Capítulo 36

— Winton! Pare! — Arion gritou, porém o garoto parecia não o escutar.

Entrou em desespero, não podia o deixar morrer, essa seria mais uma morte para castigar sua consciência. Sabia que ainda não podia correr, porém isso não importava para ele naquele momento.

Enquanto corria pelos corredores sentia seu ferimento arder, até a queimadura em suas costas resolveu incomodar naquele momento, ele sabia que não podia deixar a dor o parar; nunca poderia.

Enquanto se preocupou somente em salvar Sharaene muitas pessoas morreram, se culpava por não ter feito nada, por não ter nem tentado, sua consciência o dizia que poderia ter sido mais forte, poderia ter salvo, mas foi tolo e não fez nada.

Quando chegou no campo seu coração quase parou, o menino já estava perto dos hologramas.

Winton se sentia controlado, como se não pudesse coordenar suas próprias ações, parecia que algo muito maior que ele estava decidindo seus passos. Uma voz gritava em sua mente: "mais um passo, você está perto de se libertar", aquilo era algo enlouquecedor. Um lado seu ainda se sentia extremamente feliz, aliás sua família estava ali, a família que há muitos anos sonhava em ter, porém a sua razão gritava que aquilo era impossível, estava travando uma guerra contra si mesmo.

— Venha logo meu filho, a mamãe quer lhe abraçar. — Luani falou sorrindo.

— Pare de andar, garoto! — ele escutou alguém gritar, mas não conseguia assimilar aquilo. Não entendia o porquê de ter que parar.

Arion se forçou a correr até Winton, ele ainda estava longe de si e perto de cair no buraco.

Gritar não adiantava, sua única opção foi pular em cima do menino fazendo os dois se chocarem com impacto contra o chão, estavam tão perto das pessoas que era possível ver a transparência do holograma.

— Me largue! —Winton gritou enquanto se debatia tentando se  levantar. — Preciso ir até eles, eu não quero mais ficar sozinho. Me largue, por favor!

O coração de Arion se apertou ao escutar aquilo, havia sido cego ao não enxergar o quanto ele era alguém triste.

— Eles não existem de verdade, são só hologramas. Se você chegar perto irá cair em um buraco e morrer.— respondeu sendo realista, não sabia outra forma de tentar o convencer.

— Isso é mentira! Você quer que eu sofra sozinho, você é um idiota! Com certeza nunca soube o que é passar fome, sede ou frio. Você nunca passou 7 anos de sua vida sozinho, largado, sem ninguém para cuidar de você, sem nenhuma família, sem ninguém! Na verdade você é alguém que só se importa com Sharaene e com si mesmo. Você é um egoista! - Winton gritou chorando.

Arion não sabia o que responder, estava perplexo com tudo que havia escutado, escutar a forma que o menino o enxergava o deixou perplexo.

— Não estou certo? Me diga, quem é você de verdade? — Winton perguntou agora sem se debater, sentindo raiva do mais velho.

Arion não respondeu novamente, somente saiu de cima do garoto se posicionando sentado. Olhou para trás e o holograma permanecia ali, somente estava sem se mexer.

Ele se sentia péssimo. Winton havia falado a verdade, nunca passou por muitas das coisas que ele teve que enfrentar, aquelas palavras haviam o acertado como facas cravadas em seu coração.

— Eu não sei quem eu sou. —sussurrou.

Winton encarou o rosto do rapaz que carregava uma expressão de angústia, com olheiras profundas estavam ao redor de seus olhos, estava sujo, parecia cansado e a ponto de desistir, nunca havia percebido aquilo nele. Desde o começo Winton o observava, ele sempre aparentava alguém externamente forte e inabalável, mas naquele momento não viu nada disso.

— Uma vez minha mãe me disse que a vida consegue derrubar até as pessoas mais fortes. — o garoto falou de forma baixa. Já se arrependia de tudo que havia acabado de dizer. — Consigo ver que ela está lhe derrubando e eu realmente lamento por isso.

Arion não conseguia entender muito bem o sentido daquelas palavras, sabia que o menino estava em uma situação pior e por isso não compreendia como ele podia lamentar pelo estado dele, talvez ele realmente fosse uma pessoa muito boa.

— Como foi viver sozinho por tantos anos?

O mais novo o encarou e logo depois encarou o holograma parado. Havia sido enganado de fato, a solidão havia o cegado.

— No início eu só sabia chorar, mas aos poucos me acostumei com a ideia de estar sozinho. Em alguns momentos me sentia bem com isso, mas tinha dias que eu não tinha vontade de acordar vivo; de acordar e se encontrar sozinho novamente. Às vezes eu observava famílias, que mesmo vivendo em situações difíceis eram felizes, que davam todo amor possível aos seus filhos e eu me perguntava "por que não posso ter isso?". A solidão se tornou parte de mim, uma dor que nunca some, algo que persiste em doer para me lembrar que estou só.

Arion poderia dizer que entendia, porém seria mentira. Passou muitos anos de sua vida se sentindo sozinho mas sempre teve de tudo, uma boa mãe, comida, amor e carinho, talvez somente não soubesse dar valor. Não queria dizer que lamentava ou qualquer coisa do tipo, pois isso não mudaria nada.

— Você não está mais sozinho, posso não ser um exemplo de pessoa, mas estarei ao seu lado.

— Isso até quando, Arion? Até todos nós morrermos? — Winton perguntou com desânimo.

— Talvez. —foi tudo o que o mais velho respondeu, aliás não sabia o que o futuro o aguardava.

Winton se calou e voltou a encarar o holograma. Arion o observava com atenção, seu olhar era tão triste e cansado, ninguém deveria passar pelo o que ele passou. Naquele momento ele tomou uma decisão: enquanto vivesse faria de tudo para o proteger também; esperava somente que ele não fosse tão orgulhoso quanto Sharaene.

—Por que todos estão desacordados? —  Arion perguntou.

Winton explicou tudo que aconteceu nas últimas horas, e Arion se sentiu péssimo ao saber que Sharaene havia feito a prova duas vezes para ele não morrer. Tudo estava muito estranho; as pessoas não ficariam naquele estado sem motivo.

Após mais de uma hora sentados em silêncio a atenção de ambos se focou em um som estranho, eram gemidos de dor, as pessoas estavam acordando.

Sharaene despertou com uma enorme dor de cabeça, sentindo um gosto estranho em sua boca. Não entendia nada do que estava acontecendo. Ainda meio desnorteada se arrastou até o banheiro e lavou a boca percebendo que o gosto ruim vinha de sangue. "Por que teria sangue em minha boca?", se perguntava. A última coisa que lembrava era da prova na piscina e precisava de respostas. Ignorando a dor se forçou a ir em direção ao campo.

Os competidores que ainda restavam acordaram reclamando de dor e perguntando uns aos outros o que havia acontecido. Ninguém entendia nada.

— Você poderia me ajudar a levantar?— Arion perguntou constrangido, odiava depender das pessoas.

— Claro, princesa. — o menino brincou.

A perna do mais velho doía. Já havia feito esforço demais, porém ficar parado não era uma opção.

Winton cogitou em perguntar algo para as pessoas que haviam acabado de despertar, mas logo percebeu que não chegaria a lugar nenhum, eles pareciam mais perdidos que ele.

Logo que chegou ao campo Sharaene percebeu uma confusão, todos falavam sem parar e pareciam tão desnorteados quanto ela. Não tardou para seu olhar encontar Arion e Winton. Não entendia o que o mais velho fazia ali fora, sabia que ele deveria estar descansando.

— O que estão fazendo? —perguntou quando parou atrás deles fazendo ambos se assustarem.

— Sharaene! — Winton exclamou e a abraçou. — Estava com medo de você não acordar. —confessou em um sussurro.

—Eu não consigo lembrar o que aconteceu, mas nunca deixaria você sozinho. — falou o apertando mais contra si, se sentia mal por ter causado preocupação ao menino.

Seu olhar se cruzou com o de Arion que a observava com ternura. Ele estava diferente, parecia alguém tão comum naquele momento. Quando Winton se afastou percebeu que Arion se mexeu para ir em sua direção, porém parou com uma expressão de dor.

— Você não deveria estar aqui. — ela o repreendeu enquanto olhava para a perna dele. O ferimento parecia estar com uma aparência pior.

— Eu tive meu motivos para sair do quarto.— Arion rebateu.

— E quais seriam esses?

Antes de responder Arion olhou rapidamente para Winton. Não seria correto contar o que havia acontecido. O holograma já havia sumido, aquilo seria um acontecimento que morreria entre os dois.

— Estava com fome, vim tentar achar algo para comer.

Sharaene não acreditou naquilo, aliás era uma desculpa extremamente esfarrapada, mas por fim resolveu terminar aquele assunto.

— O que havia acontecido aqui?— perguntou ao mais novo.

Logo Winton contou tudo que aconteceu após a prova da piscina. Sharaene ficou envergonhada por ter mordido Zafrain e preocupada com seu sumiço.

—Com certeza algo aconteceu a ele. — Arion falou pensativo, estava tão exausto que mal conseguia criar teorias naquele momento.

— Agora falta descobrimos o quê. — Sharaene disse.

— Você consegue se lembrar sobre sua mãe? As coisas? — Winton perguntou a ela.

Naquele momento o coração da menina se apertou: se lembrava perfeitamente de tudo, principalmente de como havia sido tola de entrar naquela competição e deixar sua mãe doente sozinha.

— Sim. — sussurrou.

Arion percebeu a mudança drástica da menina.

— Ela está bem. — falou enquanto tocava a mão dela tentando passar confiança.

Winton percebeu algo naquele toque; no olhar que Arion direcionava a Sharaene, percebeu o que tanto lhe passava despercebido.

Zafrain acordou em um quarto. Sua cabeça doía e tentou se lembrar do que aconteceu depois de ter começado a procurar por uma saída, porém não lembrava de nada. Aos poucos alguns flashes de palavras que escutou em algum momento passaram por sua mente. Quando conseguiu assimilar tudo se desesperou. Precisava contar o que escutou.

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