28| Cherry Coke (Mal Entendido)

Você chorou, eu morri
Eu deveria ter calado minha boca, as coisas pioraram
Enquanto as palavras escorregavam pela minha língua, elas soaram estúpidas - Minsunderstood - Bon Jovi)

Província Central do Sul. 22 de junho de 2010

Querido Lieff, meu filho, lhe escrevo esta carta para saber que me preocupo com você. Onde estou é um lugar maravilhoso, vou providenciar para que você e Lili venham me visitar. Sei que Amanda nunca permitiria isso, afinal, ela disse para todos que eu estava morto. Sinto muito por estar tão ausente na vida de vocês, mas o passado ainda me causa muita vergonha. Amanhã partirei para a Província do Leste, tenho negócios para resolver e vou tentar providenciar um mês de férias para passarmos juntos. Sei que Lili não sabe de minha existência, ela me conhece apenas como o tio Geoff que morreu no sanatório. Você é um garoto muito bonito e inteligente. Digo o mesmo de Lili, obrigado por me enviar aquela foto de vocês juntos. Afinal, o jeito que você olha para aquela garota loira é muito suspeito! Já tem namorada? Espero que sim. Tenho certeza que você será um ótimo companheiro. Quero que me atualize de tudo sobre sua vida, também quero saber de tudo sobre Lili, não quero ela com qualquer rapaz por ai, sei que você irá cuidar dela muito bem. Cuide da sua mãe, espero que ela me perdoe um dia, sei que você entende que não fiz por mal, eu estava doente. Ainda tomo os mesmos remédios da adolescência e frequento psicólogos e terapeutas. Mas para ser sincero, você é meu melhor tratamento. Fui diagnosticado com transtorno bipolar aos onze anos, e tenho que conviver com a dor de ter machucado minha irmã até hoje. Fugi para longe depois que soube que Amanda estava grávida de mim, me senti horrível e fui me tratar. Completei minha faculdade e construí uma vida sozinho, mas quando soube que você me descobriu, quase fiquei louco. Hoje estou tocando minha vida para frente graças aos meus filhos. Infelizmente estou sem tempo para contar as novidades, mas quero que me mantenha à parte de tudo sobre a vida de vocês três. Quando eu tiver coragem o suficiente para visita-los, eu irei. Me conte mais sobre a vida de seu padrasto, o Sr. Phillips. Vejo que Amanda não me esqueceu por completo, seu nome é bastante parecido com o meu. Nosso laço fraternal é muito grande, eu a amo demais, e sei que ela ainda lembra de mim. Mesmo tentando esquecer o passado, você e Lili o trazem à tona. Sei que o que fiz foi horrendo, mas se estivesse em minha sã consciência, nunca faria isso a minha irmã. Peço desculpas a todos vocês, principalmente para você e Lili. Meu horário de descanso está no final, então finalizo essa carta com muita tristeza, pois gostaria de passar o dia escrevendo para você. Amo você, espero que esteja bem. Boa sorte com a faculdade, e vê se beija logo aquela garota, sei que gosta dela. Não deixe Lili com qualquer rapaz por ai, dê uma broca nela se caso isso aconteça. Você é o homem da casa, e não o Sr. Phillips. Até mais, um grande abraço de seu pai.

Atenciosamente, Geoff Wendel Lecter.

Larguei a carta na cama e fitei o teto. Não acreditei no que havia acabado de ler, fiquei catatônica enquanto observava o leve movimento que o ventilador fazia quando a brisa entrava pela janela. Então era isso, Li sabia o tempo todo que o verdadeiro pai não era o Sr. Phillips, e muito menos que estava morto. Eu nunca conheci meus pais, mas não que eu não sentisse vontade de encontra-los, é que nunca encontraram nada. Mas é claro, minha identidade sempre foi um mistério, até mesmo quando eu era a garotinha assustadora do orfanato. Peguei a outra carta dentro da bolsa, essa era de Li para o pai. Estava velha e havia manchas de café e água nela, era apenas um rascunho. Me pergunto o que fez ele não enviar essa carta, me aprumei entre minha almofada e comecei a ler.

Blizzard. 06 de Dezembro de 2013

Pai, eu te perdoo por tudo que fez. Você não sabe o quanto eu senti falta de ter um verdadeiro pai em minha vida. Sempre soube que Edgar não era meu verdadeiro pai, mesmo depois de minha mãe jurar para mim. As coisas por aqui estão bem, Lili está adorando a faculdade e não está namorando ninguém. Quer dizer, por enquanto, pois ela não desgruda de seu melhor amigo Daniel. Sobre a garota loira da foto, ela é um mistério. Mas gostei logo de cara. É muito idiota, eu sei, mas só não pude evitar.

Nunca o vi, nem ao menos o senti. Mas é como se você estivesse aqui comigo todo o tempo. Estou estudando bastante para me formar logo e ir te visitar o mais rápido possível. Sabe pai, às vezes fico me perguntando porque as garotas são tão complicadas. Sora é o nome da garota loira da foto. Sei que sou estranho, mas sou o garoto mais inteligente da turma, sem querer me gabar.

Tenho planos para um futuro bem próximo. Vou me formar e ir embora de Blizzard, amo esse lugar e as pessoas daqui, mas meu futuro não pertence a este lugar. Vou embora para tentar esquecer muitas coisas, como o senhor me contou, e pareceu funcionar muito bem. Quero esquecer da garota que tanto me magoa, quero esquecer de tudo que foi ruim que aconteceu comigo, por isso vou embora. Talvez um dia nós possamos nos encontrar e conversar melhor. Mamãe não sabe que me correspondo com você, mas acho que se soubesse, ela ficaria furiosa. Muitas brigas estão acontecendo entre ela e Edgar, aquele cara é um idiota. Lili finge não ouvir, mas ás vezes a ouço chorar e isso me deixa realmente muito triste. Tenho aqui uma lista de coisas que quero fazer, mas primeiro preciso de sua opinião sobre meus planos, quero que participe de todos eles.

1. Me formar na faculdade local.

2. Talvez publicar um livro.

3. Ver o mar.

4. Morar nas Províncias do Sul.

5. Talvez me casar, se possível com Sora.

Bem, ai está minha pequena lista de ambições, algumas são bem fúteis, mas outras eu irei realizar em breve. Sora nã

A carta acabava ali, estava rasgada, como se ele tentasse esconder algo. Me perguntei se aquelas marcas eram de lágrimas ou apenas transpiração. Vasculhei por mais respostas entre aquelas palavras, mas nada encontrei além de confissões e saudades. Então Li me amava desde que me viu? Isso parece meio difícil de acreditar, ele sempre estava ao lado de garotas diferentes. Sempre ignorei aquilo, quantas vezes eu já o magoei? Atrás da carta encontrei uma frase rasurada com lápis carvão em cima. Fui até a escrivaninha e peguei uma borracha, apagando com cuidado a rasura. Quando terminei, acabei descobrindo que a frase estava escrita de caneta preta, então passei a borracha com toda a força para enxergar melhor. Olhei atentamente e tentei entender a letra garranchosa de Lieff, acima da frase havia uma data.

"Blizzard. 28 de Janeiro de 2015

Acredite, são apenas vagas memórias de um passado feliz"

A frase terminava assim, sem me dar explicações de nada. Foi escrita ainda nesse ano, então ele ainda pensava em corresponder-se com o pai, talvez fosse para contar sobre o que estava se passando em sua casa. Lembro desse dia, foi quando os convidei para morarem aqui comigo. Então tudo já estava desmoronando na cabeça de Lieff. Que burra eu sou, não dei atenção o suficiente para meu melhor amigo, que rompeu todos os laços comigo. Ao reler todos aqueles planos, dos quais um deles me incluía, me senti a pessoa mais horrível do mundo. Mas isso não bastava, eu ainda havia pisado em seu maior pesadelo.

O celular em meu bolso vibrou e o som do toque preencheu o quarto. O nome de Charlie apareceu no visor. Eu o ignorei por um bom tempo desde nossa última conversa, e para ser sincera, hoje eu precisava muito de alguém para conversar. Respirei fundo e atendi.

- Alô – murmurei.

- Sora – escutei sua respiração do outro lado da linha. – Você sumiu.

- É, eu fiquei bastante ocupada com algumas coisa – o que não era uma mentira.

- Está tudo bem? – mordi o lábio para controlar a língua. – Eu não quero ser um entrometido, é que fiquei um pouco preocupado.

- Estou bem, é sério – menti, lembrando de Nero e de toda a desgraça que ele trouxe consigo. – Desculpa se nosso passeio não deu certo, mas podemos sair hoje se você quiser.

- Mesmo? Não quero que se sinta forçada a nada, só liguei para saber como você está. Eu a vi ontem caminhado até a casa de Lisander, um pouco desorientada.

Por um momento eu havia esquecido que Charlie era um policial e que estava em todo lugar.

- Era apenas um dia ruim – soltei uma risada abafada. – Fui tentar a sorte nas cartas.

Escutei ele rir baixinho.

- Onde você quer ir? – perguntou.

Eu precisava descontrair um pouco, e costumava fazer isso na pista de dança. Pensei na na taverna do Joe, mas lembrei que a banda de Li ia tocar, praticamente todo mundo da cidade ia estar lá hoje à noite. Depois daquela briga e de ler duas de suas inúmeras cartas, me perguntei se deveria realmente ir. Eu estava me sentindo sozinha e amedrontada naquela casa, sem ninguém para conversar, me deixando levar pelas sombras que ameaçavam me consumir, e não deixaria que as brigas com Lieff interferissem em minha vida.

- Vamos dar uma volta na taverna do Joe, vai ser legal – me ouvi dizendo.

- Tem certeza? Lá é sempre bastante cheio quando a banda toca. Ao menos que você querira dançar e beber um pouco.

- É, talvez eu queira. Você saber dançar Charlie? Eu acho que não sei mais – murmurei, lembrando quando uma vez saímos com nossos amigos e eu dancei do começo ao fim da festa.

- Você não sabe? – ouvi outra risada. – Sora, você dança como um raio cortando o céu.

Senti meu rosto esquentar.

- Então... você pode me buscar às oito. É o tempo que fico pronta.

- Tudo bem então. Às oito – um silêncio constranger se seguiu durante alguns instantes. – Até mais Sora. Vai ser divertido.

- Até lá Charlie.

Encerrei a ligação e joguei o celular na cama, que bateu no colchão e caiu no chão. Bufando, peguei a bateria e a capa para recolocar no lugar. Decidi escolher a roupa para sair, já eram quase sete horas, mas meu processo para me arrumar era demorado. Queria que Lili estivesse aqui comigo, ela sempre fazia meus penteados nos encontros. Mas aquilo nem era um encontro. Liguei para ela e perguntei se estava bem, ela me disse que não ficasse preocupada com ela e aproveitasse o passeio. Fiquei feliz ao saber que as coisas estavam se acertando para Lili. Abri o guarda-roupa e uma foto de Lieff todo manchado de tinta no dia de seu trote da faculdade caiu em meus pés. Examinei a foto, ele estava com seu melhor sorriso e abraçava Lili em meio à multidão.

- O que faço com essa foto? – resmunguei para mim mesma.

Rasguei ela ao meio e joguei a parte de Lieff no cesto de lixo, voltando a fixar a parte de Lili no guarda-roupa. Depois de vinte minutos, decidi escolher uma camiseta sem mangas e meu casaco vermelho com botões brancos. Como a noite estava mais fria, escolhi uma meia-calça térmica preta e um short jeans rasgado. Finalizei escolhendo minha melhor bota cano longo e senti que estava pronta. A roupa estava escolhida, então guardei as cartas de Lieff em minha gaveta de calcinhas. Sentei na cama e deitei de braços abertos, imaginando como seria esse passeio. Não gostei da ideia de me encontrar com outro cara no ambiente em que Lieff estaria cantando, mas eu precisava me distrair um pouco, e dançar me fazia espairecer.

Um forte vento gélido irrompeu pelo quarto, abrindo as janelas com muita força e fazendo o vidro ornamentado na madeira quebrar. Pulei da cama para ver o que estava acontecendo, mas só vi um pequeno corvo negro parado no parapeito da janela. Meu coração batia acelerado, mas ao ver que era apenas um animal que tinha colidido com o vidro, fiquei mais tranquila. Andei com cautela até o pássaro, que me observava com seus olhos negros vidrados.

Achei que ele estivesse se machucado, pois em suas patas haviam duas pequenas correntes. Talvez fosse algum animal de cativeiro. Sentei no parapeito e o olhar do corvo me acompanhou, sem se abalar com minha aproximação, ele caminhou até meu colo.

- Oi pequenino, o que você faz aqui? – me senti uma idiota ao conversar com o pássaro, mas ultimamente não havia ninguém para conversar.

O pássaro cravou mais fundo suas garras em minha coxa e me senti desconfortável. Levei a mão até ele, para afastá-lo, mas ele tentou me bicar.

- Ei! – guinchei. – Saia daí.

Ele ficou imóvel e olhou diretamente em meus olhos. Fiquei desconfortável com aquele animal me observando com tanta intensidade, novamente tentei afastá-lo, mas ele soltou um grasnido agudo. Voltando a me fitar, percebi com horror que o corvo tinha um terceiro olho acima do bico. Ele começou a grasnar, mas não era comum, era estranho e muito sinistro. De repente tudo ficou silencioso, e só era possível ouvir o leve grasnar do corvo. O terceiro olho ficou maior até que ele piscou, dei um pulo para trás ao ouvir gemidos vindo do meu quarto. Olhei desesperada para todos os cantos, então sombras negras e distorcidas surgiram pelos cantos das paredes. Sufoquei um grito e olhei para o corvo, que estava com o terceiro olho maior ainda. Fiquei imóvel, os movimentos não vinham, nem a voz saía.

O corvo voltou a caminhar até mim, era estranho como ele parecia sorrir. Ele abriu as longas asas e soltou um grasnido ensurdecedor, depois levantou voo e cravou suas garras em meu rosto. Com um grito de dor, afastei o corvo, mas me desequilibrei, despencando janela abaixo. Um forte clarão branco e quente me empurrou pelas costas, me jogando para dentro do quarto novamente. Caí de joelhos e me virei a tempo de ver uma coruja banca e brilhante atacar o covo e leva-lo embora. Olhei para as paredes e as sombras haviam sumido, me deixando mais tranquila. O que havia acabado de acontecer? Fiquei catatônica ao olhar para a janela ainda quebrada, sem entender o que realmente aconteceu. Estava ficando louca?

Meu rosto ainda continha alguns arranhões que já deviam ter sarado, corri para o banheiro e vi que não era muito grave. Nada do que maquiagem não resolvesse. Meu celular vibrou e vi uma mensagem de Charlie "Espero que não esteja dormindo, chego em quinze minutos." Olhei para o relógio e vi que faltavam quinze para as oito, corri até o guarda-roupa e retirei a roupa separada, correndo para o banheiro. Esqueci de ligar o aquecedor do chuveiro na pressa, e a água gelada deixava meu cabelo desgrenhado e rebelde. Tentei tomar um banho rápido, mas acabei demorando todos os quinze minutos no banho. Achei que Charlie iria demorar um pouco mais, até me deparar com ele em meu quarto, observando com cautela os estragos na janela.

Tentei recuar para trás sem fazer barulho e fechar a porta, mas ele pareceu sentir minha presença e virou o corpo, me encarando dos pés à cabeça.

- O que aconteceu por aqui Kisarague? – perguntou, me analisando com seus olhos verdes e atentos a qualquer suspeita.

- N-nada – gaguejei, me amaldiçoando. – Como você entrou?

- Pela porta da frente, estava entreaberta – ele comprimiu os lábios e franziu o cenho, acho que tentando não assumir uma postura muito séria. – Eu achei estranho e decidi averiguar se alguém estava tentando roubar algo. A temporada de frio intenso está levando algumas pessoas a agirem por impulso sabe, roubando comida, agasalhos e tudo que possa afastar o frio.

- Ah, tudo bem Charlie. Por que não espera lá embaixo? – quase gritei de alegria por Nero não estar em casa naquele momento. – Vou me trocar, aí a gente sai – fechei a porta atrás de mim e terminei de vestir minhas roupas, que ficaram em uma combinação perfeita.

Torci para que Charlie não estivesse averiguando mais nada, mas o peguei segurando a foto de Lieff que eu joguei no lixo, examinando-a atentamente. Fiquei furiosa e arranquei a foto de suas mãos, jogando-a no lixo novamente.

- O que foi? – ele ergueu uma sobrancelha e voltou a comprimir os lábios. – Algo errado?

- Pare de revirar meu lixo, pare de inspecionar minha casa! – guinchei.

- Como você conseguiu esses arranhões? – ele apontou para minha testa, não conseguindo controlar a língua. – Sora, eu sou quase um detetive e sei que algo estranho está acontecendo por aqui.

- Não interessa! – ralhei, indo preparar minha melhor maquiagem para esconder a ferida, que logo estaria fechada. – Um corvo entrou aqui e fez isso na minha cara.

- Um corvo? – indagou, e pude ver sua cara desconfiada pelo espelho. – Não existem corvos em Blizzard, pelo menos não nessa época do ano. Eles migram no inverno.

- Olha, não interessa. Para mim era um corvo e ele quebrou a janela e ferrou minha testa – sibilei. – Talvez você devesse ir atrás dele e perguntar o restante da história.

- Não precisa, eu confio em você Sora – ele ainda analisava a janela.

- Mesmo? Não me parece – bufei.

- Vamos esquecer isso, está bem? Afinal eu a chamei para um passeio e não para uma acareação – ele solta uma risada quando reviro os olhos. – É bom ter você de volta, Sora.

Controlei um sorriso para não dar o braço a torcer e fiz uma maquiagem simples, apenas com um delineador azul e um batom vinho, dando uma aparência mais saudável a meu rosto apático nesses últimos dias. Vesti o sobretudo vermelho e saímos de casa no carro amarelo de Charlie. Me perguntei onde Nero estaria, querendo ou não, fiquei preocupada com ele. Pensando bem, não nele, mas no que ele estaria fazendo por aí.

Lembro-me que Arabela havia saído com ele, isso não me cheirava bem. A neve estava incrivelmente branca e caía com muita rapidez, dificultando a passagem na estrada, que já estava bastante congestionada com amontoados grandes de geada. Charlie xingou baixinho quando o carro deu um solavanco bruto para frente ao tentar desatolar os pneus, acelerando com tudo e colidindo com um barranco de neve que despencou quase todo no capor do carro.

- Que ótimo – grunhiu.

Soltei uma risada quando ele teve que sair para retirar toda aquela neve do capor. Ele abriu a porta e o frio invadiu o carro, me fazendo querer mais um casaco. Observei a estrada vazia e mais escura adiante, me perguntando o que vagava por aí quando tudo ficava em silêncio. Não soube dizer se ao pensar sobre aquilo comecei a ver vultos negros e distorcidos entre o movimento que a neve fazia com vento. Pisquei duas vezes para afastar aquela visão que eu sabia ser fruto da minha imaginação, mas os vultos continuavam a surgir, rodopiando entre os redemoinhos de neve como uma dança macabra da qual eu me tornava uma figurante. Um dos vultos me encarou, foi então que mergulhei no vazio de seus olhos negros e sem vida, e não senti nada além de medo naquele momento.

Olhei para Charlie e ele ainda retirava a neve do capô, parecendo não notar nada de esquisito. Me encolhi no banco e observei apavorada quando camadas finas de gelo começaram a surgir no para-brisa, como se ele estivesse congelando. Os vultos ficaram mais negros e distorcidos, como se não pertencessem aquela dimensão. De repente o carro pareceu ficar menor, e comecei a ouvir os mesmos gemidos das sombras que surgiram no quarto. Tapei os ouvidos quando os lamurios tornaram-se intensos e agudos, fazendo meus ouvidos doerem. Observei com pavor quando os vultos começaram a tomar forma, como uma pessoa sem qualquer tipo de feição.

- Charlie entra! – gritei, apavorada. Ele me olhou sem entender o que se passava comigo. – Por favor entra logo!

A sombra caminhava até ele, com passos lentos e cambaleantes, como se estivesse aprendendo a andar agora. Charlie ainda me olhava confuso, até que seus olhos pousaram nas finas camadas de gelo que se formavam em seu para-brisa. Ele entrou rapidamente no carro e eu gritei para que acelerasse. Os faróis do carro iluminavam a sombra agora em forma humana, completamente negra e muito magra, com um aspecto pegajoso. Mesmo sem entender, Charlie pisou no acelerador e seguiu adiante. Olhei para trás e não consegui observar a sombra, que mesclava-se perfeitamente com a escuridão da estrada. Os olhos de Charlie estavam atentos a estrada, mas ele estava tão tenso quanto eu, pois seu queixo estava tão retesado que achei que fosse quebrar um dente.

- Eu acho que não me pediu para entrar porque o tempo frio estava congelando o para-brisa, não é? – perguntou, ainda atento a estrada.

- Não – arfei, ainda com o coração acelerado. – Para ser sincera, eu não sei o que vi.

- O que você viu?

- Uma coisa. Acho que era uma sombra – murmurei. – Estou assustada.

Contar para Charlie me deixou aliviada. Por ele ser uma autoridade local, me senti mais segura, mas eu sabia que isso não era algo que ele pudesse resolver. Pelo menos se eu sumisse, alguém importante saberia o que estava se passando comigo. Charlie afagou meu ombro e depois voltou a mão rapidamente ao volante.

- Obrigado por me contar Sora, pode contar comigo.

Assenti em silêncio e não falamos mais nada durante todo o caminho. Agradeci silenciosamente por ele respeitar aquele momento, e então permaneci atenta a qualquer movimento que achasse suspeito, mas nada nos perturbou.

Afundamos os pés na neve quando saímos do carro, o que me deixou feliz por estar de botas.

- Sora, eu quero que se divirta ok? Se algo a amedrontar quero que me conte – ele disse, afagando meus ombros com as duas mãos. Apenas assenti, sem medo de contar para ele as coisas estranhas que aconteciam comigo. – Tudo certo, vamos.

Chegamos a taverna do Joe e vi um letreiro que anunciava o show da banda. A fila estava imensa quando caminhamos até ela, mas Charlie era uma autoridade local e não precisou encarar a fila de menores com suas identidades falsas.

- O velho Charlie, como vai o trabalho? – perguntou um homem grandalhão, acho que era o segurança.

 - São tempos difíceis - disse Charlie, exibindo sua identidade. – As pessoas estão enlouquecendo com esse inverno. É o pior da temporada, então estamos tendo bastante trabalho.

- Imagino que sim. Um desses vândalos invadiu o meu quintal e eu dei o que ele merecia, não acha injusto que eu tenha que comparecer a delegacia por causa de um deles?

- Perfeitamente Zacary, vândalo ou não ele também é um civil.

Zacary coçou a barba castanha e espeça, então cuspiu no chão e faz uma careta de desaprovação.

- É a sua namorada? – ele acenou pra mim, exibindo um sorriso simpático. – Preciso da identidade dela.

- Ah, aqui – revirei minha bolsa e tirei a identidade, entregando para ele.

- Não, é apenas uma amiga – murmurou Charlie.

- Aqui está – disse Zacary, devolvendo as identidades. – Podem entrar e divirtam-se.

A taverna estava apinhada de pessoas, mas a reforma deixou o lugar mais espaçoso. Luzes neon pendiam no teto alto, e alguns holofotes iluminavam o palco. Meus olhos estavam completamente atentos a qualquer tipo de anormalidade, sempre me assustando quando via as faixas negras penduradas no teto, achando que podia ser algum vulto. Vi Lieff sentado no banco em frente a enorme bateria, conversando com August, o guitarrista.

Li estava usando um gorro preto que o deixava lindo. Seu cardigã vermelho combinava com a calça jeans e o tênis vermelho surrado. Charlie me arrastou para uma mesa, onde pedimos Cherry Coke. Tentei não beber mais do que uma e evitar me distrair. Se eu ficasse bêbada, aquelas coisas poderiam me pegar facilmente. A Cherry Coke desceu rasgando em minha garganta e aqueceu meu corpo. Charlie olhava para um grupo de meninas que eram notoriamente menores de idade. Soltei uma risada e ele voltou sua atenção para mim, tomando de uma só vez sua bebida.

- Você não cansa de ser chato? – ele emburrou a cara e voltou a olhar para grupo de meninas, que se dispersaram sob seu olhar acusador. – Olha só, você está estragando a noite delas.

- São menores de idade, não devem estar aqui – resmungou.

- Certo, mas como alguém me disse que não viria a trabalho – arrastei mais uma Cherry Coke em sua direção. – Então acho que essas garotas vão se divertir sem interrupção. Afinal, elas só querem dançar e beber um pouco, como nós, não é mesmo?

- É claro – ele fixou o olhar em mim e me lançou um sorriso discreto. – Eu já disse que é bom ter você de volta?

- Sim, você disse – falei, baixando o olhar para minha latinha de Cherry Coke.

Ergui os olhos e ele ainda me observava. Um silêncio constrangedor se estendeu quando resolvi sustentar o olhar e logo meu rosto esquentou. Um zunido de microfone ecoou na taverna, desviando nossa atenção e quebrando o silêncio entre nós. Lieff já estava prostrado em frente ao palco, pronto para começar o show.

- É ótimo ver a taverna do meu querido amigo Joe apinhada de filhos da mãe! – ele gritou, e houve gritos e aplausos vindos da multidão. – Muito bem, muito bem. Antes de tudo, tenho um recado para vocês. Sabemos que Blizzard está passando por mais um inverno rigoroso, então estamos tendo nossas casas invadidas por pessoas desesperadas, que talvez só queiram ajuda. Qualquer coisa comuniquem às autoridades locais, isso é algo que pode ser facilmente resolvido. Sem mais delongas vamos começar essa droga!

- Gostoso! – alguém gritou entre a multidão.

- É bom ver que ainda sou uma pessoa atraente – ele riu. – Sejam todos bem-vindos! – ele ajeitou o gorro sobre a cabeça e acenou para os rapazes da banda, para que fossem para seus lugares. – Vamos aquecer tocando para começar uma boa música do Bon Jovi, Misunderstood!

A plateia agitou-se, chegando todos para a frente do palco. Uma garota que estava sentada sobre os ombros de um rapaz alto, começou a tirar a calcinha e jogou para Lieff, que a pegou no ar. Senti meu rosto arder quando ele cheirou a calcinha e a amarrou no microfone. Quando a banda ajustou todos os instrumentos, Li aprumou-se diante do microfone e começou a cantar.

As pessoas empurravam-se enquanto ele cantava o refrão da música com entusiasmo. Charlie levantou e começou a dançar comigo, sempre com cuidado para não encostar onde não devia. Eu queria que ele dançasse comigo como os casais dançavam, então segurei suas mãos e as coloquei em minha cintura. Percebi que Lieff olhava para mim enquanto cantava, e de repente eu queria magoá-lo de alguma forma pelo tapa que deferiu em meu rosto e por todas as vezes que me tocou com brutalidade em nossas brigas.

Cheguei mais perto de Charlie e o beijei com voracidade. Ele pareceu confuso e me afastou de repente, mas eu o agarrei de volta e não deixei que se afastasse. Lieff ainda me olhava enquanto cantava, me senti por cima ao saber que o estava afetando. Pensei que ele fosse sair do palco ou algo do tipo, mas não. Ele desviou o olhar e continuou sua canção, me deixando com cara de babaca. Charlie me olhava de forma estranha, como se soubesse que eu o estava usando para afetar Lieff. Pedi para ir embora, mas ele me fez ficar e esquecer o momento esquisito.

Dançamos bastante como nos velhos tempos e me senti aliviada por ele não me deixar estragar o passeio, e logo esquecemos o mal entendido. O efeito da Cerry Coke começava a fazer efeito, e quando me senti tonta o suficiente para cair, pedi que Charlie me levasse para sua casa.

- É melhor você ir para sua casa, senhorita – ele deu um leve cutucão em minha testa. – Vamos, antes que você durma aqui.

- Por favor Charlie, estou assustada, você mesmo viu – choraminguei, com a cabeça encostada em seu ombro. – Todo mundo sempre me abandona, eu não quero ficar sozinha.

Estávamos deitados no capô de seu carro, observando o céu apinhado de estrelas e nuvens distantes. Ele cerrou o queixo e pareceu pensar sobre minha proposta.

- Você está bêbada, não me pediria isso se estivesse sóbria – argumentou. – Vai se arrepender de ter me pedido isso quando acordar, e eu serei o culpado.

- Por favor – agarrei seu braço. – Eu juro que não vou brigar com você, só estou com muito medo, não quero dormir sozinha e tampouco naquela casa.

Ele suspirou e me olhou preocupado.

- Tudo bem, ficará segura comigo. Só espero que não haja um mal-entendido amanhã.

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