23| A Filha da luz

Procurei por Lieff e não o encontrei em lugar algum. Fui ao meu quarto e vi que suas coisas sumiram, bati na porta do quarto de Lili, mas estava trancada. Ouvi Lili gritar e fiquei nervosa, girei a maçaneta e bati insistentemente. Algo de errado estava acontecendo entre ela e Nero, pois a ouvi chorar e bater a porta do banheiro com força. Bati com mais força, mas ninguém veio abrir. Senti meu corpo esquentar e minhas mãos vibrarem, ele poderia estar atacando Lili, não deixaria minha melhor amiga morrer nas mãos de um sangue suga. Ouvi um estrondo na porta do banheiro e dei um pulo para trás, senti medo ao pensar em enfrentar Nero, ele era bem maior que eu e tinha uma coisa maligna dentro dele.

Criei coragem e dei mais um passo para trás, tentando me concentrar no que Lisander me designou a fazer. Converse com o Sol. Tentei ao máximo fazer isso, mas como? Por favor, me ajude Luz! Pensei que não iria funcionar, mas meu corpo esquentou e senti mais ondas de vibração me invadirem. Era hora. Chutei a porta com toda a minha força, me surpreendendo com o que aconteceu, ela foi parar em cima da cama. Olhei para o banheiro e Nero estava em frente a Lili, que sangrava pelo pescoço. Ao ver aquela coisa horrenda no pescoço dela, me senti mais enfurecida e andei até Nero, que havia ignorado minha presença.

Segurei seu ombro e o apertei com toda a força que pude, sentindo sua clavícula quebrar. Arremessei ele para longe, que foi parar com um estrondo nas estantes, fazendo alguns livros caírem. Ele ainda se encontrava pateticamente no chão quando olhou para mim. Tentando erguer-se, Nero olhou para o ombro danificado. Sorri ao ver que o havia ferido, mas meu sorriso se foi tão rápido quanto veio. O osso quebrado estava movendo-se sobre sua pele, e logo depois foi parar no lugar, ficando novinho em folha.

- O que diabos estava fazendo com Lili, seu filho da puta! – grunhi.

- O que pensa que está fazendo Sora?? – seu queixo estava sujo de sangue, ele me olhou sombriamente e ficou de pé. Vi que estava mais alto, e mais forte também. Observei novas tatuagens estranhas que vinham da palma da mão até o antebraço. – Lili precisa da minha ajuda.

- O que?? Você viu o que acabou de fazer com ela?? Eu vou te matar! – avancei em direção ao morto-vivo e lhe dei um soco no queixo, depois um no estômago. Ele curvou-se para trás com o ataque e segurou minha perna quando ela foi em sua direção.

- Isso não foi muito inteligente – ele me lançou um olhar sombrio e agarrou minha perna com as duas mãos, me lançando contra o teto.

Bati com a cabeça no pequeno lustre, depois fui de encontro com o chão. Senti o sangue escorrer por minha cabeça, mas não me dei por vencida. Levantei rapidamente a tempo de ver Nero caminhar até Lili, corri a tempo e segurei seu pescoço com as duas mãos, tentando quebra-lo. Ele virou a cabeça para trás, me dando uma cabeçada dolorosa. Segurei um de seus braços e o girei até sentir o osso partir, ele grunhiu e me lançou um soco na cara, me fazendo cair. Novamente vi os ossos se mexerem e voltarem ao lugar. Dessa vez ele não me deixou para trás, me ergueu pelo pescoço com apenas uma mão e apertando meu joelho com a outra.

- Gosta de quebrar ossos, não é? – ele sorriu para mim enquanto apertava meu joelho. Tentei gritar quando o aperto ficou mais intenso, mas já não conseguia mais respirar. Segurei minhas mãos em torno da dele, mas não consegui removê-la.

- PAREM COM ISSO! – ouvi Lili gritar, ainda sentada no chão. Nero me largou e foi até ela, vi ali minha oportunidade de acabar com o desgraçado.

Fechei meus olhos com força e me concentrei ao máximo. Me ajude, tenho que acabar com ele! Novamente senti mais calor emanar do meu corpo e de repente não havia mais dor. Fique de pé e puxei seus cabelos, fazendo sua cabeça se chocar contra o chão. Pisei em cima de sua cabeça com toda força, por um momento achei que havia conseguido, que ele estava morto. Mas ele segurou meu pé e se levantou, me empurrando contra o chão. Segurando meus braços com força, ele murmurou algo e olhou para mim, seus olhos estavam vermelhos como o sangue em sua boca. Aquilo me assustou, me fazendo esquecer por um momento que tinha que meter mais algumas surras nele.

- Também sei pedir ajuda – ele disse sombriamente. – Agora vamos brincar um pouco.

Ele segurou minhas mãos entre as suas e entrelaçou nossos dedos, não consegui fugir daquele olhar entorpecente. A tatuagem em seu antebraço começou a se mover, vi que eram correntes. Elas agitaram-se em seu braço e percorreram sua pele até chegar a minha, observei a tudo paralisada de medo. As correntes vaguearam sobre meu corpo e foram parar em meu pescoço, fechando-se sobre ele. Tentei gritar mas as corretes me estrangulavam, senti meu pescoço esquentar, eram as correntes. Minha pele estava queimando, comecei a gritar e meu corpo entrou num colapso térmico. O senti frio, depois quente e depois não senti mais nada.

- PARE NERO, VOCÊ ESTÁ MATANDO ELA! – ouvi Lili gritar novamente.

- Eu quero te ajudar, mas ela não entende! – Nero esbravejou, ainda segurando meus braços.

- Por favor, faça isso por mim – Lili havia voltado a chorar.

Senti um alívio no pescoço, as correntes voltaram como tatuagem para os braços de Nero. Senti meu corpo paralisado ao tentar levantar. Era humilhante vê-lo olhando para mim com um ar de vitorioso. Lili ajoelhou-se diante de mim e me colocou em seu colo, meus braços pendiam inertes diante dela.

- O que você fez Nero?? – Lili estava apavorava.

- Eu não sei, só pedi ajuda para Sam e ele me mandou agarrar os braços dela – a voz dele nem tremia. Ele olhou para mim com pena e cinismo – Me desculpe Sora.

- Vai se foder! - consegui cuspir na cara dele, depois soltei uma gargalhada.

- Ora sua... – ele veio em minha direção com os punhos cerrados, mas foi detido por Lili.

- Pare Nero! – ela guinchou. – Por favor, parem. Eu estou bem.

Mas ela não estava, mais lágrimas rolaram por seu rosto e ela fechou os olhos. Nero a pegou pelos braços, me fazendo cair inerte no chão. Fiquei enfurecida por não conseguir me mover, me sentindo inútil. Vi Nero levar Lili até o banheiro e depois coloca-la na cama, o ferimento em seu pescoço estava limpo e ela segurava uma toalha sobre ele. Fiquei confusa com a atitude dele, uma hora ele tentou matá-la, mas agora estava cuidando dela como se fosse sua amante. Ele recolheu algumas roupas do chão e as vestiu, me perguntei o que estava acontecendo entre os dois, o que haviam feito na noite passada?

Ele caminhou até mim e também me pegou pelos braços, mas não com a mesma delicadeza que Lili, ele me jogou bruscamente na cama. Amaldiçoei em pensamento e desejei que ele morresse, mas ele estava ali, e ajudava Lili a vestir seu casaco marrom. Senti a vibração em meu corpo voltar, aos poucos comecei a mexer os dedos, depois os braços. Levantei de supetão e corri até Lili, que prendia seus longos cabelos num coque. Ela parou de chorar, seu rosto estava sério e parecia determinada. Olhei para Nero, que já estava totalmente vestido de negro e se apoiava na soleira da porta. Ele lançou um olhar de desdém, mas ignorei aquele babaca.

- Lili, me diga o que está acontecendo entre vocês – pedi.

- Olha Sora, Nero não está tentando me machucar, pelo contrário – ela colocou um Band-Aid redondo e grande no pescoço, cobrindo as marcas das presas. – Ele descobriu algo sobre mim que jamais imaginei ser verdade.

- Tipo o que? – perguntei, intrigada com o assunto.

- Tipo, que talvez minha mãe tenha sido estuprada pelo tio Geoff, seu irmão. Ela me escondeu tudo, que droga, sou filha dela! – ela ficou vermelha de raiva e bateu com o punho cerrado na penteadeira. – Sou uma aberração. Não sou filha do pai que sempre me criou.

- Que história é essa Lili?? – aquilo era um absurdo, olhei para Nero e gritei. – O que você andou falando para ela??

- Pare Sora! – Lili me encarou. – É tudo verdade, por que acha que eu nasci albina? Por que acha que meu pai acha que não sou filha dele?

- Lili, eu...

- Chega de perguntas por enquanto. Você vai comigo até minha casa e vou conversar com minha mãe, ela querendo ou não. Nero, lembre-se que você já se alimentou hoje – ela apontou para o curativo em seu pescoço. – Fique aqui e me espere, temos muito o que conversar. E Sora, você está diferente, o que aconteceu? Seu cabelo está tão claro que beira ao branco.

- Eu não sei – balbuciei, Lili voltou ao controle, era isso que eu mais gostava nela. Ela sempre controlava tudo, mesmo quando estava abalada. – Talvez eu saiba, mas conto para vocês depois – falei, olhando para Nero, que assentiu em silêncio.

- Ok, então vamos – ela pegou as chaves do carro e caminhou para fora do quarto. – Onde está Lieff?

- Faço a mesma pergunta – murmurei, não vi Li desde que brigamos hoje de manhã.

Seguimos para fora da casa e corremos para dentro do carro, pois a chuva estava quase torrencial. Lili colocou seus óculos escuros e ligou o carro, olhei para uma foto nossa que estava pregada no canto do vidro. Lili sorria para a câmera, me dando um abraço, e Li me observava sorrindo. Peguei a foto e observei o rosto dele, me perguntando onde estaria. Lili seguiu com carro e nos dirigimos para a cidade. Senti que algo ruim estava para acontecer.

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