39| A Matança

Doce assassina em série
(Eu acho que te verei por lá)
Faço isso pela sensação de agitação
Te amo só um pouco demais, demais
(Você me mandou direto para o céu)  

- Serial Killer, Lana Del Rey

NERO

Não sei como, mas consegui esconder de Lili sobre minhas vítimas. Ela estava tão ocupada com a faculdade que mal olhava os noticiários. Quando finalmente conseguiu comunicar-se com Sora, ela soube de notícias sobre Lieff, que não eram nada agradáveis. Haviam se passado sete meses, estávamos em Setembro, e muitas coisas ocorreram nesse meio tempo. Os sonhos com as visitas de Shaya não paravam de vir, mas eu tinha uma coisa que ela não tinha, livre arbítrio. Poderia ir e vir do submundo se quisesse, ela era uma celeste. Isso me foi concedido quando fui concebido ao mundo dos mortais, nasci como humano, e o livre arbítrio era um direito para mim. Mas acabei me tornando algo cruel e estranho, em parte, mas o livre arbítrio não morreu comigo, eu tinha o poder de ir e vir. Shaya não poderia me obrigar a nada. Por que? Porque eu ainda possuía uma alma.

Com a notícia sobre a tentativa de suicídio de Lieff, Lili resolveu não ficar para o próximo mês. Minha sede já estava quase incontrolável, eu precisava de sangue todos os dias. Isso era a forma de Shaya para me obrigar a voltar para Blizzard, foi uma jogada de mestre. Para piorar, as bolsas que Lili trazia do hospital não eram suficientes, pois o sangue era frio e grosso, diferente do que era quente e vivo que corria pelas artérias de um ser vivo. Sangue de animais? Não. Eu tinha o desejo de matar quem eu escolhesse. O prazer de vê-las gritar e implorar pela vida, isso me fazia sentir o poder de Deus. Certo, no começo de tudo essa ideia era repugnante para mim, mas o tempo passou e minha verdadeira natureza estava exposta ali, para quem me olhasse com mais atenção. E Billy, que me abriu os olhos. Eu sentia sua falta, apesar de tê-lo visto apenas uma vez. O festival de inverno se aproximava, e eu estava ansioso por encontra-lo. Será que ele teria conseguido se livrar da mira de suspeitas?

Ainda não havia planejado como matar Sora, na verdade, acho que não queria isso. Mas se minha liberdade dependesse da vida dela, eu não pensaria duas vezes. Ela não era importante para mim, assim como ninguém exceto eu. Claro, Lili era uma pequena exceção, pois já estávamos envolvidos. Era apenas sexo, apenas isso. Todos os dias repetia para mim mesmo, isso não era amor, eu não sabia mais amar ninguém, porque o amor morreu com o antigo Nero. Sentado na confortável poltrona cinza, eu me encontrava lendo O Sol é Para Todos, de Haper Lee. É uma história contada pela pequena órfã Scout, na pequena cidade fictícia Maycomb no Alabama. Passa na década de 1930, durante a Grande Depressão. Era um livro muito bom, pois era possível identificar os diversos tipos de preconceitos que ainda existem entre as pessoas. Já passavam das dezessete horas e Lili ainda não havia chegado, ela estava muito abalada com a notícia de Lieff, mas decidiu ir concluir seu trabalho.

O que me dava tempo de sobra para caçar mais alguém. As bolsas de sangue acumulavam-se na geladeira, tomei algumas antes de vestir meu sobretudo negro e sair para mais uma noite agitada em Oorland. As ruas ainda estavam apinhadas de gente, o festival de inverno estava sendo realizado no bosque próximo ao prédio, hoje definitivamente era o meu dia de sorte. Pessoas de todos os tipos estavam rindo e comendo doces por todo o lugar, o tema do festival era "Sangue na Neve". Sorri para mim mesmo, eu e Billy faríamos jus ao nome. Crianças corriam para todos os lados com máscaras em seus rostos, pequenos foguetes faiscavam em suas mãos e eram lançados ao ar, assustando um grupo de garotas que passava por perto. Barracas tomaram conta do grande espaço vazio. Pipocas, sorvetes e algodões-doces eram vendidos com mais uma diversidade de outras guloseimas. Sai detrás das árvores e andei entre a multidão, percebi alguns olhares direcionados a mim. Eles deviam achar que eu estava lá como alguma atração do festival, sorri para algumas crianças que apontavam para as minhas unhas. Captei o cheiro de Billy não muito longe e instantaneamente senti o peso de seu olhar.

A imensidão de seus olhos azuis se destacava entre os demais. Ele usava um casaco marrom e calça preta. Seu cabelo castanho caia sobre a testa. Ele sorriu enquanto eu me aproximava e me surpreendeu com um abraço. Foi estranho, mas eu gostei. Já o considerava um amigo, o único que me compreendia e partilhava dos mesmos gostos. Uma música triste começou a tocar dentro de uma barraca que abrigava caixas de som. Repentinamente recordei da garota que encontrei naquele mesmo lugar. Tive receio de encontrá-la ali, olhei para os lados a procura dela, fiquei aliviado por não encontrar nada. Examinei o local a procura de uma vítima solitária, mas todos pareciam estar muito bem acompanhados. Billy apertou meu ombro e me fez olhar para um pequeno grupo de garotas que haviam se assustado por conta dos fogos, que agora estavam nos observando. Elas olhavam para mim, em seguida uma para as outras, trocando risadinhas e olhares curiosos. Sorri de volta para a morena de cabelos curtos, as outras deram pequenos pulos e cutucaram a amiga. Mal sabiam que eu desejava o sangue de todas. Andei até elas, desviando de mais um grupo de crianças travessas. Billy ficou onde estava, dando um meio sorriso.

Ao meu lado havia uma barraca de máscaras que estavam sendo distribuídas gratuitamente, peguei uma vermelha que cobria meu nariz. Puxei o elástico e a pus em meu rosto. Cheguei até o grupo de quatro garotas, todas aparentavam ter a minha idade, mas eu era bem mais alto. Elas tiveram que olhar para cima quando eu as cumprimentei, exibindo meu melhor sorriso. A garota morena pareceu mais retraída, dando um pequeno sorriso que se foi tão rápido quanto apareceu. Olhei para trás a procura de Billy, mas ele não estava mais ali. Olhando para frente, o vi espreitando logo atrás das garotas, usando uma máscara azul, como seus olhos. Ele assentiu quando nossos olhares se encontraram, e entendi que elas eram nossas novas escolhidas.

- Ui, você é bem alto – a menina de cabelos loiros com mechas roxas disse.

- Sou? – indague, me curvando para olhar melhor seu rosto.

- Sim, é algum estrangeiro? – perguntou a ruiva com um gorro branco na cabeça.

- Exato – sorri para elas, que se entreolharam ao verem minhas presas.

- E de onde você é? – perguntou a menor delas, de cabelos negros enormes e ondulados.

- Sou de Blizzard, estou aqui acompanhado um amigo... – olhei de soslaio para a morena. – Gostei do seu cabelo!

A garota pulou de susto quando percebeu que eu havia falado com ela, despertando de seu devaneio.

- O-obrigado – falou, sorrindo para mim. Ela seria a primeira.

Um grupo de velhos e velhas se juntaram no centro do bosque, um círculo foi formado por crianças e adultos. O grupo de velhos se agruparam em pares e a música tornou-se mais agitada. Eles começaram a dançar, chamando a atenção de outras pessoas que também começaram a dançar. Logo todos estavam agitados pela dança, crianças, adultos e velhos rodopiavam alegremente pelo local. As garotas puseram suas máscaras e aguardaram um grupo de garotos que as observavam com timidez, talvez estivessem intimidados por mim. Fui até uma barraca que vendia lírios, comprei o mais belo. Era branco e simples, mas o mais belo. Peguei uma maçã caramelada e enrolei o lírio no palito. Fui até a garota morena e estendi o pequeno presente à sua frente.

- Olhai os lírios do campo, eles não fiam, nem tecem – citei. Ela fez uma cara de espanto, mas sorriu. – Eu, todavia, vos asseguro que nem mesmo Salomão, em todo o seu esplendor, pôde se vestir como um deles. A donzela me concede a honra desta dança?

Ler a Bíblia me rendeu essa cantada.

- Oh – ela ficou sem reação.

- Aceita idiota! – sussurrou a ruiva.

- Obrigado... – ela aceitou a maçã, acariciando o lírio entre seus dedos. – Eu aceito.

Sorri quando ela mordeu a maçã, depois entregou para a ruiva e aceitou minha mão. Senti seu sangue pulsar apenas com o primeiro conato, segurei seus dedos entre os meus e a levei para o centro da roda. Algumas pessoas abriram caminho para a nossa passagem, até a música mudou, começou a tocar uma melodia mais lenta. Segurei a cintura da garota e apertei seu corpo contra o meu, ela soltou uma risada nervosa, depois segurou minha mão e começamos uma dança romântica de valsa. Estava tudo perfeito, outras pessoas contagiaram-se com nosso ritmo e começaram a fazer igual. Logo o pátio estava repleto de casais agarrados.

- Me desculpe, eu nem perguntei o seu nome – sussurrei em seu ouvido.

- É Lucinda – ela sorriu, pude ver o brilho de seus olhos negros através da máscara branca. – Qual o seu?

- É Lieff – falei.

- Por que não tira essa máscara? – perguntou. Virei seu corpo para o outro lado, apertando sua cintura.

- Mas essa é a graça do festival, não? – indaguei.

- Tem razão, desculpe.

Continuamos a dançar por um tempo, decidi que já era hora de atacar quando comecei a ficar mais lento. Vi Billy dançar com outra garota, e lançar olhares duros em minha direção. Algumas pessoas começaram a se dispersar pelos cantos. Persuadi Lucinda a dançar comigo em um lugar mais solitário, ninguém era páreo contra meu olhar persuasivo. Ela estava totalmente sob meu controle, parecia estar em outra dimensão. Quando nos afastamos o suficiente para ninguém nos ver, recostei Lucinda na árvore e a beijei. Não foi um beijo muito bom, porque ela parecia não estar lá. Seus olhos não desgrudavam dos meus, ela estava no mais perfeito transe que eu já havia feito.

- Diga-me Lucinda, de que forma desejas ver a morte? – sussurrei, segurando seu queixo com a ponta do dedo.

Ela não respondeu, estava perdida em meu olhar. Segurei seus ombros e a mordi. O sangue era luxuriante, não demorei muito para beber tudo, estava uma delícia. Quando terminei, Lucinda exibia um pequeno sorriso no rosto, mas a expressão em seus olhos era de tristeza. Segurei seu corpo agora frio e escondi entre um amontoado de arbustos altos. Billy irrompeu das sombras com uma expressão não muito feliz.

- Por que não me esperou? – perguntou impaciente.

- Você não toma sangue, certo? – limpei meu rosto em uma pequena fonte enquanto o ouvia resmungar.

- Certo, não bebo. Mas eu mato. Eu queria matar essa garota para você, não é justo que me deixe de fora. Também quero um pouco de diversão.

- Ah desculpa Billy – grunhi. – Pode ficar com a próxima...

- Quer que mate ela para você? A ruiva.

- Não, só a deixe desacordada. Os gritos podem despertar a atenção de alguém. Por falar em gritos, como você conseguiu se safar sendo que deixou aquela garota viver? Ela te conhecia.

- Ela foi para o hospital onde eu faço estágio. Sou estudante de medicina... eu a matei. Foi fácil, asfixia – ele sorriu. – Conheço o corpo das pessoas, sou fascinado como eles funcionam por dentro.

- Bem, ótimo. Acho que encontrei o amigo certo – murmurei.

Voltamos para o festival. Fui até a barraca de máscaras e troquei a vermelha por uma preta. Observei a garota ruiva ao longe, ela comia o resto da maça caramelada e estava sozinha. Cheguei até ela em segundos, desejando por mais sangue.

- Onde está Lucinda? – perguntou, quando me viu aproximar-se dela.

Está feliz no inferno. Pensei em dizer.

- Ela não estava sentindo-se bem, foi embora – menti.

- Hum! Típico dela, sempre com vergonha dos garotos.

- Então... – ergui uma sobrancelha, esperando ela me dizer seu nome.

- Kendra – ela me lançou uma piscadela.

- Então Kendra, sou Lieff. Está afim de dançar? – olhei dentro de seus olhos verdes.

- Está bem – ela lambeu os dedos e prendeu o lírio na pulseira. – Vai rolar beijo?

Sorri para ela e assenti, as ruivas eram as melhores.

- Ótimo, vamos lá – ela pegou minha mão e embarcou em uma viagem infernal sem volta.

Logo ela estava amordaçada por fitas, e Billy arrancava uma mecha de seu cabelo. Era como uma pronta entrega. Eu pedia e ele as entregava, prontas para o abate. Um hematoma roxo era visível no rosto de Kendra.

-Ela ia gritar, então eu soquei a cara dela. Foi fácil de apagar. É toda sua.

O destino de Kendra não foi diferente, assim como o de Janice e Letícia. Todas viram a morte diante de seus olhos, mas foram tolas o suficiente para não perceberem que ela usava uma máscara para confundi-las e arrasta-lhes a alma para o inferno. Para cada garota, usei uma máscara diferente, assim elas sentiam-se mais confiantes por pensar não estar partilhando o mesmo cara. Seus corpos estavam todos na mesma pilha de arbustos, entrelaçados por fitas.

- Podemos fazer melhor...

- Não Billy, assim está ótimo. Não podemos chamar muita atenção – ele concordou.

Joguei uma moeda entre os arbustos, junto com as quatro máscaras. Caminhamos de volta para o apartamento, passando por pessoas que sorriam alegremente enquanto quatro corpos apodreciam não muito longe.

- É aqui que você mora? – perguntou Billy.

- Sim...

- Posso ficar? – ele me surpreendeu.

- Como assim? – indaguei, confuso.

- Posso dormir com você? – aquele pedido era sério, notei isso em suas feições. – Por favor...

- Outro dia – falei sem pensar.

- Sério? Ótimo! – ele me deu um abraço rápido e se foi, exultante. Não me deixando uma oportunidade para replicar.

Senti o cheiro de lavanda de Lili mesmo antes de subir as escadas, então ela estava no banho, se eu fosse rápido o suficiente chegaria a tempo de vê-la apenas de toalha. Abri a porta ao mesmo tempo em que ela saia do banheiro. Para a minha decepção, ela estava usando um roupão preto.

- Onde você estava? – questionou, cruzando os braços.

- Visitando o festival – falei a verdade.

Ela veio até mim e fez uma careta estranha, como se estivesse sentindo o cheiro de algo podre.

- Está cheirando a sangue... Nero, que você fez? – Ela começou a despir meu sobretudo.

- Nada – menti. – Apenas visitei o parque. Tomei algumas bolsas de antes de partir, deve ser por isso...

Parei de falar quando percebi que estava prendendo a respiração, Lili estava muito próxima de mim. Senti o impulso de agarrá-la, mas recordei que não deveria. Observei ela procurar evidências de um crime, eu ainda despertava sua desconfiança. Ela segurou minhas mãos, depois as cheirou. Aquele toque me fez tremer um pouco, mas me recompus quando ela afastou-se. Mas ela voltou a me tocar, dessa vez começou a despir minha camiseta. Fiquei agitado e surpreso com aquilo, não sabia como reagir. Ela passou as mãos sobre meu abdômen, depois examinou minhas costas.

- Hum, acho que você está falando a verdade – ela voltou ao banheiro, depois apareceu com sua camisola preta e rendada.

- Lili... – ainda estava abalado com seu toque. – Não pode fazer isso comigo...

- Isso o que? – cortou.

Pela primeira vez desde que cheguei, notei que ela não estava bem. Sua expressão era de tristeza, seus ombros estavam curvados e os olhos avermelhados. Segurei seu braço e a puxei para um abraço, ela começou a chorar no instante em que a envolvi entre meus braços. Eu sabia o motivo, era Lieff. Embalei Lili na cama, onde permaneceu chorando até dormir. Ela adormeceu depois de uma sessão de carícias em seu cabelo, quando sua respiração se tornou mais lenta e regular, fui tomar uma ducha. Deitei ao seu lado, recostando minha cabeça em seu abdômen. Indaguei sobre o que Lili estaria sonhando, se eu alguma vez já povoei alguns de seus sonhos. Cobri nosso corpo com o edredom e passei meu braço por ela.

- Há o bem e o mal dentro de mim, e você escolherá com qual deles vai desejar conviver – sussurrei em seu ouvido.

Perigo. Perigoso, era o que estava me tornando perto dela. Lili estava me desviando de minha verdadeira missão, mas eu era fraco, não conseguia me desviar dela. Pensei em Billy, e em seu repentino apego. Ele povoou meus pensamentos, e percebi que não sabia nada sobre ele, apenas o seu nome. Fechei os olhos e adormeci, mas Sam não me deixou sonhar, pois me levou para uma visita em Tenebris.

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