12| A Ascensão da Besta

Desde que despertei, não sabia que poderia dormir, ou mesmo se sentir tão cansado. Tentei inutilmente abrir os olhos, mas o cansaço insistia em me puxar para um abismo profundo e sem sonhos. Meu corpo estava dormente e paralisado. Tive alguns lampejos de Lili tentando falar alguma coisa, tentei responder, mas apenas murmúrios saíram de minha boca. Escutei zunidos, alguém tentava falar comigo. Alguns passos ecoaram a distância, mas logo consegui ouvi-los se aproximando. Senti algo ruim, frio e medo. Tentei fazer algum movimento, em vão. Lili tocou minha testa e depois o pulso, não consegui ouvi-la, mas recebi ondas de vibrações vindas de sua voz.

"Não deixe que a filha do incesto te toque! Ela é pecaminosa!"

Bradou uma voz nos meus pensamentos. A mesma que me proibiu de tomar o sangue de Lili. Antes que pudesse responder, algo forte queimou em minha cabeça. Gritei, só havia a dor.

"Concentre-se... concentre-se seu tolo... olhe para dentro do escuro, na sua mente perturbada... ela não me selou aqui por tanto tempo para você não me ouvir... concentre-se".

Deixei que a voz continuasse a falar sozinha, sabia que ela vinha da minha cabeça, mas não identifiquei onde ela se escondia, ou se às vezes agia por mim. Mergulhei para dentro dos meus pensamentos, o breu predominava tudo. Um calafrio me percorreu, não estava sozinho. Olhei para os lados, mas nada vi.

"Nero?", ouvi Lyanna chamar, mas não consegui vê-la. "Olhe para mim Nero, estou logo atrás de você".

Olhei para trás e lá estava ela, com seus cabelos negros e compridos. Seus olhos castanhos me estudaram com tristeza, ela segurava algo. Fui ao seu encontro, mal pude acreditar que ela estava viva. Andei com mais pressa, queria abraça-la.

"Pare, olhe para isto", ela ergueu algo nas mãos. "Você reconhece? Por que meu irmão?". Reconheci a bota estranha da menina morena no lago, estava suja de sangue e pude ver meu reflexo espelhado na lâmina.

"No que você se tornou Nero?", senti uma onda de vergonha me invadir, Lyanna agora chorava, eu odiava quem a fazia chorar. Eu me odiava.

"Lya... eu tive que fazer aquilo". Tentei alcança-la, a barreira agora tinha sumido.

"Você morreu para mim, para papai e mamãe também. Você não merece ser do nosso clã. Não tem honra e é um covarde. Não volte a me procurar". Sua voz ecoou no vazio e ela se foi.

Fique sem ação, aquelas palavras me entristeceram a ponto de querer morrer novamente. Tentei me erguer, queria sair daquele lugar, estava atormentado.

"Eu ainda te amo Príncipe Lancaster". Ouvi a voz de Prudence, olhei mais além e lá estava ela. Mas ainda éramos jovens, tínhamos apenas oito anos, na temporada do inverno rigoroso.

"Tem certeza de que posso ir? Sou plebeia. Não tenho vestidos bonitos". Cheguei mais perto, lembrei que essa era a data do solstício de inverno, Prudence era filha de minha ama de leite. Linda como a Deusa Shaya, de cabelos negros e sardas ao redor do nariz. Ela havia me chamou atenção desde que começou a morar no pequeno vilarejo para subordinados.

"Não importa, tenho muito ouro. Terá um belo vestido, da cor que desejar". Sorri para ela, estávamos deitados sobre a neve, com os rostos corados por conta do frio.

"Tem que jurar príncipe. Se fizer o prometido, ganhará um beijo". Lembro que me senti eufórico com a esperança de um primeiro beijo.

"Onde ganharei o beijo? Você age como uma nobre". Ela remexeu-se para ajeitar o pequeno vestido de lã grossa.

"Ganhará um beijo na bochecha".

"Na bochecha?". Indaguei.

"Sim, é melhor do que nada". Sorri para ela e segurei seus longos cabelos negros, ela não virou o rosto. Tentei fazer com que olhasse para mim, mas em vão.

Fiquei próximo, aquela cena não fazia parte da lembrança, não havia acontecido. Ela virou o rosto para mim, mas não vi Prudence, era Lili. Seus longos cabelos estavam soltos, ela me olhava com preocupação, seus olhos acinzentados estavam vidrados.

"Não beba o meu sangue Nero, ele é impuro". De repente me vi ali, não tinha mais oito anos. Peguei o braço de Lili e o mordi, ela gritou. Fogo saiu de sua boca e logo tudo estava em chamas. Corri para o lago, tentei apagar o fogo que consumia minha pele. A escuridão tomou conta do lugar, lembrei que estava preso em minha mente, me concentrei no que viria a seguir. Uma sombra negra de olhos brancos e arregalados surgiu a minha frente. Ela me examinou, fiquei assustado com aquele rosto que nada transparecia, que nada dava para identificar.

"Finalmente" ela disse, com uma voz gutural e rouca. Tentei não olhar para aquilo, mas fui forçado a ficar de joelhos e abrir os olhos. "Olhe para mim, seu tolo", filetes espectrais começaram a emanar da sobra, como se fosse fogo negro. "Se voltar a beber o sangue da filha do incesto, pagará caro. Não vou definhar por seus erros. Fará o que eu ordenar, a partir de agora poderá me ouvir e falar comigo se necessário".

"Quem é você?", perguntei.

"Não importa. Apenas uma coisa, mate-a quando tiver qualquer oportunidade. Não me faça força-lo a lembrar dos seus objetivo, último descendente".

"Quem?", gritei, mas ela sumiu junto com a dor lancinante.

Um pano úmido estava sobre minha testa. Ao lado, Lili segurava algumas ervas. O aroma de camomila e outras plantas pairavam no ar. Senti algo preso no braço. Lili retirou o que parecia ser uma agulha transparente dele e vi sangue sair dela. Tossi, um gosto salgado impregnava minha boca. Senti sede.

- É soro, achei que precisasse – falou Lili, retirando o pano da minha testa. – Bem, você ficou desacordado por várias horas, quase um dia. O que houve?

- Eu... não sei... – murmurei.

- Ah, desculpe. Vou deixar você descansar. Sora ainda dorme, estamos ficando preocupados – observei ela pisar algumas ervas dentro de um copo.

- Você é curandeira? – perguntei.

- Não – ela riu. – Sou psicóloga, que dizer, quase. Só mais alguns anos e estarei formada.

- O que é isso?

- O que? Psicóloga? – assenti em silêncio. – Bem, é uma pessoa que cuida da saúde mental de outras, pra ser menos específica.

- Ah, você tem que cuidar da minha. Tem algo vivendo dentro de mim, um parasita – ela sorriu. – Vai achar minha mente bem confusa, acabei de viajar por ela.

- Talvez depois que você estiver recuperado – ela tocou meu pescoço, pressionando o lado esquerdo. – Você agora tem pulso, que esquisito. Olhe – mostrou a agulha. – Tem sangue.

- Meu? – indaguei, surpreso.

- Sim – assentiu. – Algo em você está mudando, é como se estivesse progredindo, se tornando mais humano... não que você não seja... ah me desculpe.

- Não precisa se desculpar, eu sei no que me tornei.

- Você ainda é humano para mim, tome isso – ela estendeu um copo em minhas mãos.

- Ahh, está quente! – grunhi.

- Oh! Perdão – Lili enrolou um pedaço de pano grosso ao redor do corpo e me entregou. – Você está sentindo calor.

- Eu... – eu não havia notado, mas era verdade, agora conseguia sentir as coisas. Aquela Besta dentro de mim estava me mudando. Levei o copo a boca e senti o delicioso sabor do chá.

- Sabe, enquanto vocês estavam desacordados, eu entrei naquele buraco e vi o que tem lá dentro. Aqueles túmulos e também encontrei alguns objetos, vou trazer depois que tudo isso passar.

- Viu que o que eu falo é verdade? – me surpreendi por Lili ter entrado na cripta.

- Sim, desde o começo eu acreditei em você, lembra?

- É claro, tudo por Daniel não é? – ela corou, então baixou os olhos e assentiu em silêncio.

- Não somente por Daniel – disse. – Mas por Sora, ela tem algo ligado a você.

- Onde está Sora? .

- Ela está segura, não se preocupe. Lieff está cuidando dela e eu de você. Bem, quero que me diga algo. Por acaso você sabe sobre um assassinato que houve por aqui, aqui pertinho, na clareira mais próxima.

- Que assassinato? – seu olhar se tornou duro e suas feições ficaram sérias.

- Vou acreditar em você Nero, mas se estiver mentindo para mim, eu vou dar um jeito em você. Não quero você machucando minha melhor amiga, nem ao meu irmão, tampouco outras pessoas. Entendeu?

Assenti. Indaguei se ela saberia que havia algo errado com seu sangue. Se o que a Besta me disse fosse verdade, Lili merecia saber. Olhei para ela de soslaio, havia um espelho em seu colo e uma espécie de pequena caixa em suas mãos. Ela revirou a caixa, depois a posicionou perto do meu rosto. Um clarão fez arder meus olhos, depois ela voltou a coloca-la no colo. Posicionou o espelho em minha frente e esperou que eu olhasse.

- Vamos lá, olhe – pediu.

- Por que? – indaguei.

- Só olhe – disse com impaciência.

Olhei para o espelho e vi alguém que não reconheci. Desde que despertei, não parei para reparar que agora eu me encontrava bem diferente. A cor do olho já não era negro, mas sim de um profundo cinza com nuances de vermelho. Meu rosto estava mais retesado e minha pele, pálida. Larguei o copo de chá sobre o chão e passei a mão sobre as maçãs de meu rosto, depois nas presas. Estavam maiores e mais afiadas, e as unhas se tornaram negras. Não consegui mais olhar para quem eu havia me tornado, tirei o espelho das mãos de Lili e o coloquei no chão, ela me olhava com pena e fiquei enfurecido por isso.

- Bruxa – murmurei.

- O que? – pigarreou, soltando um grito agudo.

- Nada – rosnei, ela parecia não ter escutado.

- Você é tão carrancudo – disse. – Até parece Lieff.

- Não me compare com essa escória.

Lili não respondeu. Ela pareceu se perder em seus pensamentos e começou a remexer em sua bolsa verde de pano. Terminei de tomar o chá e ela ainda estava sentada ao meu lado, remexendo na bolsa e descartando alguns potes transparentes. Esboçando um sorriso, pegou algo que se parecia com uma pequena adaga. Perguntei o que era, mas não obtive resposta. Fiquei irritado com aquele silencio, tentei levantar, mas meu corpo e Lili protestaram ao mesmo tempo e resolvi ficar onde estava.

- Muito bem, vamos lá – ela se acomodou logo atrás de mim.

- O que você vai fazer comigo? – indaguei.

- Com você? Não farei nada, e sim com o seu cabelo – ouvi o barulho de algo sendo cortado e senti cabelos caírem sobre os ombros.

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