encontra-la novamente. Não seria nada fácil convencê-la de ficar em Oorland, mas Lili também não poderia saber como ela se tornou uma imortal. Isso iria me comprometer por completo, ela descobriria tudo o que eu fiz com as pessoas que matei e não me perdoaria. Não pude esquecer de Billy, seus olhos desejavam Lili, a desejavam morta. Essas questões teriam que ser resolvidas antes de partimos para Blizzard, e não seria nada fácil lidar com as consequências.

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