29| O guardião

Então é isso, pensou Daniel. Sua vida fora interrompida para proteger outra. Depois da longa conversa com Solária, uma deusa que mais parecia uma adolescente, ele finalmente entendeu que não poderia ter sua vida de volta. Estava preso em uma terra de anjos para sempre. Não que achasse ruim agora ser um alado, mas ela poderia ter escolhido outra pessoa em seu lugar. Sua maldição de sangue suga finalmente fora retirada, a fome não viria, comida agora somete se quisesse. Sentado sobre um enorme penhasco, ele observava o horizonte banhado por um sol que já ia se ponto. As nuvens estavam banhadas de um laranja escarlate, entrando em contraste com o azul rosado do céu.

Era um lugar lindo para se marcar um encontro, ele pensou com amargura. Garotas nunca mais, agora tinha uma missão para ser cumprida. Então Sora corria um enorme perigo, iria proteger alguém que gostasse, a melhor amiga de Lili. Lembrou dos momentos que haviam passado todos juntos, Sora era uma garota estranha, mas nunca iria adivinhar que ela era algo roubado. Por pouco Sora não morria no primeiro ataque de Shaya, ele temeu a princípio, mas a ira angelical ferveu em seu sangue. Adorava corujas, então não foi surpresa ter se transformado em uma e levado o maldito corvo embora, antes que fizesse Sora cair da janela. Agora era um guardião, um querubim, anjo guerreiro. Suas longas asas haviam crescido dolorosamente, mas valera à pena. Eram de um branco prateado intenso, com a ponta das penas vermelhas como sangue.

- São bonitas – falou alguém atrás de Daniel.

- Obrigado – ele respondeu, ainda fitando o crepúsculo.

- Sou Lírica – a garota de cabelos vermelhos e sardas sentou-se ao seu lado. – Sou uma ishim.

- O que é um ishim? Sou novo por aqui – ele sentiu os olhos arderem quando a fitou, não acostumado com a luz escarlate que ela irradiava.

Ela soltou uma gargalhada ao vê-lo semicerrar os olhos.

- Sou um anjo do fogo, logo você se acostuma – explicou, piscando os olhos bem rápido. – Mas também sou a melhor amiga de Solária, pode me perguntar tudo sobre ela se quiser.

A ishim deu uma piscadela para Daniel e sorriu.

- Bem, nada nela me interessa – ele replicou, carrancudo.

- Olha, eu sei que você ainda está chateado pelo o que ela fez, mas preciso que entenda que foi necessário. Ela jamais faria algo desse tipo a alguém cujo destino não estivesse traçado. Você nasceu para ser o guardião de Sora.

- Será que vocês alguma vez já se perguntaram o que eu quero? – indagou ele.

- Você quer proteger Sora...

- Não, eu não quero – grunhiu.

- É claro que quer. Você se saiu muito bem ao banir um lacaio de Shaya – ela suspirou e balançou a cabeça. – Daniel, mesmo que você não queira isso, é o que lhe resta agora.

- Estou confuso. Não quero ficar preso aqui para sempre, quer ser legal comigo? Então me ajude a fugir – pediu, acompanhado um grupo de anjos com o olhar.

A ishim ajeitou os cabelos em um coque bagunçado, depois agitou suas longas asas laranjas para trás, encostando-as nas de Daniel. O grupo de anjos foi ficando distante, até se tornou um borrão acinzentado no horizonte.

- Deixe-me ver por onde começar – ela olhou para cima, como se procurasse por respostas. – Ninguém falou que você está preso, se quiser voar por aí a escolha é sua. A pergunta que eu faço é, o que você vai fazer?

Daniel cerrou os dentes e preferiu não responder.

- A verdade é que você não sabe o que fazer – ele abriu a boca para protestar, mas Lírica foi mais rápida. – Não venha me dizer que iria retornar para as terras mortais e viver como antes. Não acha que vão estranhar que esse novo Daniel nunca envelhece? Como vai explicar que voltou dos mortos? Ah, eu simplesmente acordei, é isso?

- Tudo bem – Daniel iria fazer exatamente isso, mas por enquanto decidiu fingir estar focado no que Solária pedisse. – Me conte mais sobre Sora.

- Mesmo? – Lírica sorriu, parecendo convencida. – Por onde você quer que eu comece?

- Sora – murmurou. – Quem ela é?

- É algo que pertence a Shaya – a ishim suspirou, selecionando as palavras – Não entenda mal, Solária a roubou para proteger todos de Shaya.

Daniel ergueu uma sobrancelha.

- Já parou para pensar que talvez seja isso o que ela quer que vocês acreditem?

- Não seja ridículo, ela nunca faria isso – esganiçou-se Lírica, agitando as asas escarlates. – Ela me contaria algo assim, sou a melhor amiga dela.

- Você é a melhor amiga, não a melhor confidente – rebateu Daniel.

- Bem... isso não é da sua conta – bufou Kaira, um pouco ofendida. – Não foi fácil para Solária arrancar a alma de Shaya, em consequência somente a metade dela foi banida, junto com a sua.

- Vamos ver se entendi – Daniel virou-se para Lírica e cruzou os braços. – Solária queria banir a alma de Shaya arrancando-a de seu corpo, mas algo deu errado e parte de sua alma foi banida também. Foi isso?

- Sim, sua amiga Sora é a consequência desse infortúnio. É por isso que Shaya a quer morta, para ter sua alma de volta e governar este mundo com cinzas e escuridão.

- Você está sendo dramática – Daniel balançou a cabeça, ainda incrédulo. – Isso não faz sentido Lírica. A sua deusa não me parece estar com a alma incompleta...

- Mas está – Lírica o encarava, séria. – Ela não tem que provar nada para você.

- É claro que tem, não vou lutar por algo desconhecido.

- Você fala como se ela não fosse a sua deusa – repreendeu Lírica, atônita com a descrença de Daniel. – Não te resta mais nada...

- Lírica, nos deixe sozinhos – os alados viraram-se assustados, percebendo a deusa Solária parada logo adiante. – Acho que ele precisa conversar comigo.

- Até parece – bufou Daniel, mais para si mesmo.

Lírica o olhou feio e fez uma reverência exagerada para a deusa antes de bater suas asas escarlates e levantar voo.

Ela tornou-se um borrão preto quando Solária sentou-se ao lado do querubim carrancudo. Eles ficaram em silêncio a maior parte do tempo. Solária percebia Daniel olhando-a de soslaio, mas ele desviava o olhar para frente quando ela o encarava. Ele perguntou-se porque a Deusa não teria asas, já que era tão poderosa. A curiosidade era sua maior inimiga, nenhum dos dois queria ceder, como em um jogo birrento de crianças. A deusa moveu-se desconfortavelmente quando Daniel espreguiçou as asas, roçando as pontas no braço dela. Solária aproveitou o momento e passou a mão sobre as poderosas penas cor de aço.

- Não me toque – ele pediu, fazendo sua careta mais carrancuda.

- Ganhei – ela sorriu quando percebeu que ele gostava do toque. – Isso é bom?

Daniel não falou. O toque nas asas era estranhamente sensível e agradável. Ele fechou os olhos e entorpeceu-se quando Solária passou as mãos entre as penas que se aprumavam com as vibrações de calor. Não queria admitir que aquela era uma das melhores sensações que havia sentido, todo o seu corpo gritava por mais. A deusa tocou as duas asas com seus braços, encantada com a leveza e imponência que aquelas penas possuíam. Sem dúvida, Daniel fora sua melhor escolha. Ela afastou-se para trás, vendo que ele havia ficado mais calmo, percebeu sua tensão relaxar pela respiração leve do querubim.

- Está mais calmo? – ela tentou não irritá-lo, mas parecia que ao menor som de sua voz ele voltava para a defensiva.

- Me deixe em paz – rosnou Daniel, lançando a Solária seu maior olhar de escárnio.

A deusa recuou para trás, chateada com a atitude do querubim. Querendo ou não, aquilo a magoou bastante, tudo que ela mais desejava era que seu guardião fosse seu melhor amigo. Sem falar nada, ela ficou de pé e caminhou de volta para sua base. Aquele não seria um dia bom para conversas, esperaria até que o querubim baixasse a guarda. Percebendo como havia soado infantil, Daniel correu para tentar desculpar-se, sentiu-se mal por soar tão estúpido.

- Ei, espere – pediu.

- Me deixe sozinha Daniel, você ainda é um rapaz muito imaturo – ele percebeu a mágoa na voz dela.

Imaturo? Isso era ridículo. Ficou furioso, quem era ela para julga-lo? Controlou a ira, pois não queria arruinar mais as coisas.

- Não volte a dizer isso – sibilou.

- Que você é um rapaz imaturo? – Solária sentiu as lágrimas arderem. Mais uma vez sentiu-se boba, ainda conservava emoções mundanas em seu coração. – Acho que foi um erro, eu devia tê-lo deixado viver na mentira pelo resto de sua vida.

Ela ignorou Daniel, dando-lhe as costas e voltando a caminhar para a base. Mal sabia ela que isso era uma das coisas que ele mais odiava. Pegando-lhe o braço, ele a fez virar-se para encará-lo.

- Olhe, sei que está magoada, me desculpe – ela sentiu que ele não estava sendo verdadeiro,

- Está mentindo – sibilou.

- Estou? – ele riu com escárnio, aumentando a ira da deusa.

- Sim, e eu detesto mentirosos – Solária retirou seu braço com brutalidade, mostrando os dentes para Daniel. – Não fale comigo até mudar de atitude, me entendeu?

Ele respirou fundo e sentiu vontade de empurrá-la para longe, ou que pudesse fazer algo para machucá-la, mas apenas a encarou profundamente nos olhos e também grunhiu, mostrando os dentes.

- Não, eu não entendi. 

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