UM

Santiago, estava exausta com toda aquela falação, tentava se concentrar, mas os barulhos internos gritavam em sua cabeça e não a deixavam em paz.

No trabalho, Santiago estava indo bem, mesmo com o mal humor de seu chefe, a sua vida pessoal estava um caos, o que não fazia sentido algum, pois, esta parte da sua vida estava parada. Precisava de férias urgentes, percebeu isso ao se deparar conversando com um soldadinho de chumbo, objeto que repousava em sua escrivaninha como peso de papel.

Pobre, Santiago, conseguiu o emprego dos sonhos, na revista dos sonhos, no entanto, o trabalho dos sonhos não estava lhe fazendo feliz, necessitava de algo a mais, mas o que seria? Seus pensamentos já estavam lhe fazendo tanto mal que estava quase admitindo que os ataques gratuitos do seu chefe estavam certos. Todos os dias tinha a sensação de que deveria pedir demissão, também não estava certa sobre isso, perguntou a opinião do soldadinho de chumbo que não a respondeu, assim, como das outras vezes, então, levantou-se e foi tomar um banho, talvez, fosse isso que estava faltando.

Aquela noite foi estressante, mas não muito diferente do seu dia, e agora amanhecia novamente, estava atrasada, não por culpa do despertador que Santiago, jogou na parede ao ouvir o seu toque anunciando que já eram seis horas da manhã.

—  Que droga! Ainda é terça-feira.  — Pensou irritada ao olhar para o calendário da empresa que tinha colado na parede, precisava chegar mais cedo hoje, ou teria que enfrentar a fúria de Augustus.  — Droga, droga, droga...

Levantou-se rápido demais, quase caindo por conta da labirintite, mas imaginar a cara do seu chefe a vendo se atrasar novamente a fez voltar a ter equilíbrio e entrar no banho, precisava está na revista antes de Augustus, pediu um taxi pelo celular enquanto preparava seu copo com café, o mais forte e amargo que conseguiu fazer, tinha que se manter acordada, olhou-se no espelho e o rabo de cavalo não estava tão ruim, vestia um pretinho básico, com um jaqueta jeans sobre os ombros, a maquiagem era quase inexistente, o tom mais marcante em seu rosto era o batom vermelho em seus lábios, estava pronta para ir, mas tudo que queria era poder descansar em seu apartamento usando suas roupas largas e confortáveis, descalça escolhendo o filme que teria sua atenção por duas horas, pensou ao olhar para os seus próprios pés que calcava um scarpin vermelho chique, elegante e confortável foi o que a vendedora da loja afirmou, mas, Santiago, tinha a certeza de que ela só estava querendo completar a meta do dia.

—  Você vai chegar a tempo, Santiago, você consegue.  — Dizia para si mesmo, dentro do elevador que parecia descer lentamente.  —  Vamos, ande mais rápido elevador.

O taxi estava lhe esperando, tudo parecia ir bem, chegaria as sete da manhã, e não teria problemas com Augustus, seu chefe era muito pontual e sempre chegava as oito horas, nem um minuto a mais ou a menos, sempre as oito. Infelizmente o universo gostava de brincar com a vida de Santiago. Nova York estava um caos aquela manhã, um congestionamento estava colocando carros em uma longa fila indiana, um hidrante estava com defeitos, jorrava água para todos os lados e a viatura do corpo de bombeiros foi acionado, impossibilitando a passagem para o trabalho de Santiago, para completar o seu dia o taxi em que estava ficou preso no meio de uma fila formada por taxis que buzinavam sem parar como se competissem com os outros cidadãos nova-iorquinos também presos em seus carros.

Só pode ser brincadeira, né, Universo?  — gritou ao olhar pela janela tudo que estava acontecendo chamando a atenção dos motoristas.  — Meu chefe vai me matar.

A revista que trabalhava tinha pelo menos cinquenta e dois andares, dividida por setores, tentou ser silenciosa ao chegar no trigésimo andar da Fiorini, setor de trabalho dos editores da revista, pensou que ninguém a notaria se fosse rápida ao correr para a sua sala, com sorte seu chefe estaria na cobertura da revista aprovando ou recusando artigos e nem notaria o seu atraso, mas uma voz grave e estridente a fez virar-se lentamente e seu olhar foi de encontro com Augustus.

— Agatha Santiago!  — Esbravejou tão alto, que até o limpador de janelas que estava pendurado, se, pois, a prestar atenção naquele sujeito.  — Se está pensando em se atrasar amanhã novamente, não precisa voltar, sua imprestável.

Aquilo foi a gota d'água, ela sabia que nos últimos três meses não tinha sido a funcionária do mês, mas nada justificava ser tratada daquela forma, tudo começou quando decidiu se matricular novamente numa faculdade, dessa vez de moda, imaginava que logo, após, a faculdade de jornalismo conseguiria ser âncora de algum jornal em alguma emissora, porém, o caminho para o estrelato não estava indo como o planejado, e, ao, invés, de uma carreira gloriosa na Tv, tudo que conseguiu foi escrever sobre moda na revista Fiorini, ao menos o seu plano B de adolescente clichê havia dado certo, porém, no momento que foi em busca da sua segunda formação viu tudo se desmoronar a sua volta, se sentia injustiçada, ela dava o seu melhor para aquela revista e tudo que recebia eram ofensas, seu chefe não tinha o direito de tratá-la como um nada.

Ali, estava, Agatha Santiago, parada diante de todos, envergonhada por ter sido chamada a atenção de uma forma indiscreta e invasiva, lembrou-se do primeiro ano que iniciou na revista, e sentiu saudades da irmã do seu chefe, a senhora Fiorini sempre fora uma mulher elegante, sorridente e simpática com todos os funcionários da revista, ao contrário de Augustus Fiorini que assumiu a revista depois que sua irmã, Anastácia, decidiu ir para Hollywood administrar a agência de moda Fiorini, era inacreditável que o universo tenha conspirado cruelmente contra uma pessoa de bom coração feito Anastácia, como pode no mundo uma santa ser parente daquele ser asqueroso que estava parado com cara de poucos amigos bem na sua frente. Santiago, lamentou profundamente o fato da senhora Fiorini não ter a levado embora, se soubesse de sua partida teria se jogado aos pés da sua antiga patroa, entretanto, Anastácia, foi embora sem aviso prévio com a desculpa de não suportar despedidas. Respirou fundo;

— Não vai acontecer novamente, senhor Fiorini! — disse quase como um sussurro, só conseguia pensar — O que raios esse homem faz aqui? — Aconteceu um problema com um hidrante... Augustus a cortou rispidamente

— Poupe-me das suas explicações, Santiago. Eu, espero que pelo menos tenha terminado o artigo dessa semana, não vou aceitar corpo mole na minha revista. — Augustus, possui um ar de superioridade, todos tinham que andar de acordo com a sua música, e antes de entrar no elevador que o levaria finalmente para a sua sala, gritou. — Vou descontar cada minuto de atraso do seu miserável salário.

A passos rápidos e pesados se dirigiu a sua sala, tudo que queria era ficar longe dos olhares de pena de seus colegas.

— Maldito, hidrante! Que merda de dia. — Fechou a porta atras de si, suspirando aliviada por esta em seu espaço, era uma sala pequena com uma janela enorme de vidro que tomava quase toda a parede, uma decoração simples, uma estante pequena com alguns livros preferidos, na frente uma poltrona que, quase, nunca era usada, ao lado uma mesinha de apoio com algumas edições da Fiorini e um tapete retangular cinza, uma decoração simples, mas que deveria explicar bem quem era Agatha Santiago, e quem era essa? Essa era resposta que buscava todos os dias e ainda não havia encontrado, sua mesa tinha um formado de S, feito de puro mármore com a tampa de vidro, seu interior possuía várias prateleiras com alguns papéis e pastas, sobre ela um computador, um porta canetas, algumas fotos em momento de família e amigos, que ela não via tinha bastante tempo. Sentou-se em sua cadeira e curtiu por um momento a sua privacidade, antes de começar o seu trabalho.

Entre um trabalho e outro da faculdade conseguiu concluir o artigo da semana, por hora o seu emprego estava seguro, analisou com cuidado cada palavra, imagens e referencias, tudo estava como deveria.

Parabéns! Você conseguiu novamente. — disse consigo mesma. — Vamos iniciar o artigo da próxima semana.

Decidiu pedir o seu almoço e comer ali mesmo em sua sala. Continuou a trabalhar no artigo sem parar pelas horas seguintes, para ter um tempo extra para as aulas da faculdade durante a semana, o relógio digital em sua mesa marcava seis horas da tarde, fim do seu expediente, decidiu esperar quinze minutos antes de ir embora, passado esse tempo, ligou na portaria da revista;

— Oi, Sam! Sou eu, Santiago, novamente, você poderia... O senhor no outro lado do telefone responde sem deixar que, Santiago, termine de falar. — Oi, Angel, ele já foi. Sim, eu tenho certeza, o carro dele não está mais na empresa. — Respirou aliviada. — Muito obrigada, Sam, te devo um chocolate.

Vou cobrar, angel. — respondeu antes de desligar.

Sam, era um querido por todos na Fiorini, cinquenta e nove anos de idade e trinta anos na mesma função, muitos o consideravam como um pai, o pai que cuidava de todos ali, o próprio, Augustus lhe tinha grande estima e respeito, o que confirmava que Sam, era um amigo de confiança.

E mais uma vez o taxi lhe aguardava, dessa vez não teria problemas se um hidrante resolvesse dar defeito, mas, Agatha queria o conforto do seu apartamento e tinha esperança de que chegasse em casa no horário de sempre, tudo que desejava era um banho, descansar um pouco e estudar a matéria do dia, ou, talvez, decidisse procrastinar e só descansar mesmo. 

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