34| Na noite

Na noite, ela ouve ele chamando
Na noite, ela está dançando para aliviar a dor
Ela nunca vai ir embora (eu não acho que você entende)

IN THE NIGHT - AURORA

O quarto estava escuro e Lili dormia sobre uma mesa cheia de livros. A Província do Sul era um lugar grande e bonito, mas não tão frio como Blizzard. Muitas coisas mudaram em tão pouco tempo, aquele lugar já não era um reino. Lili tentou me ensinar tudo sobre o mundo moderno, algumas coisas aprendi, e outras quis bem longe de mim.

Em poucos dias aprendi a agir de forma diferente com as pessoas, para evitar levantar qualquer tipo de estranheza. Lili não me deixava dormir em sua cama, com pretexto de que precisava de mais espaço, mas eu sabia o verdadeiro motivo. Pavor. Talvez ela ainda estivesse com medo, desde o dia em que a mordi. Estava escurecendo, as luzes da província começavam a piscar, anunciando a chegada de mais uma noite. Fui até Lili e a peguei nos braços, ela estava tão cansada que sequer se moveu. Hoje seria nossa última noite naquele lugar, mas a faculdade de Lili havia gostado de seus resultados no estágio do hospital, então ela ficaria mais alguns dias.

Sora surgiu em meus pensamentos vagos naquela noite, e então me perguntei como ela estaria e o que andou fazendo. Ela mandava notícias constantemente através de seu e-mail, e relatava alguns ataques que vinha recebendo, mas nada que não conseguisse lidar sozinha. Três semanas correram e eu não me alimentei nesse período. A abstinência era evidente, pois eu me sentia preguiçoso e sedento. Olhei para Lili, que ainda dormia em seu sono pesado. Fui até a grade da janela de vidro e passei para o parapeito, olhando mais uma vez para ela, era hora de caçar.

Pulei do prédio e aterrissei com destreza no chão. Algumas meninas que estavam sentadas no banco de uma praça me olharam assustadas, apenas sorri para elas e segui meu caminho. Estávamos hospedados em um prédio que ficava perto de um grande bosque que me lembrava os jardins do castelo de Blizzard. Era um lugar silencioso, onde a noite parecia recair sua completa escuridão nele. Senti que ali eu poderia deixar de fingir durante alguns instantes, eu finalmente me sentia livre.

Sete meses sem sangue humano vivo e pulsante. Sete meses ingerindo sangue gelado e pastoso. Sete meses fingindo e empurrando minha verdadeira sede para longe. Ergui a cabeça para o céu e vislumbrei uma fileira de estrelas infinitas cortarem a província ao meio. Farejei o doce cheiro de sangue vindo de dentro do bosque, segui o rastro e comecei a escutar uma melodia suave. Andei sorrateiramente até a presa, salivando com a proximidade do sangue.

Tomei cuidado para não ser visto, olhei ao redor, me certificando de que ninguém espreitava. O bosque estava deserto, exceto pela pessoa que seria meu próximo jantar. A melodia era triste e melancólica, tocada através de um violino por uma garota que estava sentada em um banco de madeira abaixo de uma grande árvore. Parei atrás da árvore e escutei um pouco a melodia. A garota tinha cabelos curtos e loiros, estava usando um sobretudo lilás. Seria fácil, ela parecia bastante frágil, pois era pequena e estava distraída.

- Quem está ai? – ela parou repentinamente de tocar.

Não respondi, prendi a respiração e tente me afastar para trás, mas acabei pisando em um galho, que denunciou meu esconderijo.

- Não quero ninguém me incomodando, vá embora – ela disse, em um tom zangado.

Saí do esconderijo e fiquei de pé ao lado do banco. Ela permaneceu sentada e me observou com fascínio. Seus olhos verdes brilharam quando passaram por minhas tatuagens, depois por minhas unhas negras. Ela colocou o violino ao seu lado, depois olhou para frente, fitando o vazio. Sua respiração era tranquila para quem estava à mercê de um estranho.

- Imagina que legal você ir ao um lugar onde ninguém te conhece – ela falou, sem olhar para mim. – Você pode inventar uma personalidade diferente se quiser, ninguém ia perceber.

Não falei nada, apenas a observei. Era uma garota estranha. Ela usava um tubo que passava por seu nariz, e ao seu lado, tinha um cilindro estranho com rodas. Perguntei-me o que seria aquilo e para que servia. Minha relutância em ataca-la foi inexplicável.

- Você gostou da minha melodia? – ela olhou para mim, esperando uma resposta.

- Sim, é triste – não gostei da ideia de conversar com o jantar.

- Todo mundo gosta dessa música, mas eu não – vendo que eu não estava compreendendo, ela fez um gesto de impaciência com a mão. – Eu compus essa música nas noites de agonia que passei no hospital – ela apontou para o cilindro. – Tenho câncer, não vou durar muito tempo.

- Então você está morrendo?

- Sim, e espero que seja logo – a garota apontou para o banco, convidando-me para sentar. – Qual o seu nome?

- Nero – me vi sentando ao seu lado e revelando meu nome. – Então, por que você deseja tanto a morte?

- Talvez eu não aguente mais – ela olhou para mim e não sentiu medo. – Eu me chamo Kaya.

- Kaya – seu nome saiu de forma esquisita quando o pronunciei. Cruzei as pernas para afivelar minha bota. – Não é um nome comum.

- Você é um cara grandão – a garota voltou a fitar meus braços. – De onde você é?

- Blizzard – falei.

- Ah sim, a província de sempre frio. Legal, um estrangeiro.

- Sabe, eu posso te ajudar a ter uma morte lenta e indolor – minha voz saiu como se fosse um sussurro. – Estou cansado e você também, talvez possamos nos ajudar.

- Sério? O que você é, um tipo de ceifador? – ela riu.

- Talvez melhor.

- Melhor como? – ela perguntou, pondo o violino no colo.

- Você não sentirá dor, só vai dormir profundamente.

- E como você faria isso? – ela ergueu uma sobrancelha.

- Tomando todo o seu sangue – expliquei, sorrindo para ela.

- Então você é um vampiro?

- Não sei o que sou. Quer me deixar te morder? – me inclinei para mais perto dela, sentindo o doce aroma de seu sangue.

- Ei espera! – ela afastou-se. – Você está brincando comigo. Nem nos conhecemos direito, me prove que é um vampiro e você pode me matar de uma vez.

Eu sabia que poderia fazê-la entrar em um transe ou agarrar seus braços sem pedir, mas por algum motivo eu sabia que tinha que ter algum cuidado com ela.

- Está bem – sem hesitar, retirei uma adaga do bolso do casaco e tracei um corte em meu antebraço. A garota reprimiu um grito com as mãos, depois viu o corte fechar-se rapidamente, ficando sem nenhuma cicatriz.

- Isso foi bizarro – ela ainda olhava para o meu braço, como se tentasse entender o que havia acontecido.

- Acredita em mim agora?

- Não sei... isso foi bizarro... acho que estou alucinando por causa dos remédios...– balbuciou.

- Talvez você esteja certa Kaya.

- Vá em frente... – aproximei-me da garota, passando o braço atrás de sua cabeça. Ela fechou os olhos e inclinou o pescoço para o lado. – Vai doer? – murmurou.

Kaya realmente achava que estava alucinando.

- Prometo que não – falei.

Finquei os dentes em sua pele e depois fiz uma leve sucção. Seu sangue era o melhor que eu já havia provado no momento, tão doce e quente. Comecei a ficar ávido por mais, segurei o rosto da garota com as duas mãos e fiz pressão em seu pescoço contra minha boca.

"Ela tem descendência Nero, pode deixa-la viver se quiser." – a voz da besta reverberou em minha mente, atrapalhando a concentração.

"O que você quer agora?" – ralhei, tentando manter o ritmo.

"Essa garota tem descendência demoníaca no sangue. Ela vai acordar imortal se você quiser. Basta fazê-la beber um pouco do seu sangue." – pensei por um instante. Era por isso que o sangue dela era o melhor, ela tinha descendência.

- Se algo acontecesse, que te deixasse livre dessa doença para viver, você agarraria essa oportunidade? – sussurrei em seu ouvido, sendo justo com ela.

- Sempre – ela murmurou debilmente.

Terminei de sugar uma boa parte do sangue, me sentindo totalmente satisfeito. Peguei a adaga e cortei um dos pulsos, derramando alguns filetes de sangue em sua boca. A garota estava pálida e inerte no banco e não voltou a mover-se depois disso. Segui de volta para o apartamento, onde encontrei Lili ainda adormecida, me livrando de uma enxurrada de perguntas. Retirei o casaco e fui tomar uma ducha no banheiro, liguei o aquecedor e deixei que a água quente percorresse por meu corpo. Pensei em Shaya, ela nunca mais havia feito contato, estaria ocupada demais? Terminei o banho e vesti apenas uma calça, pois meu corpo sempre ficava mais quente quando eu me alimentava e a noite não estava tão fria.

A respiração de Lili estava tão tranquila que parte de mim desejou que ela me acalentasse. Quando percebi meus pés já caminhavam até ela, e eu já estava ao seu lado. Encostei meu peito em suas costas e passei meu braço por sua cintura. Durante algum tempo fiquei apenas ali, escutando sua respiração. Lili moveu a cabeça, fazendo uma mecha de cabelo escorregar para o lado e revelar seu pescoço. Acariciei seu pescoço com o nariz, sentindo seu cheiro de lavanda, depois passei a língua por ele. Puxei a fina alça de seu vestido para baixo, revelando seu ombro nu.

Lili despertou meio grogue com aquela carícia, não percebendo o que eu estava fazendo inicialmente. Ela virou o rosto para mim e ergueu uma sobrancelha, depois ergueu a cabeça e viu onde minhas mãos estavam. Ela ficou vermelha de raiva e me chamou de pervertido, e quando tentou pular para fora da cama, agarrei seu braço e a fiz me encarar.

- Me largue Nero! Isso não tem graça! – ela tentou me morder, foi então que a larguei.

- Eu só queria pedir desculpa – murmurei, me sentindo estranho.

- Que merda você estava fazendo? Eu fiquei assustada – grunhiu. – Não quero que toque em mim novamente.

Lili deu dois passos hesitantes para trás, abraçando o próprio corpo. Eu só conseguia sentir pavor emanando dela e me senti terrível. Sentei na beirada da cama e passei a mão nos cabelos ainda úmidos. Eu não queria que Lili ficasse apavorada, mas parecia que a cada movimento que eu fazia ela se afastava cada vez mais.

- Lili, talvez eu deva ir embora – murmurei mais para mim mesmo. – Desculpe se a assustei.

Seu silêncio bastou como resposta.

Quando levantei e comecei a caminhar até a porta, ela segurou meu braço e me abraçou com força, esvaindo toda a tensão que estava sentindo.

- Eu estava assustada, não queria ter dito aquilo – o abraço de Lili me deixou tenso e ansioso. – Só não tente passar dos limites comigo, certo?

- Eu nunca a machucaria Lili, você sabe disso. - Não quero que pense que eu a machucaria. Talvez antes, quando não a conhecia de verdade – ela suavizou um pouco a expressão, como se ouvir a verdade fosse um alívio. – Por favor, não me trate como seu eu fosse devorá-la a qualquer instante.

Ela mordeu o lábio inferior e ergueu o olhar para mim, parecendo escolher cuidadosamente o que iria dizer. De repente as palavras de Shaya retornaram aos meus pensamentos em nosso último encontro. Ela já saberia mesmo que eu iria me render aos meus sentimentos por Lili? Eu me sentia confuso e perdido quando tentava pensar sobre isso, pois aceitei tão bem minha nova natureza que deixei que essa condição me fizesse pensar que eu jamais poderia sentir algo humano novamente.

- Eu sei – Lili não se afastou quando beijei sua testa. – Eu me amaldiçoo por pensar em você dessa forma, e também me amaldiçoo por querê-lo tanto.

Me senti estranho quando pela primeira vez eu sabia que não desejava seu sangue, eu queria apenas sentir sua pele com uma carícia e beijá-la. Os lábios de Lili estavam mornos quando os toquei com os meus, e ela não me deixou aproveitar o tempo que eu queria quando fui arrastado para a cama e caí sobre ela. Ela me envolveu em seus braços e me entorpeceu com seu cheiro. A cada instante eu desejava mais e mais de Lili, explorando cada parte do seu corpo. O sorriso de Lili me deixou estranhamente feliz e aliviado, pois parte de mim sabia que ela estava voltando a confiar em mim novamente. Ela segurou meu rosto entre as mãos e me beijou de forma lenta e suave.

- Eu espero mesmo que eu não esteja me apaixonando por você, Nero Lancaster – sussurrou.

Voltei a beijá-la.

Eu também esperava que não. 

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