Solo

Podem agradecer (ou culpar, dependendo da perspectiva) à Diana Kral por este conto.

A vibração do telemóvel sobre a mesa de madeira chama a minha atenção. Desvio o olhar do horizonte, tingido de cores de verão depois de engolir o sol, e atravesso a minha varanda até à peça de mobiliário onde o tinha deixado. Arrasto o dedo no ecrã e deixo o cálice meio vazio sobre o tampo depois de ler a mensagem, pegando no aparelho com as duas mãos para responder à minha irmã mais velha.

Não me apetece sair com ela. Não hoje.

Deixo o telemóvel ao lado da loiça suja do meu jantar ligeiro e pego de novo no copo, bebericando o vinho branco ao voltar a contemplar o céu que encima a cidade. O sol já desapareceu atrás dos prédios há vários minutos, mas o início de noite ainda conserva aquela estranha claridade dos dias quentes, num caricato degrade de anil, laranja e azul que atesta a recente passagem do astro diurno.

Respiro fundo, saboreando a paz e o álcool. Depois, com pés ligeiros, levo a loiça para a cozinha e sigo a tomar um duche.

Deixo que o banho, ainda que rápido, dure o suficiente para lavar o corpo e melhorar o meu humor. Minutos depois, de toalha molhada enrolada no topo da cabeça, saio da casa de banho para a suíte, deixando o vapor para trás, agarrado às paredes, ao espelho e ao teto. Abro o roupeiro embutido na parede e admiro a minha coleção de vestidos, considerando as minhas hipóteses. Sendo esta a minha peça de vestuário favorita, tenho várias opções, de variados formatos e cores, por onde escolher.

Depois de ponderar, acabo por seguir o instinto e retiro do cabide um fino vestido negro, de costas nuas, que termina suavemente pelos joelhos.

Visto-me, prendo a metade do cabelo mais incomodativa, deixando várias das suas grandes ondas castanhas em liberdade e esmero-me na maquilhagem. Calços uns saltos elegantes e confortáveis, agarro um casaco pequeno e a minha mala e saio do meu apartamento, cantarolando enquanto espero pelo elevador. Quando o aparelho metálico abre as portas no meu piso, o adolescente no seu interior, vindo dos andares de cima, abre espaço para cabermos os dois confortavelmente.

Percebo o peso do seu olhar avaliador durante a descida, que é desviado com embaraço quando o encaro através do espelho à nossa frente. Sorrio em silêncio ao reparar na súbita vermelhidão do seu pescoço e bochechas, tentando não fazer pouco da vergonha e incómodo alheio. Noutra situação teria tido medo da luxúria velada naqueles olhos castanhos, que teimam em olhar o painel de instruções em caso de emergência como se fosse a coisa mais interessante do mundo. Porém, a inocência e o fascínio que tinham sobressaído no brilho do seu olhar, alidos à sua vergonha e timidez, deixaram para trás apenas a satisfação de ser admirada.

Instantes depois, o rosto do rapaz quase se ilumina de alívio quando as portas se abrem novamente e ele sai para o piso térreo, saindo do prédio pela porta principal. Eu continuo até à garagem onde tenho o carro estacionado.

A viagem até ao meu destino é tão curta que não sinto necessidade de preencher o silêncio que domina o meu pequeno Toyota. Circulo calmamente pelas ruas movimentadas da cidade encontrando, para meu espanto, um lugar a poucos metros da entrada do estabelecimento que procuro. Travo o carro, olho uma última vez pelos retrovisores para ver o movimento da rua e o meu aspeto e saio do veículo, deixando o casaco no banco do pendura.

A atmosfera do De Improviso envolve-me assim que entro pela porta da frente. A temperatura é ligeiramente superior à da noite de verão da qual fugi, apesar da sala para lá do pequeno hall não estar cheia. Porém, o calor é estranhamente confortável, sendo complementado pelo preguiçoso dedilhar de teclas que o pianista executa no palco, na parede do fundo.

Avanço com segurança até ao bar à minha direita, recebendo um aceno de cabeça do loiro atrás do balcão.

— Boa noite, pedaço de mau caminho! A minha sorte é que a clientela aqui não é feita de gelo, se não quem tinha de apanhar a água toda do chão de cada vez que cá viesses era eu!

Sou apanhada desprevenida com o seu comentário parvo e subo uma mão ao rosto para tentar abafar as gargalhadas.

— Devia ter apostado que ia conseguir fazer a mulher mais gira do clube rir, que a esta hora já tinha alguém a dever-me dinheiro — acrescenta, não ajudando em nada ao meu ataque de riso.

— Boa noite para ti também, Dionísio — digo entre gargalhadas, estranhando de novo o som do seu nome a sair dos meus lábios. Os pais tinham-no batizado com aquela antiguidade em honra de um tio-avô e Dionísio não parecia importado com esse facto.

— Sem companhia hoje, Cris? — pergunta, depois de compreender que não tenho nenhum conhecido à minha volta com quem dividir a atenção que lhe dirijo.

— Sim, esta noite estou sozinha — digo, com um sorriso simpático como resultado final das suas provocações.

Ele apoia as mãos no balcão, sorrindo ao inclinar-se para mim.

— As saídas connosco próprios são sempre as melhores saídas — comenta, piscando-me o olho através das lentes redondas da armação em aros. Depois, Dionísio toma balanço, impulsionando-se na direção das prateleiras de garrafas atrás de si. — O mesmo de sempre?

— Sim, por favor.

Viro-lhe costas, estudando as mesas dispostas pelo espaço, iluminadas pelos seus próprios candeeiros para contrariar a escuridão em que as luzes apontadas para o palco as mergulham. De outro modo, os diferentes clientes não conseguiriam acabar os seus jantares sem percalços.

— Aqui tens — diz Dionísio, chamando a minha atenção para si. — O intervalo está quase a acabar. Diverte-te!

Recolho a bebida com um agradecimento e dirijo-me a uma das mesas no meio do salão. Recebo vários olhares indiscretos de diferentes homens e mulheres enquanto serpenteio por entre o labirinto de mesas e cadeiras, mas sento-me sem fazer caso disso.

Deixo o telemóvel em vibração sobre o tampo da mesa e dou um gole antes do pianista terminar a canção que estivera a tocar. Quando levanto a minha cabeça, os restantes músicos voltam ao palco, atraindo a atenção do público ao se alinharem com os seus instrumentos.

O estabelecimento cai num silêncio expectante. Depois, os homens e mulher no palco começam a bater palmas de forma ritmada a pedido do saxofonista, que inicia um solo pouco depois. Os membros do sexteto deixam-no a tocar sozinho por uns instantes e eu sorrio com a memória da primeira vez que vira algo semelhante. A minha mente tinha ficado repleta de dúvidas com a estranheza do momento.

Quando público e palco se encontram hipnotizados pela melodia do saxofonista, o trompete adiciona o seu timbre, reforçando o fraseamento do primeiro instrumento por algumas repetições. Depois, a intensidade do som diminui, dando entrada à bateria, ao piano e à guitarra, que enchem a sala ao dar corpo à música, e ao contrabaixo, cujo stacatto ecoa até ao meu centro, arrepiando-me de corpo e alma.

Jazz é um dos estilos musicais que me passou despercebido durante a maior parte da minha vida. Contudo, tudo mudou há pouco mais de um ano.

Num dia como hoje, em que a minha paciência para a Humanidade se tinha esfumado e que a minha necessidade de reclusão para purificação tinha atingido níveis perigosamente altos, saí a meio do jantar de amigos onde me encontrava, para evitar que a minha toxicidade contaminasse relações estimadas e bem construídas. Depois de vaguear pelas ruas numa tentativa de espairecer a cabeça, fui atraída pela placa de rua do De Improviso, que anunciava orgulhosamente que serviam jantares. Uma vez que não tinha comido nada antes de sair do restaurante anterior, decidi que não tinha cabeça para cozinhar em casa e que o melhor mesmo era acabar com a fome ali.

Foi a primeira vez que entrei num clube de jazz.

Durante o decorrer da minha refeição escutei, aturdida, às diferentes performances dos músicos em palco. O som intrigante agarrou a minha atenção durante todas as atuações e as dinâmicas de palco, que me eram tão desconhecidas, encheram-me de dúvidas. Tinha tantas questões sobre o que acabara de ouvir, experienciar e sentir, que me atrevi a fazer perguntas quando me dirigi ao balcão para pagar. E o Dionísio, que se encontrava por perto a ouvir o questionário envergonhado que eu fazia à sua colega Bianca, ofereceu-me um copo e as respostas a tudo o que eu gostaria de saber.

Mas uma só noite não era suficiente. Havia muito que eu queria saber e cada resposta tinha muito que contar. Por isso, Dionísio deixava as suas histórias a meio, dizendo com um sorriso maroto que era tarde e que me contaria mais na minha próxima visita. Aquela era a sua tática para me atrair ao De Improviso mais vezes, mas era absolutamente redundante e desnecessária. Eu tinha ficado de tal maneira viciada no estilo musical da primeira vez, que iria dar por mim a aparecer no clube vezes e vezes sem conta só para disfrutar de um bom jazz mesmo sem a sua ajuda.

Por isso, noite após noite, o Dionísio introduziu-me naquele fantástico universo. O loiro falou-me das raízes do estilo musical, contou-me as dificuldades que passou para se estabelecer e ser reconhecido e explicou-me as diferenças e semelhanças entre as diferentes variantes de jazz. Ele enumerou os instrumentos mais comuns a dar musicalidade ao conceito, desde a precursão e as madeiras até aos metais, e que eu acabei por ver desfilar sobre o palco do fundo do salão com o passar das noites e com a rotatividade dos artistas. Ele apresentou-me aos melhores êxitos e aos músicos mais aclamados. Deu-me dicas sobre locais onde podia descobrir mais músicas e mais marcos históricos do género musical. Discutiu comigo as várias dimensões do jazz e contou-me o que é que o estilo representa para ele.

Mas, acima de tudo, permitiu-me descobrir a essência do jazz e o significado que tem vindo a adquirir na minha vida.

O jazz, tal como qualquer pessoa, teve de lutar para se fazer ouvir e para se entender e definir a si próprio. E, tal como alguns privilegiados, chegou à conclusão que tinha múltiplas versões de si próprio, todas igualmente válidas.

E eu, cada vez mais, começo a enraizar esta verdade no meu ser. A Cristiana bem disposta para a família não é a mesma ambiciosa do escritório ou a rabugenta que acaba em casa a maratonar séries sozinha ou num clube de jazz, a beber por cada poro o bálsamo para a alma e para o humor. Tal como a Lua tem inúmeras fases, eu tenho inúmeras facetas, que variam com o ambiente, com a estação ou com a hora. Mas todas fazem parte do "eu".

Todas são a Cristiana Moreira. E eu quero aprender a amar todas elas.

Pelo canto do olho, noto uma mulher entrar apressada no salão e dirigir-se às traseiras com um estojo em mãos, passando despercebida pela maioria das pessoas da audiência pela distração que os músicos em palco oferecem e pelo escuro do ambiente. Minutos depois, ainda sobre o seu estrado, o sexteto faz uma pausa para conversar amigavelmente com a audiência, como costuma fazer de vez em quando. O saxofonista e o trompetista discutem coisas do dia à dia enquanto o guitarrista dedilha acordes num piano de fundo.

E, de repente, surge um novo som.

Vinda das traseiras, a mulher que entrara apressada sobe para o palco enquanto toca clarinete, adicionando uma voz ao dedilhar ritmado da guitarra e arrepiando quem a ouve. A conversa para a meio e os músicos concentram-se em sentir o ritmo e apanhar a onda. O baterista e a mulher no contrabaixo seguem a liderança da clarinetista numa música improvisada e os restantes entram momentos depois, quando acham adequado juntar a sua sonoridade à dos demais.

Fecho os olhos e balanço a cabeça ao som da música, deixando-me contagiar por tudo aquilo que ela transmite: acidez, atrevimento, alegria e espontaneidade.

A magia do jazz reside não só na versatilidade que tanto adoro, como também no improviso e na imprevisibilidade que ele acarreta. E isso é algo que faz falta na minha vida.

Sendo funcionária de um escritório, sou regida por horários fixos e prazos apertados. Tudo tem um calendário e um ritmo próprio, com um padrão de trabalho pouco flexível. E, inadvertidamente, deixei que as regras da minha profissão contagiassem o meu mundo pessoal. Deixei de estar confortável em não ter as rédeas dos acontecimentos e em não saber o que vai acontecer a seguir. Deixei de conseguir improvisar e de apreciar o "ir com a onda". 

E tenho esperança que as noites de jazz ajudem a trazer um pouco mais deste espírito para a minha vida.

As atuações continuam noite dentro. Um qualquer cliente menos experiente diria que falta aqui a riqueza de uma voz para guiar o público e dar substância às melodias. Mas eu acho que o alternar de vozes e de solos entre os diferentes instrumentos é mais do que suficiente para tornar a experiência memorável. E, se perguntarem por aí, com certeza não serei a única.

No fim, os músicos ficam na conversa com os clientes que se aproximam do palco. Eu levanto-me languidamente, ainda a saborear a experiencia sensorial em que estive imersa durante as últimas horas, antes de me dirigir ao Dionísio com um sorriso. 

— Foi uma boa noite? — perguntou, largando o pano do balcão.

— Excelente, como sempre.

Estendo-lhe uma nota grande e ele caminha até à caixa registadora. 

— Fica com o troco — digo, levando o Dionísio a parar a meio da pesca das notas e moedas. — Divide com os músicos também, que eles merecem.

A sua expressão de espanto muda para um sorriso sabedor e rasgado.

— Agora que estás de saída, o Céu vai poder voltar às mãos de gerência competente. Em nome do pessoal do De Improviso, o nosso humilde muito obrigado — diz, algo brincalhão.

Eu pisco-lhe o olho antes de lhe virar costas.

— Até à próxima. Boa noite!

— Até breve! Volte sempre! — ouço-o dizer antes de fazer a curva para o hall.

Quando saio para o ar quente da noite de verão, que me parece fresca depois da atmosfera saturada do clube de jazz, sinto-me bem comigo mesma. Feliz. Em paz.

Olho uma última vez para o letreiro do De Improviso sobre a porta e, trauteando a última melodia da noite, encaminho-me para o meu carro.

— Até breve. Definitivamente.

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