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Cordélia fitou as águas escuras do lago e desejou que algo emergisse daquele grande espelho negro.

O tronco caído no qual a menina se sentava era um tanto desconfortável, mas ela ainda preferia a superfície irregular e porosa da madeira às cadeiras da sala de aula. O cheiro da grama lhe era mais agradável que o do giz branco espalhado no quadro negro e a textura da terra seca, sob seus pés descalços, era uma novidade bem-vinda, principalmente depois das horas enfurnada em sapatos apertados durante as aulas de dança. O calor do sol que banhava seu rosto era mais prazeroso que o ar frio e estático da sala de música, e o silvo dos pássaros, mais afinado que a voz de sua professora de canto.

Cordélia havia há pouco aprendido o significado de ironia e por isso deixou que uma risada escapulisse de seus lábios rosados.

A menina perguntou-se quanto tempo levariam para encontrá-la. Os professores certamente olhariam por todo o casarão, mas quando chegasse a hora de procurá-la pelo restante da propriedade, mandariam os criados de seu pai fazê-lo.

Aquilo significava que talvez sequer a achassem. Todos os criados acreditavam na lenda que rodeava o lago e não se atreviam a chegar perto daquelas águas negras. Já os professores particulares de Cordélia fingiam que a existência de sereias no fundo do lago, escondido no centro do maior bosque da propriedade, não passava de uma superstição boba.

Mas no fundo eles sabiam.

Sabiam que as histórias de desaparecimentos e mortes que circulavam o local eram contadas há séculos, mesmo antes de seu pai herdar o terreno. Sabiam que as pessoas que juravam ter visto uma sereia emergir das águas serenas do lago nem sempre eram loucas ou bêbadas. Sua professora de história jurou vê-las logo antes de desaparecer e Cordélia podia atestar a sanidade da mulher, pois ninguém podia ser louco e enfadonho ao mesmo tempo. E o rapaz que cuidava dos estábulos de seu pai nunca colocara uma gota de álcool na boca por conta de sua religião e mesmo assim contara sobre a mulher nua que vira nadando no lago ao entardecer. Ele retornara ao local naquela noite e seu corpo foi encontrado ao amanhecer.

Esse era outro mistério que cercava o lago. As mulheres que o visitavam com frequência nunca mais eram vistas. Já os homens eram sempre encontrados da mesma forma que o rapaz dos estábulos havia sido: pálidos e inchados e sem vida.

Como o senhor daquelas terras, seu pai tinha o dever de diluir os rumores sobre o lago e colocar ordem em seus subordinados, o que não impedira o homem de proibir que Cordélia visitasse o local das lendas por razões que ele se recusava a explicar.

Entretanto, nas últimas semanas, o comprometimento do homem perante o trabalho definhara, logo após o desaparecimento de Mira.

Ela era a mais nova camareira do casarão, contratada após a demissão da última que possuía o mal hábito de surrupiar a prataria.

Mira tinha cabelos castanhos e pele alva. Corpo esbelto e sorriso fácil. O rosto de uma boneca de porcelana e olhos impossivelmente azuis, como safiras lapidadas.

A mulher ou era corajosa ou cética demais para manter-se longe do lago. Todos sabiam que ela o visitava sempre na hora de seu almoço, sentando-se no mesmo tronco que Cordélia agora se encontrava, para ler um livro tomado emprestado da biblioteca do casarão.

Seu sumiço gerou boatos entre os criados como acontecia todas as vezes. "Outra vítima das sereias", todos diziam. "Uma tola por desafiar o lago", todos contavam.

Já os professores de Cordélia tinham uma ideia diferente para o desaparecimento da mulher. Cochichos nos intervalos entre as aulas podiam ser ouvidos pelos corredores do casarão, comentando que a camareira havia ido embora por não suportar mais os cortejos e avanços do pai da menina.

Não explicavam, porém, porquê a mulher fugira deixando todos os seus pertences ainda em seu quarto.

Cordélia sabia o quão tolos aqueles boatos eram. Havia cortejos, sem dúvidas, mas o afeto entre os dois era recíproco. Ela sabia disso, pois seu pai sorria mais quando se encontrava no mesmo cômodo que Mira. Já a mulher mostrara à menina uma rosa que o homem lhe dera, guardada entre as páginas amareladas de seu romance favorito, a fim de permanecer bela para sempre.

Cordélia gostava de Mira e desejava que o romance entre ela e seu pai florescesse. Ela vivera seus onze anos de vida sem uma mãe e a ideia de conhecer o carinho de uma, mesmo que não houvesse laços de sangue entre elas, lhe apetecia.

Todas as outras mulheres que buscaram a atenção de seu pai não estavam à altura do interesse de Cordélia. Eram polidas demais, sisudas demais e tagarelavam sobre coisas tediosas como pintura e música e poesia.

Quem sabe teria sido por isso que a menina gostara de Mira. A mulher vinha de família simples e não estava presa aos modos aristocráticos. Quando sozinhas, faziam troça de seus professores e contavam piadas que seu pai acharia inadequadas para duas damas. Mira também deixava duas balinhas de menta, ao invés de uma, embaixo do travesseiro de Cordélia sempre que arrumava sua cama e lhe trazia doces às escondidas sempre que a menina ficava sem sobremesa por faltar às aulas.

E Cordélia adorava ouvir as histórias dos livros que a camareira lia. Histórias sobre fadas e elfos, vampiros e lobisomens, unicórnios e sereias.

Talvez fosse por isso que a menina se encontrava ali, sentada sobre o tronco na divisa entre a terra e a água. Não só para cabular suas aulas maçantes, mas também para procurar algo que só existia nas histórias de Mira. Algo único e fantástico.

A sereia emergiu das águas negras como se invocada por seus pensamentos.

Cordélia não saberia dizer se foi o medo ou a curiosidade que a mantivera paralisada no lugar.

A menina fitou a sereia o suficiente para notar a forma de uma mulher desnuda brotando das águas escuras, mas desviou o olhar logo em seguida.

Havia inúmeras versões da lenda do lago e Cordélia conhecia algumas delas. Uma dizia que as sereias atraíam suas vítimas através de um canto sublime e hipnótico e irresistível. Outra contava que aquelas criaturas não eram responsáveis por nenhuma tragédia, mas que as águas do próprio lago arrastavam as pessoas para o seu fundo. Outra ainda mencionava que se uma pessoa encarasse uma sereia nos olhos, ela a pertenceria para sempre.

Cordélia encolheu seus pés descalços a fim de afastá-los da beira do lago e concentrou-se em sua visão periférica para não encarar a sereia nos olhos. A menina cogitou tapar os ouvidos para evitar ouvir seu canto, mas se o tivesse feito, não poderia ter ouvido as palavras que lhe foram proferidas:

– Você não sente vontade de nadar quando olha para estas águas, criança? – a criatura perguntou em uma voz afinada e melodiosa. – Venha. Tenho certeza que o lago lhe aceitará como fez conosco.

Temor e confusão deixaram a menina muda e, ao ser confrontada com nada mais que o silêncio, a sereia continuou:

– Venha nadar conosco, criança. A água está morna e agradável.

E ao dizer isso, espirrou água em direção à menina com suas mãos pálidas demais.

Cordélia encolheu seu corpo pequeno a fim de afastar-se da água, mas logo sentiu a umidade escorrer por seus pés.

A água era gelo afiado sobre uma estrada durante o inverno e Cordélia sentiu um arrepio que nada tinha a ver com o frio. Havia algo de errado no líquido que a tocara.

Sua curiosidade finalmente foi superada pelo medo e a menina levantou-se e correu para o casarão.

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