Capítulo 14
Você não pode se intimidar quando tiver a chance de salvar vidas.
Sangue estava respigado por todo seu corpo. Sua camiseta amarelada estava manchada de um vermelho que ela daria tudo para que fosse apenas tinta. Seus olhos se mantinham arregalados de uma forma que quase saiam das órbitas, enquanto encarava a cabeça decapitada de Rodolpho. Então a primeira lágrima desceu, logo eram tantas de um modo que lavava o sangue que tinha em sua face. Os soluços altos começaram a vir de forma quase silenciosa, até serem substituídos por gritos. Gritos de negação; gritos de dor; gritos de quem desejaria tudo para trazer alguém de volta a vida!
Dor, descrença, desespero, mágoa e outros muitos sentimentos negativos era tudo o que ela conseguia sentir naquele momento.
Se negava a aceitar o que tinha acabado de acontecer, aliás, como a pessoa que lhe jurou amor há poucas horas e havia a pedido em casamento poderia tentar lhe matar?
Enquanto uma nova confusão se instaurava a alguns metros, ela se encolhia mais, tentava se esconder dentro de si mesma. Algumas pessoas até a encararam por alguns instantes, ouviram seus gritos e observaram a cena, porém tudo que importava naquele momento eram suas próprias vidas.
Chorava como nunca havia chorado antes; o homem que amava estava morto e com ele uma grande parte dela havia morrido também. Ela viu, não podia negar que ele ia a matar, mas aquilo não parecia fazer sentido, talvez nunca irá fazer. Estava em estado de negação.
Nem a prova, o prêmio, nada, parecia fazer sentido naquele momento. Queria nunca ter se inscrito, nunca ter colocado os pés ali.
— Chorar não vai mudar o que acabou de acontecer e muito menos apagar sua dor. — uma voz grossa falou.
Demorou alguns segundos até ela conseguir assimilar o que tinha acabado de ouvir e levantar o rosto para encarar a pessoa.
Um homem com uma beleza tão grandiosa, ou até maior, que a de Rodolpho estava ali parado com uma espada em punho coberta de sangue. Talvez, qualquer outra mulher ignoraria a espada e ficaria admirando a beleza estonteante dele. Porém, ela não.
Algumas pessoas dizem que o ódio dá força em situações difíceis e isso não é uma mentira.
Sem poder controlar seus movimentos ela se levantou. O homem somente a encarava com indiferença. Ela mantinha um olhar assassino para ele, a dor, tristeza, nada importava agora.
— Você é um desgraçado! — ela gritou e desferiu o primeiro soco contra o peito dele. — Você é um monstro! Você o matou sem motivo algum!
Ela tentava o golpear em todas as partes possíveis, queria o matar da mesma forma que fez com Rodolpho, porém nunca teria coragem para tal coisa.
— Por que você fez isso? Por que matou ele?! — ela perguntou já com a voz vacilante, ela sabia a resposta só não conseguia a aceitar. — Eu preferia ter morrido no lugar dele! Você não tem alma? Como vai conviver com o peso da morte de alguém? Espero que você se culpe até o último dia de sua vida!
Quando ela tentou lhe dar um tapa na face, ele segurou seu pulso. Sua expressão era indecifrável, ele tinha recebido vários golpes e não fez nada, parecia não sentir.
— E se você estivesse morta, o que seria de quem você deixasse para trás?
Aquilo a atingiu, sua mãe, o que seria de sua mãe sem ela? Aquilo a fez recuar.
— Me diga, essa pessoa que você pensou agora sobreviveria sem você? Você ficaria feliz de fazer ela sofrer? Você é tão cega e egoísta a esse ponto? — ele perguntou com a voz alterada.
Não! Sua mãe não sobreviveria sem ela, sua mãe morreria mais rápido de tristeza. Ela abaixou a cabeça, talvez em outro momento gritaria com ele, porém ele estava certo.
— Você somente morreria e ninguém lembraria da única pessoa que teve coragem de tentar matar o Adolf, da pessoa mais corajosa ou suicida que alguém poderia conhecer. — ele falou e dessa vez seu olhar parecia transmitir admiração.
Ele logo virou as costas caminhando para longe.
Sharaene estava confusa, não conseguia assimilar o que havia acabado de acontecer. Observou o homem caminhar com sua espada banhada em sangue em direção ao nada. Encarou o corpo decapitado de Rodolpho e suspirou.
— Você realmente iria me matar? — ela perguntou em um sussurro, aquela dúvida ressoava em sua mente,mas não importa o quanto pensasse ou perguntasse nunca iria ter uma resposta.
A noite parecia estar mais sombria do que de costume, o clima estava frio, mas não tanto como costumava ser em Inferius.
As vozes alteradas dos demais competidores parecia a cada segundo mais altas, sua cabeça latejava com tanta barulho. Disposta a guardar sua dor para mais tarde, caminhou até a multidão que se encontrava agitada. Seu olhar encontrou Desirée, havia esquecido totalmente dela depois daquele dia, nem sabia que ela havia passado.
— O que está acontecendo? — ela perguntou ao se aproximar da menina, sua voz saia falha se segurava para não desabar em choro, se sentia perdida.
Desirée se assustou com a aproximação de Sharaene e seu estado, queria perguntar o que aconteceu, mas sabia que a resposta não seria boa.
— Estão falando que irão avisar as provas lá na frente.
Sharaene não disse nada, tentou passar pelas pessoas até chegar no que chamava tanto atenção de todos. Nem se importava se ia as sujar, porém antes de conseguir chegar perto uma voz foi emitida no local.
— A próxima prova irá testar suas forças e habilidades, uma mesa de armas estará disponível para vocês no refeitório, vocês tem exatamente dez minutos. Boa sorte! — e assim a voz robótica encerrou seu anúncio.
Logo todos começaram uma corrida para dentro do refeitório, pessoas passavam por cima das outras em tal agitada que nem se importavam pelas pessoas que pisoteavam.
Sharaene se afastou, deixaria eles escolherem suas armas primeiros, porém isso não queria dizer que ela não tentaria jogar mais que todos. Sua mente estava confusa, tentava substituir a dor que sentia com os acontecimentos ali, porém era quase impossível. Sua cabeça latejava enquanto tentava segurar as lágrimas, tentava desesperadamente não pensar no que aconteceu.
Algo lhe intrigava, não entendia o motivo para darem armas a eles. Porém, enquanto se encontrava do lado de fora observando a discussão dentro do refeitório algo na direção contrária chamou sua atenção.
— Querida, você não pode contar a ninguém que tenho esses livros.
— Tá bom, papai. — Sharaene respondeu com seu sorriso que faltava alguns dentes.
Yarique lhe mostrava um livro sobre animais que existiam antes do declínio, esse e alguns outros livros foram passados de geração em geração por sua família.
Sharaene estava toda animada, achava fantástico todos aqueles animais.
— Pai, como é o nome desse animal com cara malvada? — ela perguntou, intrigada com uma imagem.
— Isso é um leão querida, um animal carnívoro. — ele respondeu.
— Ele podia comer pessoas, papai? — a pequena perguntou assustada.
— Sim.
Eram leões, eles iriam ser caçados.
Seis leões estavam agora no início do campo comendo alguma carne, quando acabassem eles seriam a próxima refeição. Dez minutos era tudo fachada, perder tempo tentando escolher armas no fim só declararia a morte de todos.
— Se eu fosse você iria começar a correr. — disse uma voz atrás dela.
Quando ela olhou, o mesmo homem estava lá novamente, só que dessa vez lhe entregava um arco e uma aljava. Não era muito boa com arco, porém Rodolpho havia a ensinado a usar, no início somente roubavam usando armas brancas.
— Se eu correr eles vão atacar, e ainda tem as outras pessoas. — ela falou nervosa.
— Ou é a sua vida ou a deles. — ele respondeu com indiferença.
Um rosnado chamou atenção deles novamente, mas não somente deles, pessoas que já saíam do refeitório perceberam.
Uma mulher gritou.
Agora era o momento de correr. Os animais haviam percebido eles.
Logo todos, que estavam antes escolhendo suas armas, se encontravam do lado de fora, ninguém sabia como manusear tais objetos, só lhes sobrava correr.
Sharaene sentiu vontade de estrangular aquela mulher, mas não tinha tempo para isso.
As luzes que iluminavam o local começaram a piscar, o que dificultava tudo, se elas apagassem completamente todos estariam condenados.
Muitos tentaram entrar nos prédios, porém todas as portas estavam trancadas. O refeitório não tinha porta, então era uma opção inútil.
Os leões já haviam conseguido atacar algumas pessoas, correr não estava adiantando, muitos caíam por causa do tumulto se tornando presas fáceis.
No mesmo instante Desirée passou ao seu lado, ela puxou a garota para longe das pessoas. Por sorte estavam passando ao lado de uma árvore.
— Suba. — Sharaene pediu nervosa enquanto ajudava a menina a subir.
Um leão que tinha acabado de dilacerar um homem a percebeu e começou a correr em sua direção, o nervosismo a fazia não conseguir raciocinar.
— Sobe logo! — Desirée, que já estava sentada em um galho da árvore, gritou para ela.
Quando estava pronta para subir, percebeu o leão mudar subitamente sua direção, ele ia atacar uma mulher que estava caída.
Ela tinha a chance de sobreviver ou de tentar salvar aquela mulher.
— Você nasceu para salvar vidas querida, um dia você vai mudar nossa realidade assim como os super heróis da histórias que te conto. — seu pai lhe dizia toda a noite a mesma frase.
Sem pensar duas vezes correu pegando uma flecha e a colocando no arco. Atirar em movimento sempre foi um desafio.
A mulher parecia sua mãe e isso quebrava mais seu coração, ela já havia visto pessoas demais morrerem, naquele momento decidiu: nunca mais deixaria ninguém morrer.Era uma pena que isso só fosse um pensamento.
A senhora estava caída com uma expressão de pavor, havia torcido o pé e o medo a impedia de tentar levantar, tudo parecia estar em câmera lenta.
Gritos, correria, desespero era tudo o que tinha naquele campo no momento.
Quando o leão já estava perto da mulher, ela atirou, porém a flecha pegou na perna do animal que se virou para ela rosnando. Agora ela era a presa e no fundo se sentia aliviada por isso.
O leão não estava muito longe, só teria uma chance, precisava esperar o momento certo, porém esse momento também poderia custar sua vida.
A grande boca com dentes afiados se abriu pronta para a atacar e nesse instante ela atirou a flecha. De início o leão continuou a avançar e ela começou a correr para trás, porém logo ele caiu morto.
Sharaene correu em direção a mulher que chorava.
— Já está tudo bem. — falou tentando a acalmar. — Você consegue se levantar?
A moça somente negou, quando Sharaene se abaixou para tentar a ajudar, algo abocanhou sua perna e começou a arrastar para longe.
— Droga! — ela gritou, não tentou puxar a perna aquilo só pioraria a situação.
A dor na sua perna e em todo seu corpo que se arranhava podia ser intensa, mas não tinha comparação com a de sua alma.
Um som alto ecoou pelo local. O leão parou de arrastá-la. Alguém havia disparado um tiro.
— Está tentando morrer hoje, garota? — uma voz grossa perguntou.
O homem estava ali novamente, possuía uma arma em cada mão. Com uma expressão extremamente séria mirou nos demais leões que faltavam e os matou sem fazer esforço.
Antes mesmo de tentar levantar ou olhar o ferimento em sua perna, Sharaene olhou com ódio para o homem.
— Se você tinha armas de fogo, por que não matou os animais logo? Por que deixou mais pessoas morrerem?! — ela perguntou gritando.
— Eu só tinha uma espada até alguns minutos atrás caso você não se lembre.
— Então me diga como conseguiu essas? — ela indagou, todas as armas que foram dadas a eles eram armas brancas.
— Isso não importa no momento. — ele respondeu alterando a voz.
Logo todos que ainda se mantinham de pé chegaram perto dele e começaram a agradecer.
— Você é meu herói, docinho. — uma mulher que usava um vestido super curto falou enquanto passava as mãos nos braços dele.
— Quem usa um vestido assim em uma situação dessa? — Sharaene perguntou em um sussurro para si mesma, porém todos ouviram.
A mulher a encarou com um olhar de nojo. Ela tinha em torno de 18 anos, pelas suas roupas e jeito vinha da região de Inferius que possuía uma vida um pouco mais digna. Ela não era muito magra, sua pele era de um tom chocolate, tinha uma estatura alta, seu olhar era feroz, parecia alguém que faria de tudo para conquistar o que quer.
— Olha se não é a sem noção da prova de resistência, sei nem como você chegou aqui, querida. — a mulher falou enquanto a encarava com desprezo, sua voz era fina e irritante.
O homem nesse instante tirou a mão da mulher de seu corpo e a encarou com um olhar tão sombrio que fez ela recuar alguns passos.
Ele se abaixou e encarou a perna de Sharaene com um olhar interrogativo. Com uma rapidez absurda pegou a garota no colo.
— Não grite, nem diga nada, preciso te tirar de perto deles. — ele sussurrou no ouvido dela.
— Eu deixei uma menina em cima de uma árvore. — ela falou nervosa, não entendia a atitude dele. — Preciso buscar ela.
Ele suspirou fundo, aquele ato constante a irritava.
— Eu busco ela depois de cuidar de você. — ele respondeu.
As pessoas abriam espaço para eles passarem. Naquele momento todos respeitavam ele.
— Eu posso cuidar de mim mesma. — ela rebateu.
— Antes de querer salvar as vidas dos outros, salve a sua.
Ele era forte, a carregava como se ela não pesasse nada. Algo nele a incomodava, algo não fazia sentido, mas não conseguia pensar em nada naquele momento. Se condenava por estar se deixando ser carregada pelo homem que matou seu ex noivo.
Seu olhar varria o campo, em menos de 10 minutos várias pessoas haviam sido atacadas, se aquele homem não tivesse matado os leões, em pouco tempo ninguém estaria vivo. O cenário era macabro, corpos destroçados, sangue pelo chão, as luzes apagavam e acediam sem parar, as pessoas tinham olhares assustados, aquilo parecia um pesadelo.
Ela foi levada em direção ao refeitório, quando entraram lá perceberam que não estavam sozinhos. Deveria ter feito as contas. Um enorme leão estava lá devorando os corpos dos que haviam morrido envenenados.
Ele colocou ela em cima de um mesa tomando cuidado com sua perna e pegou sua arma. Um único tiro certeiro na cabeça do animal foi o bastante.
— Me diga, quem é você?
— Arion. — ele respondeu enquanto guardava a arma.
Um nome era tudo que ela sabia sobre ele, porém ela tinha outra certeza, ele não era uma pessoa qualquer.
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