Capítulo 8


Em poucos minutos soldados conseguiram conter as brigas e organizar todas as filas. As mesmas eram separadas por sexo, idade, renda e tipo de trabalho que exercia.

A fila que Sharaene foi designada era para mulheres que trabalhavam em dois empregos, além dela, que era a última da fila, só existiam 3 mulheres à sua frente. Na maioria das famílias, mesmo com a baixa renda, mulheres não costumavam trabalhar, as que trabalhavam só possuíam um emprego.

As demais filas estavam enormes, com excessão das de mulheres que possuíam somente um emprego, que não passava de 30. Rodolpho estava na menor fila de homens, essa era classificada para homens que não possuíam emprego e com idade entre 20 e 30 anos. Nessa havia em torno de 100 indivíduos.

Quando a primeira mulher de sua fila foi chamada para uma cabine, Sharaene ficou nervosa, temia não saber as respostas das perguntas que seriam feitas.

Todas as mulheres demoraram em torno de 20 minutos lá, o que só deixou Sharaene mais nervosa quando seu nome foi chamado.

Ela caminhou até entrar na cabine, seus passos eram hesitantes. Dentro do pequeno local não existia nada além de uma cadeira e uma pequena tela digital onde uma mensagem escrita "sente-se" estava sendo emitida, uma voz eletrônica também repetia a mensagem.

Quando Sharaene sentou-se, uma luz vermelha emitida do aparelho escaneou seu corpo.

— Bom dia Sharaene, nos conte qual o motivo de tentar entrar nos jogos? — uma voz eletrônica perguntou.

— Minha mãe. — ela respondeu automaticamente.

— Você gosta da forma que Inferius é governado? — a voz perguntou novamente.

Sharaene ficou nervosa, não podia ser sincera, isso anularia suas chances, odiava mentir, mas naquele momento não se importava em contar quantas mentiras fossem necessárias.

— Sim. — respondeu tentando passar o máximo de convicção possível.

— Você se juntaria ao governo ou tentaria o derrubar se a vida de sua mãe dependesse disso?

Sharaene se sentiu surpresa com aquela pergunta. Era notável que passaria por cima de qualquer coisa por sua mãe, porém o governo não precisava saber disso, ninguém além de si precisa.

— Me aliaria ao governo, mas não tentaria o derrubar. — ela respondeu.

— Obrigada por suas respostas. Até mais Sharaene. — a voz falou.

— São só essas perguntas? — ela questionou surpresa. — As outras pessoas demoraram muito tempo.

— Elas não responderam como você. Até mais. — dizendo isso, o aparelho desligou.

Sharaene saiu de lá meio desnorteada, tentando entender o que aquela última frase queria dizer.

— Ei, moça! — um guarda a abordou. — Não fique aqui esperando. Os testes ainda demorarão para acabar, talvez durem até amanhã, então volte para casa. A segunda etapa só acontecerá amanhã ao meio-dia.

Sharaene nada disse, passou os olhos pelas filas masculinas tentando encontrar Rodolpho porém eram muitos homens. Sem ao menos querer procurar, partiu. Se sentia confusa, não conseguia acreditar no final feliz que aqueles jogos prometiam, mas precisava e essa era a parte mais difícil.

O dia passou rapidamente, Sharaene não encontrou Rodolpho durante o restante do dia anterior após a prova. Já estava na hora de descobrir quem passou para a segunda etapa.

O calor era intenso; o céu estava cinza como todos os dias após o declínio; a poluição que ajudou a destruir o planeta continuava presente no céu mesmo após cientistas lutarem para reverter tal acontecimento. O sol não podia ser visto totalmente, porém os raios solares ultrapassavam a enorme camada de poluição e faziam grande estrago.

Sharaene caminhou rapidamente até a arena de prova. A cidade estava vazia, todos haviam ido bem cedo para lá.

Quando Sharaene entrou na arena, todo o local estava lotado. A conversa era paralela, a animação e nervosismo era nítido na expressão de todos ali.

— Iremos citar os nomes dos que foram classificados para segunda etapa. Caso seu nome não seja dito, se retire do local em seguida, caso demonstre resistência tomaremos medidas drásticas. — um soldado que estava em cima de um pequeno palco falava em um microfone.

Os classificados começaram a ser citados. À cada nome falado, gritos de comemorações eram entoados.

— Classificado número 56: Rodolpho Latier. — o homem anunciou.

Sharaene olhou para todos os lados tentando o encontar mas não teve resultados. Enquanto outros nomes continuaram a ser anunciados, ela ficava cada vez mais nervosa, temia não ter passado.

As esperanças dela já haviam chegado ao fim quando chegou o número 499 e o seu não foi falado. Se sentia péssima. Quando estava virando as costas para ir embora, uma fala chamou sua atenção.

— O classificado número 500 e último é Sharaene Silva. — o soldado anunciou.

Sharaene não conseguia acreditar pois nem esperava ser a última a ser chamada. Estava confusa e meio incrédula. Em um ato inesperado seu corpo foi apertado em um abraço.

— Eu sabia que você iria passar! Parabéns, soldada! — Rodolpho sussurrou em seu ouvido.

— Eu pensei que ia ser eliminada. — contou em um sussurro.

— Mas não foi e nem será. Você irá ganhar! — ele exclamou, a apertando mais contra si. Ele parecia tão esperançoso quanto os demais que haviam sido classificados e isso a incomodava.

O momento foi interrompido por sons de choro e gritos. Várias pessoas choravam indo em direção a saída. Alguns somente carregavam um semblante triste, todos queriam ter sido aprovados.

Um grupo de homens gritava xingamentos. Estavam transtornados por não terem sido classificados.

— Isso é tudo roubado! — um homem alto e forte gritou.

— Esse governo é um lixo! — agora um rechonchudo e baixinho gritava.

Eles continuaram a gritar várias coisas porém a atenção de Sharaene e Rodolpho estava voltada para outra coisa.

— Algo ruim vai acontecer. — Sharaene sussurrou.

Soldados caminhavam em direção ao grupo, suas expressões eram severas, suas armas estavam apontadas para o chão, mas isso não os tornava menos intimidantes.

— Se retirem senhores, vocês estão causando tumulto indesejado. — um soldado falou, ele usava uma farda negra ao invés da verde que todos os demais vestiam, provavelmente possuía um cargo alto.

— Nós não iremos nos retirar, nós entramos nesse jogo e respondemos tudo certo, vocês são um bando de mentirosos e ladrões! — o homem alto e forte gritou, a raiva era nítida em sua voz.

Todos os demais homens concordaram, a gritaria e a confusão recomeçou. O soldado da farda negra, levantou sua mão e a fechou, o gesto parecia um sinal para algo.

Rodolpho no mesmo instante puxou Sharaene e encostou o rosto dela contra seu peito a apertando forte para não se mover. Ele sabia o que aquilo significava: era um comando.

Vários tiros, todos certeiros atingiram as cabeças dos homens. Gritos de horror foram emitidos por várias pessoas, mas ninguém ousaria dizer ou fazer algo. Todos acreditavam fielmente que tudo que o governo fazia era justo, cresceram com tal ilusão.

— Eles não mereciam isso. — Sharaene sussurrou, ela chorava agarrada a Rodolpho, não conseguia se mover ou olhar.

— Eu sei que não. Um dia essa situação era mudar, eu lhe prometo. — ele falou com convicção.

Sharaene só conseguia sentir mais nojo do governo. Pretendia ganhar aquele festival, mas depois disso sua meta seria ir contra o mesmo.

Quando os corpos começaram a serem retirados, alguns olhares de pena e tristeza foram designados a eles. Porém em maioria muitos somente pensavam "que bom que não fui eu". O povo naquele momento só se importava com a competição, nenhuma vida tinha valor além da própria.

Alguns minutos depois o silêncio se instalou no local, era chegado o momento da segunda etapa das provas.

— Pode olhar agora. — Rodolpho sussurrou.

Mesmo os corpos não estando lá, os sons dos disparos se repetiam incessantemente em sua mente.

— A segunda etapa será resistência. Vocês serão levados para uma área deserta longe de tudo. A prova terminará quando só sobrar trezentas pessoas de pé, caso escolham desistir ou passarem mal durante a prova, serão eliminados automaticamente. Porém não poderão sair do local até o término da prova, então caso queiram desistir o momento é agora. — o soldado da farda negra anunciou.

O calor na área de habitação já era grande, porém na área deserta era com maior intensidade. Tempestades de areia aconteciam frequentemente, seria uma prova difícil.

Ninguém se candidatou a desistir. Era uma loucura aceitar aquilo, porém a meta de vida de todos estava em jogo, nada valia mais que aquilo; nem suas próprias vidas.

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