14| Lumen e Tenebris
A mordida de olhos verdes ainda ardia em meu braço, mas o sangue já estava coagulado, formando pequenas camadas negras acima da pele ferida. Lili bateu a porta de seu aposento em minha cara, me mandando ir embora. Mas eu sabia que algo estava errado porque senti palpitações nervosas que vinham dela. Desde que provei seu sangue no ataque no quarto, conseguia sentir como Lili estava. Se estava bem ou mal, com raiva ou nervosa e feliz ou triste. Ela não sabia, pois decidi não contar. Aquilo poderia assustá-la e eu não queria que ela se afastasse de mim, pois era a única que havia me ajudado desde o primeiro instante.
Depois de persistir bastante, ela cedeu, me deixando entrar e perguntando se estava sozinho. Senti fortes ondas de raiva e tristeza, mas ela aparentava estar bem e me exibiu seu melhor sorriso. Sentei no parapeito da janela e esperei que ela saísse da sala de banho. Ondas de raiva emanavam lá fora, senti olhos verdes passando pelo aposento, caminhado em direção ao seu lugar. Olhei para meu braço e fiquei surpreso ao ver que não tinha mais feridas ali, mas senti o local totalmente dormente e gelado. Aos poucos comecei a descobrir as vantagens de se tornar a aberração que eu era.
Pensei em contar a Lili sobre a Besta que vivia dentro de mim, mas fiquei com medo que ela se afastasse. A Besta disse que ela era a filha do incesto, pecaminosa e um fruto indesejado. Algo aconteceu com a mãe dela, pois Lili foi concebida no pecado juntamente com seu irmão. Era sabido que ela merecia a verdade, mas seria preciso que eu ganhasse sua confiança e amizade. Lembrei que ela entrou na cripta e estava com alguns objetos em posse. Olhos verdes conseguiu mais uma vez escapar da verdade, mas agora ela não precisaria mais fugir, pois eu não iria mais importuná-la com nada.
O cheiro de lavanda invadiu o quarto quando Lili saiu da sala de banho. Seu cheiro mesclava-se com a brisa gelada que vinha da floresta. Ela soltou seus longos cabelos brancos, passando de sua cintura com curvas perfeitas. Usava um vestido negro, o que entrava em contraste com sua pele clara. As anciãs a julgariam por aquele vestido curto e sem mangas. Observei por alguns instantes enquanto ela penteava os cabelos com ternura. Sorri ao compará-la com a deusa Solária, rainha do sol e da primavera, tão branca e angelical quanto Lili. Ela me viu sorrindo ao observá-la pelo espelho, então largou sua escova na penteadeira e veio em minha direção. Seus cabelos cobriam-lhe os ombros, caindo em cascata até a cintura. Senti vontade de mordê-la, mas afastei aquele pensamento, pois não sentia fome no momento, me amaldiçoei por pensar naquilo.
- Do que você está rindo? – ela perguntou, sentando-se ao meu lado.
- Você me lembra uma deusa – falei.
- Ah, ela era tão estranha quanto eu? – perguntou, fazendo uma careta de dúvida.
- Não, ela era a mais bela – suspirei, ela pareceu corar, então virou o rosto para frente. – Era tão bela e bondosa, que despertou a ira e inveja de sua irmã Shaya, deusa da lua e do gelo.
- Me conte mais – falou, ainda observando a floresta.
- Quer mesmo saber? – perguntei. – É uma crença de meu povo sobre a história de Blizzard.
- Eu quero – murmurou, sorrindo.
- Tudo bem. Era época de verão, quando na terra de Lumen, nascia uma garotinha bela e saudável. Tão bela que todos diziam que ela era a filha do Sol. Ignis era seu nome. Enquanto isso, na terra de Tenebris, lugar de sempre frio, nascia um garotinho tão frio que todos pensavam estar morto, Arthur era seu nome. Antes de Blizzard, essa terra era dividida em duas ilhas. A de sempre Sol e a de sempre Gelo – dei uma pausa, perguntei se Lili queria que eu continuasse, ela assentiu e continuei. – Trevor, o malévolo Rei Gelado não apenas se conformava com as terras que tinha, mas cobiçava a terra de Sempre Sol, do Rei Quino.
- Essas histórias sempre acabam em tragédia... – suspirou. – Continue.
- O Rei Gelado declarou guerra ao Rei Quino, que não se rendeu a tanta crueldade e avançou com suas tropas em direção as terras geladas. Com toda a sua cavalaria, o Rei Gelado já havia cantado vitória, porque tinham as melhores armas e os melhores guerreiros. Contudo, Quino tinha as melhores estratégias e atacou a cavalaria fria com suas estratégias, e assim venceu a guerra. Mas o que Quino não esperava, era que sua filha Ignis fosse roubada de seus braços enquanto a guerra era desencadeada. Todos no castelo ficaram em pânico, ninguém havia visto a princesa ser roubada, nem mesmo os guardiões de seu berço, que foram enforcados no dia seguinte".
"Uma sombra sorrateira havia entrado no castelo e roubado Ignis de seu berço. O captor sentiu dificuldade de carregar a garota, pois ela era quente e suas mãos eram frias como o gelo. Anos se passaram após a guerra e a princesa nunca foi encontrada, eles deduziram que ela havia sido raptada e morta por guerreiros do Rei Gelado. Ela fora levada para as terras frias, mas foi tratada como a filha do Rei. Todos a achavam esquisita, porque ela emanava calor e tinha sempre um belo sorriso no rosto. O tempo foi passando, Arthur e Ignis cresceram juntos, criando um forte laço de amizade, que logo se transformou em amor."
"Ela se adaptou ao frio. Amou a todos os habitantes de Tenebris, enfim, se tornou uma verdadeira garota do frio. Quando soube que havia sido sequestrada na guerra de dezessete anos atrás, ela não se importou, muito menos ficou zangada. Teve permissão de visitar o verdadeiro pai em Lumen. Ela partiu com Arthur em seu encalço e juntos foram ver os últimos suspiros do rei moribundo. A alegria e surpresa de ver a bela princesa depois de tantos anos fez o rei melhorar um pouco, o suficiente para conhecer um pouco a filha. Até que ele se foi no início do outono. Como última descendente do Rei Quino, Ignis devia ficar e governar suas terras, e assim o fez. Arthur era perdidamente apaixonado por ela, então abandonou as terras frias e juntos criaram um equilíbrio entre as duas terras, tornando-a uma só. Então Lumen e Tenebris tornaram-se Statera".
"Após a grande união das terras, os amantes casaram-se e Ignis concebeu ao mundo duas menininhas, gêmeas. Uma nasceu ao raiar do dia, ela herdara o calor da mãe e seu nome era Solária. A outra nascera ao pôr do sol, herdara o frio do pai e seu nome era Shaya. As irmãs se tornaram belas jovens, felizes e astuciosas. Solária tinha a beleza da mãe, cabelos longos e loiros e olhos amarelados. Shaya tinha longos cabelos negros e olhos azuis profundos. Porém, além da aparência, as duas princesas tinham interesses diferentes. Enquanto Solária se interessava apenas por rapazes bonitos, Shaya se aprofundava cada vez mais sobre táticas de guerra e estudos. Ela passava todo o seu tempo na biblioteca do castelo, sempre estudando a fascinante história do Rei Gelado, seu avô. Ela sentia como se tivesse conhecido ele, não era parecida com seu pai, que havia se rendido aos encantos de sua mãe. Ela era melhor do que ele. Honraria o Rei Gelado como ele merecia".
"Estudou magia negra e logo as testava em animais, tamanha era sua crueldade que chegou até a matar algumas crianças que a importunavam. Solária deixou os rapazes de lado e aprofundou-se nos ensinamentos da mãe, sobre o calor que sua magia poderia dar a todos. E assim as duas irmãs cresceram, convivendo juntas, mas com propósitos diferentes. Shaya nunca revelaria seus objetivos para todos, pois logo veriam uma nova era começar. Era noite de seu décimo nono ano, quando Shaya irrompeu sorrateiramente pelo salão principal e assassinou seus pais sem qualquer remorso. Era a vez de sua irmã juntar-se aos pais quando houve uma grande guerra entre elas. Mal sabia Shaya que a magia poderosa de sua irmã a derrotaria, tornando-se a deusa Solária".
"Shaya partiu para longe, onde ainda havia frio. Abrigou-se no antigo castelo do Rei Gelado, e lá se aprofundou cada vez mais em magia negra. Ao tornar-se mais forte, planejou vingança contra a irmã, que a havia expulsado de suas terras. Ao contrário de Solária, Shaya herdara a esperteza de seu outro avô, Rei Quino. A primavera estava em ascensão quando uma forte tempestade gélida arrebatou Statera. Todos esqueceram que existia outra Deusa, mas essa já havia sido derrotada por Solária. A tempestade fria fez o caos predominar, Shaya estava se aproximando, aquilo era apenas uma amostra de seu poder. Fúria e ódio atingiram Statera com tanta força que raios começaram a descer do céu e queimar estalagens".
"Shaya invadiu o grande castelo de sua irmã, ela já aguardava o combate. Não houve sequer um diálogo entre elas, tamanho era o rancor. Solária ainda esbravejou com a irmã, mas essa não queria ouvi-la, mas sim matá-la. Luz e trevas irromperam pelo castelo, reduzindo-o a escombros. Quando um punho frio fechou-se no peito de Solária, ela sabia que havia perdido. O frio invadiu seu corpo e ela fechou seus olhos para a eternidade. Quando finalmente exterminou o clã do Rei Quino, Shaya transformou tudo em gelo. A Deusa Fria entrava em ascensão naquele momento. Statera voltou a ser Tenebris e ela governa tudo desde então".
- É por isso que aqui é tão frio? – perguntou Lili.
- Sim, a Deusa Shaya ainda governa. Mas uma vez minha avó me disse que sua obsessão por destruir os descendentes de Quino era tão grande que ela cometeu suicídio, já que era um deles.
- Nossa, ela era realmente muito má – suspirou, notei que estava exausta.
- Bem, por que não vai descansar um pouco? – perguntei. – Depois você pode me contar o que está acontecendo, se quiser.
- Você parece ser um bom amigo. É só um pouquinho sombrio, mas um bom amigo. Vou ficar aqui mais um pouco – suspirou e ficou mais próxima. – Posso?
Ela recostou-se no meu peito e descansou a cabeça ali. Escutei as batidas de seu coração e soube que consegui fazê-la relaxar um pouco. Passei os dedos sobre seus cabelos lisos e ela fechou olhos. Depois de adormecer subitamente, peguei ela nos braços e a pus em seu leito de sono. Fechei as janelas para a luz da lua que espiava de longe. Deitei ao lado de Lili e observei sua respiração ficar mais lenta, até se tornar apenas alguns suspiros. Rocei o dedo em seu braço e novamente senti vontade de mordê-la. Ela pareceu despertar com o toque voltou a aninhar-se em meu peito. Fiquei imóvel por alguns instantes até que a acomodei em meus braços, deixando que a noite nos guiasse para um lugar sem sonhos. Talvez ela quisesse sonhar, mas mal sabia ela que seus sonhos estavam engaiolados.
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