Capítulo 35

A solidão é o sentimento mais perigoso.

Winton ficou horas andando de um lado para o outro. Quando não sabia mais o que fazer sentou-se e encarou o céu escuro. Costumava reclamar tanto do calor intenso, porém agora desejava mais que tudo que o sol voltasse ao céu.

Se sentia sozinho. Aquela habitual sensação de solidão que lhe acompanhou por anos; não podia negar que havia se acostumado a ficar só, que até gostava, porém o sentimento de solidão doía, era uma dor que nunca o abandonava. Pensar que morreria ali, sozinho, o causava ainda mais medo, não queria um fim assim.

Observou cada uma das pessoas que estavam desacordadas, com certeza a maioria tinha família, filhos, uma mulher os esperando voltar e ele o que tinha? Nada. Essa era a verdade: não tinha casa, nenhum familiar, ninguém o esperando, nem tinha pelo que lutar. Sharaene havia falado que seria sua família, mas não conseguia acreditar, sentia que se saíssem dali vivos ela também o deixaria só, esse era o seu destino, algo que sentia que não poderia mudar.

Se lembrava de quando pequeno ter conhecido seus avós por parte de mãe, eles eram pessoas tão bondosas, moravam em uma parte de Inferius bem longe da que vivia. Uma vez havia ido os visitar com sua mãe, porém depois disso Dálio a proibiu de voltar a vê-los; naquele dia brigaram muito.

"Será que ainda estavam vivos?", se perguntava há anos, andou por muitos lugares os procurando, porém não os encontrou, quando desistiu das buscas foi quando teve certeza que estava sozinho no mundo. Naquele dia chorou a noite toda, era somente uma criança e já estava perdendo a vontade de existir.

Não achava que era mais sofredor que muitos ali, longe disso, sabia que muitos poderiam ter uma vida pior; e era nisso que se forçava a acreditar sempre que a fome e a sede lhe castigavam. Se lembrava do que quase fez quando sentiu sede extrema pela primeira vez e aquilo não era algo do qual se orgulhava.

O dia estava amanhecendo, o caminhão que trazia água havia acabado de parar. Alguns homens descarregavam os recipientes com o líquido que tanto desejava, dois soldados fiscalizavam tudo. Sua garganta ardia, achava errado roubar e sabia que provavelmente seria pego, porém morrer de sede também não era uma opção.

Após o caminhão partir esperou. Os soldados, um alto e negro e outro com o rosto coberto por uma máscara branca, se encontravam conversando entre si sobre algo, aquilo era a distração perfeita. Com passos rápidos e mais silenciosos que conseguia correu até o menor recipiente, desse tipo era distribuído para pessoas que morassem só, quando conseguiu pegar alguém tocou em seu ombro.

— Estava pensando que conseguiria nos roubar, garoto? — o homem com a estranha máscara perguntou.

Largou a garrafa no mesmo instante e não ousou se mexer, na verdade nem conseguia, estava paralisado pelo medo.

— Nós notamos sua presença logo que chegamos aqui, estávamos querendo ver até que ponto você ousaria ir. — o mais alto comentou.

Sua cabeça agora estava uma confusão, jurava que não tinha sido notado, poderia tentar chutar o homem e sair correndo, porém sabia que não iria muito longe. Juntando toda sua coragem virou para encarar os soldados.

— Faz dois dias que não bebo água senhor, por favor me desculpe. — sussurrou com a voz falha, a sua garganta já até arranhava ao falar.

Os dois soldados se encararam e pareciam travar uma discussão silenciosa.

— Leve-o. — o mais alto falou com seriedade.

Logo o mascarado o pegou pelo braço e começou a arrastar o menino pelo caminho.

— O que vai fazer comigo? — Winton perguntou desesperado, sabia que a sentença para roubo era a morte, mas nem havia chegado a roubar. — Por favor, me largue!

Estava suando frio quando o homem o soltou.

— Pegue. — ele disse enquanto o estendia um objeto redondo.

— O que é isso? — indagou confuso.

— Aí dentro tem água. É só abrir e beber.

Winton desconfiou da atitude daquele homem. Aprendeu muito cedo que confiar em alguém poderia custar sua vida, mas naquele momento a sede falou mais alto. Com rapidez abriu a tampa do objeto e bebeu todo o líquido, realmente era água.

— Por que fez isso? — perguntou confuso.

— Seus olhos são tão parecidos com o do meu filho. — o homem sussurrou perdido em lembranças.

— Seu filho?

— Isso não importa, ajudei você como faria com qualquer um. — a voz do homem estava séria e indiferente novamente. — Mais tarde quando a distribuição começar apareça na fila, daremos um jeito de lhe ajudar.

— Obrigada. — foi tudo que conseguiu dizer.

O homem somente fez um gesto com a cabeça e começou a caminhar de volta ao local que estavam antes.

Winton o observou intrigado, ninguém era bom assim sem motivo, mas mesmo com a desconfiança voltaria lá mais tarde.

Apesar daquele centro de distribuição não ser o mesmo que seu pai frequentava resolveu não se arriscar. Quando existia somente três pessoas para finalizar as entregas entrou no final da fila, esperava que aquilo não acabasse mal.

Quando chegou sua vez cogitou a ideia de correr, porém sabia que logo voltaria a ter sede e com certeza não seria poupado novamente.

O homem alto o encarou, ele possuía um aparelho eletrônico em sua mão.

— Para o que isso serve?— perguntou sem conseguir conter a curiosidade.

— Coletar dados da população, de quem veio receber ou não e outras coisas.

Winton achou aquilo fascinante, nunca havia visto algo do tipo.

— Você tem família?— o homem perguntou.

Aquela pergunta foi como um soco no estômago do menino, somente sua expressão já demonstrou sua resposta.

— Me diga seu nome todo.— o mais velho pediu.

— Winton Lavin Dantas.

O soldado o encarou, conhecia alguém com o mesmo sobrenome, mas não conseguia lembrar quem.

— Você irá cadastrar ele? — o mascarado perguntou enquanto se aproximava.

— Sim, vou adicionar ele como filho do senhor Gaston, ele faleceu pela noite, porém não irei informar isso e como ninguém sabia sobre sua família será fácil.

— Isso é muito arriscado.

Winton estava perdido naquela conversa, já nem sabia se era boa ideia ou não estar ali. O soldado mais baixo chamava sua atenção, não entendia o motivo dele usar uma máscara.

— Fique tranquilo, tudo ficará bem.— o mais alto afirmou e logo direcionou seu olhar para o menino.— Preste atenção, agora você se passará pelo filho do senhor Gaston que morava com os avós em outra parte de Inferius, de início você terá que ficar na casa dele fingindo realmente ser quem eu estou alegando, logo depois poderá fazer o que quiser. Após eu terminar esse cadastro você sempre poderá receber água.

— Por que está me ajudando?— perguntou novamente, era tão incomum alguém ser bom com ele, nunca esperaria isso de soldados.

O homem não respondeu somente sorriu para o garoto.

— Sua mãe era um boa pessoa. — ele falou após alguns minutos, havia lembrado de onde conhecia seu sobrenome.

— Você conheceu minha minha mãe? — o menino perguntou surpreso.

— Sim, há muitos anos atrás. — o homem sussurrou, parecia estar triste ao dizer aquilo.

Winton não falou mais nada, não sabia o que dizer, sentia tanta saudades de sua mãe que era difícil conversar sobre ela.

— Pronto! — o soldado exclamou após alguns minutos. — Deu trabalho mas consegui, agora você pode pegar aquele último recipiente ali.

Winton pegou a estranha garrafa de coloração negra, aquele recipiente era o maior tipo de tecnologia que possuíam. A água sempre permanecia gelada, não importando quanto calor estivesse fazendo, o menino achava aquilo incrível.

— Obrigada. — agradeceu aos soldados. — É muita bondade da parte de vocês.

— Qualquer coisa conte conosco. — o mascarado falou.

— Qual o nome de vocês? — indagou curioso.

— Esteban.— o mais alto respondeu.— E esse meu amigo rabugento é o Malic.

Depois daquele dia Winton passou a viver por alguns anos na casa do senhor Gaston, mas de alguma forma não se sentia bem ali. Os soldados sempre iam o visitar e levavam comida para o ajudar, eles foram boas pessoas em sua vida. Tudo mudou quando esbarrou com seu pai na rua, naquele momento percebeu que era hora de viver longe dali e conseguir um trabalho e foi isso o que fez.

Winton foi acordado de suas lembranças ao escutar vozes. Se levantou rapidamente, mas o que seus olhos viram quase o fez voltar ao chão novamente. Seu corpo tremia, aquilo era impossível.

— Querido! — ela gritou sorrindo. — Como eu senti sua falta.

— Como você cresceu, já está um homem feito. — a senhora falou com sua voz doce.

— Ele parece comigo. — o senhor alegou dando uma gargalhada.

Eles estavam ali: sua mãe e seus avós, todos iguais como da última vez que os viu. Seu coração batia rápido, não conseguia entender e se perguntava se aquilo era uma prova ou um sonho. Tudo parecia tão real que o assustava.

— Não precisa mais sofrer, meu bem, você não está sozinho, nós estamos aqui e lhe amamos. — Luani falou enquanto abria os braços.

— Você é nosso neto, nunca iremos lhe abandonar. — Túlio, seu avô, disse.

— A vovó vai lhe mimar e te dar todo amor do mundo. — Esra falou.

Winton estava cada vez mais nervoso, eles estavam a uns 10 metros de si, seria tão fácil correr até eles e os abraçar.

— Iremos curar toda a dor de seu coração, meu amor. — sua mãe falou.

Como queria a abraçar... Fazia tantos anos e sentia tanto sua falta mas sabia que era tolice, já havia enfrentado o robô que parecia com ela, sabia que aquela ali também não era Luani.

— O jogo irá acabar quando você chegar aqui. Você está sozinho, porém se nos escolher nunca mais estará, você viverá feliz e em paz eternamente. — Túlio falou.

Era uma proposta tão tentadora. Realmente estava sozinho, talvez estivesse ficando louco. Sem conseguir raciocinar e controlar perfeitamente suas ações deu um passo para frente. Suas emoções falavam mais alto que sua razão.

Arion havia acordado. Tentou acordar Sharaene mas a tentativa foi inútil. Se sentia ainda cansado, mas algo dentro de si dizia que precisava se levantar. Com cuidado para não piorar sua perna caminhou até a janela, o que observou o intrigou imensamente. Viu muitas pessoas caídas, pareciam mortas, mas o mais preocupante foi ver Winton caminhando até três pessoas.

De início pensou que era alguém comum que não havia percebido na competição, porém quando olhou atentamente para o que existia atrás deles entendeu tudo. Um enorme buraco estava aberto, eles eram um holograma, uma armadilha para matar Winton.

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