25| Amigos

Para meu alívio, o Sr. Phillips não estava em casa quando Lili irrompeu porta a dentro e encontrando Amanda, sua mãe, preparando seu melhor almoço de sexta-feira. O paradeiro de Lieff não era mais um problema, ele estava sentado no enorme sofá preto da sala, descansando suas longas pernas na mesinha de centro e lendo seu livro favorito. Ele ficou surpreso ao nos ver, e mais ainda quando viu a irmã entrar como uma louca na casa com o rosto machado de lágrimas. A briga foi horrível, não tive coragem de ousar me envolver, isso era apenas entre os três. Lieff veio para a sala e agarrou meu braço com força, me mandando subir para seu quarto e fechar a porta, me senti horrível por não poder fazê-lo se acalmar. Aquilo tudo estava me matando, meus melhores amigos estavam enfrentando a maior barra de toda sua vida e tudo que eu podia fazer era aguardar no quarto de Li.

Vaguei pelo quarto enquanto gritos ecoavam lá debaixo. A grande cama com um edredom permanecia intocada pelo desuso, as estantes de mangás e livros também estavam empoeiradas. Passei por um mural que não estava lá em minha última visita. Fotos de nós dois estavam por todo o mural acima de sua escrivaninha de estudos. Aliás, fotos bem antigas, como quando eu tinha mechas vermelhas no cabelo loiro. Retirei uma e a analisei melhor, essa eu não sabia de sua existência. Era minha segunda semana em Blizzard, foi meio conturbado na escola, eu costumava me isolar em uma árvore grande que tinha atrás da escola. Ele tinha descoberto meu lugar secreto e nunca me contou, eu estava sentada num galho grosso e distraída com o livro O Conto dos Irmãos Flood.

Muitas outras fotos desconhecidas por mim estavam naquele mural, guardado como um segredo íntimo dele. Passei por seu guarda-roupas e tive o ímpeto de abri-lo, pois a curiosidade gritava dentro de mim. Vários pôsteres de bandas estavam pregados uns sobre os outros, enquanto do outro lado da porta tinha um calendário exibindo a foto de uma mulher muito sensual. Fiquei zangada e arranquei o calendário, jogando-o no lixo. Avistei uma pequena caixa com uma cerejeira de folhas vermelhas desenhada nela. Caixas sempre guardavam segredos, abri uma gaveta e a usei como apoio para alcançar a caixinha. Consegui pegá-la e quase caio para trás, me apoiando na cama. A poeira subiu quando sentei, mas não me importei, minhas mãos estavam formigando. Abri a caixa hesitantemente a princípio, mas lembrei que Li poderia voltar a qualquer momento, então a abri por completo.

Meu rosto ardeu quando vi o estava dentro. Camisinhas, exatamente isso, camisinhas. Várias delas. Vasculhei mais para dentro e não encontrei mais nada. Me senti frustrada e ao mesmo tempo zangada, então as visitas em seu quarto eram frequentes. Mas é claro, Li era muito bonito e diferente. Suas pernas longas e o corpo esguio era um ímã para garotas. Joguei a caixa no chão, me sentindo enfurecida. Ela quicou no chão e ouvi um som estranho saindo dela, um som oco. Peguei-a novamente e descobri uma pequena gaveta embutida na lateral, sorri para mim mesma e voltei a sentar na cama e examinei melhor a caixa. Dentro da gaveta havia várias cartas e correspondências, reconheci a caligrafia horrorosa de Lieff, mas havia outra, uma caligrafia perfeita.

Prendi a respiração quando vi para quem eram endereçadas as cartas, todas elas eram para uma mesma pessoa. As datas batiam com o ano passado, a mais recente era de Julho de 2014, mas depois disso eram todas mais antigas, datadas de quatro anos atrás. Ouvi passos na escada e joguei a caixa dentro da bolsa, correndo para fechar o guarda-roupas e colocar a foto no lugar. Li entrou no quarto com a respiração acelerada, trancou a porta e passou as mãos nos cabelos brancos. Ele não olhou em nenhum momento para mim, andando de um lado para o outro. Não o vi chorar, mas senti sua tensão invadir o lugar.

- Li... – comecei, mas ele estendeu a mão para me parar, me pedindo para silenciar.

- Agora não Sora – ele enterrou o rosto entre as mãos e sentou na cama, levantando uma nuvem de poeira. – Por favor, agora não.

- Não entendo, o que você quer dizer? – balbuciei.

- Não quero ouvi-la dizer que não sirvo para ser seu melhor amigo, não quero você me dizendo coisas que vão me deixar pior, você já faz isso apenas olhando para mim. Vá embora.

- Como você pode me dizer isso? Li, eu acho que amo você!

- CALE A BOCA! NÃO ME VENHA COM ESSAS MENTIRAS, VÁ EMBORA E ME DEIXE EM PAZ – ele levantou da cama e gritava comigo a todo vapor, começando a ficar vermelho.

- NÃO ESTOU AQUI POR VOCÊ! ESTOU POR LILI! – gritei, socando seu peito. Senti a raiva me subir à cabeça e gritei coisas que me arrependi no mesmo instante. – SEU ESTUPRO!

A mão de Lieff veio em meu rosto, quase me deixando sem ar. Fiquei com a cabeça pendida para o lado por um instante, depois me virei lentamente para observá-lo. Ele me olhava com nojo, mas com toda a razão. Eu disse algo imperdoável. Quando tentei abrir a boca para pedir desculpas, ele me agarrou pelo braço e foi me arrastando para fora da casa. Tive um último vislumbre de Lili abraçada com a mãe na cozinha antes de ser jogada no chão. Ele me ergueu pelos quadris e me jogou em seu ombro, caminhando até o carro. Depois de me jogar no banco do carona ele entrou e deu partida. Resolvi não falar nada durante o trajeto até minha casa, a marca do tapa ainda ardia em meu rosto. Algumas vezes senti vontade de coçar a bochecha, mas não dei esse gostinho para ele. Passamos pelas vielas estreitas constituídas de pequenas casas de madeira, depois seguimos para a taverna do Joe.

Lieff saiu do carro sem me dizer uma palavra e trancou as portas para evitar minha fuga. Quinze minutos haviam se passado e a impaciência começava a chegar aos poucos, olhei através da janela e tentei localizar Lieff, mas só consegui ver Tris limpando algumas mesas. Tentei abrir a porta quando o vi se aproximar, ele carregava uma sacola nas mãos e com a outra abriu a porta. Olhei para dentro da sacola e vi algumas garrafas de bebida alcoólica, dei um solavanco para frente quando ele deu uma partida brusca sem me avisar.

- Não sabia que você bebia – tentei iniciar um diálogo, mas ele nada disse e continuou atento na estrada.

Quando chegamos perto o suficiente para avistar meu destino, ele parou e desligou o carro. Fiquei olhando pela janela, determinada a ignorá-lo. Ele fechou as mãos com força em torno do volante, soltando um grande suspiro.

- Me dê a caixa Sora – sua voz estava arrastada.

- Que caixa? – mesmo naquela situação, eu ainda fui capaz de tentar ludibria-lo.

- Por favor Sora, não torne as coisas mais difíceis para mim – ele enterrou o rosto nas mãos. – Me dê a caixa e vá embora.

- Por que você nunca me contou? – tentei soar magoada.

- Me dê a caixa – aquilo estava começando a me irritar.

- Há quanto tempo você sabia? Lili sabe que você se correspondia com seu verdadeiro pai? – indaguei, tentando ganhar tempo para tentar fugir com a caixa.

- Vai me dar a caixa ou não? – ele olhou para mim e pude ver o cansaço em seus olhos.

- Não – murmurei, apertando a bolsa contra meu peito.

Ele avançou sobre mim e tentou puxar a bolsa, mas fui mais rápida e pulei para o banco traseiro. Tentei abrir a porta mas elas estavam trancadas, Li veio para o banco detrás, bloqueando todas as minhas rotas de fuga, que já não eram tantas.

- Vamos lá Sora, só me dê a caixa e eu sairei de sua vida para sempre.

- Por que eu iria querer que você saísse da minha vida? – indaguei.

- Porque não há espaço nela para mim – pude sentir a dor em sua voz, aquilo fez meu coração apertar. Ele estendeu o braço até mim e acariciou minha bochecha que ainda formigava. – Me desculpe por isso. Agora me dê a caixa.

- Li... – senti o um nó em minha garganta e tentei afastar as lágrimas que ardiam em meus olhos. – Me desculpe por aquilo, me desculpe mesmo.

Ele passou seu corpo para o banco traseiro, sentando ao meu lado. As lágrimas rolaram por meu rosto, me fazendo baixar a guarda e deixar que Li se aproximasse de mim. Ele passou os dedos sobre meu rosto, removendo algumas lágrimas que começavam a brotar. Solucei quando ele encostou seus lábios nos meus, fazendo sair um som estranho. Era a primeira vez em que havíamos nos beijado, foi uma sensação muito estranha, pois nunca imaginei Li daquela forma. Sua língua foi avançando para dentro da minha boca, enquanto eu sugava seu lábio. Ele passou seu corpo sobre o meu, me fazendo enroscar minhas pernas sobre sua cintura, o puxando para mim.

Hesitei quando passei as mãos por debaixo de seu moletom, acariciando sua cicatriz no abdômen. Soltei um gemido quando ele mordeu levemente meu pescoço e ele riu, me fazendo corar. Uma confusão mental começou em minha mente, me perguntei se aquilo era certo, Li era meu melhor amigo e amigos não faziam coisas daquele tipo. Pude sentir o quanto ele me queria quando colou o corpo no meu, me senti triunfante ao perceber o efeito que eu fazia nele. De repente lembrei das camisinhas que encontrei na caixa e comecei a me afastar, mas antes que eu pudesse fazer isso ele se lançou contra mim e garrou minha bolsa, voltando imediatamente para o banco do motorista.

- Ei! – guinchei. – Me devolva!

- E por que? Isso me pertence – ele guardou a caixa dentro do porta-luvas. – Agora você vai para casa.

As portas do carro foram destravadas enquanto ele fitava o horizonte, me deixando com cara de babaca por ter caído na dele.

- Você me usou – minha voz saiu trêmula. – Me usou para conseguir essa maldita caixa!

- Nada do que você já não tenha feito comigo, me usou a vida inteira – ele abriu a porta do carona e apontou para fora. – Agora saia, prometo que não voltarei a te incomodar. A partir de agora é cada um no seu caminho, não falo mais com você, assim como me pediu. Mas também não quero que tente falar comigo, isso termina aqui.

Peguei minha bolsa e sai do carro furiosa, ele deu partida sem ao menos olhar para mim. Caminhei até em casa e encontrei Nero e Arabela sentados no sofá, quase comendo um ao outro com os olhos. Parei apenas para cumprimentar Bela e segui para o quarto. Abri a bolsa e fiquei surpresa ao encontrar uma carta e três camisinhas, lembrei que não fechei a caixa quando a joguei na bolsa. Desdobrei a carta e me surpreendi ao ver que eram duas, uma era de Geoff, tio e verdadeiro pai de Lieff e outra era um rascunho de Li para o pai. Tranquei a porta e deitei na cama, lendo a carta atentamente.

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