38| Lieff

Eu podia escutar a chuva torrencial lá fora. Ao longe, o som ainda continuava a açoitar as janelas da casa. Abri os olhos lentamente, e mesmo com a visão enuviada, ainda consegui reconhecer o quarto de Lieff. Meu corpo estava estendido no chão, e quando tentei levantar, uma forte dor na cabeça me deixou tonta o suficiente para me deixar onde estava. Pequenos flashes do que aconteceu foram vindo aos poucos, e quanto mais rapidamente chegavam, mais nervosa me deixavam. Comecei a chorar baixinho, e então logo alguns soluços escaparam dos meus lábios. Eu estava apavorada.

Alguns minutos que logo se tornaram horas foram passando, e quando tive a certeza que estava sozinha no quarto, consegui sentar apesar da dor latejante que se alastrava em minha cabeça. Pisquei diversas vezes muito rapidamente para afastar a tontura que me fazia ver dobrado e consegui ficar de pé me apoiando na cômoda ao lado. Por alguns instantes achei que estivesse sob o efeito de algum sedativo, pois a dormência em meu corpo era tamanha que eu não conseguia sentir as próprias pernas. A cada passo que tentava dar, meu corpo parecia ficar cada vez mais pesado e senti que poderia desmaiar a qualquer instante.

Meu coração deu um salto quando avistei Lieff adormecido em sua cama. Algo dentro de mim se contraiu e minhas pernas tremeram. Eu sabia que deveria sair dali se quisesse evitar que Lieff fizesse algo pior comigo, como aconteceu com Amanda e seu irmão, mas parte de mim sabia que aquele não era Lieff, que ele estava aprisionado em seu próprio tormento. Engoli em seco e tentei não pensar no que poderia acontecer de pior, eu precisava ajudá-lo e não o deixaria sozinho. Primeiro observei o que estava ao seu redor que poderia usar para me ferir, mas lembrei que ele usou suas próprias mãos para me golpear na cabeça, e aquilo foi o suficiente para quase me matar.

Olhei para a escrivaninha e notei que a cartela de comprimidos estava retorcida, como se ele em seu acesso de raiva tivesse tentado destruí-la. Alguns comprimidos estavam no chão, o que me fez reforçar a teoria de que ele tivesse me dado algo para ficar desacordada. Meu corpo tremeu ao pensar que ele poderia ter feito algo muito pior enquanto eu estava desacordada, mas minhas roupas estavam intactas e o único desconforto estava em minha garganta. Imaginar as mãos de Lieff se fechando em volta do meu pescoço era repugnante, porém aquilo realmente aconteceu. Caminhei com calma até onde ele estava e retirei alguns livros da cama, assim como um álbum de fotografias e mais algumas das correspondências que fazia com o pai.

Ainda com uma curiosidade fervendo dentro de mim, peguei uma das cartas e passei o olho rapidamente na tentativa de descobrir algo novo sobre meu melhor amigo que parecia tão distante agora. A carta não tinha data, mas pelo conteúdo parecia ser bem recente e pelo visto não chegou a ser enviada. Lieff se remexeu na cama, me fazendo dar alguns passos para trás, então rapidamente comecei a ler os primeiros trechos...

Pai, hoje me sinto tão estranho.

É como se eu estivesse trancafiado em um caixão de ferro, onde meus gritos e lamentos não passam de um simples vácuo abafado. Não consigo lembrar dos dias que pareciam normais, do sabor dos alimentos ou até mesmo distinguir as horas e os dias. Estou ficando louco?Nem mesmo os rostos consigo reconhecer, os nomes e as pessoas que gosto, eu tenho mesmo alguém que possa me ajudar? Sinto que estou perdido, nem mesmo sei onde estou. Há dias em que não consigo falar, as palavras sumiram de minha boca como se nunca tivessem entrado, minha língua não se move e permanece dormente... já não sei como se fala, minha voz não existe mais. Por favor, meu pai, por misericórdia... o que devo fazer? Como estou conseguindo escrever esta carta para você? Meus pensamentos não me deixam em paz, eles insistem em me arrastar para um mar de insanidade da qual sei que estou me afundando cada vez mais. Já não lembro mais de nada, dos dias que se passam recordo apenas que estou preso. Minha liberdade foi tomada, assim como minha alma, por alguém que estava dentro de mim o tempo inteiro. Como posso fugir de mim mesmo? Fui trancafiado, e agora meu espírito está doente e logo meu corpo também suncumbirá as falésias da loucura. Os dias parecem longos e infinitos, apesar de torturante, não há um dia sequer que eu não tenha lutado para achar uma saída do tormento infernal que é a minha mente. Em alguns momentos de raros picos de sanidade, percebi o que tenho que fazer! Minha liberdade finalmente está ficando próxima, e ela só será conquistada com a morte de um de nós, e eu escolho a minha! Não quero dividir meu corpo com um parasita que me deixa doente e louco. Ele tomou conta de mim, me fez esquecer de tudo aquilo que eu poderia resgatar para lembrar de quem eu fui um dia. Escrevo para meu pai, eu sei que escrevo para você, e por mil perdões, já não recordo de seu nome.... não recordo de meu próprio nome. Como poderei enviar esta carta? Não a enviarei, não há como. Maldito parasita, eu o levarei comigo para o inferno! Me perdoe pai, a saída do paraíso sombrio também é cheia de escuridão.

De seu filho.

Eu não sabia o que sentir ou pensar, mas ainda assim lágrimas escorreram por minhas bochechas e meu queixo tremia. A carta não havia data, pois ele não conseguia lembrar dos dias, mas pelo conteúdo presumi que talvez tenha sido escrita pouco antes de sua tentativa de suicídio.

- Sora? – pulei de susto e esbarrei na pilha de livros na cabeceira, espalhando-os pelo chão. Fique paralisada ao vê-lo olhando fixamente para mim, sem sequer piscar os olhos. – Sora?

Meu coração estava tão acelerado que eu podia escutá-lo. Dei dois passos para trás e larguei a carta no chão. Ele permaneceu me fitando e então uma lágrima escorreu de seus olhos quando finalmente pareceu lembrar de quem eu era.

- Sora – sua voz estava arrastada e quase inaudível, como se estivesse sedado. – Sora...

- Li – tentei controlar a voz e enxuguei as lágrimas. – Tente não falar, tudo bem?

Para meu alívio ele apenas assentiu. Sentei ao seu lado com cuidado e toquei a ponta de seu nariz que já estava avermelhado por conta do choro, na tentativa de aliviar sua tensão e tristeza. Soltei uma risada abafada quando ele tentou esboçar um sorriso torto e controlei o impulso de não abraçá-lo com força. Aquelas mãos que me mechucaram agora se moviam trêmulas até as minhas, preenchendo o espaço dos meus dedos com os seus. Quando senti que ele estava mais calmo, deitei ao seu lado e ele me surpreendeu quando me puxou para muito perto e me envolveu em seus braços. Enterrei minha cabeça em seu pescoço e deixei que me apertasse, deixei que ele sentisse que eu estava ali, que era real. Lieff soltou um soluço rouco, fazendo minha cabeça dar um pequeno pulo.

- Li – murmurei quando agarrei seu rosto com as duas mãos. – Por favor, não suma outra vez. Eu estou aqui por você.

Ele continuou assentindo e me abraçando com força. Meu corpo se encaixou perfeitamente no seu quando fique sobre ele e não deixei que escapasse novamente. Ficamos abraçados durante algum tempo, até que notei que sua respiração ficou profunda e suave. Ergui a cabeça e vi que ele estava tranquilo em um sono profundo, sua tempestade interior parecia finalmente ter cessado. Passei a mão levemente nos cabelos alvos de Li e de repente me lembrei de Lili, me perguntando se ela já estava sabendo sobre a enfermidade do irmão. Levantei da cama com cuidado para não acordá-lo e o cobri com um cobertor, pois a tempestade lá fora ainda prometia perdurar por bastante tempo.

Amanda ainda não havia voltado. Na geladeira, um bilhete avisava que ela teria uma agenda cheia no hospital, e que eu deveria ficar de olho em Lieff. Preparei algo quente e leve que ele pudesse comer e subi as escadas em direção ao seu quarto. Por alguns instantes meu coração deu um salto ao ver que ele não estava na cama. No parapeito da janela, Lieff encontrava-se sentado, observando a chuva devastar a vastidão cinzenta lá fora. Ele não me ouviu entrar, estava absorto em seus pensamentos. Aproveitei para observá-lo melhor, o blusão branco estava folgado em seu corpo mais magro e cabelos alvos estavam maiores, fazendo uma pequena franja cair-lhe sobre a testa.

Andei até ele em silêncio e sentei ao seu lado, oferecendo uma tigela de sopa quente. Ele tomou tão rápido que me perguntei se não havia se queimado. Ele continuou a olhar para fora e também resolvi não falar nada, e então ficamos calados por algum tempo. Encostei a cabeça em seu ombro e suspirei, estava conseguindo meu amigo de volta. Lieff recostou suas costas na parede e abriu as pernas, para que eu tivesse espaço para me apoiar nele. Recostei as costas em seu peito e ele passou os braços ao meu redor, prendendo-me em seu aperto.

- Sora, eu a machuquei?

Fui pega de surpresa com essa pergunta e eu sabia que deveria mentir.

- É claro que não Li – soltei uma risada sem graça. – Você nunca faria algo que pudesse me machucar.

- Por favor, fale a verdade – quando o fitei notei que suas olheiras ainda eram evidentes. – Eu preciso saber das coisas que faço quando estou fora de mim.

Era justo. Mordi os lábios e ainda hesitei um pouco.

- Sim, você me machucou... mas não foi nada. Eu estou bem!

- Me perdoe – ele me abraçou com mais força. – Por favor, você sabe que...

- Li eu sei que você nunca faria isso – alisei seu rosto com o polegar e lhe lancei um sorriso radiante. – Não há o que perdoar, não era você ali.

Ele tentou esboçar um sorriso e então me perguntei como fui capaz de ficar sete meses sem falar com ele. Nem sequer procurei saber de notícias suas, enquanto ele trancafiava-se em seu quarto. Ficamos nos encarando por alguns instantes, aqueles olhos avermelhados me consumiam por dentro, mas eu sempre procurei estabelecer limites entre nós. Ele roçou os dedos em minha bochecha, depois em meus lábios. Cerrei o queixo e mordi o lábio para não ceder, então comecei a me afastar.

Ele percebeu e voltou a me prender entre suas pernas. Agora nossos rostos estavam bem próximos, eu podia sentir sua respiração morna. Lieff roçou seu nariz no meu e depois nossos lábios se tocaram, mas não houve beijo.

- Lembrei que tenho um trabalho da faculdade para concluir – menti, sentindo a maciez de seus lábios enquanto falava. – É melhor eu descer.

- Está mentindo – seus lábios vagaram até minha orelha, onde ele mordiscou e me arrancou um gemido. – Você gosta?

Ele acariciou minha coluna com suas mãos mornas e de repente eu já me encontrava entorpecida com suas carícias, pois Lieff sabia exatamente onde tocar. Deixei que ele passasse as mãos sobre minhas pernas, depois sobre os botões de meu short. Subi em seu colo e entrelacei minhas pernas em sua cintura, então enterrei minhas mãos em seu cabelo e o puxei para mim. Suguei seu pescoço e também arranquei um gemido dele, que logo pareceu despertar de uma forma selvagem. Retirei o seu moletom e senti sua pele quente em contato com a minha quando também arremessei para longe a minha camisa. Li me agarrou pelos quadris e então caímos em sua cama.

A princípio fiquei com muita vergonha quando ele ia removendo cada pedacinho das minhas roupas, afinal ele era meu melhor amigo e aquilo era estranho demais. Estranho demais para explicar. Melhores amigos não faziam aquilo... e eu era totalmente inexperiente. Recordei da caixa repleta de preservativos de Lieff e me senti uma criança ao lado dele.

- Algo errado? Você parece tensa – ele apoiou a cabeça sobre a mão e me observou, sua respiração estava acelerada. – Nervosa?

- Ah... é que... é que... – as palavras não queriam vir, meu rosto estava ardendo.

- Sora, olhe para mim – ele pediu, virando meu rosto para fitá-lo. – Eu amo você, não vou machuca-la.

Meu coração bateu com mais força ao ouvir aquela confissão, ele nunca havia dito daquela maneira que me amava. Pude sentir a intensidade em sua voz, o carinho como ela foi dita.

- Não é isso, é que eu fico me perguntando quantas garotas você já trouxe aqui, e as deitou em sua cama – falei rapidamente, quase tropeçando nas palavras.

- Como assim? – ele arqueou uma sobrancelha.

- Aquela caixa, estava repleta de preservativos – murmurei. – Você deve ser bem experiente... eu nunca fiz.

Li nada falou. Continuou me fitando, com uma das sobrancelhas erguidas. Logo percebi que não teria saída. Resolvi dizer, isso não iria arrancar pedaço nenhum.

- Eu sou virgem – repeti. Os lábios de Lieff se curvaram em um sorriso discreto – É isso mesmo, vai rir de mim agora?

- É claro que não, esto feliz por ser o primeiro cara a tocar verdadeiramente em você. Eu te amo – ele enterrou o rosto em meu pescoço e começou uma sequência de beijos.

Resolvi me entregar aquele momento e deixei que ele fizesse mais algumas carícias por meu corpo. Os olhos de Lieff pareciam absorver cada detalhe por onde passavam, e seus dedos trilhavam por minha pele entre as curvas sinuosas. Nossos lábios voltaram a se encontrar, e seu beijo estava tão morno que eu desejei cada vez mais dele. Li ficou por cima de mim, imprensando meu corpo com o seu. Por mais que eu estivesse assustada, eu queria que aquele momento fosse com ele.

A porta do quarto abriu-se com um solavanco abrupto, nos dando um baita susto. Para meu desespero e vergonha de Lieff, Amanda estava parada na porta, e nos exibiu um grande sorriso com misto de alegria e constrangimento.

- Nossa, desculpa. Não quis incomodar, podem continuar!

Ela fechou a porta rapidamente, nos deixando sozinhos novamente. Lieff olhou para mim e estava vermelho como uma pimenta. Ele saiu de cima de mim e enterrou o rosto no travesseiro, suas orelhas estavam muito vermelhas. Ficamos totalmente sem reação, mas não pude evitar de soltar uma gargalhada, mesmo sabendo que agora seria difícil encarar Amanda. Rapidamente me enrolei nos lençóis e levantei, procurei por minha calcinha e a vesti. Quando procurei por meu sutiã na cama, Li me observava. Cobri os seios com as mãos e senti meu rosto esquentar.

- Por que a vergonha? – perguntou. – Já vi você peladinha...

- Idiota! – joguei uma almofada em seu rosto, conseguindo distraí-lo e pegar meu sutiã. – É ótimo saber que você já voltou ao normal!

- O que foi? – ele riu. – A gente ia fazer...

- Quer calar essa boca? – guinchei.

- Certo, parei. Que droga, mamãe estragou tudo. Por que não vamos para a sua casa? – ele me olhou esperançoso.

- Nada disso, você teve sua chance. Já era – vesti meu short e blusa, depois prendi o cabelo.

- Isso não é justo – ele protestou.

- Depois dessa... eu hein!

- Que droga, não foi culpa minha!

- É claro que foi, esqueceu de trancar a porta...

Ele ainda se mantinha deitado, com o cobertor exibindo seu peito nu. Meu rosto voltou a queimar ao lembrar que estava pelado debaixo das cobertas. Minha vontade era de voltar para seus braços, mas a vergonha foi maior. Li pareceu perceber que ele ainda me desconsertava, pois voltou a me lançar seu sorriso sacana.

Uma forte tontura me fez oscilar para o lado, minha visão ficou turva e minhas pernas tremeram. A última visão que tive foi de Lieff vindo até mim. A escuridão veio, me arrastando para suas profundezas. Senti que não estava totalmente apagada, porque ouvi Li gritar por meu nome. Tentei abrir os olhos, mas a escuridão não deixava. Vultos negros me puxavam para baixo, agarrando-se em minhas pernas. O grito não veio, pois algo me enforcava. Correntes fortes e grossas pendiam em meu pescoço, elas me eram familiares. O garoto alto materializou-se a minha frente, seus olhos transpareciam preocupação. Ele caminhou até mim e retirou as correntes.

- Quero que venha comigo – sua voz era muito suave.

- Quem? – indaguei, esfregando o pescoço.

- Você. Virá comigo, agora...

- Eu conheço você de algum lugar... você parece o meu bicho-papão... por acaso você era o bobo no sonho que tive? – palavras aleatórias se formavam em minha boca e eram cuspidas a todo vapor, achei estar delirando, pois estava fazendo muito calor.

- Calma, está tudo bem. É a primeira vez que viaja para outra dimensão? É natural que se sinta assim. E não, não sou nenhum desses homens que você citou. Vamos logo.

- O que? Não vou para lugar nenhum, nem conheço você direito! – gritei.

- Ah, você vai sim.

Ele voltou a me prender com suas correntes e fez tudo ficar escuro novamente, eu fui transportada para um lugar frio. Senti uma energia pesada, eu estava em Tenebris.

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